O Primeiro Serafim Brasileira

Autor(a): Anosk


Volume 1

Capítulo 51: A Caminho da Cordilheira

Era cerca de meio-dia quando o grupo parou mais uma vez para descansar. Vários dias haviam se passado desde que deixaram Krimisha, e já era possível ver a Cordilheira Belvuch estendendo-se além do horizonte.

Enquanto aguardavam para almoçar, Sariel costurava suas roupas rasgadas e queimadas devido à luta contra Sharaad enquanto se sentava em um tronco caído. Suas mãos exalavam magia de Gelo constantemente.

Luna observava aquilo com atenção, vendo os fios brilharem em azul claro conforme eram trançados em meio à roupa danificada, até que o viajante trocou seu elemento para Água e costurou novamente as mesmas áreas, com suas mãos banhando os fios constantemente com um brilho azul transparente.

Assim que terminava, ele trocava de elemento, passando para fogo, depois raio, vento e, o único elemento de Combate que Luna ainda não tinha presenciado, Natureza.

— O que está fazendo?

— Reparando minhas roupas.

— E por que está banhando os fios com magia?

— Por que não tenta descobrir a resposta? — Sariel manteve os olhos esverdeados do tecido.

Mais uma vez, ela não recebeu uma resposta direta, mas já estava acostumada com esse comportamento dele, já que era sua maneira de ensiná-la.

— É para te proteger contra magia?

— Magia de quem?

— Bem, de seus inimigos, é claro.

— Errado.

Ao ouvir isso, Luna ficou em silêncio por um bom tempo enquanto tentava encontrar uma resposta, mas nada que considerava fazia sentido.

Percebendo que a princesa estava com dificuldades, Sariel decidiu dar uma dica.

— Lembra-se de como estava os restos mortais de Sharaad? Pense naquilo.

“Os restos mortais de Sharaad...”

Luna se lembrou de quando se aproximaram da cratera e do quão frágil estavam os restos de Sharaad, tão sensíveis que se desfaziam ao menor contato.

“Que relação tem isso com ele aplicar magia nas suas roupas?”

Sem conseguir extrair nada disso, decidiu focar sua atenção em outros momentos chave.

A cratera toda estava bem frágil, ao ponto de precisarem pisar com cuidado para que o chão não cedesse.

Foi então que ela se lembrou do momento que ajudou Sariel a completar a magia que matou Sharaad. O gelo que se concentrou na glaive era tão intenso que a roupa de Luna quase congelou apenas de ficar perto.

Ela não percebeu na hora devido a urgência da situação, mas algumas partes tornaram-se rígidas e ela teve de trocá-las mais tarde por terem ficado desconfortáveis.

E foi assim que um pensamento correu por sua mente, como o mesmo não acontecia com as vestes Sariel?

O gelo não enrijecia suas roupas, e o fogo não a queimaram quando lutou contra Aegreon.

Na verdade, suas roupas apenas sofreram danos quando foi atacado por outros.

Nesse caso, a única resposta seria...

— Para proteger suas roupas de sua própria magia?

Ao ouvir isso, o viajante encarou Luna com um olhar surpreso. — Você é mais inteligente do que julguei a princípio.

— Err... Devo considerar isso um elogio?

— Haha! Claro! Essa é uma pergunta bem difícil que conseguiu responder com apenas uma dica.

— Ah, neste caso eu agradeço. —  A princesa observou Sariel costurar sua roupa, enquanto banhava os fios com o poder da Natureza. — E como você é um volátil tens que fazer esse processo mais vezes por poder trocar de elemento, certo?

— Exato, essa é a única desvantagem que consigo pensar em ser um volátil. As outras pessoas só precisam se preocupar com um ou dois elementos, mas eu preciso fazer isso com todos os elementos de combate.

— E todos que usam magia fazem isso?

— Sim, afinal seria bem problemático um usuário de magias de Fogo, por exemplo, ter suas roupas queimadas toda vez que lutasse. Não há nenhum outro uso para essa “técnica” além de evitar ficar nu durante uma batalha.

