O Primeiro Serafim Brasileira

Autor(a): Anosk


Volume 1

Capítulo 13: Realização

Luna ainda se banhava quando ouviu a porta do quarto se abrindo e alguém entrando.

— Ufa! Estava mais pesado que achei — disse Quetzal. — Hey, Luna! A água está do seu agrado?

— Está sim, obrigada.

— Ótimo, achei que talvez estaria quente demais para você.

A princesa de K’ak’ se focou em arrumar a mesa para ambas comerem.

— Ah, eu aproveitei e passei no seu quarto para trazer suas roupas, quer que eu as deixe na porta?

— Sim, por favor.

— Certo.

A porta para o banheiro se abriu e Quetzal pendurou suas roupas na maçaneta da porta junto de uma toalha, e antes de fechar, Pagui atravessou a fresta e pousou na cabeça de Luna.

— Oh, parece que ele quer se lavar contigo.

— A água não está muito quente para ele?

— Não, as vezes ele até mesmo mergu...

Tchibum!

Sem pensar duas vezes, Pagui mergulhou com tudo na água, molhando-se completamente.

— Parece que ele já mostrou, haha!

Haha, sim...

Pagui bateu suas asas agitadamente, arremessando água no rosto de Luna e ao mesmo tempo que dizia “croac”.

— Ah é? Toma isso então!

Em resposta, a princesa arremessou água na ave, dando início à uma competição de quem arremessava mais água no outro.

Entretanto, Luna tinha mãos pequenas, enquanto Pagui tinha duas grandes asas que, quando abertas, mediam mais de 120 cm de ponta a ponta.

— Tá bom, tá bom, haha! Eu desisto!

Croac!

Pagui bateu as asas com e parecia gritar em comemoração da vitória que tivera.

— A comida está na mesa, já terminaram aí? — perguntou Quetzal.

— Ah sim, estou indo.

Luna deixou a grande banheira e secou-se com a toalha que Quetzal havia deixado na porta.

Dessa vez, ela demorou mais para se secar, já que seu cabelo estava cada vez mais longo, por isso secá-lo era uma tarefa longa.

Após alguns minutos, ela deixou o banheiro e se deparou com uma grande refeição à sua espera. O conteúdo era bem parecido com o que comera mais cedo — durante a reunião com Yaxun — exceto que havia menos carne.

Assim que a porta se abriu, Pagui voou em direção à carne e a devorou.

— Ah, sente-se! — A princesa esmeralda apontou para um acento acolchoado. — Não se preocupe com a carne, é tudo para Pagui.

— Achei que era para você.

— Ah não, não como nada animal.

— Você também?

— Sim, e pelo que sei por meu pai, minha mãe também não comia.

Hmm...

Luna ficou pensativa por algum tempo.

— Qual o problema? — perguntou Quetzal.

— Nada, apenas algo da minha cabeça...

Hm, é melhor não demorar para comer, se Pagui terminar a carne dele e sobrar algo, ele atacará qualquer coisa que sobrar na mesa.

— Certo.

O trio comeu com gosto suas refeições, enquanto as duas princesas conversavam sobre si mesmas e da diferença entre K’ak’ e Fordurn.

Após comerem, foi a vez de Quetzal de tomar banho enquanto Luna brincava com Pagui.

Depois, as duas se prepararam para dormir. Ambas se deitaram na grande cama, com espaço o suficiente para três pessoas dormirem relaxadamente.

Luna se sentia um pouco tímida por compartilhar a cama com outra pessoa, contudo durante todo o dia ela percebeu o quanto Quetzal era energética, entretanto respeitosa com ela, por isso estava um pouco mais à vontade.

— Ei... — sussurrou a princesa de K’ak’. — Como é seu pai?

— Ah, Geoffrey?

Uhum.

