Volume 1
Capítulo 54: Casa dos Raias
Depois de deixar o palácio, Sophia se encontrava sentada em uma caravana discreta, diferente da real, que normalmente usava, para não acabar chamando a atenção depois daquela comoção que o povo havia feito.
Seus olhos estavam cravados na janela, enquanto aguardava uma pessoa que, logo apareceu diante dos seus olhos.
Ela sentou-se no banco ao lado dela. Sophia emitiu para que o cocheiro começasse a andar, enquanto eles se entreolhavam.
— Mestre, até agora não consigo acreditar... Aurimagia, liga de aura... Minha cabeça ainda está doendo.
— É uma reação normal. Sua mãe até teve uma reação anormal.
— Como assim? Minha mãe sabia?!
— Foi uma das últimas coisas que ela viu antes da morte.
— Isso explica o senhor ter dito aquilo naquele momento. Acácias só foi salva graças à Aurimagia.
O mestre balançou a cabeça.
Sophia direcionou seus olhos à janela.
Um silêncio se fez sentir naquela caravana, que percorria as periferias da cidade de Acácias até a casa do vice capitão, que ficava nos bairros mais recônditos.
A caravana parou, bem no meio de uma estrada, que era pavimentada de blocos e cercada de casas ao seu redor. Os olhos de Sophia na janela, focaram-se numa específica, que tinha um portão gigante, que levava a uma oficina e uma varanda interior com alguns vasos de flores sobre o pequeno muro.
Sophia e seu mestre desceram e dirigiram-se à porta. Chegando nela, Sophia bateu delicadamente até que dentro de segundos fosse aberta por um pequeno garoto de cabelos castanhos.
— Sim? Wow! Rainha Sophia! — Os olhos castanhos do garoto brilharam como estrelinhas enquanto um sorriso angelical se formava em seu rosto. Ele imediatamente a abraçou, entrelaçando seus bracinhos na parte inferior da cintura dela.
— Como me reconheceu tão rápido?
Sophia desceu seus olhos, afagando seus cabelos com delicadeza.
— Quem não reconheceria a rainha Sophia? — emitiu, soltando-a. — Além do mais, o Henrique não parava de falar sobre a senhora durante a viagem ao norte de Acácias!
Os traços de Sophia se moveram de surpresa.
— Sério? O que ele disse?
Ele levantou os dois braços com um sorriso.
— Que você é a melhor rainha do mundo! Ele não cansava de se gabar disso!
Sophia arregalou os olhos, descrente. Ainda não lhe descia a garganta de que seu irmão havia dito algo assim sobre ela, não quando nunca se deram bem.
— Mas depois ele me pareceu triste... Hum? Rainha Sophia está chorando? — disse, observando rainha Sophia tocando em algumas lágrimas que caíam dos seus olhos. O mestre, lá atrás, apenas sorria com as mãos entrelaçadas para trás.
Sophia balançou a cabeça negativamente, sorrindo para o menino.
— Acho que começou a chover... As gotas até estão caindo nos meus olhos.
— Hum?
Ele elevou os olhos para cima e não conseguiu identificar sequer uma nuvem negra.
Quando desceu seus olhos, uma mulher apareceu a sua trás, pegando em seu ombro. Seus cabelos estavam presos por um laço vermelho. Seu pescoço era envolvido por um cachecol e seu corpo por um vestido castanho-escuro, que chegava até os pés.
Um lenço bem úmido estava em suas mãos. Com seus olhos secos, as pálpebras inferiores, tomadas por um tom negro, encarava Sophia.
— Rainha?
— Rainha, dá para dar um jeito na tristeza da minha mãe. Ela disse que está com muitas saudades do mano!
Sophia arregalou os olhos.
— Eu já disse para ela não ficar triste, porque o mano Léo está trabalhando e quando voltar, com certeza trará muitos presentes para mim! Ele é quem prometeu!
Os traços de Sophia continuavam se contorcendo quanto mais aquele garoto falava do seu irmão com os olhos esperançosos e com uma carinha angelical. Sophia balançou a cabeça, mordendo seus lábios, enquanto pressionava uma de suas mãos contra o peito. Aquela mulher atrás também não pôde conter suas lágrimas. Seus soluços começaram a ressoar, enquanto tentava os abafar com o lencinho.
— Mamãe... Rainha...
— Ah! — O mestre deu um suspiro enquanto se aproximava do garoto confuso. Colocou uma de suas mãos por cima dos cabelos dele, balançando sua cabeça, enquanto se agachava, aproximando seu rosto do dele.
— Mulheres são muito sentimentais, não é? Veja só, elas choram por tudo e por nada...
— É mesmo... Mas...
O rapaz mordeu os lábios ligeiramente, já ia percebendo que algo não estava certo.
— Sabe de uma coisa... Existem dias em que mulheres são tão sensíveis que choram assim. Chamam-se aqueles dias.
— Aqueles dias?
— É. — Ele levantou, colocando a mão no ombro do garoto. — Por isso é melhor deixá-las sozinhas por um tempo.
— Mas eu prometi para o mano Léo que não ia deixar a mamãe sozinha?
