Our Satellites Brasileira

Autor(a): Augusto Nunes


Volume 4

Capítulo 2: O Primeiro Dia em Yokohama ①

Naquele sábado, foi combinado que iríamos nos encontrar em frente à escola Daiichi. Yonagi instruiu que um parente de sua família levará todos de carro até o ryokan em Yokohama. Organizei minha mochila com mudas de roupa, pois aparentemente íamos ficar lá por cinco dias. Como será apenas nós, decidi não ir de máscara.

Yonagi não nos deu detalhes, mas parece que uma das razões para irmos para Yokohama será por causa de um evento da região. Se vou participar junto a eles ou não, decidirei no momento.

Às 8h, uma van estacionou no local designado. A janela do motorista abaixou automaticamente e sua buzina ressoou.

— Todos pra dentro! — exclamou ele. Aparentava ter quarenta anos. Tinha a barba por fazer e exalava uma aura descontraída.

Yonagi ficou no banco ao lado do motorista. Himegi e Kuroi ficaram atrás deles. Eu e Teru sentamos na fileira de trás. O homem parecia estar muito animado mesmo sendo de manhã.

— Kae! Quanto tempo não te vejo! — exclamou o homem, acariciando os cabelos de Yonagi com tanto chamego que quase a descabelou. — Como senti saudades de você!

— Tio... não tenho mais cinco anos... — Yonagi afastou a mão dele, ajeitando seu cabelo. No entanto, ela ria sem jeito.

— Opa, acho que você não tem mais idade para ser chamada assim, não é? Que pena, que pena!

— Tio, inventa apelido pra gente então! — disse Himegi, animada.

— Hein? Você tem certeza disso, Himegi? — questionou Kuroi.

— Meu tio não tem muito bom gosto para essas coisas... — expressou Yonagi, parecendo exausta. Espere, ela não tinha acabado de acordar?

— Assim vocês partem o meu coração! E eu estou aqui, viu! Aqui! — berrou o tio de Yonagi, quase chorando. — Garotas são cruéis!

Incrível. Estou impressionado. E eu achando que toda a família Yonagi fosse discreta igual ela, mas me enganei profundamente. O que era aquele clima descontraído fora do lugar? Eu vou ter que me acostumar!

— Tio Ikishi, todos já estão lá? — perguntou Yonagi.

— Mikoto já está organizando o local para nós... — explicou ele. — Tomoyo, Sakuya e Tatsuhiro estão quase chegando lá pelo que me avisaram agora a pouco. Ugawa e Oguro parecem estar atrasados.

— Entendo...

Senti uma pontada reflexiva no tom de Yonagi, mas não consegui entender o porquê.

Ela parecia estar animada para a estadia, ou será que era o fato de estar com sua família que poderia a ter deixado nesse misto emocional? Não era incomum que algum parente seja difícil de se lidar. Eu tinha meus próprios exemplos, afinal.

— Yonagin, seus pais não vão? — Himegi a perguntou.

— Ah, eles não vão conseguir vir conosco... — explicou ela. — Quem vai ficar responsável por nós serão meus tios, alguns de meus primos também estarão lá.

Os pais de Yonagi são bem ocupados, mesmo...

Resolvi deixar de prestar muito na conversa e olhei pela janela, observando a paisagem do mar em movimento. Tio Ikishi pegou a rota do porto, então uma brisa leve e refrescante passava por nós a todo momento. O dia estava sem nuvens, então era uma manhã bonita.

— Tio Ikishi que combinou toda essa reunião familiar, não é? — comentei. — Você realmente é uma boa pessoa, afinal.

— Cala a boca, moleque! É nojento ser elogiado por um garoto, então não fale comigo! Ah, mas a Kae pode me elogiar o quanto ela quiser!

Yonagi Kaede soltou um suspiro, pressionando sua têmpora. Os calouros deram altas risadas, e eu fiquei chocado.

Esqueça o que disse e pensei sobre aquele cara. Ele tinha apenas um complexo por garotas mais novas... a síndrome de tiozão coube muito bem nele.

