Volume 1
Capítulo 11: A Águia e o Leão
[A Toca dos Leões, 10 de Junho de 812 da Era Mágica]
Meus sentidos ficaram em alerta máximo a cada movimento que as portas faziam ao serem empurradas pelos meus braços. Uma claridade um pouco mais forte se fez entre o vão das portas, e assim que elas foram completamente escancaradas, pude observar algo que nunca pensei que poderia ser possível algum dia.
Eu estava diante de uma civilização subterrânea que sobrevivia escondida em casas construídas entre vielas e paredes de uma ravina antiga. Havia bandeiras de cor laranja com silhuetas de leões em todos os locais de forma organizada, sem falar na incrível movimentação de residentes pelas ruas e decks suspensos.
Aquilo foi surpreendente de mais para mim, pois pensava que os Leões Rebeldes não passavam de um pequeno grupo de resistentes amadores, que buscavam seus objetivos apenas com a esperança de poderem mudar algo de fato. E agora com aquela revelação diante dos meus olhos, algumas coisas poderiam ser melhores planejadas e desenvolvidas.
— Parados ai! — Um guarda se aproximou de nós segurando uma lança. — Vou pedir que por favor se identifiquem de imediato, caso contrário serei obrigado a dar um fim em vocês nesse exato momento.
Eu e Miyuki nos entre olhamos, e então olhamos para os jovens atrás de nós. Sabíamos que não teríamos muitas escolhas, se não dizer a verdade e tentar entrar de forma pacífica naquele lugar.
— Eu peguei esses jovens arruaceiros e criminosos tentando roubar as pessoas que passavam por uma das estradas que cruzam esse lugar. Acredito que devam pertencer a vocês... — Coloquei meu braço a frente deles em forma de apresentação. — Eles têm sorte de terem me encontrado ao invés de qualquer outro por aí.
— Esse armamento... Ah, vocês com certeza estão bem encrencados! — O guarda observou que eles haviam roubado do armazém de seu quartel.
— Me chamo Magnus Wi... — Por um momento eu pensei melhor, e então decidi não revelar meu sobrenome tão cedo. — Bem... Sobrenomes não importam muito agora. Me chame apenas por Magnus, sou um nobre mercador em busca de ascensão. Essa é Miyuki, minha fiel serviçal nessa viagem.
— Muito prazer aos dois. E obrigado por trazer nossos jovens até aqui novamente em segurança. — Ele colocou a mão aberta sobre o peito e então se curvou em agradecimento.
— Ouvi muito dizer sobre a Resistência Leonina. Na verdade eu recebi uma carta convite para me juntar a vocês. — Retirei do meu bolso o selo de cera leonino que antes prendia carta, e em seguida lhe entreguei. — Acredito ser um simpatizante da causa, e gostaria de poder conhecê-los melhor. Se não for muito incômodo.
— Acho que já me provaram que são confiáveis para poderem adentrar aos aposentos do Leão. — O guarda então me devolveu o selo. — Guarde consigo, e leve isso ao nosso líder, seu nome é Dominc Leonheart. Sejam Bem vindos oficialmente a Toca dos Leões Rebeldes. E que a esperança esteja em seu coração nobre homem.
Ele mais uma vez se curvou em reverência para mim, abrindo passagem para que eu, Miyuki e Fenrir passássemos. Enquanto que os jovens ficaram detidos para serem interrogados posteriormente. Mas quando já estávamos seguindo caminho em direção a passagem do estreito que levava ao primeiro deck suspenso, Suzana veio correndo e pegou em meu pulso, me impedindo de continuar.
— Minha mãe sempre me contava histórias sobre você e seu irmão. Sobre o glorioso Reino de Eldoria. — Sua expressão estava sombria. E a mão daquela garota não parecia querer parar de tremer. — Se você está vivo... Então vou acreditar que o Guardião de Eldoria ainda vive dentro de si também. Por favor, salve o nosso mundo. O mundo em que meus pais queriam ter vivido juntos e felizes. Retire de nossas terras todo o mal que os Algardianos deixaram. E varra de uma vez por todas... Aqueles que arrancaram meus pais de mim.