— Mas ela está com a rainha. Você não vai querer irritar a rainha, pois não?
O mestre deu um sorriso sombrio, enquanto forçava sua expressão para parecer o mais assustadora possível.
— Tá bom! Tá bom! Bem que o Henrique tinha razão, adultos podem ser mesmo assustadores!
O mestre riu. Aquelas duas, por um leve momento, embarcaram naquele clima leve que havia se formado, mas ainda mantendo alguns traços de tristeza.
— Então, venha comigo! Vou te mostrar algo incrível!
— Algo incrível?
— Sim!
O mestre pegou em seu abraço e o arrastou consigo.
— Tchau, mamãe! Tchau, rainha!
Ele acenava suas mãos enquanto sentia seus pés deslizarem pela areia, um sorriso genuíno se formando em seu rosto.
Depois que aqueles dois se foram, rainha se aproximou daquela mulher e a abriu enquanto se via encolhida em um mar de lágrimas, seu coração pulsando intensamente, o calor aderente da culpa asfixiando seu peito.
— Desculpa...
Era o que Sophia podia dizer naquele momento.
— Por que o meu filho?
Os lábios de Sophia cerraram amargamente, não sabia o que mais dizer. Ela apenas a acompanhou para dentro de casa com cuidado.
(...)
Em meio ao breu, ao frio que percorria toda extensão de sua pele, causando sensação de tremedeira e arrepios constantes, aqueles três tentavam conseguir um pouco de calor ao juntar seus corpos. Mas logo descobriram que o calor não era o maior dos seus problemas naquele momento.
Suas barrigas emitiram um ronco ao mesmo tempo, uma melodia desagradável de se ouvir…
Tristeza e fome eram algo que não combinavam.
Originalmente, um soldado vinha diariamente para os dar alimento, mas dessa vez, já parecia que ele estava atrasado.
— Já é o segundo dia. — Com o rosto desanimado, lábios secos, um pedaço de pedra na mão, Miomura terminava de riscar um traço a mais dos milhares que já havia feito naquela parede.
— Por que não nos matam de uma vez por todas? — questionou Helena com a voz repleta de cansaço, sua boca seca já apresentava descamação. — Eu nunca fiquei tanto tempo sem comer.
— Não diga isso, princesa! Não perca a esperança!
— Ela tem razão, Miomura. Nós estamos habituados, mas isso é demais.
— Droga! — Miomura bateu o punho na parede. — Se eu tivesse meu livro aqui! Com certeza... Espera... — Deu um sorriso. — Eu tenho tudo na cabeça! Ei! Ei! — Lançou seus olhos sobre as duas. — Querem ouvir uma história? Eu acho que pode ajudar a espantar a fome! Pelos menos, comigo era assim.
— Eu passo.
— Você...
Helena elevou seus olhos, mantendo contato visual com os daquele jovem.
— Você gosta de livros?
— Se gosto? Eu amo!
Quando Miomura disse isso com ânimo, de repente, ouviram passos ressoar. Ficaram em prontidão. Seus olhos severos foram direcionados para as grades da cela na expectativa de que fosse o soldado trazendo seu alimento matinal, no entanto, foram surpreendidos...
— Você...
Os olhos de Helena se arregalaram.
Uma mulher de cabelos brancos estava ali, carregando uma cesta com pães e algumas frutas.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim trazer a comida.
Helena se levantou abruptamente e correu até a grade, segurando com força, enquanto veias rebentavam a pele do seu rosto.
— O que você está fazendo aqui, sua assassina?!
Valquires se afastou um pouco, deixando a cesta no chão.
— Eu e você não somos diferentes. Mas não vim falar sobre isso...
— Não sabe o quanto eu quero te matar agora, maldita! Abra a cela agora! Abra e me enfrente agora mesmo! Eu vou adorar descascar cada centímetro da sua pele!
Valquires desviou os olhos por um segundo e murmurou.
— Maísa disse que, se eu esperasse um pouco, a raiva dela já teria me amenizado, mas parece que não.
— Abre!!!
— Vamos conversar. Tenho a certeza de que se...
— Não quero ouvir nada que saia dessa boca imunda! Você vai pagar bem caro pela morte do Léo! Você e aqueles cães, eu juro, aí, como eu juro!
— Onde está o seu mestre?
— Abre... — Os olhos de Helena deixaram lágrimas saírem dos olhos. — Abra a cela para eu poder te matar. Abre! Abre! Abre!
Helena caiu de joelhos e começou a chorar.
Miomura veio em seu apoio, tocando em seus ombros, enquanto encarava aquela mulher friamente.
— Acalme-se. Vamos conversar.
— Sinto muito, mas não conversamos com monstros.
— Eu não falei com você.
— E daí? Eu também quero despedaçar vocês! Mal posso esperar por sair daqui. Depois de tudo que fizeram... — Miomura se lembrou das dores que sofreu ao ser atingido por aquelas flechas e dos milhares de corpos agredidos brutalmente. — Vocês não merecem mais viver, monstros assassinos! Isso mesmo, vocês só podem ser monstros!
— Admito, sou um monstro assassino, sim. Mas e vocês, o que são? Helena Acácias matou. Você matou. A garota aí matou. Todos somos monstros, então não era suposto nos entendermos?
— Se eu matei, é porque queria ser livre. Queria libertar o meu povo, apenas estava me livrando de pedras no caminho.
— Que coincidência, não? Nós também.
— Como... COMO OUSA?
Ela deu um grito, se levantando, enquanto segurava a grade. Seu rosto vertia lágrimas.
— Não foi só a maneira como vocês tiraram a vida daqueles soldados que mais me irrita, mas é saber que mesmo errados, que mesmo roubando nossas terras, mesmo assim, vocês continuam agindo assim, falando desse jeito... O QUE O POVO DE MIORIA FEZ?
— Eu não tenho nada a ver com isso.
— Então, vai se lascar!!!
Valquires reuniu seus traços de irritação e suspirou.
— Volto depois. Não há raiva que dure para sempre... Hã? Por que isso soou tão estranho?
Observou a palma da mão e seguiu andando, seus passos desaparecendo em meio à densa escuridão, enquanto gritos e soluços não paravam de ressoar.
Yara, que agarrava seus joelhos, apenas observava aqueles dois com um semblante que refletia tristeza.
(...)
Uma fumaça vinda de duas xícaras, que tremiam constantemente naquela bandeja, sobrevoava o vento. O cheiro de ervas trazia consigo uma calmaria. Sophia pousou a bandeja na mesa, despertando a atenção daquela mulher. Ela se levantou e observou as duas xícaras.
— Me sinto envergonhada por ter feito vossa majestade preparar um chá para mim...
— Isso é o mínimo que posso fazer. Você está bastante fraca. Tem comido direito?
Sophia se sentou.
— Como comer, rainha... Como comer?
— Vou disponibilizar uma serva e um médico para vos darem assistência.
— Não, rainha... — A mulher deitou de volta no sofá. — Nenhum médico do mundo irá poder me ajudar com o que estou sentindo aqui. — Ela pressionou a mão contra o peito. — Sinto que estou morrendo pouco aos poucos.
— Não diga isso... Seu filho ainda precisa de você.
Sophia levantou-se e foi até o sofá, onde a mulher estava sentada, sem forças, fraca...
— Rainha, eu disse para ele não ir... Porque eu sabia que a guerra tinha disso. Meu coração de mãe me dizia fortemente para não deixá-lo ir. Por que eu não insisti mais?!
— É tudo culpa minha. Eu sou quem criou a guerra, então não se culpe. Culpe a mim. Culpe exclusivamente a essa rainha inconsequente, louca e impulsiva.
— A rainha não faria essa guerra se o reino não estivesse em perigo, faria? A rainha apenas fez o que deveria ser feito e também acabou perdendo sua irmã... Então, não se culpe.
— Mas do que adiantou? O meu senso de perigo levou à morte de muitos soldados. Vidas que jamais serão respostas. Eu coloquei Acácias em luto. Eu tirei um pai, um tio, um filho. Eu não já não posso ser perdoada... — Sophia despejou lágrimas amargamente. — Nada do que eu fizer será o suficiente para cobrir tamanho pecado.
— Não se ataque, rainha. Por favor, não se ataque...
— O que eu faço então? — Sophia colocou a mão sobre o rosto. — Quando essa culpa me persegue onde quer que eu vá. Se eu não tivesse feito essa guerra, tudo estaria normal. Meus conselheiros me aconselharam, mas eu não os quis ouvir... Eu não os quis ouvir.
— Não se culpe. Ninguém previa esse resultado, ninguém... Nem a senhora. Eu sei o quanto sofre por isso e que se pudesse voltar atrás, faria.
— Sim, como quero voltar atrás.
— Mas não podemos. Infelizmente...
— Escuta, Hana... — Sophia pegou em sua mão. — Tem algo que você precisa saber...
— O que, rainha?
— O seu filho, nem os meus soldados, foram derrotados de uma forma normal. A verdade é que esse mundo é muito mais cruel do que parece ser.
— Como assim? A senhora me assusta quando fala assim.
— Você viu o corpo do seu filho, não é? Tocou, não é? Ele estava frio, não é?
— Sim. Mas...
— O corpo do seu filho foi o único que resistiu durante a viagem inteira, por conta de uma energia chamada Aurimagia.
— Acho que meu marido já falou sobre algo assim. Ele disse que uma vez em Tirasul viu alguém dizendo essas palavras depois que fez um truque de magia.
— Alguém?
— Lembro que ele disse que ficou tão fascinado que parecia real. Até prometeu nos levar para ver esse evento futuramente.
— Ah, é mesmo? Então, é capaz de até Tirasul estar envolvido nesses experimentos. Obrigada por essa informação, você me lembrou de algo importante.
— O que rainha?
— Tirasul também é um inimigo a ser derrotado.
— Vossa majestade pretende prosseguir com a guerra?
Quando Sophia ia respondendo, a porta bateu.
Hana tentou levantar, mas forças lhe faltavam. Sophia foi à porta a passos lentos e puxou a maçaneta da porta, arregalando os olhos com a visão que tinha.
— Você... O que está fazendo aqui?
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