Volume 1

Capítulo 2: Item Perdido

O cenário daquele jogo otome foi muito mal feito. Os desenvolvedores nem se esforçaram para criar uma lore1 decente para os equipamentos mais poderosos, simplesmente os chamaram de itens perdidos. Ferramentas surreais de tempos antigos que foram redescobertas, várias foram feitas com tecnologias perdidas, o que tornava impossível recriá-las, então eram raras de se ver. Essa foi a desculpa que encontraram. Algumas eram de uso exclusivo da protagonista. Isso dava um pouco mais de importância para ela.

Aquela ilha flutuante era a casa de um desses itens. Eu estava andando em uma floresta fechada e, como não havia trilha, tive que abrir caminho com minha espada. Andar alguns metros já era cansativo por conta disso. A terra molhada era muito macia, o que me fez tropeçar várias vezes.

― Seria mais fácil se tivesse trazido um machado ― disse, enquanto limpava meu suor.

Não conseguia parar de pensar como isso facilitaria minha vida naquela floresta. Havia um no meu barco, mas, depois da queda, o cabo quebrou, deixando a ferramenta inútil.

― Nunca usei uma espada para algo que não fosse treino.

Mesmo que não parecesse, eu ainda era um nobre. Acordava todas as manhãs para treinar os básicos sob a tutela do meu pai. Casas nobres geralmente contratariam um mentor, no entanto as pobres não tinham condições para fazer isso.

Prestava atenção nos meus arredores. Estava tentando chegar no centro da ilha, entretanto estava demorando muito para chegar lá, diferente do jogo. Bem, era obvio que a vida real seria diferente.

Para começar, não ter uma trilha para atravessar a floresta tornava tudo mais difícil. Tinha que tomar cuidado com cobras, insetos e outros animais, contudo, ainda havia algo mais perigoso…

― Apareceu mais um ― reclamei em voz baixa, me escondendo.

Deitei no chão enquanto o inimigo passava. Não era um monstro. O que apareceu foi um robô redondo e blindado. Uma máquina sem pernas, se movia flutuando de forma instável pelo ar, os grandes braços e a cabeça pontuda eram as características que mais se destacavam. Sua tarefa era defender esta ilha. Devia estar fazendo patrulhas na floresta de forma periódica.

Fiquei parado enquanto segurava a respiração, rezava para não ser visto. Quando percebi que a área estava segura, levantei e sai correndo daquele lugar o mais rápido possível.

― Consegui escapar inteiro.

Uma máquina que ficou anos protegendo uma local que havia sido abandonado pelos humanos, parecia um cenário estranhamente solitário. Mas minha vida estaria em perigo se eu tivesse sido encontrado.

O robô continuou operando desde os tempos antigos protegendo a ilha, várias partes estavam danificadas ou enferrujados. E, já que não conseguiu perceber minha presença, devia estar com alguns defeitos.

― Tenho que chegar logo na base.

Lá era onde o item perdido estava, com vários robôs fazendo a guarda. O jogo não explicou direito a situação. Para os jogadores era um local com equipamentos poderosos que podiam ajudar nos arcos finais. Em outras palavras, onde os itens de microtransações ficavam. Havia uma dificuldade considerável neste mapa, mas as recompensas eram ótimas para a protagonista e seus companheiros.

Continuei cuidadoso pelo caminho, até que consegui ver uma construção depois de alguns quilômetros. Vinhas estavam por toda a parte e arvores cresciam pelo teto. Um edifício desgastado, abandonado há muitos anos. Aquela imagem bizarra lembrava muito o que eu tinha visto no jogo, mas ver pessoalmente foi muito diferente.

― Agora está provado que reencarnei no mundo daquele otomege

Sempre pensei que talvez aquelas memórias fossem apenas um delírio… que a reencarnação era apenas coisa da minha cabeça. Pensei sobre isso várias vezes. Também existia a possibilidade que esse mundo fosse apenas parecido com aquele jogo.

Enquanto ficava aliviado por não ter sido loucura minha, entrei no edifício com cuidado. O sistema de segurança estava quebrado e não dava para mover nenhum objeto por causa das vinhas e das raízes das arvore. As paredes eram feitas de concreto e havia aparelhos eletrônicos por elas. Eram objetos parecidos com os do meu antigo mundo, senti um pouco de nostalgia vendo eles.

― Prédios abandonados como esse podem ser considerados dungeons, não é?

Existiam construções como essa em outras ilhas flutuantes, aventureires encontravam tesouros nelas e as vezes conseguiriam um bom dinheiro. Nobres seriam elogiados se conquistassem dungeons novas. Eles se orgulhavam por serem descendentes de grandes aventureiros.

― Por outro lado, também podemos dizer que estão destruindo ruinas históricas.

Saqueando tesouros, destruído objetos com valor histórico para poderem lucrar. Se olhássemos dessa forma, parecia que eram apenas ladrões e terroristas.

― Bem, estou fazendo a mesma coisa para não ser vendido para uma velha pervertida. Mas não me orgulho de estar fazendo isso.

Vi uma porta no final do corredor. Contudo havia uma máquina oscilando no ar no meio do caminho, o robô responsável pela defesa se virou, percebendo minha presença.