— Bem... Ele é bem gentil e protetor... Sempre foi muito estrito com quem podia se aproximar de mim, e sempre que alguma pessoa nova me via ele se certificaria de deixar alguns guardas por perto para me proteger... Quando criança ele sempre usava o pouco de seu tempo livre para passar comigo, já que eu ficava o dia todo no quarto...

Luna estava de costas para Quetzal, portanto não sabia que tipo de expressão ela tinha.

— Então ele realmente te ama muito, hein.

— Sim. Para ser sincera, tive muita sorte de tê-lo como pai. É apenas graças a ela que estou viva. É o melhor pai que eu poderia ter... — Luna sorria o tempo todo enquanto pensava em seu pai.

Silêncio...

— Quetzal?

Ela se virou para encarar a princesa de K’ak’ e a encontrou dormindo tranquilamente.

Ao perceber isso, ela se virou novamente e tentou dormir. Entretanto, sua mente continuava a pensar em seu pai, e memórias dos bons momentos que passaram juntos se repetiam constantemente.

Uma memória em específica retornava sempre, de quando ela era apenas uma criança, inocente ao futuro terrível que enfrentaria.

 

***

 

— Onde será que ela está...? — perguntou uma voz suave e grave.

Luna tentou conter seu riso enquanto ouvia essa voz ficar cada vez mais perto. O ambiente estava totalmente escuro e era apertado, contudo isso não a amedrontava, apenas tornava tudo mais divertido.

— Será que é... AQUI?

Um som alto de algum tipo de porta sendo aberto bruscamente ecoou, um pouco longe de onde ela estava.

Hmm... então deve ser AQUI!

Dessa vez, foi o som de algum tecido pesado sendo erguido, mais perto do que anteriormente.

— Oh? Será que então...

A voz se calou, e som de passos — que tentavam ser furtivos — se aproximaram devagar e pararam muito próximo de onde ela estava.

— AQUI!

Subitamente, a porta do armário que ela estava se escondendo se abriu, permitindo que a luz invadisse o interior e banisse a escuridão.

— Te achei! — Geoffrey pegou a princesinha em seus braços e a ergueu no ar, rindo relaxadamente.

A princesa mal passava dos 1 metros de altura, mas já dava sinais da bela mulher que se tornaria futuramente. Seus olhos azuis e belos como um lago congelado brilhavam, e tal beleza era complementada pela aureola em suas pupilas. Os cabelos eram como fios de prata, finos e sedosos.

Hihihi, como me achou, papai? — Luna ria e estendia seus curtos braços enquanto seu pai a girava no ar. Era tão pequena que poderia se esconder em qualquer lugar de seu quarto.

— Você tem se escondido no armário desde que li aquela história de crianças como você que entram no armário e param em outro mundo! Fiquei preocupado que você não estaria ali — disse Geoffrey animado.

— Mas eu fui mesmo!

— Oh? E como era aquele mundo? — perguntou o pai curioso.

Shó te conto she me deixar shair do quarto!

Ao ouvir isso, o rei colocou Luna no chão, se abaixou na altura dela e olhou em seus olhos.

— Mas filha, já lhe disse que é perigoso se sair...

— Eu quero ir lá fora! Quero ver o jardim e as flores! — insistiu.

Geoffrey ficou em silêncio por um tempo e olhava com um olhar intrigado para ela. Após considerar bem, ele disse: — Seu aniversário é mês que vem certo?

A princesa afirmou com a cabeça.

— Quantos anos vai fazer mesmo?

Hmm, Shinco!

Haha! Isso mesmo! No seu aniversário você pode sair, tudo bem? — O rei esfregou os cabelos prateados de Luna carinhosamente.

— Tá bom! É uma promesha, cherto? — perguntou ela erguendo sua mão.

— Sim, é uma promessa. — Seu pai apertou sua mão, fechando o acordo. — Agora está na hora de dormir.

— Mas eu não tô com Shono! — protestou.

— Então que tal se eu ler uma história? — sugeriu Geoffrey.

— Eba! História!