— Você tem razão... — Me ajoelhei diante dela para que ficasse do seu tamanho, e então coloquei minha mão diante de nós. Um Brilho dourado, caloroso e fraco se fez em minhas mãos, tomando lentamente a silhueta de uma águia. — Eu ainda sou o Guardião de Eldoria, e vou fazer o que for preciso para salvar o nosso mundo. Eu prometo.
— Obrigada Lorde Magnus. — Ela assentiu com a cabeça, e então me mostrou um sorriso gentil entre lágrimas.
Assenti a ela com a cabeça e me coloquei em pé novamente, logo o guarda apareceu correndo atrás da garota, achando que havia fugido.
— Está tudo bem. Ela vai obedecer ao senhor! — Pisquei para ela em sinal de aprovação, e assim ela limpou as lágrimas, se juntando ao guarda, tomando rumo de onde haviam vindo.
— Lorde Magnus, será que ela era... — Miyuki colocou suas mãos unidas em frente de seu corpo esperando que completasse sua frase.
— Não tenho dúvidas quanto a isso também. Aqui é um antro de pessoas que foram lesadas e prejudicadas pelo atual Império Algardiano. — Me virei para Miyuki andando em sua direção. — Se tudo o que foi dito for verdade... A quantidade de refugiados Eldorianos aqui pode ser significativo...
— Nossas identidades secretas não vão durar muito tempo aqui. — Miyuki se aproximou colocando suas mãos sobre meu peito.
— Realmente, talvez não durem muito. Mas, eu ao menos quero conseguir apoio desses rebeldes. — Olhei nos olhos de Miyuki que tornou a ficar na ponta dos pés.
— Nós vamos conseguir. É só o começo. — Ela se aproximou lentamente de mim beijando-me calorosamente.
— Precisava ser agora? — Sorri gentilmente de canto, colocando as mãos sobre sua cintura. — Devo acreditar que deveria ser um segredo nosso, não?
— Está vendo alguém por aqui Lorde Magnus? — Aquele sorriso safado e convencido, era uma faceta de Miyuki que havia conhecido recentemente. — Vamos? Ainda temos que conversar com o tal Senhor Leonheart.
— Escorregadia como um peixe não é mesmo? — A provoquei observando sua intenção de fugir daquela conversa.
— Ah... Você nem sabe... — Com um sorriso no rosto e as mãos unidas na sua frente mais uma vez, logo começou andar rumo ao caminho que nos levaria ao centro daquele lugar, requebrando sua cintura, a cada passo dado, gentilmente delicada. Tenho que confessar que observá-la dessa forma, era inexplicavelmente excitante.
[...]
Caminhando pelos decks e pontes que interligavam todos os cantos daquele lugar, pude observar os rebeldes mais de perto. Todos eram muito unidos e gentis uns com os outros, e obviamente que isso me lembrou o antigo lar que antes me pertencia.
Como já havia percebido que ali muito provavelmente existiam refugiados de Eldoria, comecei a acreditar que muito desse comportamento poderia ser influência destes que aqui estavam. Claramente isso deixava um calor aconchegante em meu coração apesar do pensamento orgulhoso e convencido. Mas por saber que a cultura e a alma do meu povo ainda permanece viva nos corações daqueles refugiados, algo parecia me trazer esse tipo de sentimento.
Na base Rebelde pude ver vários tipos de prestadores de serviços, desde ferreiros, mercadores, caçadores, lenhadores e até mesmo padeiros. Aquela civilização subterrânea era muito bem organizada e gerenciada por quem quer estivesse no comando.
Como ainda estávamos um tanto quanto perdidos naquele lugar, começamos a perguntar as pessoas que ali viviam, sobre como chegar até a sala de Dominic, e assim descobrimos que sua sala ficava no lugar mais alto da ravina.