Era um milagre que ainda conseguiam se mexer mesmo estando tão desgastados, fiquei tocado quando pensei na vida solitária que tiveram cuidando de uma base onde ninguém voltaria.

― Me perdoe por isso ― falei, apontando o rifle para a máquina.

Depois de me desculpar para a triste criatura que continuou protegendo o local em vão, apertei o gatilho. A bala acertou o alvo e liberou uma descarga elétrica no ponto de impacto. Um feixe de luz apareceu por alguns segundos e, depois disso, o robô caiu no chão. As luzes que saiam dos seus olhos tinham se apagado. Continuei observando o corpo com o rifle em mãos. Mas não parecia que iria se levantar. E parecia que não havia outros inimigos vindo para o local.

Com isso consegui confirmar que as balas eram efetivas. E parecia que o prédio e os robôs estavam danificados o que tirou outro peso dos meus ombros.

― É exatamente como no jogo. Que bom que me lembrei desse ponto fraco. Agora, será que esse é o caminho certo…

O efeito elétrico nessas balas encantadas era super efetivo nos robôs. Esperava que tivessem ao menos um pouco de resistência a descargas elétricas já que eram os responsáveis pela defesa desse lugar… Bem, esse era o mundo de fantasia mal feito de um otomege, não adiantava ficar pensado nesses detalhes.

Continuei seguindo em frente, obedecendo o caminho do mapa em minha memória, até chegar na porta que estava entreaberta por causa das vinhas e raízes.

― Ela estava assim no jogo? Bem, o caminho continua batendo com o que me lembro.

Quando entrei no cômodo, um esqueleto humano caiu no chão, as suas roupas desgastadas pelo tempo pareciam panos sujos. Coloque minhas mãos juntas e rezei para o falecido. Então peguei um cartão que estava no bolso dele.

Era uma chave eletrônica. Provavelmente servia de crachá também, já que consegui ver o nome de alguém escrito com o alfabeto. Não era possível ver a foto que havia se deteriorado com o passar dos anos e apenas algumas letras eram visíveis, então não descobri o nome completo dessa pessoa.

― Isso é o alfabeto, não é? Que estranho ver isso aqui.

Não esperava encontrar essa forma de escrita nesse mundo. Coloquei o crachá no meu bolso e continuei a andar.

Esse era o lugar onde o item de microtransação ficava. Parei nessa ilha várias vezes para pegá-lo com o propósito de platinar o jogo. No entanto não podia contar apenas com minhas memórias de 10 anos atrás. Teria esquecido as coordenadas desse lugar se eu não tivesse escrito logo após lembrar de tudo. Era assustador imaginar o que aconteceria caso tentasse encontrar esse local contando apenas com minhas lembranças. A ansiedade e o medo por viajar sozinho pelos céus… não queria me sentir daquele por ainda mais tempo.

Finalmente tinha encontrado uma porta que a chave podia abrir, quando a ela abriu o que apareceu na minha frente foi uma sala de descanso. Haviam dois esqueletos humanos no sofá. Maquinas de venda velhas e enferrujadas apareceram, uma delas havia sido destruída, seus produtos estavam espalhados pelo chão. Tentei pegar um para ver de perto, mas quando encostei a mão eles viraram pó na hora e saíram voando como areia.

 ― Nunca pensei nesse assunto enquanto jogava, mas o que diabos aconteceu aqui?

Algumas partes das ruinas ainda funcionavam. Imaginar sobre como uma civilização com tecnologia tão avançada tinha sido destruída… era meio perturbador.

― Bem, antes de me preocupar com isso tenho que encontrar o item.

Apenas uma das duas caveiras tinha um cartão para eu poder continuar. Deixei o local depois de pegá-la e continuei em direção ao meu objetivo. O que tinha no cômodo a frente era mais um robô, só que esse eram um pouco diferentes.

― É mesmo, esqueci desse cara.

Esse tipo utilizava várias pernas para locomoção, no entanto algumas tinham sido destruídas o que o deixou imóvel no meio do corredor, bloqueando o caminho. As armas no corpo dele ainda deviam funcionar.

Me escondi atrás da parede e atirei, o impacto da bala fez um feixe de luz aparecer como antes, mas dessa vez, além de não cair, o robô revidou, atirando para todos os lados. As únicas coisas que podiam se mover eram as metralhadoras em seu corpo. Mas isso já complicava as coisas, pelo menos ele ainda não tinha descoberto minha posição exata.

― Isso ‘tá ficando perigoso!

Sem sair do lugar, coloquei outra bala especial no rifle e continuei o ataque. Para não me arriscar muito, usei um espelho para ver a posição do robô antes de cada tiro. Podia ser uma atitude covarde, mas lutar contra essa coisa era como cutucar um ninho de vespa.

Meu oponente não podia fazer muita coisa já que estava quebrado e não conseguia se mover. Contudo se a manutenção estivesse em dia, seria como estar no meio da colmeia.

Pensava nisso enquanto atirava uma bala atrás da outra.

― Droga! É muito resistente. E para piorar a situação… Merda! Errei de novo!

