O Último Eldoriano Brasileira

Autor(a): Gustavo M. P.

Revisão: OUltimoEldorianoOficial


Volume 1

Capítulo 10: A Toca do Leão Rebelde

[Vilarejo Secreto Eldoriano, 10 de Junho de 812 da Era Mágica]

 

— Bom dia Lorde Magnus! — O ferreiro do vilarejo cumprimentou-me enquanto seguia meu caminho em direção ao grande salão de reuniões do vilarejo.

— Bom dia! Tenha um excelente dia de trabalho! — Acenei a ele sorrindo.

Desde que cheguei ao vilarejo, Fenrir passou a me acompanhar aonde quer que eu fosse, a saudade era tanta que até em minha nova casa ele fez questão de estar alojado. Todos haviam tentado levar aquele enorme lobo para o local onde geralmente ele dormia, mas ninguém conseguiu superar sua teimosia e força.

Isso acabou gerando uma série de momentos cômicos e muito engraçados para um único dia, que só terminaram quando todos desistiram de tentar convencê-lo a sair de perto de mim.

Muita coisa havia mudado, desde os planejamentos para meu povo, bem como para meus objetivos pessoais, pois dentro de mim havia crescido uma nova força motivadora de mentalidade para enfrentar tudo o que estaria por vir. Os Eldorianos ainda estavam vivos, e para mim não havia razão melhor do que essa para estar pronto para qualquer coisa que fosse.

 Acabei entrando em uma rotina desde os primeiros dias desde que havia chegado aqui. Eu acordava, me vestia adequadamente e seguia até a grande casa de reuniões enquanto cumprimentava e acenava para todos que apareciam em meu caminho.

Com minha chegada naquele lugar o sistema organizacional foi reformulado e melhorado conforme meus estudos durante minha infância como príncipe, ocorreu também uma grande expansão por nossas terras, que estava sendo supervisionada pessoalmente por mim.

Eu tinha em mente que o Reino de Eldoria não havia caído totalmente, e nós o reergueríamos pedra por pedra, tijolo por tijolo se assim fosse necessário.

É nessas horas que costumo dar graças a Halwking, pois se não fosse pelo meu falecido pai e o meu irmão, o meu conhecimento nos dias atuais, sobre gerir pessoas, manter uma administração organizada, cuidar da parte burocrática e ainda saber manter aliados fortes ao meu lado seria extremamente fraco em comparação a outros príncipes e governantes.

Pensando nisso, tomei a liberdade de criar a "Academia Escolar Multidisciplinar de Eldoria", uma ideia minha totalmente pensada nas futuras gerações que viriam a crescer juntamente a Nova Eldoria. Porém, eu sabia que dar início a esse projeto seria algo que demandaria um bom tempo.

— Lorde Magnus! Que bom que chegou cedo hoje. — Miyuki me aguardava na frente da grande casa, trajada em roupas mais modestas como as que usava durante a época em que trabalhou para mim no antigo palácio. — Os anciões da vila estão ao seu aguardo, todos estão com boas expectativas quanto a suas ideias.

— Confesso estar um pouco nervoso Miyuki. Mas acho que podemos convencê-los de que eu não preciso tomar posse de nada por agora. — Miyuki assentiu com a cabeça, pois depois de tanto pensar, eu havia chegado a conclusão de que não estava pronto para ser rei.

Eu tinha objetivos pessoais que precisavam ser atingidos antes de colocar uma coroa de tamanha responsabilidade em minha cabeça. Preciso garantir que Algardia não se torne uma ameaça novamente para nós. Mas não vou poder fazer isso sozinho.

— Seja como for, estou torcendo por cada uma de suas decisões meu Lorde. — Miyuki ficou na ponta de seus pés e então pegou gentilmente em minha bochecha, a beijando logo em seguida. — Vou ficar aqui com Fenrir a sua espera.

— Obrigado. — Um tanto quanto corado, assenti com a cabeça para ela. Ordenei a Fenrir que ficasse, enquanto ia em direção a grande porta dupla daquele edifício.

Fenrir sentou ao lado de Miyuki, e assim acenei aos dois enquanto abria aquelas portas usando minha força para empurrá-las de fora para dentro.

Uma vez que estava dentro daquele lugar, segui caminhando até a sala de reuniões, onde todos já estavam presentes em seus devidos lugares diante a uma mesa gigante e redonda.