Subimos as escadas, passamos pelos decks e até mesmo conseguimos avistar as casas dos moradores daquele lugar, eram residências abertas e moldadas na própria parede da Ravina, e assim, caminhando mais um pouco finalmente chegamos à sala de Dominic.
Havia dois guardas armados com lanças na porta da entrada, o brasão leonino estava logo ao lado dos mesmos. Olhando com mais cuidado percebi que a fachada do local não se diferenciava muito das demais casas que havíamos visto agora pouco, e até parecia simples de mais para alguém com tamanha autoridade. Talvez eu só não estivesse acostumado a ver algo desse tipo, já que na minha vida toda aprendi que como nobre, deveria agir, me vestir e atuar como um membro de minha casta.
— Com sua licença, aqui é o local onde posso encontrar o senhor Dominic? — Me referi a um dos guardas que olhou para mim com certo desdém.
— Quem é você? — De forma assertiva e nada simpática, ele me respondeu com outra pergunta.
— Meu nome é Magnus, vim até aqui por conta da carta que me foi enviada. — Retirei o selo por mais uma vez do meu bolso, mostrando-a ao soldado. — Me pediram para vir entregá-lo a Dominic e conversar com ele.
— Eu estou te avisando Dominic! Você sabe que eu te amo, mas não posso deixar que mais pessoas se infectem com essa desgraça que vem se alastrado! — Uma mulher de cabelos castanhos ondulados, olhos verdes e pele escura saiu pela porta daquele lugar. Estava trajada com um par de botas de couro, calças pretas do mesmo material, uma blusa branca e um espartilho. — Eu sou médica Dominic! E se você continuar a colocar seu povo em perigo dessa forma, logo não teremos mais qualquer vestígio de sua resistência em Thâmitris!
— Calma lá Ursula! Eu sei que está chateada, mas se não tentarmos, quem irá destruir aquele lugar? Pessoas vão continuar a se infectar e logo ninguém mais vai poder conter essa praga! — Aquele deveria ser Dominic Leonheart, um homem jovem com estatura semelhante a minha. Cabelos loiros muito bem aparados, pele branca e olhos castanhos claros. Estava trajado com uma blusa branca, um casaco negro de gola alta relativamente elegante, calças brancas e um par de botas de couro. — Se quisermos proteger de fato as pessoas, você precisa me deixar tentar.
— Muito bem... — Ursula deu um grande suspiro. — Mas tome mais cuidado com aqueles que enviar em expedição, e cuide-se também. Só essa semana já foram cinco novos infectados por essa doença demoníaca. Eu prezo por sua vida Dominic, preze por ela também.
Eu, Miyuki e Fenrir ficamos observando toda aquela cena acontecer diante aos nossos olhos. A princípio parecia ser uma discussão normal de casal, mas após ouvir um pouco mais, percebi que se tratava de algo mais perigoso e talvez até mesmo alinhado aos Algardianos. A mulher tomou seu rumo, deixando Dominic na frente da porta observando-a ir embora, já eu por outro lado, decidi que aquele era o momento certo de me apresentar para ele.
— Senhor Dominic? — Me aproximei do mesmo que logo prendeu sua atenção a mim em um olhar observador. Provavelmente tentou me reconhecer, mas seria impossível já que nunca havíamos nos vistos até aquele momento.
— Ah sim... Sou eu mesmo, em que posso ajuda-lo? Você não é daqui correto? Nunca te vi aqui na toca dos leões. — Ele se aproximou de mim estendendo sua mão em um ato educado.
— Presumo que realmente nunca nos vimos antes. Mas tenho muitos assuntos a tratar com você. — Aperto sua mão olhando em seus olhos, dando firmeza e confiança no que dizia. — São assuntos de extrema urgência, e de interesse mútuo.
— Não me assuste de tal forma. Já tenho problemas de mais para um único dia. — Ele sorriu na tentativa de quebrar o gelo daquele momento. — Qual seria a honra de sua graça?