Calculei o preço de cada bala na minha cabeça, aquela luta estava me fazendo perder muito dinheiro. Já que eu estava atirando de uma posição ruim, vários tiros não acertavam o alvo, e, para piora a situação, quando acetavam, o negócio continuava funcionando.

Depois de um bom tempo nessa situação, o robô finalmente parou de funcionar. Depois de contar, parece que acabei usando 30 balas, se fosse no jogo a batalha teria acabado depois de 10 tiros…

― Talvez as coisas realmente tenham mudado agora que tudo isso é real?

Tentei parar de pensar nessas coisas, tinha que ficar atento para não ser pego de surpresa. Continuei seguindo em frente, derrotando os robôs que apareciam pelo caminho, meu objetivo era o centro da construção. Antes de perceber eu já tinha gastado a maioria das balas.

Estava passando por um corredor escuro, havia apenas uma pequena fonte luz iluminando o local, no final da passagem ficava o item. Usei o crachá para abrir a porta. Desci por uma escada que levava ao porão, não havia mais iluminação, então peguei o lampião da minha bolsa.

― Já que existe eletricidade, gostaria que existissem lanternas.

Existiam lâmpadas nesse mundo, mas nada de lanternas. Por causa disso ainda usávamos lampiões.

Continuei descendo enquanto reclamava. Haviam alguns esqueletos humanos pelo caminho, isso junto a escuridão formava uma cena assustadora. Não fazia ideia do que aconteceu ali, mas, se possível, queria pegar o item o mais rápido possível e ir para casa.

― Mesmo assim… esse lugar é igualzinho ao jogo.

De acordo com minhas memórias, aqui era onde o item que comprei com as microtransações ficava. Um espaço enorme coberto pela vegetação. Um estaleiro para aeronaves.

Continuei caminhando com cuidado enquanto apertava o rifle em minhas mãos. Todos navios que vi estavam cobertos por raízes e vinhas, havia até musgo crescendo nos cascos. E todos pareciam estar danificados. No meio de tudo isso havia um enorme cais que foi preparado para o item que vim buscar. Era uma aeronave muito maior que qualquer outra naquele local.

― Não há dúvidas… só pode ser essa.

Mesmo com raízes e vinhas enrolados nele e com musgo crescendo em sua superfície, ainda era possível ver que o seu casco cinza estava inteiro. Era o único navio que não havia sido danificado pelo tempo.

― É isso! Ela realmente ‘tá aqui! ― gritei, tremendo de tanta felicidade.

Coloquei os meus pés na rampa de e subi bem devagar para que ela não se quebrasse. A entrada não parecia que iria abrir antes de tirar o excesso de vegetação, tive que usar minha espada para fazer isso. Então, depois de usar o crachá para abrir a porta, eu embarquei no navio voad… não, embarquei no navio de guerra.

Diferente do lado de fora, o interior continuava limpo, sem sinais de vinhas ou musgo. Era classifica uma aeronave preparada para guerras. Espera um pouco, a descrição do jogo falou espaçonave, então devo supor que isso era uma nave espacial? De qualquer forma, o desing era bem futurista. Se comparássemos com a tecnologia daquele otomege… parecia algo de outro planeta.

― O interior não aparecia no jogo, será que foi assim os desenvolvedores imaginaram?

Deveria ter por volta de 700 metros de comprimento, o que fazia dele um navio bem grande. Não sei como algo desse tamanho podia voar, mas esse era um mundo onde ilhas e continentes podiam flutuar.

Alguns até remodelavam as ilhas para se tornarem navios. O tamanho dessas coisas passava dos mil metros, eram basicamente fortalezas moveis. Não sabia muito sobre como funcionavam já que nunca vi uma, no entanto não era estranho ver algo enorme voar nesse mundo.

No exterior haviam dois motores quadrados acoplados na parte traseira da nave. O corpo tinha que ser aerodinâmico então a frente era mais pontuda, no jogo, quando se olhava por cima, parecia um triangulo isósceles com dois quadrados na parte de trás. Uma forma simplista, sem hélices no convés, velas ou qualquer coisa do tipo.

As formas das aeronaves desse mundo eram muito variadas. A mais comum era a de bola de rúgbi. Na verdade, não havia necessidade de se preocupar com o formato nesse mundo, o nível de dificuldade para fazer um navio era baixo, era fácil fazê-los flutuar. Então as pessoas podiam criar navios com qualquer aparência para sair por aí se aventurando.

As luzes se ascendiam automaticamente quando eu passava, então apaguei meu lampião. Depois de chegar tão longe havia apenas mais um obstáculo. Meu objetivo era chegar no centro da nave e fazê-la se mover.

Conseguia ouvir o som dos meus próprios passos enquanto me movia pelo longo corredor. No final estava a porta que levava ao último desafio, parei de andar na frente dela e limpei o suor que não parava de escorrer pelo meu rosto, estava muito nervoso. Chequei a condição do rifle e confirmei se tinha colocado as balas nos carregadores.

― Lá vamos nós ― falei tentando me acalmar.

Abri a porta e corri para dentro. Aquele era o centro do navio, o local que controlava tudo, a central de comando. Um lugar bem espaçoso.

No meio da sala havia um robô humanoide em pé esperando. Um corpo largo e uma cabeça simples, era possível ver luzes vermelhas que pareciam olhos atrás do seu visor. O som das engrenagens ressoou pelo local. Eu estava pronto para a batalha.