***

Levou-se cerca de uma hora até chegarmos ao ryokan. Pela viagem ter sido rápida, não foi desgastante. Descarregamos nossas coisas da van e entramos no estabelecimento. Yonagi cuidou da papelada enquanto tio Ikishi foi estacionar o veículo. Uma mulher de longos cabelos castanhos surgiu no corredor e abraçou Yonagi calorosamente.

— Kaede, quanto tempo! — A mulher emanava uma aura materna enorme, fitando-a com ternura. — Veja o quanto cresceu!

— Obrigada, tia! — Ela corava, extasiada. — É muito bom poder revê-la. Estou ansiosa para me encontrar com todo mundo.

— Que maravilha! Eles chegaram apenas um pouco antes de vocês! — expressou a mulher, radiante.

Fiquei estonteado com o sorriso caloroso de Yonagi enquanto prosseguia em trazer as bagagens para dentro do saguão. Porque os cantos da minha boca estão tão arqueados?

— Ah, vocês devem ser os amigos da Kaede! — Ela se virou para nós. — Sou Mikoto, a tia dela. Sintam-se à vontade e não hesitem em me chamar se precisarem de alguma coisa!

— Ah, obrigada... — Himegi curvou-se sem jeito, Kuroi a imitou.

— Obrigado por nos receberem... — expressou Teru.

— Oh, que jovens educados! — Tia Mikoto juntou as mãos. — Fico contente por terem aceitado nosso convite de passarem um tempo conosco!

Não emiti nenhuma resposta, apenas acenei com a cabeça.

— Vejam, é a Kaede! — duas garotas apareceram pelos corredores e vieram abraçar Yonagi ao mesmo tempo.

— Tomoyo! Sakuya! Há quanto tempo...! — Ela as abraçou calorosamente. Seu rosto estava mais vermelho do que o habitual.

Eu olhei de relance para os outros e percebi que Himegi mantinha um sorriso que não cabia no rosto. Ela também ficou surpresa com a reação animada de Yonagi?

Nenhum de nós disse algo. Não, é certo dizer que não nos atrevemos a querer interromper aquele momento. Não era todo dia que víamos Yonagi tão à vontade com outras pessoas, mesmo para mim que tinha visto seu lado mais sensível. Aqui, sua ternura se manifestou em sua forma mais pura.

Apareceu um rapaz, mas ele ficou encostado na parede do corredor. Parecia que ele era o tal Tatsuhiro. Acho que aqueles três são os primos de Yonagi, filhos de Ikishi e Mikoto.

Sakuya tinha um corpo cheio de curvas e usava roupas estilosas — aparentemente, seguindo o padrão de moda da estação —, seu cabelo castanho era volumoso como o de sua mãe e preso em um rabo de cavalo.

Tomoyo e Tatsuhiro puxaram o cabelo escuro e desgrenhado do pai, ambos curtos. Ela era mais magra, com membros mais robustos que Sakuya. Tatsuhiro parecia ser do tipo reservado, foi o que mais se assemelhou como primo de Yonagi.

Depois da recepção calorosa, nós iniciamos a organização dos quartos. Eu e Teru ficaríamos no mesmo quarto que Tatsuhiro, enquanto as meninas se manteriam todas juntas. Todos os quartos do ryokan poderiam caber até cinco pessoas, de tão espaçoso que era. A construção rústica gerava uma sensação muito aconchegante, os pisos de madeira polida quase não emitiam ruído quando caminhávamos. Os quartos detinham de um tatame gigante, com uma mesa de centro larga de mármore. Ainda, cada quarto possuía janelas de correr com cerca para se observar parte do lustroso jardim que rodeava o local.

Pelo o que me lembrava, havia mais gente para chegar. Mas parece que os outros não contavam que eles chegassem, então ficou decidido que os quartos poderiam ser organizados da forma que quiséssemos.

Quando terminamos de arrumar nossas coisas, logo veio a hora do almoço e tia Mikoto veio nos chamar. Todos nós nos apossamos de duas mesas compridas para comer, cheias de travessas de comida. Eu não estou acostumado a receber tanto tratamento assim, nem mesmo provei tantas variações de peixe como naquele dia. Decidi apenas agradecer e comer o quanto podia, agradecido.