— Meu nome é Magnus Wingsfield. — Os olhos dele se arregalaram a cada letra dita do meu nome. E em questão de segundos, ele me encarava em estado de choque, até que colocou suas mãos em meus ombros. — Eu sou o Príncipe do caído Reino de Eldoria.
— Você... É você mesmo! Eu não posso acreditar! Você recebeu minha carta!? Pelos deuses! Enfim uma notícia que agrada meus ouvidos! Você tá vivo! — Então ele me soltou subitamente após todo aquele alarde. — Você não tem ideia do quanto eu estava esperando por esse momento! Vamos, entrem, entrem! Realmente temos muito a conversar!
[...]
Eu e Miyuki fomos recebidos por Dominic, que logo nos levou ao seu escritório. Era um cômodo um tanto pequeno, mas muito bem organizado e aconchegante, diria que perfeito para o tipo de trabalho que exercia ali.
Havia estantes nas paredes, baús nos cantos da sala e uma mesa de madeira espessa muito bem feita. Do lado contrário aonde nós estávamos, sentou Dominic em sua poltrona. Atrás do mesmo, havia uma enorme bandeira do estandarte Leonino Rebelde, que deixava a figura do homem sentado a minha frente cada vez mais imponente e importante.
Nós nos sentamos nas cadeiras diante a ele, e logo que nos acomodamos, iniciamos aquela reunião que poderia mudar o rumo de muitas coisas.
— Quem diria? Então o escolhido por Hawlking está vivo! Eu não poderia estar mais feliz com tamanha surpresa! — O sorriso no rosto de Dominic parecia genuinamente verdadeiro, era como se uma chama de esperança estivesse ascendido em seu coração. — Perdoe-me a grosseria, me chamo Dominic Leonheart. É um prazer conhecê-los! Quem é a linda jovem dama ao seu lado Lorde Magnus?
— Lorde...? Ugh! — Miyuki deu uma cotovelada em minha costela me impedindo de questionar muito mais como queria.
— Miyuki! Miyuki Naomi. É um prazer senhor Leonheart. — Ela então curvou sua cabeça em reverência. — Sou a serviçal pessoal de Magnus desde a nossa adolescência. Fui escolhida a dedo por seu pai ainda quando estava vivo.
— Falando nisso, meus pêsames por seu pai Magnus. Eu soube o que fizeram... E nem consigo imaginar quão grande é sua dor. — Dominic uniu suas mãos sobre a mesa enquanto olhava para mim fixamente.
— Eu agradeço sua gentileza. Acredito que meu pai gostaria que seguíssemos em frente. — Momentaneamente lembro-me de suas palavras para mim, antes de ser decapitado diante dos meus olhos. — Para cumprirmos com o legado que me deixaste... Vamos ter muito trabalho pela frente.
— É... De fato realmente teremos. — Dominic olhou atentamente para mim ao perceber que minha fúria estava presente naquela sala. Minhas mãos se fecharam firmemente em punhos, e meu olhar ficou sombrio por alguns segundos. — Muito bem! Nesse caso vou lhe mostrar todo o nosso local e como trabalhamos! Acredito que com você aqui teremos mais motivação e força para atingirmos nossos objetivos!
— Na verdade Dominic, eu não pretendo ficar no momento. Ainda gostaria de tentar falar com o Reino Élfico e a Ordem Sacro Mágica. Devo acreditar que serão ótimas cartas para nós usarmos em campo de batalha. — Miyuki pousou sua mão sobre a minha, de forma que me encorajou a fazer o que fosse preciso. — Meu objetivo aqui é saber se vou poder contar com os Leões Rebeldes.
— De fato, isso me parece sensato de sua parte. Então para que não haja nenhum mal entendido ou desconfiança de nossas partes... — Ele estalou os dedos duas vezes, e então uma figura familiar se virou para mim naquela sala. A princípio, achei que não fosse ninguém de muita importância, e que não se passava de um serviçal. Mas eu errei muito feio em meu julgamento.
— Sr. Draves!? — Me levantei instintivamente surpreso ao reconhecê-lo.
— Olá Jovem Magnus. Ou melhor! Lorde Magnus não é mesmo? — Ele sorriu para mim enquanto colocava suas mãos na cintura.
— Mas, como? — Minha atenção novamente se cravou em Dominic que apenas observava a cena apoiando sua cabeça sobre suas mãos entrelaçadas.
— Simples, ordenei que Draves investigasse os terrenos da antiga e caída Eldoria. Ele encontrou seus rastros e então lhe seguiu. Draves é o melhor detetive que tenho em mãos. — Orgulhoso de seu homem, Dominic fechou os olhos enquanto continuava a explicação. — Dei a ele dinheiro suficiente para que pudesse comprar uma casa naquela vila, e o mandei ficar de olho em você. Pois gostaria de saber quais seriam seus rumos. Então quando fosse a hora correta, pedi que Draves lhe entregasse aquela carta e te contasse tudo o que sabíamos até então.
— Me forçando a colocar o pé na estrada com o intuito de agir e fazer alguma coisa a respeito. — Completei sua frase enquanto mantinha meu olhar fixo ao dele. — Você já sabia de tudo então? O que fizeram é astuto, devo admitir. Porém doentio de certa forma pro meu gosto.
— Tempos difíceis. Medidas extremas. — Dominic finalmente se levantou. — Não quero que entenda meus motivos, mas preciso que confie em mim. O fato de Miyuki ter aparecido naquela floresta, foi um bônus que definitivamente não estava em meus planos. Por isso obrigado senhorita.
— Nesse caso, você sempre esteve a um passo a frente de mim. — Abri um sorriso de canto, um tanto quanto incômodo, mas surpreso e empolgado.
— Ah Jovem Lorde... Você nem imagina... — Dominic cruzou os braços. — Talvez seja por esse motivo que ainda continuamos vivos até então. Eu costumo ter olhos em todos os lugares.
— Certo, me convenceu. Vou confiar em você. — Estendi minha mão a ele que logo tornou a pegá-la com firmeza.
— Vamos dar um jeito nesses Algardianos nojentos. Já passou da hora deles encontrarem o seu fim. —Algo me dizia que Dominic, tinha um passado um tanto quanto sombrio juntamente aos Algardianos.
[...]
Após sairmos de sua sala, Dominic começou a nos apresentar cada mínimo detalhe da tão famigerada Toca dos Leões Rebeldes. Ficamos por mais ou menos uma hora andando por todo o local e por fim nos foi apresentado nossos aposentos para aquela noite. Mas um lugar me chamou a atenção durante nosso tour pelo lugar, o que me fez parar de forma espontânea para observar um pouco mais a dentro.
— Ah! Perdão! Esqueci-me desse lugar! — Dominic se aproximou de mim, colocando a mão sobre meu ombro. — Esse é o Quartel General das nossas tropas. Aqui é onde os nossos soldados treinam, se conhecem e traçam suas estratégias.
— Aqui é onde estão seus melhores soldados então. — Cruzei os braços e observei pela porta aberta os soldados conversando e treinando.
— Sim! De fato é onde estão nossos campeões. — Ele colocou suas mãos sobre a cintura enquanto observava junto a mim.
— Me mostre os homens que irão comigo para o campo de batalha. — Dominic olhou para mim tentando entender o que estava falando.
— Desculpa. Eu acredito não ter ouvido direito. — Ele ainda estava tentando compreender minha fala.
— Há alguns momentos atrás você estava discutindo com uma mulher sobre uma missão perigosa em que estão perdendo homens pra algum tipo de infecção. — Olhei para ele ainda mantendo meus braços cruzados. — Até então você fez o possível para que eu pudesse confiar em você. Nesse caso, essa vai ser minha prova de que poderá contar comigo.
— Você tem certeza disso? Eu realmente estou tendo muitas baixas. E... — Decido interrompê-lo para que não continuasse com aquele pensamento depreciativo.