― Intruso detectado… Exterminar… exterminar…

O robô lentamente ganhou vida. Tinha por volta de 6 metros de altura. Sua enorme mão veio em minha direção tentando me pegar. Apertei o gatilho do rifle tentando me defender. No entanto o impacto fez apenas um arranhão na armadura dele, o dano foi quase nulo.

― Isso não vai ser fácil. ― Quando carreguei a segunda bala o cartuxo ejetado fez um som metálico ao atingir o chão. ― Você pode me liberar se eu te mostrar meu crachá?

Tinha um pouco de esperança de que ele iria parar de atacar se visse que eu tinha a chave de um dos trabalhadores desse edifício, o robô respondeu com um tom calmo.

― O cartão que você usa é de um dos funcionários desse local. Seu corpo não corresponde com o dele, nem com o de nenhum outro membro. Além disso, foi calculado que a chance de sobrevivência de qualquer pessoa nessa construção é nula. Então você é um intruso… exterminar.

― Nossa, valeu pela resposta sincera!

Escutei uma voz eletrônica. Não esperava que ele seria capaz de conversar. Achei surpreendente o quão direta foi a resposta, entretanto aquela não era a hora de ficar pensando nisso.

O segundo tiro conseguiu acertar o alvo, mas também não fez muita coisa. Corri para escapar dos braços que vinham em minha direção. Peguei um objeto cilíndrico do meu cinto, tirei o pino e joguei. O inimigo tentou rebater com uma mão, porém, assim que tocou no item, ocorreu uma explosão junto a uma descarga elétrica bem mais forte que a das balas, o que fez o robô ficar paralisado por alguns segundos. Fumaça saia pelos vão da armadura.

― Boa!

Enquanto eu comemorava por não ter errado, o visor na cabeça do robô brilhou.

― Danos causados por “magica” chegaram a níveis críticos. Ativando Barreira mágica.

Uma luz apareceu cobrindo todo o corpo da máquina, como se tentasse protegê-la. Mesmo que eu continuasse atirando essa barreira repelia as descargas elétricas, os encantamentos nem ativavam, o que anulou qualquer dano que as balas poderiam causar.

― Que covardia! ― gritei.

― Obrigado ― respondeu o robô.

Fiquei surpreso por receber uma resposta, peguei outro carregador e preparei meu rifle.

― Você ‘tá quebrado? Por que agradeceu?

Continuei atirando sem parar, parecia que os movimentos dele estavam ficando mais rígidos.

― Lutar de forma covarde é algo digno de elogios. Foi isso que me ensinaram, está errado?

― Completamente errado! E porque você tem contramedidas para magia?

Essa coisa não tinha barreiras magicas no jogo. Sinto que fui enganado.

 ― Simples. Não posso dizer que entendo o que é magica, mas analisar e preparar uma forma de defesa é algo natural, não é?

― Você é bem espertinho! E fala muito!

Continuei correndo pela sala enquanto apertava o gatilho sem parar. Tentava achar um ponto fraco, no entanto não consegui achar nada. Talvez ele respondesse se eu perguntasse?

― Faz muito tempo desde que tive a chance de conversar com alguém, acho que estou em um estado de excitação ― disse o robô.

Não consegui entender o motivo para ter me contado até isso, no entanto eu tinha que conseguir essa nave espacial apelona. Um item perdido, o ápice da tecnologia antiga, um item de microtransação que me custou mil ienes… esse preço era meio baixo, entretanto, não havia dúvidas de que era uma arma muito poderosa.

Não achei estranho ver que tinha uma IA2 controlando ela, contudo nunca imaginei que conseguiria conversar com o navio. Não havia nada parecido com isso no jogo. Tirei outro objeto cilíndrico do meu cinto, uma granada de mão.

― Será que é outra granada encantada? Isso não vai ter efeito em…

― Idiota!

Joguei na direção dele, tomei distância e deitei no chão. O robô nem tentou se defender. Contudo, quando a granada atingiu o alvo, uma explosão muito maior que a anterior aconteceu. Fui jogado para a parede pela rajada de vento, mas me levantei rapidamente. A fumaça se espalhou pela sala, visibilidade foi ficando cada vez pior.

― Foi só uma granada normal. É bem forte, não é? Fiquei com medo de usar porque podia danificar o navio.

Iria usa essa espaçonave depois. Queria deixá-la sem muitos danos, por isso tentei evitar grandes explosões. Abaixei o rifle e comecei a falar:

― Essa foi apenas uma das cartas na minha manga. Até no jogo essa bomba causava um bom dan…

Quando pensei que a luta tinha acabado, uma enorme mão saiu da fumaça e me pegou desprevenido. Acabei soltando o rifle por conta do impacto, peguei minha espada e dei uma estocada em direção aos dedos do robô. No entanto a lamina apenas arranhou a carcaça sem causar nenhum dano. Ser agarrado daquela forma foi muito doloroso.

― Me… larga…

― Fiquei surpreso. Aquilo foi uma granada normal? Já que vocês são tão obcecados com magia, não pensei que usariam esse tipo de arma. Foi uma luta divertida.

Uma parte da armadura do robô foi destruída, expondo o que estava dentro. Os cabos, o motor e outras partes eram visíveis. Ainda me segurando, o robô aproximou o seu rosto para poder me olhar de perto.

― Sua forma de lutar é diferente daqueles que viveram no passado. Esse rifle é surpreendente, mas tenho mais interesse nessas balas. Incorporar magica nelas foi uma ideia fascinante.

As câmeras atrás do seu visor continuavam ampliando e retraindo freneticamente observando cada detalhe do meu corpo. Eu não conseguia fugir e a pressão do aperto ficava cada vez mais forte.

― Pergunta. Em qual ano do calendário solar estamos? ― indagou a máquina, enquanto eu lutava para me libertar.

― ? Calendário solar? Como vou saber? Se usarmos o calendário do Reino de Holfort… Gaaaah!!

Uma corrente elétrica saiu das mãos do robô, meu corpo ficou dormente e eu gritava de dor. Perdendo o controle, comecei a me debater para tentar escapar, contudo foi um esforço inútil.

― Essa resposta já foi o suficiente. Fizemos a mesma pergunta varias vezes… parece que fomos mesmo derrotados.

Fiquei exausto depois do choque, o robô tinha parada de se mover. Eu tremia e não conseguia fechar minha boca direito, usei a mão que segurava a espada para limpar a saliva.

― D-Derrotados? Nós? O que quer dizer com…

Onde estavam os inimigos que podiam fazer um navio de guerra apelão perder?

― Foi por causa dos novos humanos… A antiga civilização foi destruída com o advento dessa nova espécie que controlava o poder opressor chamado magia.

Nova espécie humana? Isso fazia parte do jogo? Aquele jogo otome tinha esse cenário? Fique um pouco preocupado. Só queria acabar logo com essa situação, não estava lá para aprender sobre o passado, aquilo não tinha nada a ver comigo. Só queria achar um jeito de escapar daquele aperto.

― E você é um descendente deles. Você é meu inimigo.

De repente escutei uma voz eletrônica bem baixa. Uma voz que me rotulou de inimigo como se quisesse me eliminar.

― I-isso é meio precipitado. Vamos conversar um pouco sobre isso… ei, E-espera! Augh!

Escutei meu corpo fazer um som que não podia indicar coisa boa. A mão continuava apertando cada vez mais forte e o barulho de ossos quebrando ficava cada vez mais alto.

― Exterminar o inimigo… exterminar…

Não era mais uma situação que podia ser resolvida na conversa. Talvez o robô não tivesse forca para me esmagar de uma vez por causa dos danos que acumulou. No entanto, isso acabou resultando em sofrimento prolongado. Não sabia dizer se foi boa ou má sorte, mas já havia decidido o que fazer.

― Nossa missão ainda não acabou. O extermínio dos novos humanos é prioridade máxima. As ordens eram para ficar e proteger esta base e exterminar qualquer humano da nova espécie que aparecesse. Até o momento vários vieram para cá. E olhando para sua situação, ficou claro que eles enfraqueceram… Agora irei preparar um ataque para destruir todos os descendentes dos novos humanos…

Aventureiros já haviam vindo para aquela ilha no passado? Deixando isso de lado, se aquela coisa saísse dali destruindo tudo, minha família seria dizimada no processo. Isso não fazia de mim o maior culpado já que tinha sido eu a pessoa que acordou essa coisa? Seria bom se a Zola fosse a única vítima, contudo queria que meus pais, meu irmão mais velho e meu irmão mais novo continuassem vivos.

Mordi o pino no cabo da espada na minha mão direita, o puxei para fora, e apontei a lamina para o robô. Então…

― Vai pro inferno… seu pedaço de lixo.

Quando ativei o mecanismo, lamina voou, entrando dentro do visor do robô e soltando uma descarga elétrica. Já que a eletricidade atingiu a parte interna, o dano deve ter sido alto.

A cabeça dele foi estourada por uma explosão, o visor foi quebrado e se espalhou para todos os lados. Não me importei com o pedaço que arranhou minha bochecha, fazendo sangue escorrer.

A mão perdeu a forca, me fazendo cair no chão. Isso foi doloroso, porém ser liberado me deixou respirar com mais facilidade e fiquei aliviado por ter escapado daquela situação. Minha cabeça não estava funcionando direito por causa da dor.

Enquanto tossia de forma violenta, comecei a mover meu corpo em direção ao rifle. O robô não conseguia se movimentar direito e suas ações ficaram estranhas. Quando alcançei minha arma, me virei e apontei o cano para a cabeça dele.

 ― Não sinto simpatia por você. Tenho meus próprios problemas. Fique quieto, não se mova e aceite o que irá acontecer com você.

Apertei o gatilho, carreguei outra bala e apertei o gatilho de novo. Enquanto fazia isso, o robô continuo vindo em minha direção para tentar me capturar sem desistir, contudo…

― Acabou…

Repeti a mesma ação várias vezes, quando as balas acabaram, ele já havia parado de se mover. Era possível ver a eletricidade passando por todos os lugares de seu corpo, mostrando que a situação estava mesmo ruim. Também havia fumaça saindo pelos vãos da armadura. Porém eu ouvi um barulho meio eletrônico, a voz de um robô.