Desde que chegamos, Tomoyo e Sakuya não desgrudavam de Yonagi, que não tirava aquele sorriso infantil em seu rosto. As garotas não paravam de falar, conversando sobre todo o tipo de coisa.

Elas são realmente primas? A primeira coisa que deduzi de primeira foi que Sakuya era o tipo de pessoa que arrasta os próprios gostos encima dos outros. Tomoyo claramente era alguém menos extrovertida, mas seguia os parâmetros da irmã. Roupas parecidas, acessórios parecidos... se fossem mais parecidas, poderiam até serem consideradas gêmeas.

Me vi observando toda aquela situação, pois não deixava de ser algo diferente. Yonagi não era nada parecia com elas, mas justamente por esse fato que se destacou entre as duas... o que me fez pensar que ela realmente pode ter se sentido um pouco solitária na escola, vê-la agindo de uma maneira descontraída não era nada ruim.

Opa, acho que devo estar observando-as demais... vamos voltar para a comida. Sim, a comida. Quantas variações de sashimi existiam ali, afinal? Só até o momento tinha contado umas cinco... será que era o equivalente a encontrar o All Blue?

De repente, algo me surgiu a mente.

— Yonagi, nós seremos os únicos de fora que foram convidados? — disse, em pausa. — Notei que há mais quartos vagos próximos da gente...

— Ah, a Kae não disse a vocês? — indagou tio Ikishi, ao lado da tia Mikoto. — Nós vamos prestigiar alguns amigos dela em um evento próximo daqui, por isso estamos aqui.

— Ah, entendi...

— Bem, apenas queríamos todos nos ver e fazer algo diferente ao mesmo tempo. Então, a oportunidade foi perfeita! — concluiu ele.

Oh, parece que terá mais pessoas conosco em breve, então. Como não serão mais parentes dela, o clima se tornaria menos familiar para nós de fora. Era algo um tanto incomum, mas não algo ruim. Claro que me gerou uma expectativa de como ficará a situação quando os outros amigos de Yonagi chegarem.

Um súbito pensamento surgiu em minha mente: o quanto Yonagi era diferente fora da escola. Você pode dizer que foi um estranho choque de realidade, já que nunca comentou sobre sua família antes. Houve a vez que fomos ao cinema em que ela citou sobre seu irmão mais velho, mas interpretamos como uma pessoa difícil de lidar, coisa comum em famílias.

Não era desconfortável estar ali, pelo contrário. Acho que precisaria de algum tempo para me acostumar, só isso. De todo jeito, ter mais pessoas ali vendo meu rosto me deixou meio apreensivo, mas não tive como evitar.

Porém, percebi que não fui o único a notar aquela diferença. Teru mal disse uma única palavra desde que chegara. As garotas interagiam alegremente com as primas de Yonagi, mas senti que havia uma sutileza em como elas agiam.

Isso é o que as pessoas devem chamar de — conhecer o terreno que pisa —. Se você se encontra em um local da qual não possui conhecidos ou poucos conhecidos e precisa interagir com eles, é necessário que aja sob ações controladas e nada extravagantes. Assim, estas pessoas agiriam tranquilamente em retorno e aos poucos a relação caminharia para algo mais aberto.

Apesar de que tio Ikishi e tia Mikoto parecerem ser boas pessoas e terem suavizado o clima totalmente, tivemos uma impressão errada sobre toda a família Yonagi ser completamente rígida. O choque de realidade recaiu sob o clube de literatura e naquele momento estávamos nos adaptando ao que não era esperado. Algumas reações adversas são inevitáveis, como a falta de interação de Teru.

O almoço permaneceu assim até terminarmos. Sendo assim, fomos aos nossos quartos para continuar a organizar as nossas coisas. Mesmo que fique cinco dias ali, não trouxe muita coisa.  Como não tinha certeza de quais atividades serão feitas durante aquela estadia, decidi não ficar preocupado.