— Apenas confie em mim. Vou destruir o que quer que seja, e dar um fim ao que te aflige. — Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ele finalmente cedeu.
— Certo, certo! Não vou tentar argumentar contra. Se essa é sua decisão... Então é melhor que volte vivo! — Ele apontou para mim seriamente. — Vou te apresentar aos meus melhores homens.
— Lorde Magnus... Tem certeza disso? — Miyuki se aproximou de mim com uma feição um tanto quanto preocupada. — Não acha que pode estar tomando uma iniciativa muito precipitada?
— Se é algo que está dando tanta dor de cabeça a eles, então devemos começar por deixar nossos aliados mais preparados para o que vem pela frente. — Me agachei próximo de Fenrir acariciando-o entre as orelhas. — Vamos confiar na benção de Hawlking. Seja lá o que for eu só preciso garantir que não trará mais problemas a nós. E por precaução, dessa vez vou pedir para que fique aqui. Na verdade não é um pedido é uma ordem.
— Tudo bem. Vou obedecer dessa vez, mas tome cuidado. Eldoria não será nada sem seu príncipe regente. — Ela mais uma vez demonstrou sua preocupação, e eu conseguia entendê-la.
— Prometo que voltarei. — Dizendo isso me afasto e sigo em direção a Dominic que me esperava na entrada do Quartel.
Seguimos a diante passando por vários soldados rasos que treinavam com auxílio de seus mentores. Mais ao fundo daquele primeiro espaço, um enorme salão oval crescia dentro daquelas paredes, onde em seu centro, uma espécie de ringue de combate se fazia ao chão.
Havia dois soldados lutando entre si, enquanto outros só assistiam ou esperavam a sua vez de entrar e mostrar o que sabiam. Um dos homens que lutava no ringue chamava bastante atenção por seu físico e suas habilidades de luta.
Seus cabelos loiros e lisos tinham comprimento suficiente até a altura do seu pescoço, mas estavam amarrados em um rabo de cavalo. Seus olhos eram azuis intensamente fortes, quase como se fossem o próprio mar profundo encarnado no olhar de uma pessoa. Como estava usando apenas calças e botas, pude perceber as cicatrizes e marcas de combate espalhadas pelo seu corpo.
Era jovem, e possivelmente um pouco mais velho do que eu, mas a julgar pela forma como lutava, ele claramente tinha muito mais experiências do que já mais tive em toda a minha vida. Ele desviava com destreza e socava com ferocidade utilizando seus punhos protegidos por ataduras, o oponente mal conseguia se defender de seus ataques rápidos e precisos, não demorando muito para ser nocauteado após alguns minutos de batalha.
— Aquele ali é Sadreen Volveig, um refugiado e provavelmente o último nórdico vivo dos povos antigos que viviam naquele lugar. Ele foi encontrado em uma de nossas expedições, quando colocou sua própria vida em risco para proteger uma família que estava sendo atacada pelos Algardianos. — Dominic cruzou os braços enquanto o observava. — Desde então Sadreen se juntou a nossa causa, e vem nos ajudando a cuidar de várias tarefas, além de treinar muitos de nossos melhores soldados.
— Isso explica como ele pode ser tão forte. Deve ter tido várias experiências que o colocaram a beira do penhasco entre a vida e a morte. — Observei-o atentamente até que nossos olhares se cruzaram.
— Você não devia ter vindo até aqui novato! Não nesse momento. — Por mais que sua voz passasse certo entusiasmo e falasse seriamente comigo, eu não me deixei ser intimidado, mas fiquei minimamente curioso para saber o motivo para tal alegação.
— E porque eu não deveria estar aqui? — Retornei a pergunta a ele. Mas a voz que me respondeu era muito mais velha e assustadora que a dele.
— Porque é com você que vou lutar agora novato. — Um homem alto, de cabelos longos e vermelhos, olhos da mesma cor, e um físico incrivelmente forte se aproximou vestindo apenas botas e calça de couro. Assim como Sadreen, ele enrolava as ataduras em volta de seu braço. — Eu gosto de testar a força daqueles que estarão conosco. É uma pena que você tenha caído justamente no meu dia. Regras do Ringue! Se pisou aqui, tem que estar pronto pra ser desafiado!
