Volume 2
Capítulo 2: Socialização
GRAAAHHHH GRAAAHHHH
—...Ngh... zz...
—...Que... horas são...
Os grasnados irritantes dos Alfajós acabaram me acordando. Depois de esfregar os meus olhos, virei meu rosto em direção aos assentos da carroça, porém não havia ninguém ali. Notei também que ela não estava em movimento.
Minhas cobertas e travesseiro estavam ensopados de suor. Não era uma surpresa devido ao calor que estava fazendo. Na última noite, demorou bastante para que eu conseguisse pregar os olhos.
"Espera um pouco... isso significa..."
Um pensamento derradeiro me fez ficar com uma pulga atrás da orelha. Decidi que seria melhor averigar isso por mim mesmo. Além disso, estava com uma fome de leão!
Levantei o meu corpo — ainda com certa dificuldade — pelo jeito ele ainda precisaria de algum tempo para se recuperar totalmente, o que sendo bem sincero, não era nenhuma surpresa. O lado positivo era que a dor de cabeça havia praticamente sumido, só restando apenas um pequeno incômodo.
"Uhn..."
A roupa que estava usando também estava toda grudenta com meu suor. Era uma camisa social simples cinza-claro que parecia usada. Ela tinha mangas longas e botões nos pulsos. Nada surpreendente. Entretanto, ainda estava usando minhas calças pretas convencionais.
Do lado de minha cama, notei que havia uma camiseta simples, mas também listrada. A diferença é que suas linhas eram na horizontal. Parecia que aquela roupa era para mim, por isso, tirei a minha roupa suada e coloquei a nova.
No entanto, estava sem minhas botas. Depois de averigar um pouco, percebi que elas estavam em um dos cantos. Eu sabia que eles estavam lá fora e não tinha confiança de sair se minhas botas. O que é engraçado, visto que no início eu odiava usar elas.
— Vamos lá... — Murmurei, enquanto dava batia meu calçado no chão repetidas vezes. Para me acostumar com ele.
Com cuidado, coloquei meus pés para fora e pulei em direção ao solo. Quando fiz isso, tanto a grama verde quanto a luz do sol me fizeram ter a certeza que meu pensamento estava certo:
Era primavera.
—...Uau...
Era um cenário parecido, mas ainda mais belo do quão eu presenciado quando cheguei nesse mundo. Um mar de grama verde podia ser visto até onde os olhos podiam ver; animais e criaturas fantásticas se juntavam aos montes, sejam ruminando a relva verde ou apenas correndo e brincandos pelas plánices verdejantes.
Um bando de Alfajós voavam pelo céu azul. Seu voo era tão belo e preciso que pareciam como que nadar no céu — quase que não precisavam bater suas asas visto que o vento forte os ajudava. Mas, não eram só os Alfajós: Haviam pássaros de cor azul, verde e até mesmo vermelho. Os de cor azul tinham a cabeça vermelha, os de cor verde tinha a cabeça de cor azul e o de cor vermelha a cabeça de cor verde.
"Talvez seja uma raça que eu não conheça..."
Também haviam alguns pássaros acizentados. Eles tinham um porte pequeno — do tamanho de um periquito — e em seu corpo tem várias bolinhas pretas que chegam até em suas asas. Notei isso porque vi o que parecia ser um casal em cima de uma pequena rocha perto da carroça.
Virei minha atenção um pouco mais a frente e enxerguei uma manada de cavalos correndo nos campos de gramas. Eles pareciam estar brincando de corrida. Haviam vários com muitas cores diferentes: marrons, brancos, listrados... e de todos os tamanhos. Enquanto os adultos corriam, os pequenos curiosos pareciam se divertir rolando na grama. Um pequeno pulava enquanto relichava com seu amiguinho, que retríbuia o gesto.
Algumas vacas pastavam ali, junto de bois gordos. Elas pareciam não se importar com nada além do mar verde de grama. A organização deles me surpreendeu bastante. Era como se tudo estivesse em seu devido lugar.
— É bonito num é?! – Disse, Shannah. Sua voz fina e seu jeito de falar são tão característicos que tornam fácil de notá-la. Ela estava usando a mesma roupa da noite anterior, tendo como a única diferença notável, um pequeno avental branco. Ela também tinha um cheiro forte do que parecia ser perfume
— Sim, é verdade. — Olhei para Shannah de cima a baixo. Seu avental parecia estar úmido, era fácil de perceber com todo aquele sol. Isso significava que ela tinha acabado de se molhar. Apesar de não ter a menor ideia do que ela estava fazendo, ainda sim, a curiosidade era mais forte. — Acabei acordando e tomei um susto quando não vi vocês... Onde você estava? — Indaguei, usando uma conversa fiada e cheia de pretensões.
—...Ah me descurpe... nós não queríamo incomodar...
— Não precisa se preocupar com isso. Você está toda encharcada, precisa de alguma ajuda?
— Não não... eu já acabei. — Afirmou, Shannah. — Olhe...
Shannah apontou para o lado direito da carroça. Dei alguns passos e notei uma bacia redonda feita de madeira. Havia ainda uma boa quantidade de água dentro dela, porém, era fácil notar a grama molhada ao redor dela.
— Ué... mas cadê...? — Procurei ao redor pelas roupas. Mas, sem sucesso.
—...Se ocê tá procurano as roupas, elas tão lá em cima.
A garota apontou com seu pequeno mindinho para em cima da carroça. Onde depois de me esforçar para olhar — devido á luz intensa do sol — realmente, consegui ver que havia algumas peças de roupa em cima da carroça.
— Mas, como você colocou as roupas ali?
— Eu tive ajuda de Frangell – Disse, Shannah.
— Frangell? Quem é este?
— