Volume 7

Capítulo 3: Emoções Emaranhadas

“Então, Akihito, você não vai participar?” A voz de Akira cortou o burburinho animado da festa de aniversário, onde todos estavam reunidos em volta do bolo e dos doces, conversando animadamente. Eu estava sentado à mesa de jantar, observando a cena em silêncio.

   Aliás, Emma-chan ainda dormia profundamente no meu colo, sua respiração suave quase inaudível.

“É o momento da Charl,” respondi, mantendo a voz baixa.

“Ela provavelmente se divertiria mais com um clima só de meninas, né?”

“É, eu entendo~” disse Akira, sentando-se ao meu lado. “Me senti deslocado e acabei aqui também. Ei, por que você não come um pouco?” Ele deslizou uma fatia de cheesecake sobre a mesa, sua superfície cremosa refletindo a luz.

   Olhei para Emma-chan, seu rosto sereno aninhado contra o meu. — Ela adorava bolo e doces, né? — Talvez eu devesse acordá-la… mas não, perturbar seu sono poderia estragar seu humor. Haveria sobras na geladeira ou na prateleira mais tarde — ela poderia aproveitá-las depois. Observando-a dormir tão serenamente, senti um pequeno sorriso surgir em meus lábios.

“Agradeço,” eu disse a Akira. “Desculpe por você ter vindo de tão longe e eu estar criando um clima estranho.”

“Ah, eu estava aqui principalmente para aliviar o seu constrangimento, então tudo bem.” Ele acenou com a mão, como quem dispensa o comentário, e se inclinou um pouco para frente. “Mais importante, sobre a amiga da Charlotte-san—”

“Oi, Akihito.”

   A voz de Livi interrompeu enquanto ela se aproximava, alheia à conversa em japonês. Foi pura coincidência, mas Akira congelou, o rosto corando levemente. Ele se remexeu, os olhos inquietos, claramente hiperconsciente da presença dela. Normalmente, ele se jogaria de cabeça na paquera, mas como Livi não o entendia, ele parecia estar reprimindo seus sentimentos.

“O que foi?” Perguntei, lançando um sorriso para Livi enquanto observava o semblante constrangido de Akira.

“Fiquei entediada, então vim para cá,” disse ela simplesmente, com um tom leve.

   Assim como eu, Livi mantinha distância, observando a festa em vez de participar. Mesmo quando Charl a chamava, ela apenas sorria e balançava a cabeça, recusando-se a entrar na conversa. Kanon-san fazia companhia a ela, servindo de ponte.

“Você veio até o Japão,” eu disse, inclinando a cabeça.

“Não quer conversar com a Charl?”

   Parecia uma pena — ela tinha viajado tão longe para o aniversário da Charl, mas não tinha passado muito tempo com ela. Eu esperava que ela desconversasse, mas sua resposta me surpreendeu.

“Hoje o dia é todo da Lottie,” disse ela, com a voz suave, mas firme. “Esta é uma festa de aniversário que as amigas japonesas dela organizaram, certo? Eu só atrapalharia. Além disso, eu já passei por aqui hoje de manhã, sabendo que estaria assim.”

   Como estrangeira, Livi se destacava tanto quanto Charl quando chegou como estudante de intercâmbio. Assim como Akira agora, Shimizu-san, Kousaka-san e Karin provavelmente a observavam com curiosidade. Livi, ciente da atenção, estava deliberadamente se mantendo à margem. Ela não falava japonês, então participar da conversa exigiria um tradutor — provavelmente Charl — e ela claramente não queria incomodar a amiga.

   Ela era tão atenciosa.

“Você passou por aqui hoje de manhã?” perguntei, juntando as peças. “Desculpe, eu não estava aqui.”

   Isso explicava como Kanon-san e Livi tinham se conectado. Ela deve ter ido visitá-la quando Kanon-san me mandou aquela primeira mensagem. Senti uma pontada de culpa por fazê-la passar por todo esse trabalho.

“Heheh~…” Os lábios de Livi se curvaram em um sorriso travesso.

   Antes que eu pudesse reagir, ela se inclinou para perto, sua respiração fazendo cócegas na minha orelha enquanto sussurrava em um tom sensual: “Não apenas um retorno matinal, mas um vespertino — que ousadia, hein, vocês dois? A Lottie foi fofa?”

“—!”

   Suas palavras me atingiram como um dardo, e eu prendi a respiração, atônito. Ela tinha me desmascarado. Livi sorriu de canto, claramente apreciando minha reação.

   Akira, mal entendendo inglês, apenas piscou para nós, com curiosidade estampada no rosto.

“Hehe, boa reação Livi riu, seus olhos brilhando de divertimento. Ela olhou para Charl, que conversava animadamente com Shimizu-san e os outros. “Hum, ela não está surtando? Eu tinha certeza de que ela estaria nos ouvindo, mas isso é raro.”

   Charl não estava reagindo como Livi esperava, então ela murmurou para si mesma, inclinando a cabeça. Segui seu olhar, mas Charl parecia alheia, absorta na conversa.

“Ei, Akihito, me apresente a ela!” Akira agarrou meu ombro, sua voz urgente, me trazendo de volta à realidade.

   Eu não podia culpá-lo — Livi era inegavelmente deslumbrante.

“Livi, tudo bem?” perguntei, me virando para ela.

“Hm? O quê?”

“Eu gostaria de apresentá-lo. O nome dele é Saionji Akira, meu melhor amigo e amigo de infância.” Gesticulei na direção de Akira com a palma da mão aberta.

“Nossa, igual a mim e à Lottie!” O rosto de Livi se iluminou. “Se ele é seu melhor amigo, deve ser um cara legal!”

   Seu sorriso radiante fez a animação de Akira disparar. Mesmo sem entender suas palavras, sua expressão calorosa foi suficiente para fazê-lo se aproximar ansiosamente.

“E-Eh, me chame de Akira! E, hum, eu sou bom no futebol!”

   E lá estava — o mau hábito de Akira. Ele ficava agressivo demais com as garotas de quem gostava, esquecendo que Livi não o entendia. Ele se aproximou, seu entusiasmo avassalador.

   Mas Livi reagiu instantaneamente, recuando com um sorriso educado. Num movimento rápido, ela agarrou meu braço, me posicionando como um escudo entre ela e Akira. Ela não entendeu as palavras dele, mas sua abordagem ousada claramente a assustou. Sua contenção — sorrindo em vez de rejeitá-lo diretamente — demonstrou consideração, provavelmente porque ele era meu amigo.

“Akira…” eu disse, num tom de leve advertência.

“Ah, desculpe…” Percebendo que havia sido gentilmente rejeitado, os ombros de Akira caíram e ele murmurou um pedido de desculpas. Olhei para Livi, que espreitava por trás de mim, seu sorriso alegre inabalável. Ela não disse uma palavra, apenas apertou minha roupa com força, criando uma barreira invisível entre ela e Akira.

   Enquanto Akira se afastava cabisbaixo, eu o chamei: “Ei, Akira...!” Mas ele continuou andando. Kanon-san, que estava observando, rapidamente se aproximou para confortá-lo, então o confiei aos cuidados dela.

   Charl pareceu ter notado a comoção quando Akira elevou a voz, mas não disse nada, voltando-se para Shimizu-san e as outras. Ela deve ter visto Livi agarrada a mim, mas como Livi era sua melhor amiga, talvez ela não se importasse?

“Livi, você está bem?” perguntei, com voz suave enquanto a examinava.

“Estou bem, mas... aquilo foi assustador.”

   O sorriso radiante de Livi se desfez em um suspiro de alívio, sua expressão suavizando-se em um sorriso resignado enquanto ela soltava minhas roupas. Aquela fachada alegre era sua maneira de se manter firme. Ela deslizou para a cadeira que Akira havia desocupado, seu olhar vagando para onde ele agora estava, conversando com Kanon-san.

“Ele é sempre assim…?” perguntou ela, com um tom curioso, mas cauteloso.

“Bem…” hesitei, então falei por ele. “Na verdade, ele é um bom rapaz. É só que… você é tão encantadora que ele ficou um pouco ansioso demais.”

   Eu não queria que ela entendesse Akira errado. Ele sempre exagerava com as garotas de quem gostava, e era por isso que suas investidas românticas nunca davam certo, mas, no fundo, ele era inegavelmente uma ótima pessoa.

“Encantadora…” Livi murmurou, tão baixinho que mal consegui ouvir.

“Hum? O que você disse?” Suas bochechas estavam levemente coradas, um rubor sutil que não estava lá antes. — Será que ela estava envergonhada agora, depois de ter se assustado com Akira?

“Não, nada~” Livi balançou a cabeça, seu sorriso retornando, brilhante e discreto. Ela parecia bastante animada, então deixei passar, sentindo que não era nada demais.

“Ah, estou ficando com fome, então vou pegar um pedaço de bolo!” ela anunciou, levantando-se num pulo para ir até Kaguya-san, que estava servindo fatias.

   Seu espírito livre transparecia quando estávamos só nós dois. Ainda assim, se conversássemos demais, Charl poderia ficar com ciúmes, então provavelmente era melhor assim. Olhei para Emma-chan, que ainda dormia profundamente em meus braços, e acariciei suavemente sua cabeça, sua respiração calma me ancorando no momento presente.

 

◆◆◆

 

“—Ahn!”

   Emma-chan, agora acordada e sentada no meu colo, abriu bem a boca, os olhos brilhando de expectativa. Coloquei um pedacinho de bolo na boca dela, e ela mastigou com avidez, engolindo com um gole delicioso. Suas bochechas se suavizaram em um sorriso, um sinal claro de que ela estava adorando cada mordida.

“Está gostoso?” perguntei, sorrindo para o seu entusiasmo.

“Mmm…!” Emma-chan inclinou a cabeça de um lado para o outro, o corpo balançando como se todo o seu ser estivesse dançando de alegria com a guloseima doce e fofa.

“Ela é realmente adorável…” A voz de Karin veio de perto de mim enquanto ela se aproximava, atraída pelo charme de Emma-chan.

“Mmm!” Emma-chan, percebendo-a, pegou o garfo da minha mão, espetou um pedaço de bolo e ofereceu a Karin.

“Você está me dando?” perguntou Karin, com os olhos se suavizando.

“Onee-chan, quer comer?” O inglês da Emma-chan não era perfeito, mas o gesto dela foi claro.

   A Karin, entendendo o suficiente com seu inglês básico, assentiu com um sorriso gentil.

“Aqui, ahn!” Emma-chan me imitou, aproximando o garfo. Karin abriu a boca levemente, aceitando a oferta com carinho.

“Gostoso?” perguntou Emma-chan, com os olhos arregalados de curiosidade.

“Sim, é gostoso,” respondeu Karin, com a voz suave.

“Mmm...!” Emma-chan assentiu de volta, com o rosto radiante de satisfação. Ela claramente havia gostado da Karin.

“Desculpe, Karin,” eu disse, aproveitando o momento. “Preciso me ausentar por um instante — posso deixar a Emma-chan com você?”

   Eu precisava usar o banheiro, e a presença de Karin pareceu a oportunidade perfeita. Ela só falava inglês básico, mas conseguia se comunicar com a Emma-chan por gestos e expressões, então alguns minutos seriam suficientes.

“Onii-chan, aonde você vai?” A mãozinha da Emma-chan agarrou minha manga, sua voz carregada de preocupação. “Desculpe, só vou ao banheiro,” assegurei-lhe gentilmente.

   Normalmente, ela insistiria em me seguir, mas morar conosco a ensinou que o banheiro era proibido. Com um “Hum” relutante, ela me soltou.

   Fui ao banheiro, lavei as mãos e estava prestes a voltar para a sala quando—

“Akihito.”

   Livi estava parada no corredor, com uma expressão estranhamente séria.

“Aconteceu alguma coisa?” perguntei, pressentindo que ela tinha um motivo para estar esperando.

“Desculpe, podemos conversar um pouco?” Ela coçou a bochecha sem jeito, forçando um sorriso enquanto avaliava minha reação.

   Eu também estava pensando que precisávamos conversar, então o momento dela foi perfeito. “Se conversarmos no corredor, alguém pode aparecer,” eu disse, pensando na privacidade. “Que tal a varanda do segundo andar?”

   Como ela tinha vindo falar comigo sozinha, provavelmente era algo que ela não queria que outros ouvissem. Meu quarto era dividido com Charl, então essa não era uma opção. A varanda parecia um lugar calmo e isolado.

“Sim, obrigada,” disse Livi, sem se opor. Ela pegou os sapatos e eu mandei uma mensagem rápida para Kanon-san por precaução antes de subir.

“—Que céu lindo...” Livi murmurou na varanda, sua respiração formando baforadas brancas enquanto contemplava o céu noturno.

“É diferente da Inglaterra?” perguntei, curioso.

“Essa é uma pergunta difícil.” Ela deu um sorriso preocupado, e eu percebi que talvez não tivesse me expressado bem.

“Depende do lugar,” ela continuou, “mas… o céu noturno aqui é mais bonito do que onde eu morava.”

   Morando em uma área rural, nossos arredores eram escuros, exceto pelos postes de luz e o brilho suave das casas. A loja de conveniência próxima estava fora de vista, e o ar puro fazia as estrelas brilharem intensamente, provavelmente cativando Livi.

“Eu… gosto muito da Lottie…” ela disse lentamente, com os olhos ainda fixos nas estrelas, a voz carregada de um peso tranquilo.

“Ela é incrível e uma ótima garota, né?” respondi, imitando seu tom.

“Sim, exatamente.” A voz de Livi se tornou mais calorosa. “Ela costumava falar diferente, mais infantil — mas mesmo assim, a Lottie era gentil. Eu a amava muito como amiga.”

   Então, a fala de Charl era mais informal naquela época, talvez como ela falava com Sophia-san ou Emma-chan agora.

“A Charl era popular?” perguntei, curiosa sobre sua vida na Inglaterra.

“Super popular, tanto entre os rapazes quanto entre as moças,” disse Livi, como se fosse óbvio.

   Isso não me surpreendeu. Com a aparência e a personalidade de Charl, ela naturalmente atrairia as pessoas.

“Não se preocupe,” acrescentou Livi, talvez pressentindo meus pensamentos como namorado dela. “Nenhum rapaz tentou nada com a Lottie. Ela era perfeita demais, quase intocável. Só havia garotas ao redor dela.”

   Ela falou com um toque de orgulho, como se reivindicasse seu lugar ao lado de Charl. “Bem, na verdade, eu era quem sempre estava ao lado dela. A Lottie se mantinha distante dos outros por causa da Emma.” Seus olhos se estreitaram nostalgicamente, perdidos em lembranças.

“Ela tinha que cuidar da Emma-chan,” eu disse, compreendendo. “Então, provavelmente não podia sair e se divertir muito.”

   Depois do nascimento de Emma-chan, Charl assumiu um papel parental, provavelmente sacrificando a vida despreocupada de adolescente que outros desfrutavam. Livi provavelmente a visitava com frequência porque Charl não podia deixar Emma-chan para sair.

“E ela ainda estava presa ao pai...” A voz de Livi ficou pesada. “Aquele acidente mudou a Lottie...”

   Ela fechou os olhos, a tristeza cruzando seu rosto, talvez se lembrando de Charl em luto. Mencionar o pai de Charl tão repentinamente sugeria que Charl havia compartilhado aquela dor com ela, assim como havia compartilhado comigo.

“Ela mudou tanto assim?” Perguntei, querendo conhecer a Charl que eu ainda não tinha visto.

“Ela fala tão educadamente agora, né?” disse Livi. “Naquela época, ela era bem mais informal com todo mundo e demonstrava suas emoções abertamente, como a Emma faz agora.”

   Então, Charl se forçou a agir com maturidade, provavelmente para ser um modelo para a Emma-chan. Quando nos conhecemos, ela era elegante e refinada, mas conforme nos aproximávamos, ela fazia beicinho ou agia de forma grudenta, revelando seu verdadeiro eu. Aquela Charl inicial não era falsa — ela só estava reprimindo seus sentimentos, tentando ser forte. O comentário de Livi sobre Charl manter as pessoas à distância provavelmente se originou disso.

“Eu queria ajudar a Lottie a se recuperar,” disse Livi animadamente, abrindo um sorriso. “Ela é minha amiga de infância, minha melhor amiga, e eu a amo muito.”

   Mas mesmo eu, a conhecendo pela primeira vez, pude ver a fachada de coragem em seu sorriso. “Mas... eu não consegui,” admitiu ela, com a voz embargada. “Por mais que eu a encorajasse, Lottie apenas sorria superficialmente. A ferida em seu coração nunca cicatrizou.”

   Charl carregava a cicatriz do acidente do pai mesmo quando a conheci, culpando-se pela morte dele — um fardo que carregava há cinco anos. O desejo puro de Livi de salvá-la, sem esperar nada em troca, tornou sua incapacidade de curar a ferida de Charl ainda mais dolorosa.

“Então, do nada, a Lottie me disse que precisava estudar no Japão,” continuou Livi, com a voz embargada pelo choque. “Eu fiquei… tão chocada…” Perder alguém que você queria salvar, de repente, deve ter sido devastador, especialmente para amigas de infância que cresceram juntas.

“A Charl resistiu?” perguntei.

“Não, ela sorriu para que eu não me preocupasse.”

   Essa era a Charl.

“Mas a Lottie adorava o Japão,” acrescentou Livi, “então tentei pensar que poderia ser bom para ela…” Sua tentativa de se manter positiva traiu seus verdadeiros sentimentos, confirmados por suas próximas palavras. “Mas eu ainda estava preocupada com a Lottie… Então me inscrevi para estudar no exterior com meus pais e professores.”

   Ela era uma garota de ação, sem dúvida. Pensar que ela tentaria seguir Charl para o Japão sem saber o idioma.

“Eles não aprovaram, né?” imaginei.

“É… Eles disseram: ‘Como você vai se virar sem falar japonês?’” O japonês quase perfeito de Charl permitia que ela se integrasse às aulas e aos amigos sem esforço, mas para Livi, que não falava nada, seus pais deviam estar especialmente preocupados. Um motivo como seguir sua melhor amiga provavelmente não os convenceria.

“Você é muito gentil, Livi,” eu disse, comovido por sua generosidade. Tudo o que ela fez foi por Charl.

“A bondade sozinha… não pode salvar ninguém…” Seu rosto se contorceu em dor, despedaçando a imagem despreocupada que eu tinha dela. “Quero que você guarde segredo da Lottie, mas… depois que ela foi embora, perdi toda a motivação…”

   Foi uma confissão chocante, tão diferente de seu semblante vibrante. Mostrou o quanto a partida de Charl a havia ferido.

“Ainda é assim?” perguntei, preocupado.

“Não, não mais,” disse ela, balançando a cabeça com um sorriso irônico.

   Ela parecia ter superado, mas sua atitude distante hoje ainda me intrigava. Ouvi enquanto ela continuava.

“Algumas semanas depois que ela foi para o Japão — no dia em que a Lottie disse que ela começaria a estudar lá — ela começou a me mandar mensagens alegres. Foi quando eu também comecei a me sentir melhor aos poucos.”

   Isso foi no dia seguinte às férias de verão, quando Charl começou seu intercâmbio — e o dia em que a conheci.

“Bem, a maioria das mensagens dela era sobre você,” acrescentou Livi com um sorriso resignado.

“Hã?” Olhei para ela, pego de surpresa.

“Ela não parava de falar sobre um garoto honesto e gentil que mora ao lado, como a Emma o adorava como um irmão mais velho, como ele é confiável. Toda vez que ela me contava sobre o dia dela, ela sempre te elogiava.”

   Charl vinha falando de mim para Livi desde o começo. “Isso é… meio constrangedor…” murmurei, me sentindo tímido.

“Hehe… Era raro a Lottie falar de um garoto, e ela parecia tão feliz, então eu queria conhecer esse tal de ‘Akihito’.”

   Isso explicava a empolgação dela na Estação Okayama quando percebeu que eu era o namorado da Charl.

“Mas… as mensagens dela começaram a ficar cada vez mais raras,” disse Livi, com uma expressão triste. “Ultimamente, ela só responde uma vez por dia.”

   Provavelmente porque Charl estava passando muito tempo comigo, quase sem tocar no celular. Para Livi, que estava preocupada com ela, isso devia ser perturbador.

“E aí, o que aconteceu!?” A voz de Livi se elevou, sua raiva transbordando enquanto ela se inclinava para perto de mim. “Dormindo com um cara!? Noiva!? Morando juntos!? Você ia surtar, né!? Será que ela estava sendo enganada por algum cara estranho!?”

   Suas palavras rápidas carregavam sua frustração. Eu entendi agora. “Bem... se sua amiga, que deveria ser sua aluna, de repente corta contato e isso acontece, seria chocante, né...?”

“Eu já estava desconfiada da Lottie ter ido para o Japão do nada, então achei que tinha alguma coisa estranha acontecendo!”

   Isso explicava por que ela não conseguia ficar onde estava e veio para o Japão. Imaginar Charl enviando mensagens felizes, alheia à preocupação de Livi, despertou uma estranha mistura de emoções em mim.

“Desculpe, a culpa é toda minha...” eu disse, percebendo que Charl não havia compartilhado muita coisa sobre mim com Livi, o que provavelmente alimentou sua desconfiança.

“Bem… agora entendi que havia razões para isso…” Livi assentiu, relutante.

“Ah, é mesmo?” perguntei, surpreso.

“Você me ajudou, Akihito. Se você é o ‘Akihito’ de quem a Lottie falou, então pelo menos ela não está sendo forçada a nada. A Emma também é muito apegada a você.”

   Sem saber, eu havia resolvido um problema. Se eu não tivesse conhecido a Livi naquele dia, as coisas poderiam ter piorado novamente. O carinho da Emma-chan por mim parece ter ajudado, instigando sua habilidade para julgar o caráter das pessoas.

“Que bom que o mal-entendido foi esclarecido,” eu disse, aliviado.

“Sério. Se a Lottie tivesse se envolvido em algo estranho e sido forçada a um noivado, eu teria feito o que fosse preciso para tirá-la dessa,” disse Livi, rindo, meio brincando, mas com um tom feroz.

   Sua natureza prática era quase intimidante. “Devo explicar as coisas?” Eu me ofereci, querendo honrar sua sinceridade e amizade.

“Não, tudo bem,” disse ela, balançando a cabeça.

“Tem certeza?”

“Eu sei que a Lottie está bem agora, então para mim acabou. Mas se você quiser conversar, eu escuto.”

   Ela esboçou um sorriso travesso, como uma criança brincalhona, como se dissesse que estava satisfeita, mas aberta a ouvir mais se eu quisesse compartilhar. Seu charme provavelmente a tornava tão popular quanto Charl entre os amigos.

“Não é exatamente uma história divertida, então vamos deixar para lá,” eu disse, sem muita vontade de entrar em assuntos sérios a menos que fosse necessário.

“Entendi,” disse Livi, perdendo o interesse e voltando o olhar para as estrelas.

   Mas sua boca continuou se movendo. “Se você quiser conversar, é só dizer. Você é o namorado da Lottie e meu benfeitor. Se você estiver em apuros, eu escuto e te ajudo.”

   Ela estava oferecendo seu apoio e, apesar de sua aparência adorável, suas palavras carregavam um peso frio e confiável.

“Isso é reconfortante,” eu disse, genuinamente tocado.

“Bem, eu não consigo te vencer,” disse ela, mudando de tom.

“Não, isso não é verdade,” protestei.

   Livi tinha ação, empatia e uma capacidade de se conectar com qualquer pessoa. Sua franqueza era temperada por inteligência, e conversar com ela me fez confiar nela como pessoa. Ela tinha qualidades que eu invejava e não conseguia replicar. Mas ela parecia discordar. “Não consigo,” disse ela, sua voz repentinamente séria, cortando a atmosfera calorosa.

“Livi?”

“Sou muito grata a você, Akihito. Vendo a Lottie na festa de aniversário, pude perceber que ela está sorrindo de verdade agora. Ela não se esqueceu do pai, mas a ferida profunda em seu coração desapareceu. E eu sei que isso é por sua causa.” Tendo observado Charl atentamente, Livi percebeu a mudança.

“Eu realmente não fiz nada...” eu disse, desconversando.

“Você não precisa ser modesto. Eu sei que a Lottie te ama e depende de você,” ela insistiu.

   Apesar de quase não ter conversado com Charl desde o reencontro, a certeza de Livi sugeria que ela tinha ouvido coisas de Kanon-san.

“Eu... não consegui...” ela disse, com a voz embargada. “Eu não consegui curar o coração dela... É tão frustrante, e eu me sinto patética...”

   Finalmente entendi por que Livi mantinha distância, observando Charl de longe. Ela acreditava erroneamente que havia falhado em ajudar Charl e carregava essa culpa, impedindo-se de participar. Era de partir o coração.

“Eu também passei por algumas coisas no ensino fundamental,” eu disse, surpreendendo-a com a mudança para uma história pessoal.

“Huh...?” Os olhos de Livi se arregalaram, pega de surpresa.

“Pode parecer dramático, mas para mim, foi o suficiente para me fazer desistir da vida,” admiti. A culpa em relação aos meus colegas de equipe, o desespero da traição, o peso de ser odiado por tantos — tendo já sido abandonadow pelos meus pais, eu sentia que não merecia viver. Era devastador para um adolescente.

“Mas meu amigo de infância, Akira, que apresentei antes, se esforçou muito nos estudos — algo em que ele é péssimo — para entrar na mesma escola que eu. Ele ficou ao meu lado. Graças a ele, eu não me tornei um completo desastre. Se ele não estivesse lá… eu talvez nem estivesse aqui agora. Ter alguém ao seu lado é mais importante do que você imagina.”

   Akira carregou fardos que eu não conseguia carregar, me salvando de um caminho mais sombrio. Só o fato de ter alguém com quem conversar já aliviou meu peso.

“Eu sei que Charl tinha uma ferida no coração e o quão profunda ela era”, continuei. “É por isso que tenho certeza disso. O motivo pelo qual a Charl consegue sorrir como sorri agora é porque você esteve lá por ela.”

“Eu…?” A voz de Livi estava fraca, incerta.

   Ela provavelmente não conseguia identificar exatamente o que tinha feito. Conviver com alguém diariamente dificulta perceber mudanças graduais, especialmente porque ela sentia que não tinha ajudado Charl a se recuperar completamente. “A Charl tinha aquele ferimento,” eu disse, “mas desde o momento em que chegou ao Japão, ela estava sorrindo e se divertindo.”

   Eu nunca me esqueceria do sorriso de Charl quando ela se apresentou — roubou meu coração. Vi aquele mesmo sorriso genuíno inúmeras vezes enquanto ela cuidava de Emma-chan.

“Acho que ela conseguiu se recuperar tanto porque você ficou ao lado dela.”

“Não tem como saber disso…” Livi protestou, sem confiança. “Houve algumas semanas entre a ida da Lottie ao Japão e o seu encontro, então ela pode ter melhorado nesse tempo…”

   Ela estava negando, mas, no fundo, provavelmente sabia. Se Charl não tivesse se recuperado ao longo de anos, algumas semanas não a teriam curado milagrosamente sem uma reviravolta forçada. Eu tinha certeza de que Livi era a chave.

“Eu sei,” eu disse firmemente. “Porque para a Charl, você é o que o Akira é para mim.”

   Assim como Charl e Livi eram amigas de infância, Akira e eu também éramos. Tanto eu quanto Charl carregávamos feridas, e Livi e Akira estiveram ao nosso lado durante todo o processo. Foi por isso que mencionei Akira antes — para deixar isso bem claro.

“Ah...” Livi soltou um suspiro suave, a boca ligeiramente aberta, como se minhas palavras finalmente tivessem feito sentido.

“Obrigada por apoiar a Charl durante todo esse tempo,” eu disse, sorrindo com gratidão. “Ficarei feliz se você continuar a apoiá-la daqui para frente.”

   E então—

“Sim...! Sim...!”

   Livi assentiu repetidamente, seu sorriso radiante enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto, suas emoções transbordando na noite silenciosa.

 

◆◆◆

 

“Bem, Charlotte-san, até mais.”

“Obrigada por nos convidar hoje. Foi muito divertido.”

   Conforme a noite caía e terminávamos o jantar juntos, a festa de aniversário de Charl chegava ao fim. Kaguya-san havia providenciado uma limusine para levar todos para casa e, um a um, os convidados se despediram de Charl e foram embora.

“Akihito, até mais,” Akira gritou, acenando casualmente.

“Até, obrigado por hoje. Desculpa por te arrastar para isso,” respondi, coçando a nuca.

“Sem problemas. Comi muita comida boa e foi divertido à sua maneira,” disse ele com um sorriso antes de ir embora.

   Shimizu-san e Kousaka-san o ignoraram, mas Kanon-san amenizou a situação com sua graça habitual.

“Onii-chan, até mais…?” disse Karin suavemente, aproximando-se de mim um pouco depois.

“Sim, volte amanhã,” assegurei a ela.

   Embora ela fosse para casa hoje à noite, ficou decidido durante a festa que Karin dormiria aqui amanhã. Ela tinha planos com os pais durante o dia, então só chegaria à noite. Mais um dia talvez funcionasse, mas Karin parecia ansiosa para dormir aqui em breve.

“Hum…♪ Tchauzinho,” ela disse animadamente, acenando levemente antes de sair, com um sorriso radiante. Ela costumava se ressentir de não morarem juntos, mas parecia ter feito as pazes com isso.

“Cara, mesmo com a Lottie por perto, você é um verdadeiro conquistador, Akihito,” Livi provocou, aproximando-se com um sorriso travesso.

“Conquistador?” repeti, erguendo uma sobrancelha.

“Aquela garota de franja parece super apegada a você, né? A Lottie pode não parecer, mas ela é louca de ciúmes, então é melhor você tomar cuidado, ou a coisa vai ficar feia~” disse ela, cutucando minha bochecha com o indicador.

   Desde nossa conversa na varanda, senti que tínhamos nos aproximado, suas brincadeiras agora me pareciam mais familiares.

“Livi? Você poderia parar de colocar ideias estranhas na cabeça do A-kun?” A voz de Charl interrompeu bruscamente.

“Eita, Lottie!?” Livi exclamou, assustada.

   Charl, que estava acompanhando os convidados na entrada, apareceu atrás de Livi, com as mãos nos ombros dela. Apesar do sorriso radiante, uma estranha pressão emanava dela. Aquelas orelhas aguçadas deviam ter captado as palavras de Livi, atraindo-a para perto.

“Meu ciúme é coisa do passado. Fique tranquila,” disse Charl, com o sorriso inabalável.

“Haha, é mesmo?” respondeu Livi, suando sob a pressão.

   Talvez por serem amigas desde a infância, o comportamento de Charl com Livi fosse diferente — menos reservado do que comigo, com Shimizu-san ou com os outros. Ainda assim, uma coisa era clara: o ciúme de Charl está bem vivo. Guardei esse pensamento para mim, porém, sabendo que ela faria beicinho se eu dissesse em voz alta.

“Tudo bem, tudo bem, vocês duas se dão muito bem, mas tem gente esperando,” interrompi, usando a desculpa para afastar Charl gentilmente de Livi. A limusine estava pronta para levar Livi de volta ao hotel, e os outros não podiam ir embora até que ela chegasse.

“Ah… Você realmente não pode ficar aqui…?” perguntou Charl, com uma expressão repentinamente solitária.

   Já fazia um tempo desde o reencontro delas, e ela claramente desejava passar mais tempo com a amiga.

“Cancelar agora seria um transtorno para a equipe do hotel, então não tem jeito,” respondeu Livi com um sorriso melancólico, espelhando o olhar de Charl.

   Antes de vir para o Japão, Livi provavelmente havia reservado o hotel sem considerar a possibilidade de dormir ali, sentindo-se culpada em relação a Charl. Agora, com esse fardo aliviado, ela parecia querer ficar por perto também.

“Eu queria conversar mais…” murmurou Charl, com a voz carregada de arrependimento.

   Na verdade, ela mal tinha conseguido falar com Livi. Depois da nossa conversa na varanda, Livi passou um tempo se recompondo, escondendo as lágrimas. Mais tarde, talvez com receio de levantar suspeitas, ela ficou perto de mim, fazendo companhia a Emma-chan em vez de se juntar a Charl.

“Hum, apesar de tudo isso, pareceu que você estava me ignorando o tempo todo?” Livi provocou, exibindo um sorriso travesso para aliviar o clima.

   Os olhos de Charl se arregalaram em pânico. “N-Não, é porque você estava agindo como se não quisesse conversar…!”

“Haha, eu sei. Você é séria como sempre, Lottie,” disse Livi, dando um passo à frente para abraçar Charl delicadamente.

   Seu carinho por Charl era inegável, e ver duas amigas próximas demonstrando afeto uma pela outra aqueceu meu coração.

“Quanto tempo você vai ficar no Japão…?” Charl perguntou baixinho.

“Voltarei para a Inglaterra depois de passar o Ano Novo no Japão,” respondeu Livi.

   Tendo vindo de tão longe, ela provavelmente queria vivenciar um Ano Novo japonês antes de partir, dando a Charl bastante tempo para passar com ela.

   Charl hesitou, como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse. Por mais gentil que fosse, ela certamente notara o comportamento estranho de Livi durante a festa, embora não soubesse o motivo — ou que o problema já tivesse sido resolvido.

“Ei, Lottie. Quero conhecer vários lugares, então você me mostraria a cidade?” perguntou Livi, percebendo o desconforto de Charl e tomando a iniciativa.

“—! Sim, claro…!” Charl assentiu ansiosamente, o alívio inundando seu rosto ao perceber que não estava sendo evitada.

   Não foi exatamente uma reconciliação, mas com o mal-entendido esclarecido, eu esperava que elas aproveitassem ao máximo o tempo juntas.

“Mesmo que você esteja hospedada em um hotel, você tem liberdade para se locomover, então por que não passar um tempo juntas até voltar para a Inglaterra?” sugeri, observando a conversa delas.

“A-kun…” Charl suspirou, os olhos brilhando de gratidão.

“Isso é um pouco demais. Se eu vier todos os dias, vou atrapalhar, não é?” disse Livi com um sorriso irônico.

   Eu não quis dizer todos os dias, mas a hesitação dela não era uma recusa — apenas consideração por nós, talvez por estar preocupada em não interferir no nosso tempo como um casal recém-noivo durante o longo intervalo.

“Você está falando sério?” perguntei, sorrindo em vez de negar.

“Ah…” Livi gaguejou, captando o que eu queria dizer sem palavras.

“Ei, Lottie. O Akihito é secretamente um S?” ela sussurrou para Charl, com um toque de irritação na voz.

“Ele geralmente é muito gentil… mas, bem… ele gosta de me provocar…” Charl respondeu, mexendo os dedos nervosamente, com as bochechas coradas.

   O sorriso sem jeito de Livi sugeriu que não era essa a reação que ela esperava.

“Não era isso que eu queria dizer… Mas, bem, acho que não está totalmente errado,” ela murmurou.

“—!? N-Não, esquece o que eu acabei de dizer…!” Charl gaguejou, gesticulando com as mãos.

   Livi sorriu e se inclinou para mais perto, sussurrando: “Ainda é uma pervertida enrustida, hein? Quantos doujinshis você adicionou à sua coleção desde que chegou ao Japão?”

“L-L-Livi!? Por favor, não toque nesse assunto…!” Charl exclamou, com o rosto vermelho.

   A provocação de Livi estava a todo vapor, sua expressão alegre. Embora eu não pudesse ouvir suas palavras sussurradas, a reação de Charl insinuava algo picante.

“Haha, brincadeira. Mas, a julgar por essa reação, você provavelmente comprou muito mais no Japão, né?” Livi insistiu.

“Liviii…!” Charl bufou, chamando-a pelo nome, envergonhada.

   Satisfeita, Livi se virou para mim. “Eu não respondi antes. Eu realmente me preocupo em atrapalhar. Mas se você e a Lottie não se importarem, eu adoraria passar bastante tempo com vocês enquanto estiver no Japão.” Sua aceitação sincera aqueceu meu coração. Charl nunca consideraria Livi um incômodo, e eu também não.

   Morar com Charl significava que tínhamos bastante tempo juntos, não apenas durante o recesso. Livi parecia entender isso; seu comentário anterior sobre ela estar “atrapalhando” provavelmente era uma forma de respeitar nosso tempo a sós. Verdade ou não, sua consideração foi suficiente.

“Claro, você é bem-vinda. Certo, Charl?” eu disse.

“Sim... Vamos te buscar, então vamos passar um tempo juntas,” concordou Charl, assentindo com um sorriso radiante.

   O rosto de Livi também se iluminou. Resolveríamos os detalhes pelo aplicativo de mensagens.

“—Akihito, precisamos liberar a Olivia-san logo, ou todos os outros ficarão presos esperando,” chamou Kanon-san, espiando da sala de estar. Em seus braços, Emma-chan dormia profundamente, com o rosto radiante após o banquete de bolo e comida.

“Ah, certo,” eu disse, acenando para Kanon-san antes de me virar para Livi. “Desculpe, Livi. Todos estão esperando, então já está na hora.”

“Eu esqueci...! Certo, Lottie, Akihito, Kanon, Emma, ​​tchau!” exclamou Livi, chamando até a Emma-chan adormecida antes de sair correndo.

“Hehe... Ela está agitada como sempre,” disse Charl, olhando com carinho para a porta por onde Livi havia saído.

“Vindo até o Japão para comemorar — que ótima amiga,” comentei.

“Sim, ela é meu orgulho e alegria. Ela era super popular na nossa escola na Inglaterra, sempre recebendo declarações de amor dos garotos,” disse Charl, com a voz transbordando de entusiasmo.

   Com o charme e a natureza extrovertida de Livi, sua popularidade fazia sentido. Até eu, um cara, sentia sua ousadia, então ela provavelmente encantava inúmeras outras pessoas sem nem tentar.

“Tão popular quanto você, hein?” provoquei.

“Comparada a mim? Ah, não, nem perto,” disse Charl, balançando a cabeça.

“Sério?” insisti.

“Sim, nunca recebi uma declaração de amor,” admitiu ela.

   Ah, é mesmo. Assim como ninguém na nossa escola tinha se declarado para Charl, o mesmo acontecia na Inglaterra. Livi tinha comentado que os garotos a achavam perfeita demais para se aproximarem. Como eu acabei com ela ainda me intrigava… embora, bem, tenha sido ela quem se declarou.

“Mas a Livi nunca teve um namorado. Não é como se ela não se interessasse por garotos, no entanto,” acrescentou Charl. Isso talvez se deva à Charl. A devoção da Livi em ficar ao lado dela provavelmente deixou pouco espaço para romance.

“Bem, ela é super popular, então aposto que logo terá um namorado,” eu disse, embora secretamente esperasse que ela se conectasse com o Akira, apesar da barreira linguística e dos seus próprios sentimentos.

“Hehe... Não importa o quão charmosa ela seja, é melhor você não dar em cima da Livi,” disse Charl de repente, com um tom cortante, mas brincalhão.

   Eu tinha dito algo em voz alta? — Olhei para ela, mas seu sorriso feliz me tranquilizou. Se ela realmente suspeitasse que eu fosse trair, seu sorriso carregaria pressão, ou ela pareceria emburrada ou ansiosa. Isso era só uma brincadeira.

“Claro, eu sou completamente apaixonado por você, Charl,” eu disse sinceramente.

“Sim, eu acredito em você”, ela respondeu, entrelaçando seus dedos nos meus, alheia à presença da Kanon-san.

“O A-kun é um cavalheiro honesto, então ele vai assumir a responsabilidade, né…♪” Charl murmurou, apoiando a cabeça no meu ombro, radiante.

   Não entendi o que ela quis dizer, mas seu bom humor me fez ignorar.

 

◆◆◆

 

   Antes de dormir, a animação de Charl transbordou. “Hoje foi muito divertido,” disse ela, me abraçando forte assim que nos deitamos.

   Sozinhos agora, ela não conseguia conter o afeto. Emma-chan, para o aniversário da Charl, estava com Sophia-san esta noite, então precisaríamos acordar cedo para buscá-la antes que ela se mexesse.

“Que bom que você se divertiu. Todos pareciam estar se divertindo também,” eu disse, acariciando suavemente a cabeça de Charl enquanto me lembrava dos sorrisos satisfeitos dos convidados — Shimizu-san, Kousaka-san e os outros, todos claramente encantados.

“Bom trabalho, A-kun. Obrigada por fazer tanto por mim,” disse Charl suavemente.

   Por “tanto”, ela provavelmente se referia ao planejamento da festa e às tarefas como repor os bolos, os salgadinhos e as bebidas. Eu organizei tudo na esperança de que ela se divertisse, mas o trabalho nos bastidores era só porque meu emprego de meio período ainda não tinha terminado — não era algo pelo qual ela merecesse agradecimentos.