Haha! Muito bem, vamos ler a história da Rainha que teve que morar nas ruas para proteger seu povo!

— Eba! — exclamou Luna animada ao mesmo tempo que se apressava para subir na sua cama.

 

***

 

Os minutos passaram e Luna se revirava na cama em uma tentativa falha de dormir.

No fim, ela desistiu de tentar dormir e se sentou, olhando o quarto escuro de Quetzal.

Seus olhos foram atraídos inconscientemente para a porta do quarto.

Ao observar a porta por algum tempo, ela se lembrou de como seu pai toda noite abriria uma pequena fresta para checar se ela estava bem. Luna já havia dito que não era necessário e que ele poderia usar seu tempo para outra coisa, contudo ele sempre dedicaria alguns minutos de seu tempo para vê-la, mesmo que estivesse extremamente atarefado, cansado e com sono.

Ela continuou a encarar a porta, esperando que uma pequena fresta se abrisse e visse o rosto de seu pai atravessá-la, para em seguida perguntá-la se estava tudo bem. No entanto isso não aconteceria, por isso ela apenas se deitou novamente.

Foi neste momento que uma realização finalmente a atingiu.

Ela nunca mais veria seu pai, nunca mais falaria com ele ou o abraçaria.

Ela partiu sem nem mesmo se despedir ou explicar o que estava acontecendo.

Luna olhou pela janela e viu a lua. Neste momento, a imagem de seu pai olhando a mesma lua com lágrimas em seu rosto por não saber seu paradeiro surgiu em sua mente.

Ou pior, era provável que ele nem estivesse mais vivo, afinal o prazo de Ardos já havia acabado.

Antes que percebesse, as lágrimas escapavam pelos seus olhos e escorriam pelo seu rosto. Lágrimas que há muito haviam secado devido todas as coisas terríveis que teve de ouvir do povo. Lágrimas que não escorriam a muito tempo, e caíram agora pelo pesar de ter deixado seu pai, sua família.

A culpa abateu sobre ela, adicionando um novo peso em sua consciência, como se não bastasse o fardo que carregava por ser um anjo.

As lágrimas se tornavam cada vez mais numerosas, e ela tinha de colocar ambas as mãos em sua boca para que não acordasse Quetzal com seus soluços.

Pagui percebeu o sofrimento da princesa e voou em sua direção, pousando em seu colo. Em seguida, ele forçou um dos braços de Luna para que ela o abraçasse.

A princesa abraçou Pagui firmemente enquanto fazia o possível para conter suas lágrimas.

Ambos permaneceram desta maneira por vários minutos, até que Luna aos poucos se acalmou com o calor e as penas macias de Pagui e adormeceu, ainda abraçando-o.

 

***

 

Horas mais tarde, Sariel observava a noturna K’ak’ Witz de seu quarto. Apenas guardas caminhavam pelas ruas, e o viajante observava-os atentamente, como se procurasse alguém em específico.

Após alguns minutos, seus belos e frios olhos azuis finalmente encontraram seu objetivo.

— Te achei — murmurou com um sorriso no rosto.

Ele observou atentamente toda a trajetória de seu alvo, que estava acompanhado de outro homem. Após algum tempo, ambos entraram em uma pequena construção e não saíram.

Enquanto vigiava, Paqui apareceu em seu campo de visão e pousou na janela de seu quarto.

— Olá amigo, o que lhe traz aqui? — O viajante jogou um pedaço de carne à ave e a acariciou.

Croac!

— Entendo, pode sobrevoar aquela construção ali? — disse apontando para o prédio que seu alvo entrara. — Se ver alguém sair venha até mim e me avise, certo?

Croac!

Paqui levantou voo e se dirigiu ao local que Sariel apontou.

— Agora, está na hora de agir.

O viajante então saltou pela janela com tamanha velocidade, que era como se tivesse sido jogado por uma catapulta, e em seguida desapareceu nas ruas escuras de K’ak’.



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