— Ah Lorde Magnus! Que bom que se juntou a nós! — Exclamou de forma acolhedora o líder daquele conselho. Seu nome era Arthur O'Hana, e claramente eu devia a ele as vidas que havia conseguido salvar nesse lugar. Ele foi o responsável por todas as decisões que levaram esse vilarejo a ser o que se tornou agora, então tudo o que posso oferecer a ele agora minimamente seria respeito. — Estávamos preocupados quanto a sua presença no dia de hoje. Sabemos o quão assustador pode ser torna-se Rei de um dia para o outro dessa forma.

— Perdoe-me por preocupá-los senhor Arthur. Mas o que realmente tenho a dizer a vocês hoje é de suma importância. — Olhei para todos os membros mais antigos daquela vila com convicção do que precisava ser dito.

— Oh... Bem... Nesse caso sente-se! Vamos conversar e ouvir o que tem a nos dizer. — Ele sentou em sua cadeira diante a enorme mesa redonda, que continha a presença de mais cinco conselheiros.

— Certo. — Me coloquei frente a frente diante deles respirando de forma profunda, e finalmente dando início a explicação para meus planos daqui em diante. — Eu não irei assumir a coroa da Nova Eldoria.

— O que?! — Arthur se levantou automaticamente, e em seguida todos se levantaram assustados da mesma forma.

— Mas Magnus... — A senhora Gremory olhou para mim um tanto quanto sentimental. Aquela era a mesma senhora que me recebeu assim que havia pisado no vilarejo. Ela era a representante geral dos moradores. — Isso não seria um desrespeito ao povo? E até mesmo ao seu pai?

— É um ultraje!!! É sua responsabilidade como filho do Rei!!! — Alfredo, o líder dos lenhadores gritou com ira enquanto batia seu punho na mesa com força. — Não posso simplesmente aceitar isso!!! Esperamos por tanto tempo esse moleque chegar aqui, ele não pode achar que vai simplesmente fugir de suas obrigações?! O que acha que estamos fazendo aqui hein?!

— Alfredo, está indo longe demais com Magnus. A afirmação inicial dele assusta, mas ainda não terminamos de ouvir suas propostas. — Arthur tentou ponderar, mas Alfredo estava muito irritado para lhe dar ouvido.

Aquele homem não era uma pessoa ruim, mas tinha um histórico um tanto quanto grande em situações onde havia perdido a cabeça. A reputação dele era tão famosa pela vila a ponto de chamá-lo de "Alfredo, O Nervoso", a diferença é que eu odiava esse tipo de situação, e não era tão bonzinho quanto parecia ser.

Alfredo se aproximou de mim, ficando frente a frente comigo enquanto me encarava. Nossos olhares se cruzaram brevemente, até que finalmente franzi meu cenho para ele, e o mesmo respondeu com um sorriso sarcástico.

— O que acha que meu pai faria numa situação dessas Senhor Alfredo? — Seriamente o confrontei.

— Seu pai está morto rapaz. Você deveria assumir suas responsabilidades! — Ele continuou seu sarcasmo pro meu lado.

— Muito bem, resposta correta, vou cuidar pessoalmente de você então. — Ele voltou a sorrir de forma sarcástica, mas sua felicidade irônica não durou por mais tempo.

De forma rápida, passei uma rasteira em seu pé direito enquanto suas pernas ainda estavam abertas. Fazendo com que perdesse o equilíbrio, peguei em seu pescoço e o joguei por cima da mesa, o derrotando antes mesmo que algo pudesse acontecer.

Ele tentou se levantar, mas antes mesmo que pudesse erguer sua cabeça agarrei seu pescoço com força o prendendo mais uma vez a superfície daquela mesa.

— Devia pensar melhor antes de escolher seus oponentes seu brigão arruaceiro. — Olhei para ele com desgosto, enquanto todos observavam aquela cena sem querer se envolver muito. — Devia mandar matá-lo por desacato a uma figura da realeza. Mas você tem sorte de eu não ser meu pai. Coloque-se em seu devido lugar.

— Lorde Magnus! Por favor, peço que o deixe e continue sua explicação. — A senhora Gremory colocou suas mãos sobre meu braço.

— Certo. Você é realmente um cara de sorte. — Soltei Alfredo que logo se pôs a respirar profundamente após ficar livre mais uma vez. — Como eu estava dizendo, não pretendo assumir a coroa de Eldoria. Pelo menos, ainda não...

— Quais seriam seus motivos Lorde Magnus? — Gremory parecia realmente interessada em ouvir o que tinha a dizer.