— E por que não me ensinou isso antes?

— Seu poder mágico ainda está voltando a fluir, portanto não é capaz de usar poder o suficiente para causar danos em suas roupas, mas lhe ensinarei eventualmente. Na verdade, só de me observar aprenderá a fazer isso.

Sariel focou sua atenção novamente na costura, com Luna ainda curiosa para saber sobre aquele elemento que nunca vira antes.

— Está curiosa sobre o elemento Natureza?

— Sim... até agora nunca vi alguém usar esse elemento.

— Natureza e Reanimação são os elementos mais raros de se encontrar.

— Por quê?

— É apenas mais um dos milhares de mistérios que os estudiosos tentam descobrir.

— Pode me mostrar como funciona?

Ao ouvir isso, Sariel, ainda mantendo os olhos no tecido, tocou no tronco morto e caído que estava sentado com uma de suas mãos e a madeira começou a brilhar em um tom verde.

Então, milagrosamente, folhas começaram a surgir, tão verdes e saudáveis como o de uma árvore centenária. Os galhos cresceram na direção de Luna, com maçãs amadurecendo em segundos com uma forte cor vermelha, mais bela e maior que qualquer maçã que já tinha visto.

Percebendo se tratar de uma oferta, a princesa pegou a fruta e deu uma mordida, sentindo uma suculência e doçura que nunca tinha experimentado antes.

— É melhor do que qualquer maçã que já provei! Como isso seria capaz de causar danos? Não parece algo que pertenceria aos elementos de combate... Por acaso isso só faz plantas crescerem rapidamente?

— Todos os elementos de combate são extremamente destrutivos nas situações corretas. Gelo pode ser poderoso em um ambiente gelado, então Natureza tem seu poder amplificado em uma floresta.

— Mas esse elemento ainda parece um pouco diferente dos outros de combate, como ele é usado?

— A maioria usa para criar armas e armaduras de madeira. Dependendo do poder do usuário, a madeira pode ser ainda mais forte do que aço, portanto, por ser mais leve, é um dos itens bélicos mais vendidos por usuários de Natureza. Além disso, por ser feito com magia, o equipamento pode se regenerar.

— Ei! O almoço está pronto! — chamou Raymond.

— Certo! — respondeu Sariel enquanto terminava os retoques finais em sua roupa. — Bem, mais tarde posso te explicar melhor sobre Natureza.

— Certo!

Depois disso, todos comeram tranquilamente e, assim que terminaram, logo seguiram sua jornada para a Cordilheira Belvuch.

 

***

 

Luna sonhava tranquilamente enquanto treinava sua capacidade de controlar seus sonhos. Esteve praticando bastante ultimamente, por isso já era capaz de alterá-los como quisesse.

Lembrando-se dos níveis ditos por Sariel, ela agora tentava escolher memórias para reviver, tendo sucesso em eventos recentes, mas falhando com eventos antigos.

Enquanto praticava, o viajante apareceu convidando-a para entrar mais uma vez no subconsciente dele.

Assim que entrou, Luna se viu novamente na grande biblioteca onde Sariel guardava todo seu conhecimento metodicamente.

— O que foi? — perguntou a princesa.

— Você já é quase capaz de acessar o próprio subconsciente, portanto há algo que gostaria de mostrar agora.

Percebendo que ele não diria mais nada, Luna o seguiu em silêncio pela enorme biblioteca, demorando vários minutos para chegar ao destino.

Finalmente, as altas estantes deram lugar a um grande espaço aberto onde, no meio, havia centenas de livros amontoados em uma pilha, bem desorganizados e nada similar com qualquer outra coisa ali.

— Pegue um e veja.

Aproximando-se da pilha, Luna pegou um livro aleatório e abriu, vendo memórias do que parecia ser um dos civis de Krimisha que esteva no templo durante a luta contra Sharaad.