“Ver você se divertindo também me deixou feliz,” eu disse.

“Hehe… Você é tão gentil, A-kun,” ela murmurou, apertando os braços ao meu redor e pressionando o rosto contra meu peito. O jeito carinhoso dela era absolutamente adorável.

“Eu… talvez tenha comido bolo demais pela primeira vez na vida,” ela admitiu.

“É, você se empolgou. A Kanon-san não se segura em momentos como esse também,” eu disse, dando uma risadinha.

   Sophia-san arcou com os custos, mas Kanon-san organizou tudo — um confeiteiro de primeira linha preparou shortcakes clássicos, bolos de chocolate e mont blancs com decorações elaboradas, em quantidades muito maiores do que as nossas necessidades. Bolos diferentes que eu nunca tinha visto também fizeram parte da mesa, e as meninas conversavam animadamente enquanto devoravam tudo. Akira e eu, menos fãs de doces, paramos de comer cedo. As meninas eram realmente impressionantes.

   As sobras, que eram demais para nós, foram para as empregadas contratadas pelo conglomerado Himeragi.

“Preciso começar a fazer dieta amanhã,” disse Charl.

“Nah, acho que não é necessário…” respondi, observando sua figura perfeita — curvas onde importava, magra onde era preciso. Se alguma coisa, ela poderia estar um pouco magra demais.

“Você é muito carinhoso comigo, A-kun,” disse ela, corando.

“Não é isso…” insisti, falando sério.

   Bem, eu a deixaria fazer o que quisesse, mas se ela exagerasse, eu interviria.

“A propósito, vamos buscar a Livi no hotel amanhã às dez, certo?” perguntei, mudando de assunto.

“Sim, no hotel. A Kaguya-san vai providenciar um carro,” confirmou Charl.

“Sim, é ótimo que ela tenha concordado”, eu disse.

   Com Kanon-san ocupada com as obrigações de fim de ano e Ano Novo a partir de amanhã, e Sophia-san retornando para a Inglaterra, Kaguya-san ficou encarregada de supervisionar tudo. Devotada a Kanon-san, ela inicialmente recusou, mas a confiança que Kanon-san depositava nela a convenceu facilmente. Kanon-san realmente sabia como lidar com ela.

“A Kaguya-san também te ama, A-kun”, disse Charl com um sorriso.

“De jeito nenhum, isso não é verdade,” respondi bruscamente, balançando a cabeça.

   Sophia-san havia dito o mesmo, mas o tratamento rude e grosseiro de Kaguya-san — provavelmente ressentimento pela atenção que Kanon-san me dava — parecia muito distante de afeto.

“O amor vem de muitas formas…” Charl provocou, esfregando o rosto em mim.

     O que isso queria dizer?

“A propósito, preciso te perguntar uma coisa,” disse ela de repente, olhando para cima com um tom sério.

“Hum, dizer assim é meio assustador…?” Eu admiti.

“A Livi te beijou, não foi?” ela perguntou, soltando uma bomba.

“—!?” Congelei, minha reação me traindo.

“Eu sabia…” disse Charl, inflando as bochechas em insatisfação.

     Como ela sabia? Será que eu tinha deixado escapar alguma coisa? — Minha mente trabalhava a mil.

“A Livi só pode beijar garotas… Você deve ter realmente chamado a atenção dela, A-kun…” disse Charl, se inclinando para beijar minha bochecha, como se estivesse apagando a marca da Livi.

“Hum, Charl…? Desde quando…?” gaguejei.

“Quando a Kousaka-san começou a dizer ‘beijo’ e a Shimizu-san a interrompeu às pressas,” ela explicou.

     Logo depois que nos reencontramos com a Livi…!?

“Como você sabia só por isso…? Não seria mais provável que a Livi tivesse beijado a Kousaka-san?” perguntei, tentando encontrar uma explicação.

   Conhecendo bem a Livi, Charl talvez estivesse sendo influenciada pelo hábito dela de beijar garotas.

“Se fosse só a Kousaka-san sendo beijada, não haveria necessidade da Shimizu-san silenciá-la,” argumentou Charl.

   Ela estava certa — se a Kousaka-san estivesse falando apenas de si mesma, não afetaria a Shimizu-san, então não haveria motivo para impedi-la. Charl provavelmente deduziu que eu era quem havia sido beijado, por ser a explicação mais plausível.

“E a atitude da Emma em relação à Livi estava diferente. Claro, ela tem interagido com pessoas de fora da família ultimamente, mas uma vez que ela decide que não gosta de alguém ou de alguma coisa, o tempo não muda isso,” continuou Charl.

   Emma-chan, pura, mas teimosa, não mudaria de posição facilmente. Lembrando do incidente do dominó, se ela não quisesse se desculpar com a Charl, provavelmente ainda evitaria dominós. A profunda compreensão que Charl tinha da irmã a fez perceber nossa farsa.

“Era fácil imaginar que algo tivesse feito a Emma mudar sua visão sobre Livi. Talvez… elogiar como o A-kun trata a Emma? Ela te adora, A-kun, como um irmão mais velho com orgulho, então tocar nesse assunto a deixaria feliz,” ponderou Charl.

   Quase lá, mas não exatamente. Na loja de ramen, Livi comentou sobre meu vínculo com Emma-chan. Droga… eu tinha me esquecido de como Charl era perspicaz, apesar de seu apego.

“Na verdade, comemos ramen juntos em um restaurante, e ela mencionou meu relacionamento com a Emma-chan. Mas acho que a Emma-chan se aproximou de Livi porque a viu como uma companheira de ramen ou algo assim,” expliquei.

   O amor de Livi por ramen e o crescente apreço de Emma-chan por ele provavelmente as tornaram almas gêmeas. Mas Charl apenas sorriu, como quem diz: “Você é um caso perdido…”

“Eu disse algo estranho?” perguntei.

“Não… eu só achei que isso é tão a sua cara, A-kun”, disse ela. O que isso significava? — Parecia um leve toque.

“Então é por isso que eu achei que a Livi tinha te beijado. E observando vocês dois, o jeito que a Livi agiu perto de você não parecia nada com um primeiro encontro. Mesmo você sendo meu namorado,” disse Charl.

   Estávamos sendo observados, não é? — Talvez ela tenha se contido para preservar o clima da festa ou o reencontro delas, mas a percepção dela me deu arrepios.

“Você soube do beijo, mas não parece tão chateada?” observei, intrigado com o tom calmo dela.

“Estou chateada. Não é óbvio?” ela retrucou, com o desagrado evidente.

“Mas você não parece… com ciúmes nem nada…?” insisti.

   Pelo menos não completamente. O beijo dela para substituir o da Livi demonstrava um pouco de ciúme, mas comparado à antiga Charl — que ficava com ciúmes até da Emma-chan se agarrando a mim — isso pareceu muito leve. Saber que a melhor amiga dela me beijou deveria tê-la deixado furiosa, principalmente quando eu e a Livi estávamos na varanda. Normalmente, ela teria seguido, apesar da desculpa de Kanon-san.