— Nesse exato momento... Todos em Thâmitris pensam que os membros da família Real Eldoriana estão mortos, e que os Wingsfield são apenas poeira que voaram com os ventos do passado. — Olhei firmemente nos olhos de cada um enquanto explicava os meus pensamentos sobre a nossa situação. — Se eu me revelar nesse momento, por mais uma vez Thâmitris colocaria suas atenções sobre mim e consequentemente...

— Algardia viria ao nosso encontro para finalizar aquilo que deixou pela metade. — Arthur finalizou minha fala enquanto acariciava sua barba cheia e grisalha. — Você realmente tem razão Lorde Magnus.

— Não é só isso que pode ser visto com inteligência na situação em que estamos. — Me apoiei diante da mesa fazendo uma breve pausa em minha fala. — Podemos usar isso ao nosso favor também. Só que eu precisaria embarcar em uma jornada que provavelmente duraria vários meses.

— O que você realmente pretende Lorde Magnus? — A senhora Anabella, líder que representava o campesinato, me olhava atentamente enquanto tentava entender aonde eu gostaria chegar.

— Eu vou criar laços com aliados aos quais possamos contar quando for a hora certa... E eu sei exatamente onde encontrá-los. — Peguei o mapa de Thâmitris que estava comigo e o abri para todos naquela mesa, apontando diretamente para a Árvore Sagrada da Vida. — O Reino Élfico está sob ameaça de Algardia, e juntamente a ele A Ordem Sacro Mágica. E eles não são os únicos que podem nos oferecer força e aliança bélica o suficiente para aguentar a guerra que está por vir.

— Está se referindo ao tais Rebeldes Leoninos meu Lorde? — Esse era William Dubrock, o atual representante da força bélica do vilarejo, é o mais novo dentre todos os membros diante aquela mesa.

— Sim William, inclusive essa semana estarei treinando você e os seus melhores soldados. Irão se tornar os melhores professores aptos para ensinar mais homens que queiram servir em nome de Eldoria. E enquanto estiver fora gostaria de me sentir seguro quanto a proteção da nossa vila.

— As suas ordens meu Lorde! — Ele colocou seu punho sobre seu peito em sinal de respeito.

— Não quero apenas depender dos Rebeldes e do Reino Élfico, e por isso gostaria de visitar os demais domínios não atingidos por Algardia ainda. — Coloquei meu dedo sobre o território do Reino Litorâneo de Melmardy no mapa. — Não sei como nossos companheiros cães do mar vão nos receber. Mas não posso deixar de pelo menos tentar. Além disso, gostaria de usar a influência marítima deles para viajar até os Domínios de Eiyonia... E visitar um velho amigo do meu pai. Tenho certeza que ele poderá nos ajudar.

Todos se entre olharam e depois olharam para mim novamente. Pareciam ter entendido meus motivos, "porquês" e soluções para toda aquela situação que estava por vir ainda.

— Nosso objetivo daqui em diante vai ser reerguer Eldoria, reestabelecer forças e por fim derrotar Algardia de uma vez por todas. — Me levantei diante a mesa olhando para eles firmemente.

— Muito bem! Todos são a favor de apoiar as ideias do Lorde Magnus Wingsfield? — Arthur levantou sua mão em apoio enquanto falava.

[...]

 

[Vilarejo Secreto Eldoriano, 18 de Junho de 812 da Era Mágica]

 

Havia chegado o dia em que meus planos iriam ter seu ponto de partida, e para aquele momento eu havia me preparado muito bem.

Novamente estava usando roupas as quais estava habituado a usar, começando por minhas grevas de metal que cresciam até a altura de meus joelhos cobrindo toda a extensão de meus pés e canelas. Minha calça negra de couro se mantinha bem presa ao mesmo cinto de sempre, acompanhado pelas bolsas táticas presas na minha perna e ao próprio cinto, junto a ele estava minha faca presa as minhas costas na região da cintura, enquanto que na lateral direita trazia minha espada em sua bainha. Uma camisa branca com bordados em dourado permanecia bem presa por dentro da minha calça e por cima da mesma, vestia meu colete negro que mantinha o mesmo padrão de ornamentos da camisa.

Acoplado em minhas mãos, estavam presentes as manoplas metálicas que se entendiam até a altura de meus cotovelos, e subindo um pouco mais para cima, estavam acopladas em meus ombros proteções metálicas ornamentadas. Cruzando meu peito estava o cinto em formato de "Y", que ajudava a prender as ombreiras, e terminava se encontrando com o cinto em minha cintura que mantinha a fivela do seu centro com o brasão da família Wingsfield. Por fim, uma capa negra com bordados em dourado e um capuz profundo estava sobre todo meu corpo, para que assim não fosse facilmente reconhecido.