— O que significa isso?

— Conforme vivemos, nosso conhecimento apenas aumenta, mas nem sempre tudo que aprendemos é útil. Além disso, quando você navega pelas memórias de outros, tudo vivenciado por ela acaba se tornando parte de seu conhecimento, mas há um limite do quanto pode absorver.

Ao ouvir isso, Luna olhou ao redor onde só havia estantes e mais estantes desaparecendo no horizonte.

— Tem certeza de que há um limite? Esse lugar não tem fim.

— Isso se deve porque eu organizo bem meu conhecimento, se eu deixasse tudo jogado igual essa pilha eu seria capaz de armazenar bem menos.

— Então sugere que eu faça o mesmo quando conseguir acessar essa área?

— Não é uma sugestão, é um dever. Conhecimento é poder, já deve ter escutado essa frase antes.

— Sim... mas o que pretende fazer com essa pilha?

Ao ouvir isso, Sariel simplesmente estalou seus dedos e todos os livros da pilha começaram a queimar, desfazendo-se em cinzas e deixando de existir completamente.

Surpresa, Luna deu um salto para trás e quase caiu, mas logo percebeu que as chamas não emitiam calor nenhum.

— Assim como você pode aprender, também pode esquecer. Isso já acontece naturalmente, pois seu subconsciente tende a deletar informações desnecessárias para dar espaço ao que importa, mas isso demora um bom tempo, e normalmente a informação não é totalmente apagada.

Luna olhou novamente para onde a pilha estava até alguns segundos atrás.

— Mas... como isso funciona? Você realmente não lembra mais nada?

— Exatamente, como se nunca tivesse acontecido.

— E o que define o quanto uma pessoa pode armazenar? Depende da magia?

— Até algum tempo acreditava-se que dependia da quantidade do poder mágico, mas evidências recentes provaram o contrário, pessoas com pouco poder mágico e capazes de se lembrar mais que pessoas com muito mais poder que elas. Os estudiosos chegaram a um consenso que o fator determinante é outro, mas não se sabe qual.

— Então até os estudiosos sabem pouco sobre magia.

— Apenas Kura sabe como a magia funciona completamente, e mesmo os santuários de anjos que encontrei havia relatórios de estudos sobre vários assuntos. Apesar de tudo ser constituído de magia e usarmos desde nossa criação, ainda se sabe pouquíssimo sobre ela.

Luna escutava Sariel em silêncio e com atenção. Sempre se impressionava com a quantidade de conhecimento que ele possuía, mesmo que fosse jovem ao ponto de não ter vivenciado a guerra com os anjos.

O tempo passou conforme ambos conversavam, até que eventualmente o viajante se despediu, e Luna retornou aos seus sonhos.

Sariel permaneceu no próprio subconsciente, no mesmo local onde havia queimado os livros, quando retirou de baixo de seu manto um livro com o título “Tuba mirum”.

Depois, caminhou pelo quase infinito corredores de estantes de livros. Podia muito bem simplesmente se teleportar para o local que desejava ir, já que aquele era seu subconsciente e podia fazer o que quiser com ele, mas a caminhada lhe era agradável.

Após um bom tempo, finalmente chegou no fim do corredor, onde havia uma grande porta branca e dourada trancada com dezenas de poderosos cadeados e grossas correntes.

Assim que se aproximou, os cadeados se abriram e as correntes se soltaram.

A porta abriu sozinha, revelando outra sala com estantes de livros, mas aquele local era bem menor e cada livro tinha um cadeado na capa.

O viajante entrou na sala e se aproximou de uma estante com uma escada e subiu, chegando em uma sessão com nome “textos perdidos dos anjos”.

Então colocou o livro que tinha em suas mãos entre outros dois que já estavam presentes: “Dies Irae” que descobriu junto de Luna e Raymond, e “Rex Tremendae”, que já estava ali muito antes de ter ido para Fordurn.

Assim que colocou o livro, saiu da sala e a trancou novamente.


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