― Você quer tentar me usar?… Isso é impossível.

Ele não se movia, então fui em direção ao painel de controle da sala. No jogo, aqui era aonde você se registrava como o mestre dessa nave.

― Para de falar. Só vim aqui para pegar o item de microtransação. Cala a boca e aceite a situação.

Não tinha certeza se aquele item era o mesmo que comprei no jogo. No entanto, não haveria futuro para mim se eu saísse dali de mão vazias.

― Prefiro me autodestruir do que ter alguém da nova espécie humana me controlando.

― Já que vai se autodestruir, porque simplesmente não aceita se tornar minha propriedade. Uma explosão ia ser irritante. Não quero morrer aqui.

Enquanto tentava operar a máquina, mudei a linguagem da tela para japonês.

― Que conveniente! Isso vai deixar as coisas mais fáceis! ― falei em japonês, a língua que eu estava com saudade.

O objetivo estava bem na minha frente… só faltavam mais alguns passos, isso me fez ficar meio nervoso. Continuei operando até encontrar a área que registrava o dono da nave. Linhas que indicavam onde eu tinha que colocar minha mão apareceram.

― Japonês…? Você consegue ler? Os novos humanos não deveriam ser capazes de usar essa língua.

Aquela voz não vinha mais do robô e sim dos autofalantes daquela sala. Pareceu que consegui atrair seu interesse. Contei uma piada enquanto colava minha mão no local indicado.

― Minha alma é japonesa. Justiça para mim é arroz e sopa de missô toda a manhã. Bem, nunca consegui achar essas coisas nesse mundo… Parando para pensar, talvez você não tenha conseguido entender o que eu acabei de dizer ― falei, usando japonês nas duas primeiras frases.

Essa coisa provavelmente não iria entender se eu falasse que fui reencarnado. Se outras pessoas ouvissem isso, elas iriam forçar um sorriso enquanto se afastam de mim.

― Alma? Isso tem a ver com o conceito de reencarnação?

― Então você consegue entender o que estou falando? Sim, foi isso mesmo.

Fiquei feliz por poder ter uma conversa em japonês depois de tanto tempo. O painel começou escaneando o código genético das minhas mãos e, antes de completar o registro, uma luz vermelha cobriu meu corpo inteiro. Assim que os procedimentos acabaram, o robô começou a falar:

― Confirmei que há traços de DNA japonês em no seu código genético. Contudo, você é um novo humano. Herdar os genes de ambas espécies, que estranho, isso não deveria ser possível.

― Sério? Mas já terminei o registro, então esse navio é meu, não é?

― Sim. A partir de agora é sua propriedade. Quer dar um nome a ele?

Parando para pensar não tinha a opção de nomear essa nave no jogo.

― Nada me vem à cabeça… Acho que no jogo ele era chamado de Luxion.

― Luxion… nome registrado.

― Então você não vai mais se autodestruir. Graças a deus.

Por causa do cansaço extremo, me sentei no chão assim que terminei de falar. A fumaça da batalha ainda estava lá, então eu não conseguia ver toda a sala. Peguei o rifle em minhas mãos e percebi que a coronha3 estava rachada. Não seria possível usar a arma antes de consertar aquilo.

― O presente que ganhei dos meus pais está todo acabado ― resmunguei, olhando para cima.

― Já que você tem a alma de um japonês, isso significa que você tem memórias da guerra?

― A guerra? Não tenho nenhuma. Para começo de conversa, eu nasci durante um período de paz e era apenas um assalariado, não tive experiências com guerra… Agora que penso nisso, minha vida passada foi uma benção.

Ainda sinto saudades do meu antigo mundo… Queria voltar para lá se fosse possível. A fumaça foi se dispersando, devia ser por causa dos exaustores da sala.

Parecia que eu precisava de alguém para escutar minha história. Então contei todos os detalhes da reencarnação para meu novo parceiro robótico.

― Entendeu a situação? Esse mundo de merda é o mundo de um otomege.

― Otomege?

― É algo parecido com um simulador de encontros.

Contei sobre minha vida, o período em que vivi e como foi reencarnar. Só depois de um bom tempo que comecei a explicar as origens desse mundo.

― Surpreso?

― Estou impressionado pelos seus delírios. Contudo o fato de você saber japonês não é algo que se originaria disso. Se tivesse que descrever meus pensamentos em apenas uma palavra eu diria… interessante.

― Bem, entendo porque você pensa assim. No entanto, acho que a sua própria existência é uma prova também. O fato de que sei sobre você e fui capaz de encontrar este local é uma evidencia de que este é o mundo daquele jogo, não é?

― Isso ainda não faz sentido para mim. E se for mesmo verdade, não deveria ter mais pessoas que descobriram que esse mundo é um jogo?

― Não fique pensando nesses detalhes, é muita dor de cabeça. Só esquece isso, não tem como achar uma resposta nesse momento, então é melhor nem perder tempo.

Continuei falando mesmo exausto, no entanto, uma forte tosse começou a me atacar. Coloquei a mão na boca por reflexo e, quando tudo parou, percebi que havia sangue grudado nas minhas luvas.