— Lorde Magnus! Quando você quiser! — Miyuki se aproximou de mim junto a Fenrir, pronta para a jornada que estaríamos adentrando juntos.

Fenrir deu seu poderoso latido de confirmação, e então sentou-se diante a mim, claramente esperando um carinho em sua cabeça. Ajoelhei-me próximo a ele fazendo como me pedia, e logo tornei a me levantar olhando para todos naquele vilarejo que acenavam e emanavam boas energias para nós.

— Acho que já vi essa cena antes... — Comentei baixinho para Miyuki que riu de forma tímida.

— Magnus, seu bobo... — Ela olhou para todos acenando de volta. — Apenas sorria e acene. Sorria e acene...

Olhando com mais calma para Miyuki, havia percebido que estava de volta para seu traje clássico de combate. A velha e boa guerreira serviçal. Suas botas estavam com grevas metálicas acopladas que cresciam até um pouco acima de seus joelhos. Era possível ver que sua meia calça negra estava presa a presilhas que subiam para dentro de sua saia de mesma cor. Sua armadura negra com detalhes em dourado cobria todo seu tronco até um pouco acima de seus seios. Saindo de sua barriga e descendo até a frente de sua saia um babado branco simulava uma espécie de avental, deixando com que seu aspecto de serviçal ficasse notável. Na parte de trás de suas pernas ainda havia toda uma extensão de tecido negro com bordados em dourado, que tinha seu caimento até um pouco acima de suas canelas, deixando apenas a parte da frente, onde sua saia estava projetada junto ao babado, a mostra. Em seu cinto branco e dourado, estava bem presa sua fiel Katana, e agora também havia uma versão menor da mesma, ao qual reconheci como uma Wakizashi. As costas estava presente um grande laço branco com ornamentos em dourado, dando ainda mais ênfase em seu aspecto de serviçal de guerra. Em suas mãos estavam presente manoplas metálicas que se estendiam até um pouco acima de seus cotovelos, e em seus ombros era notável as ombreiras seguidas de babados brancos por cima das mesmas. Em seu pescoço ainda havia uma pequena gargantilha de cor preta, com duas asas douradas como ornamento, e por cima de tudo isso, havia a presença de uma capa negra igual a minha.

— Vamos? — Perguntei redirecionando minha atenção a Miyuki. — Estou logo atrás de você. — Respondeu Miyuki ao assentir com sua cabeça.

E assim nos viramos e começamos a caminhar em direção a caverna que secretamente guardava a entrada das novas terras de Eldoria. Assim que saímos daquele breu da passagem naquela colina, logo me atentei a colocar o capuz sobre minha cabeça, já que assim eu não seria reconhecido facilmente.

Miyuki e Fenrir andariam ao meu lado, e eu fingiria ser um recém-nobre ascendendo a classe da burguesia, mais precisamente de terrenos e mercadorias. Eu basicamente estaria em peregrinação com intenções de comércios.

— Lorde Magnus, onde será nosso primeiro destino? — Miyuki colocou sua mão sobre a empunhadura de sua Katana enquanto me perguntava de forma entusiasmada.

— Sendo sincero, acredito que a melhor opção que temos é seguir direto para o Reino Élfico. — Olhei ao redor daquela mata, enquanto respirava um pouco de ar fresco. — Além de ser mais próximo de nós, é a melhor opção para não corrermos riscos tão cedo.

— Nesse caso, vamos começar nossa caminhada. — Miyuki logo começou a andar a minha frente, e assim me pus a segui-la juntamente a Fenrir.

— Escuta Miyuki. Eu ainda não sei como vocês encontraram o Fenrir. Gostaria de ouvir a história. — Após me ouvir, Miyuki olhou para mim por cima de seu ombro com um sorriso meigo.

Durante nossa caminhada, Miyuki me contou tudo o que havia ocorrido após os acontecimentos da invasão de Algardia. Ou pelos menos o que ela havia conseguido presenciar após voltar ao campo de batalha. Ela me disse que tudo foi muito triste e sofrido, e que não tinha forças e nem poder para fazer qualquer coisa que fosse. O corpo do meu pai foi levado, e sua cabeça foi colocada sob a ponta de uma lança, como se fossem usa-la como um troféu. Minha mãe e Elize foram capturadas e levadas pelas mãos dos Algardianos, e não se sabe o que pode ter acontecido com elas. Já minha espada que antes pertenceu ao meu pai, também foi levada pelos soldados, e mais uma vez não se sabe o que foi feito da mesma.