Não é como se tivesse intenções em construir boas lembranças naquelas férias, mas conhecer um recinto novo era algo diferente e me deixou animado de algum jeito. Não fui com expectativas, então posso me surpreender com qualquer coisa que esteja por vir.

Junto com Tatsuhiro, decidimos onde cada um iria dormir. Além de manter certa distância de suas irmãs, ele é totalmente o oposto delas. Parecia ser uma pessoa bem compreensível, não se mostrou exigente com nada em específico e ainda nos ajudou na organização. Até mesmo Teru tornou a trocar algumas palavras com ele. Aparenta ter um porte atlético mediano e poderia fazer sucesso com as garotas se fosse do seu interesse.

Pelos murmúrios audíveis do outro lado do corredor, as garotas fizeram o mesmo com o auxílio da tia Mikoto. Descemos as escadas ao saguão, onde só tio Ikishi estava presente na sala de estar, sentado em um dos sofás. Tatsuhiro se sentou ao lado do pai e ficou mexendo no celular, enquanto eu e Teru nos sentamos no outro assento até as garotas aparecerem.

Percebi rapidamente que o primo nos encarava de soslaio, nos avaliando. O período de teste durará até o fim do dia ou era por causa do meu rosto que me encarava? Oh, isso é realmente desagradável...

Infelizmente um clima pesado de silêncio surgiu sob nós e não soube o que fazer, era nesses momentos que tenho pensamentos ruins. No entanto, tio Ikishi quebrou aquele silêncio de repente:

— Vocês... são da mesma turma que a Kae?

— Uh... não, sou um ano mais novo... — respondeu Teru, levantando a mão. Parecia estar tenso.

Tio Ikishi acenou com a cabeça pela resposta e se virou para mim.

— Sou do mesmo ano, mas de uma turma diferente... — respondi.

Ele nos fitou em silêncio durante alguns segundos e suspirou:

— Entendo, vocês devem fazer parte de um clube ou algo assim. Vejo que as coisas estão melhores assim.

— O que quer dizer?

— Bom, você não sabe se conhece a pessoa a menos que se conviva bastante com ela. Kae é uma boa garota, mas não se abre para muitas pessoas. Quer dizer, todos vocês ficaram surpresos com a reação dela ao ver seus primos, afinal.

Tatsuhiro assentiu em resposta. Pelo visto, eles notaram nossas reações ainda mais rápido do que nós mesmo. Não quis comentar nada a respeito. Era o típico espírito protetor familiar entrando em ação.

— Tio Ikishi... você é mesmo uma boa pessoa, hein... — expressei, deixando escapar.

— Não me chame de tio! Eu não sou seu tio! Só a Kae pode me chamar de tio! Seu moleque!

— Deixa de exagerar, pai...

O jeito coruja de tio Ikishi surgiu novamente junto a sua carranca para mim, Teru e Tatsuhiro caíram em gargalhadas. O clima ficou mais estável, ao menos.

Bom, não é como se ficássemos interessados em tudo o que Yonagi fazia. Então a reação de surpresa foi no bom sentido.

Havia conhecido Yonagi a cerca de três meses. Não podia dizer que sei tudo a seu respeito, mas enxergo seu espaço. Tivemos alguns conflitos de ideais, mas olhando sob isso agora, vejo que as coisas se resolveram de maneira pacífica.

Pela visão deles, nossa proximidade de Yonagi não era algo tão concreto e a possibilidade de sermos observados constantemente ainda era alta. Eu não poderia negar tal fato, mas, após o que aconteceu no mês passado, já não tinha mais certeza.

Na verdade, um grande receio habitava sob meu peito sobre o que isso poderia vir a ser. Se é algo tranquilo ou perigoso, não sei ao certo.

As meninas desceram as escadas. Himegi e Kuroi já pareciam mais entretidas com as primas de Yonagi e estavam todas animadas, além de terem trocado de roupa. Oh, incrível. Parece que Sakuya aplicou seu senso de moda em todas elas... ela era algum tipo de cluster comandando unidades paralelamente?

Não soube ao certo o que viria a seguir, mas ao menos parece que aquela tensão momentânea se esvaiu.

***

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