― Estou ferido em algum lugar?… Isso não é bom, ainda tenho que voltar…

Enquanto meu corpo caia, consegui ouvir uma voz.

― Leon Fou Bartfort… Foi confirmado que a vida do mestre está em condições críticas. Transferência para o escritório médico irá…

***

Já fazia 3 meses desde a saída de Leon.

Zola chegou no território dos Bartfort e começou a falar algumas coisas desagradáveis. Ela estava no escritório da mansão e, desde manhã, continuava a criticar as atitudes de Balcus e de Luce.

― A entrevista de casamento que tive tanto trabalho para conseguir está arruinada, aquela criança é mesmo idiota. Saiu voando sozinho por aí e acabou morto.

Balcus serrou os punhos, sua situação lamentável. Quando ouviu que o seu filho poderia estar morto os olhos de Luce se encheram de lagrimas. Zola sabia que foram as suas palavras que a machucaram, mas ela não se importava.

― Já que isso aconteceu vamos ter que usar o próximo filho. Bem, mesmo sendo bem novo, ele já deve ser capaz de limpar a casa.

― Colin? Aquela criança não tem nem 10 anos. Além do mais o Leon ainda pode voltar ― interrompeu Balcus

― Você acha mesmo que isso vai acontecer? Já fazem 3 meses desde que ele saiu, 3 meses. Seria estranho se ainda estivesse vivo. Ah, é verdade, existe a possibilidade de que ele tenha fugido sozinho. Minha nossa, é por isso que filhos de nobres do interior só dão problemas. Ele não conhece o código dos cavaleiros?

O código de cavaleiros de Holfort era: “Seja leal e dedicado ao seu mestre”. Para os cavaleiros que serviam ao país, o mestre era o rei. Mas eles podiam ser vassalos de um senhor feudal ou do líder de suas casas.

Era um ensinamento lindo que dizia para viver de forma honrosa e justa. Esforço e humildade eram considerados virtudes. Alguns iriam arriscar a própria vida pela sua lealdade. Lutar e morrer pelo pais era considerado uma honra… isso era o esperado de um cavaleiro ideal. Colocando de forma simples, subordinados convenientes para seus mestres.

Nos últimos anos apareceram pessoas dizendo que também era trabalho dos cavaleiros proteger as mulheres com a própria vida. Originalmente as espadas e escudos foram para proteger todos os cidadãos, no entanto a situação foi mudando com o passar do tempo.

Ver o rosto cheio de lagrimas da Luce fez Balcus se aproximar dela e colocar uma mão em seu ombro. Os dois pareciam um casal e isso irritou Zola.

“Quanta insolência. Eu sou aquela que casou com esse senhor feudal do interior! Não posso deixar que façam esse tipo de coisa na minha frente.”

A presença dessa concubina a irritava. Por conta disso ela teve a ideia de vender os filhos e as filhas de Luce para nobres da capital que não tinham parceiros.

“Em primeiro lugar, quem irá herdar esse baronato será meu filho. As outras crianças são desnecessárias. Todas deveriam ser vendidas para deixar a vida de Rutart e Merce mais fáceis. ”

De repente uma voz aguda podia ser ouvida no escritório. Colin, que ainda era jovem, usou toda a forca para abrir a porta e, ainda sem folego, tentava falar algo.

― Colin, você não deveria vir aqui. E nem bateu na porta antes de…

Balcus chamava a atenção dele, no entanto seu filho continuava abrindo e fechando a boca enquanto apontava para a janela. Todos olharam para fora e viram que havia algo bloqueando a luz do sol.

― Que navio é esse? ― perguntou Balcus, depois de abrir a janela.

Havia uma aeronave colossal parada sobre a residência. Zola estava assustada.

― O-o que é isso? De onde veio esse navio?

Existia a possibilidade de ser um ataque de piratas aéreos, de outro nobre ou de um pais que estava invadindo o reino. Contudo, se esse fosse o caso, havia algo errado com aquela situação.

Uma nave menor, por volta de 20 metros, saiu da aeronave maior e começou a descer. Era possível ver a figura do Leon nela, junto a uma montanha de tesouros de ouro e prata, uma quantidade tão grande que era incrível até de longe.

Leon pousou no jardim da mansão e começou a acenar com a mão.

― Pai! Voltei como prometido. Da uma olhada no que achei!

Leon começou a rir sem parar em frente a montanha que continha ouro, prata e joias. O valor exato não podia ser calculado, porém, se tudo fosse real, seria uma quantidade inimaginável de dinheiro.

Luce caiu de joelhos e começou a chorar lá mesmo.

― Meu filho, depois de tanto tempo sem nenhuma notícia… que alivio.

Ela sorria enquanto as lagrimas caiam. Balcus saiu do escritório no meio da confusão e correu para fora. Zola não conseguiu tirar os olhos do tesouro que via pela janela. Seus olhos se encontraram com os de Leon, um sorriso triunfante apareceu no rosto dele e sua boca formava as palavras: “eu venci”.

― E-esse moleque idiota… ― disse Zola, apertando com força a borda da janela.

Quando Balcus chegou no Leon, ele abraçou o filho e começou a chorar. Derramava lagrimas de felicidade enquanto o chamava de idiota. Zola ficou irritada e saiu do escritório.

“Bem, a situação não parece tão ruim já que aquele tesouro vai ser meu. A única coisa que você fez foi trabalhar para mim. Vou pegar tudo que você conseguiu. Eu serei aquela que irá rir no final”.

Assim que saiu para o corredor ela chamou o servo elfo que estava esperando e caminhou em direção ao jardim.

***

Um enorme sorriso apareceu no meu rosto quando vi a cara da Zola. Não trouxe apenas ouro, também tinha uma espaçon… Tosse. Um navio voador. Assim que descobriu que tudo era meu, ela tentou roubar de mim, contudo, antes que pudesse fazer alguma coisa, eu simplesmente usei alguns fatos para calá-la.

― O contrato entre você e o meu pai não tem nada a ver comigo. Tenho 15 anos, já sou considerado um adulto, então decidi me registrar como um aventureiro. Entendeu o que quero dizer? Tudo que encontrei é minha propriedade, não do meu pai.

Balcus queria falar algo, mas minha mãe o parou. Entretanto, Zola continuou falando.

― Você só conseguiu isso por causa do dinheiro dos seus pais! Porque está agindo como se fosse uma conquista sua?

Respondi de forma calma. Conhecia bem a personalidade dela, sabia que iria falar algo assim. No Reino de Holfort tem uma lei bem severa sobre os direitos de tesouros obtidos por aventureiros. Já que esse país foi fundado por eles.

― Os meus pais podem exigir isso de mim, mas não quero ouvir nada vindo de você. Ah, tudo bem, eu vou de te dar um pouco já que você quer tanto.

Passei uma mala cheia de barras de ouro enquanto sorria. Havia uma enorme quantidade de tesouros atrás de mim, contudo o que dei para Zola era apenas uma minúscula fração dele. Claro, aquelas barras ainda valiam muito dinheiro, mas ela não estava nem um pouco feliz com a situação. Foi por isso que pousei com essa montanha de tesouros no jardim.

― V-você acha que esse raciocínio vai convencer alguém? O dinheiro vai ser administrado por Balcus de qualquer jeito, não é? Quando isso acontecer ele vai se tornar propriedade da casa dos Bartfort. Então eu tenho o direito de usá-lo ― insistiu Zola.

Encolhi os ombros e comecei a falar a ideia que discuti com o Luxion para resolver essa situação.

― Está achando que isso vai virar propriedade deste baronato, não é? Já que sou um adulto fui capaz de me tornar um aventureiro independente. Talvez você não saiba que eu já tenho minha própria casa? Mas ainda tenho que ajudar minha família, não é? Então pensei em investir no território. Não acha que vai ser bom ter dinheiro para a manutenção do porto, construção de estradas ou coisa do tipo?

Era ótimo ver Zola franzir as sobrancelhas e olhar com ódio para minha direção. Se transferisse meu dinheiro para o cofre da família, ela teria o direito de usá-lo. Porém, se eu controlar o dinheiro e investir no desenvolvimento do território, essa mulher não vai poder pegar nem um centavo. Seria difícil arrancar um pedaço do porto e levar para a casa.

Talvez tendo entendido que estava em desvantagem, Zola desistiu, pegou o amante elfo e foi em direção ao seu quarto na mansão. Eu ri mais uma vez olhando para as costas dela.

― Moleque idiota. Você exagerou. O que vai conseguir provocando ela? ― disse Balcus, depois de me dar um socão na cabeça.

― Aquela mulher tentou me vender para uma velha pervertida. Acho que tenho direito de me vingar um pouco. De qualquer forma, gostou do que encontrei? É incrível, não é?

Meus pais estavam bem surpreso quando viram aquilo de perto.

― Bem, isso é realmente incrível. Mas você reportou para a guilda?

Acenei com a cabeça. A Guilda de Aventureiros é uma organização construída pelo país, então mesmo que fosse chamada de guilda, eles não eram independentes. A desculpa era que o nome foi criado a muito tempo e por isso decidiram mantê-lo. O cenário mal feito daquele jogo só me dava dor de cabeça.

― Claro que sim. Graças a isso, o país acabou pegando parte dos meus tesouros― expliquei.

Mostrei apenas vinte por cento dos meus ganhos para eles, o pais pegou trinta por cento dessa quantidade. No entanto, tudo que sobrou era meu.

― Vou compra um barco novo para compensar o que eu quebrei. Na verdade, acho melhor pegar um navio voador como presente.

― N-não achar melhor guarda um pouco para o futuro? Com tudo isso você vai não vai ter problemas quando se tornar independente ― aconselhou Luce, supressa pela minha atitude esbanjadora.

Depois de ouvir isso, arrumei minha postura e olhei para os dois.

― Na verdade tenho que falar com vocês sobre algo relacionado a isso.

Expliquei para os meus pais sobre o que aconteceria dali em diante.


Notas:

1 – Lore é toda a história que não é diretamente contada ao jogador, descrições de itens na maioria dos casos.

2 – Inteligência artificial, a sigla em inglês é AI.

3 – É a designação de uma parte que dá suporte estrutural aos componentes de uma arma longa. Isso aqui: Coronha.



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