Fenrir por outro lado, foi encontrado nas ruínas do que um dia foi Eldoria. De acordo com Miyuki, ele estava encolhido, machucado e deprimido, esperando dormindo na frente do que um dia havia sido o palácio dos Wingsfield. Ele foi levado até a vila, tratado e bem cuidado pelas pessoas que logo o reconheceram como o "Pequeno Lobo do Príncipe", mas diferente do que pensaram eles, o luto de Fenrir durou bem mais do que se esperava. E desde então, Fenrir sempre demonstrou uma tristeza enorme mesmo quando brincava. O que mudou completamente após a minha chegada.

Miyuki por outro lado ficou dando seu melhor para proteger seu povo, treinando e aprimorando incansavelmente suas habilidades todos os dias, até que finalmente conseguiu dominar sua pequena afinidade mágica com elemento de vento. Confesso ter ficado um tanto quanto irritado com algumas informações, mas ao mesmo tempo muito orgulhoso por Miyuki, e feliz por Fenrir.

Havíamos caminhado por quase três horas seguidas enquanto conversávamos, havíamos passado por algumas várias paisagens da enorme Floresta, enquanto seguimos estrada adentro. Ainda ficaríamos mais algumas horas caminhando até que chegássemos ao território do Reino Élfico, e por isso decidimos que logo iríamos fazer uma pausa.

— Sabe... Eu ainda vou visitar as Ruínas do Antigo Reino de Eldoria. Às vezes tenho esperança de que tudo não se passou de um pesadelo, e que se eu pisasse no lugar certo... Então... — Miyuki tristemente pontuou seu pensamento para mim, apertando suas mãos que haviam se entrelaçado. — Então talvez eu pudesse acordar desse pesadelo...

— Infelizmente as coisas nem sempre podem ser do jeito que queremos. Eu aprendi isso da pior forma. — Olhei para ela subitamente, o que a fez parar e me olhar também. Aproximei-me dela fazendo-a erguer a cabeça com meu dedo em seu queixo e fixar seus olhos nos meus. — Mas sei que vamos dar um jeito. Se há um motivo para não termos morrido naquele dia, devo acreditar que esse motivo seja de que aquele dia, realmente, não era o real fim de Eldoria.

Miyuki assentiu para mim me dando um sorriso sincero, e logo continuamos a caminhar lado a lado novamente. Perguntei a ela sobre Max, e se ela tinha algum conhecimento sobre meu irmão mais novo. Ela me respondeu dizendo que não sabia nada, e que não viu Max desde aquele dia. Falei a ela sobre o ocorrido com ele, dessa vez dando mais detalhes e de como nós nos separamos em meio aquela fuga, o que a deixou um tanto assustada. Mas sem perder a confiança e a esperança, Miyuki me disse para não perder a fé, pois da mesma forma que ela não desistiu em me encontrar, eu também o encontraria em algum momento.

[...]

 

Após mais algum tempo caminhando, acabamos por decidir fazer uma pausa para descansar, estávamos próximos do início do entardecer, então o clima diante aquelas árvores estava bem fresco e agradável.

— Lorde Magnus! Temos um riacho próximo daqui! Escute! — Ela tinha bons ouvidos, realmente eu estava conseguindo ouvir o som de um riacho um tanto quanto agitado.

— É... Você tem razão. — Retirei meu capuz para refrescar um pouco minha cabeça. — Vou dar uma olhada. Pode ficar aqui e arrumar as coisas para nós? Eu logo volto.

Miyuki gentilmente assentiu com a cabeça concordando com o que havia dito.

— Fenrir! Fique com Miyuki amigão! — E logo aquele enorme lobo respondeu com seu poderoso latido em concordância.

Com tudo já esquematizado, comecei a seguir o som do riacho, esgueirando-me entre as árvores, arbustos e vegetação da mata. O som ficava cada vez mais alto, e todo passo novo que dava em direção ao suposto riacho percebia que talvez se tratasse de algo bem maior.

Até que finalmente encontrei uma enorme cascata com uma queda da água repleta de pedregulhos espalhados por todo local que era rodeado pela mata densa daquele lugar. Seguindo com os olhos a direção em que a água seguia seu curso, observei que um pequeno rio se formava a partir da cascata e que dava origem a uma corredeira posteriormente a frente.

 

"De fato... É um belo lugar..."

 

Estava quase me preparando para voltar, porém algo me chamou a atenção assim que me virei para ir embora. Uma bela e doce voz feminina começou a entoar uma canção um tanto quanto agradável de ser ouvida. Por mais que não estivesse entendendo sua linguagem, eu rapidamente fui encantado e instigado a saber de onde estava vindo tal canção. Então logo comecei a descer um pouco mais aquele rio, até chegar em um local onde a água se acumulava de forma calma em um ponto específico, criando um pequeno lago raso no local.

Ali naquele lugar, me surpreendi com uma figura que era a fonte de origem de tamanha bela voz, ela estava vestida apenas com um manto branco, que parecia um tanto quanto transparente por causa da umidade, fazendo o contorno de suas belas curvas ficarem bem explícitas.

Seus longos cabelos platinados pareciam refletir a luminosidade do sol, e assim que foram jogados para frente, pude ver suas delicadas costas que eram donas de uma pele bem cuidada. Confesso ter ficado hipnotizado ao vê-la daquele jeito, ainda mais ouvindo aquela voz que parecia ter entrado em minha cabeça.

Então comecei a observá-la com um pouco mais de atenção, até perceber que suas orelhas não eram como as de um humano normal, na verdade eram grandes e pontiagudas. Ali eu já sabia que se tratava de uma Elfa, e que para meu azar, acabou por se virar justamente em minha direção, fazendo com que nossos olhares se cruzassem por alguns segundos.

Sua cantoria cessou no momento em que ela me viu, e suas orelhas baixaram juntamente a sua expressão de vergonha e surpresa. Seus grandes olhos eram de uma cor verde intensa, quase que lembrando duas grandes pedras de esmeralda, enquanto que sua feição demonstrava delicadeza e gentileza.

Seu braço direito estava sobre seus seios na tentativa de escondê-los, mas seu olhar parou de se manter cravado junto ao meu. Aquele transe hipnótico mútuo se manteve por alguns segundos, até o momento que foi quebrado pelo poderoso latido raivoso de Fenrir, que foi tão alto ao ponto de ser ouvido mesmo estando ele aonde eu o havia deixado.

Minha atenção foi totalmente levada em direção onde aqueles dois estavam, e dando uma última olhada naquela Elfa eu comecei a correr de volta para onde Miyuki havia ficado com Fenrir, deixando-a para trás naquele pequeno rio.

Correndo o mais rápido que podia em direção a eles, atravessei a mata me recordando dos locais por onde havia passado. Assim que cheguei ao local, me escondi entre a vegetação apenas observando o que estava acontecendo naquele lugar.

Fenrir estava diante a Miyuki que segurava sua Katana com as duas mãos enquanto mantinha uma guarda alta, pronta para atacar ou finalizar alguém. Já o lobo, estava apto para pular no pescoço de sua primeira vítima, rosnando e mostrando os dentes com uma intenção claramente assassina.

Olhando mais atentamente ao redor deles, vi que estavam cercados por alguns guerreiros que estavam os importunando. Tratava-se de um grupo de três homens e duas mulheres, que por sua vez, estavam bem armados e protegidos, utilizando espadas, lanças e facas. Suas armaduras eram de couraça, cota de malha e raramente algumas placas de metais.

— Para trás!!! Eu não irei avisar novamente!!! — Gritou Miyuki tentando intimidá-los. — Eu juro que não terei piedade em matá-los!!!

— Você tem algumas coisas aí que serão muito úteis pra nós. Nos entregue e a deixaremos sair ilesa. — Argumentou aquele que parecia ser o líder do grupo.

Fenrir estava começando a ficar impaciente com toda aquela situação, e logo seus latidos começaram a ser dados como último aviso.

— Acalme seu cachorro!!! Ou terei que dar cabo dele!!! — Gritou o jovem problemático.

— Fenrir!!! Se prepare!!! — Miyuki posicionou firmemente seus pés no chão preparando seu ataque. — Se eles não vão nos deixar em paz. Então vamos fazer com que se arrependam se suas escolhas.

— Vamos pegar a força então!!! Ataquem!!!. — O líder apontou para eles, e logo todo seu esquadrão começou a se aproximar de Fenrir e Miyuki.

Percebi que havia algo estranho naquela abordagem, eles não pareciam ser bandidos, e muito menos soldados de Algardia. Eles eram jovens demais para estarem agindo daquela forma tão organizada, não deveriam ter experiência, e provavelmente só estavam seguindo ordens.