Ele socou sua palma da mão aberta, abrindo um pequeno sorriso convencido em seu rosto. Pode ter sido impressão minha, mas ao prestar um pouco mais de atenção nele, vi seus dentes caninos serem um pouco maiores que o normal, além de aparentar ter uma pele mais grossa e resistente que a de um humano comum.
Seus olhos vermelhos eram como se estivessem sempre incendiando suas íris, além de suas pupilas serem como as de um lagarto predador. Claramente ele deveria ter algo em torno de 1,98m de altura, mas o que mais me assustava nele era a sua incrível capacidade física.
— E aí? Vai arregar? — Ele ficou frente a frente comigo em um tom desafiador.
— Magnus, antes de você aceitar o combate, acho melhor lhe apresentar... — Dominic pousou sua mão sobre meu ombro na tentativa de me impedir de tomar qualquer decisão de maneira abrupta.
— Eu aceito! — Todos olharam para mim surpresos, enquanto aquele brutamonte perdeu um pouco do brilho em seu sorriso. — Se são as regras da casa... Então eu farei como me disse, eu aceito seu desafio.
— Magnus?! Ficou maluco!? Você não tem a menor noção de quem é esse cara! — Dominic me agarrou pelos ombros ao me virar para ele. — Ele é o meu Campeão! Meu soldado mais forte!
— No campo de batalha também não saberemos quem serão nossos oponentes. É melhor se acostumarem com as situações em que se encontrarão. — Expliquei a Dominic meus motivos, e o mesmo não teve como argumentar comigo. — Ei grandão! Vai ser um duelo mano a mano!
— Gostei de você Rapaz. Também acredito que não há jeito melhor da gente se conhecer do que em meio a troca de bons socos! Sim, nos enfrentaremos em um mano a mano! — Ele amarrou seu cabelo em um rabo de cavalo e subiu para cima do Ringue em seguida.
— Se eu ganhar o que você vai me dar em troca? — O questionei ao começar a retirar minhas armaduras e roupas de cima.
— Confiarei em você e em seu potencial! Até hoje ninguém nunca me derrotou aqui! — Ele cruzou os braços enquanto esperava.
— Justo. — Brevemente um flash de memória do dia em que enfrentei Elize pela primeira vez me veio à mente. Eu tinha que fazer aquela batalha ser tão promissora quanto a que venci “A Orgulhosa Esgrimista de Gelo”.
— Lorde Magnus, não acha que está passando um pouco dos limites? Vai acabar se machucando. — Miyuki se aproximou com Fenrir que se sentou ao lado dela com a língua para fora.
— Preciso fazê-los entender que não sou um garoto. Se me querem como rei, então preciso deixar minha marca e ganhar o respeito até mesmo daqueles que me desconhecem. — Olhei para ela, entregando minhas coisas em suas mãos. — Assim como meu pai também trilhou o seu caminho...
— Tudo bem, mas tome cuidado! — Miyuki então se afastou do ringue junto a Fenrir, enquanto que eu me coloquei frente a frente ao meu oponente.
Sem camisa, apenas com calças, botas e os punhos como arma. Um dos soldados me entregou um par de ataduras, então logo envolvi meus braços e mãos com elas.
— Espero poder atender suas expectativas! — Ergui minha guarda olhando firmemente em seus olhos.
— Não se preocupe com isso. Você não vai. — Ele também ergueu sua guarda ao ficar frente a frente comigo.
— Eu arbitrarei essa luta! — Dominic subiu no ringue ficando entre nós dois. — Estão prontos senhores!?
— Pronto! — Respondi de forma corajosa.
— As suas ordens comandante. — O brutamonte sorriu sem tirar seus olhos de mim.
— COMECEM! — Dominic deu a ordem de início.
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