“Primeiro, eu confio na Livi. Ela pode não ter percebido quando te beijou, mas assim que soube que você é meu namorado, ela não tentaria seduzir um cara comprometido,”  explicou Charl.

   De fato, quando fui para Hiroshima, ela mandou a Shimizu-san comigo, confiando nela apesar do nosso tempo sozinhos, sem ciúmes ou pânico. Ela provavelmente não sente ciúmes facilmente de quem confia.

“Além disso, a Livi gosta de beijar. Mesmo sem sentimentos românticos, há uma boa chance de ela beijar alguém. Ela nunca fez isso com garotos antes, mas sempre beija amigas próximas na bochecha como cumprimento, então não é surpresa que ela beije um cara de quem gosta muito como agradecimento,” continuou Charl.

   Tendo crescido com a Livi, Charl conhecia bem seus hábitos. Embora nunca tivesse visto a Livi beijar um garoto, ela considerou plausível sob as circunstâncias certas. Foi engraçado que Charl, uma beijadora nata, chamasse Livi de beijadora, especialmente porque Livi havia lhe dado um beijo na bochecha ao se reencontrarem.

“Finalmente... meu coração encontrou um pouco de paz...” disse Charl timidamente, acariciando a barriga.

   Aquele gesto despertou uma lembrança.

“Ontem à noite... você foi tão carinhoso, e com o anel de noivado... eu me sinto segura agora...” disse ela, com os olhos marejados de ternura.

   Meus esforços para tornar aquilo uma lembrança para a vida toda tiveram um efeito inesperado. Com sua primeira vez e o anel de noivado, ela tinha certeza de que ninguém poderia me tirar dela. Era um pouco constrangedor pensar nisso.

“Se seu coração está mais calmo agora, que ótimo. Mas é um pouco solitário se você parar de sentir ciúmes e parar de se agarrar a mim,” admiti.

   A Charl ciumenta e grudenta era adorável, e a ideia de perdê-la me entristecia um pouco. Mas, por ela, isso era melhor.

“Como eu disse, estou com ciúmes… Só que não é mais excessivo… Então eu ficaria incomodada se você parasse de me mimar…” ela disse, com um tom firme.

   Ela não tinha intenção de abandonar seu jeito grudento. Embora menos intenso, seu ciúme permanecia, e ela queria que eu o abordasse de forma adequada.

“Haha, justo,” eu disse, puxando-a para um abraço suave.

   Só isso já a fez esfregar a bochecha em mim, feliz.

“Aliás… Então você não confiava em mim…?” perguntei, meio sério.

   Nenhuma das razões dela mencionava confiar que eu não a trairia.

“Mesmo que você não tenha essas intenções, não consigo evitar sentir ciúmes se a outra pessoa tiver…” ela disse, fazendo um biquinho.

   Não importava minha lealdade, não importava se outra pessoa tomasse a iniciativa. Ainda assim, a segurança proporcionada pelo anel de noivado significava que ela acreditava que eu nunca a trairia, então deixei para lá.

“É, você tem razão… Vou continuar tomando cuidado para não te deixar ansiosa ou com ciúmes,” prometi.

   Mesmo com o ciúme dela um pouco mais leve, evitar gatilhos continuava sendo fundamental.

“Mas você estava sozinho com a Livi?” ela disse, cutucando meu peito repetidamente.

   Ah, ela estava guardando rancor.

“Não, aquilo foi…” comecei.

“Hehe, brincadeira. Você fez isso por mim e pela Livi, né?” ela disse, com o sorriso suavizando.

   Ela estava brincando, não falando sério.

“…Como você sabia?” perguntei.

   Eu não tinha explicado a conversa na varanda, já que a Kanon-san tinha nos acobertado, dizendo que a Livi estava nos provocando sobre o nosso relacionamento.

   O Charl não deveria saber das preocupações da Livi, nem a Kanon-san.

“Durante a festa, notei que o comportamento da Livi estava estranho. Normalmente, mesmo com a barreira do idioma, ela participaria,” disse o Charl.

   De fato, essa era a natureza da Livi. Qualquer desvio sugeria uma razão. A bondosa Charl teria se oferecido para ajudar, mas o comportamento estranho de Livi e seus motivos desconhecidos a fizeram hesitar.

“Mas quando Livi voltou depois de estar com você, sua expressão estava tão revigorada, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Então eu soube que você a ajudou,” disse ela.

   Sua perspicácia era impressionante. Apesar de estar cercada por Shimizu-san, Kousaka-san e Karin, ela não deixou de notar a mudança em sua melhor amiga.

“Ajudou, é? Eu só ouvi. Não fiz nada demais,” respondi modestamente.

   Eu apenas ouvi Livi e ofereci uma nova perspectiva — nada digno de nota.

“…Você realmente… resolve a dor das pessoas sem esforço, como se não fosse nada… É isso que sempre me salva… Obrigada…” disse Charl, fechando os olhos e pressionando o rosto contra meu pescoço.

   Ela se esfregou em mim, se agarrando com força, e então me beijou, seus lábios demorando-se com uma leve sucção.

“Charl…?” murmurei.

“Minhas emoções… me dominaram…” ela sussurrou.

     Espera, isso significa…?

   Incapaz de se mover, ela pegou minha mão, apertando-a com força, os olhos ardendo de desejo.

“Uh, Charl-san…?” eu disse, com a voz trêmula.

“Eu não consigo me conter… Tudo bem, né…?” ela perguntou, levando a mão à roupa com um olhar cheio de anseio.

   Apressei-me em segurar sua mão.

“A-kun…?” ela disse, confusa.

“Desculpe, não podemos… Alguém pode ouvir…” eu disse firmemente.

   Os gemidos de Charl eram tudo menos silenciosos — altos, na verdade. Ela tentou contê-los, mas quando as coisas se intensificaram, ela praticamente gritava. Com outras pessoas provavelmente ouvindo, eu não podia concordar, apesar do meu próprio desejo.

“Ugh… Vou ser mais silenciosa… Devo cobrir minha boca com uma toalha…?” ela implorou, com os olhos marejados de desespero.

   Uma toalha sobre a boca, que ideia. — O olhar dela quase me quebrou, mas me mantive firme.

“Vamos fazer isso outra hora, quando estivermos mais sossegados. Não podemos incomodar todo mundo,” eu disse, abraçando-a gentilmente e acariciando suas costas para acalmá-la.

   Percebendo que eu não cederia, Charl pressionou o rosto contra meu peito. “Deveríamos ter voltado para o nosso antigo apartamento…” ela resmungou, esfregando-se em mim com ressentimento.

   Depois de tudo o que fizemos ontem à noite e esta manhã… a libido de Charl era simplesmente forte demais…

[Almeranto: Coloca forte nisso Hein… Mas a resistência do prota também não fica pra trás. Uma máquina esse daí.]

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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