Mas uma coisa era certa. Pessoas inexperientes com armas na mão são muito mais perigosas do que pessoas devidamente treinadas. Fenrir latiu com ferocidade mais uma vez, fazendo com que eles recuassem, e foi nesse momento que percebi o medo em seus olhares, pois estavam nervosos e nada confiantes no que estavam fazendo. Ainda assim, não havia motivos para estarem fazendo aquele tipo abordagem criminosa e violenta, e só por esse motivo, eu decidi lhes punir.

— Fenrir. Pegue-o!!! — Gritei ao sair do meu esconderijo andando com os punhos fechados.

A garota que segurava sua lança caiu de bunda no chão ao se assustar, deixando com que sua arma se soltasse de suas mãos. Fenrir pulou naquele que parecia ser o líder o mordendo com ferocidade na região do braço, impedindo que o mesmo pudesse escapar.

Miyuki rapidamente rendeu o segundo garoto que segurava a espada, enquanto que eu finalizei o terceiro garoto com um poderoso soco no rosto, nocauteando-o no mesmo segundo. A última garota se desesperou e começou a chorar em estado de choque.

— P-porfavor... N-não me mate!! — Gritou ao me ver olhar fixamente para ela. — Eu... eu não queria... Eu juro que não queria!!!

Aproximei-me dela e percebi que seu desespero era real, já que ela começou a tremer perdendo totalmente a força de suas pernas caindo no chão em seguida como consequência. A mesma me olhava de baixo para cima com os olhos de quem estava arrependida de suas escolhas. Agachei-me até ela ficando frente a frente com a garota, que fechou os olhos preparando-se para seu fim.

— Largue suas armas. — Estendi minha mão a ela na expectativa de que ela me entregasse as facas que estavam em suas mãos. E sem resistir, ela fez como lhe foi mandado.

Levantei-me virando minha atenção ao líder do grupo, que ainda tentava se soltar de Fenrir, porém em vão. Aquela garota já não seria mais um problema, e seguindo as pistas do que provavelmente estava acontecendo aqui, se tratava apenas de mais uma iludida em busca de aventuras com as pessoas erradas, e por isso não iria mais causar problemas, pois não havia honra, amor ou vontade real de estar ali.

— Fenrir! Solte-o! — O lobo soltou o jovem que tentava puxar seu braço para o lado contrário ao qual Fenrir puxava. Com isso ele acabou perdendo o equilíbrio, e nesse momento eu rapidamente o agarrei pelo pescoço erguendo-o com facilidade.

— Arg... Me... Deixe ir seu idiota. — Sua voz estava falhando e ficando sem ar por conta da força exercida pela minha mão que envolvia seu pescoço.

— Você vai me responder algumas perguntas antes. — O joguei contra uma das árvores, o fazendo ficar sentado escorado em suas raízes. Aproximei-me dele agarrando o colarinho de sua armadura, e então comecei o interrogatório — Quem são vocês?!

— Vai pro inferno! — Ele riu na minha cara ainda recuperando sua respiração.

— Resposta errada. — Fechando meu punho, dei-lhe um soco bem dado utilizando minha manopla, fazendo com que o machucasse o suficiente para voar sangue de seus ferimentos. — Vou perguntar mais uma vez. Quem são vocês?!

— Eu não vou te contar nada. — E assim mais um belo soco bem dado, foi dado no rosto daquele jovem arrogante, que cuspiu sangue enquanto sorria pra mim.

— Então não vai se importar se eu der fim a uma vida inútil como a sua... — Me preparei para enfiar mais um soco encaixado na sua boca, mas fui interrompido por um pedido vindo da menina que segurava a lança.

— Pare! Por favor. — Ela segurou meu punho, e então a olhei por cima de meu ombro. — Esse idiota é orgulhoso de mais pra assumir qualquer responsabilidade. Ele não vai abrir o bico, é só mais um babaca mesmo. Eu vou te contar tudo o que você quiser. Só... Por favor, não o machuque mais.

— Fenrir. Pode brincar com ele. — Fenrir deixou sua língua de fora, e no momento em que soltei o idiota, o lobo gigante logo subiu em cima dele com a intenção de brincar, mas sem deixar que ele escapasse. — Muito bem. Sou todo ouvidos!

Ao cruzar meus braços, logo me coloquei a prestar atenção nas palavras daquela garota que se apresentou como Suzana Azimuth. Para minha surpresa, ela realmente tinha um ponto interessante na sua história, ao qual havia me chamado bastante a atenção.

Basicamente eles eram de um grupo de amigos, filhos de membros dos Rebeldes Leoninos, e o líder daquele grupo se chamava Jonny Kas'ki. Ele com ajuda de seus amigos roubaram do depósito militar da Resistência, as armaduras e armas que estavam usando naquele momento.

Jonny então teve a brilhante ideia de tentar se passar por bandidos armados, assustando viajantes e lhes obrigando a darem o que queriam. Estavam fazendo isso por dias, e até que estavam conseguindo algumas coisas, porém, o que não esperavam era a minha presença para acabar com a diversão.

— Está me dizendo que estavam roubando as pessoas que tentavam passar por essa região? Enquanto seus pais e membros da Resistência Leonina estão dando o melhor deles para proteger todos em Thâmitris? — Seriamente pontuei Suzana que só pode concordar enquanto baixava sua cabeça para mim.

— Me solte pulguento!!! — Gritou Jonny, enquanto Fenrir continuava a fazer dele de gato e sapato.

— Ah! Pelos deuses... — Com um suspiro profundo Miyuki reclamou, mesmo que um pouco aliviada. — Adolescentes... Porque sempre adolescentes!?

— Fiquem gratos por não ser alguém pior que tenha encontrado vocês. Qualquer um no meu lugar já teria os matado! — Me aproximei do garoto que Miyuki havia rendido pegando-o pelo braço. — Ei! Levante! Você vai carregar o seu amigo nocauteado ali. Suzana ajude sua amiga a caminhar. Fenrir senta!

Fenrir se acalmou passando a língua por toda a extensão de sua mandíbula, sentando logo em seguida. Agachei-me ao lado de Jonny, pegando-o pelo colarinho e então o levantando.

— E você... Seu moleque. — Cerrei meu olhar de forma assustadora ao mesmo — Vai me levar até o Quartel General da resistência. Eu fui claro?

Com medo em seus olhos, vi o garoto assentir quieto, enquanto o retornava ao chão lentamente. Em seguida o ordenei que pegasse todas as armas que havia roubado, e assim, nós nos pusemos a caminhar na direção em que a resistência estava escondida e posicionada.

[...]

 

Quando chegamos ao destino, até pensei que eles estavam brincando comigo e com Miyuki. Era apenas uma caverna em meio a uma mata densa da floresta, ou pelo menos era o que parecia ser vendo aquele lugar pela primeira vez. Quando chegamos ao fim, Jonny com a ajuda de Suzana conseguiram rolar uma rocha que na verdade se tratava de um fundo falso, revelando um mecanismo feito de madeira e barras de metal.

No topo havia uma espécie de corda grossa, trançada e reforçada, que juntamente a uma polia, segurava aquela estrutura suspensa no ar. Após todos entrarem na estrutura e Jonny rolar a rocha ao seu lugar de origem novamente, Suzana puxou uma alavanca que ativou o mecanismo de polia, tornando a descer lentamente a estrutura até o subsolo daquele local.

Confesso que estava um pouco impressionado com tamanha engenhosidade, nunca havia visto aquele tipo de invenção antes. Se usado em vários cenários diferentes, poderia facilitar e muito as construções de grandes edifícios, ou até mesmo a acessibilidade de pessoas em locais de difícil acesso.

Um silêncio ensurdecedor pairou sobre o ambiente, pois todos ali estavam nervosos com o que poderia acontecer, afinal de contas, eu e Miyuki poderíamos ser considerados intrusos, enquanto que aqueles jovens provavelmente pagariam por suas escolhas idiotas. Não se ouvia nada além dos mecanismos de polia girando e levando a estrutura cada vez mais abaixo do subsolo, até que finalmente ela pousou grosseiramente no chão, diante a uma porta dupla de madeira onde era possível ver a imagem de um leão talhado no centro entre elas.

— Por trás dessas portas, é onde a resistência leonina vive. Vocês ainda tem certeza de que querem entrar? Podem acabar tendo um destino mais cruel que nosso. – Suzana me alertou ao olhar em meus olhos.

— Não existe destino mais cruel do que venho vivendo nesses últimos anos. Nesse ponto até a morte seria um alívio. Mas ainda tenho responsabilidades e pessoas que acreditam em mim. — Olhei para Suzana que não tirou os olhos dos meus, tentando entender do que eu estava falando.

— Quem... É você? — Ela olhou profundamente em meus olhos, cerrando os seus e então os arregalando em seguida. — Esses olhos dourados... Espera... Você... Você é...

Com um sorriso de canto coloquei minhas mãos sobre as portas duplas as empurrando com toda minha força, e então me foi revelado a toca dos leões.

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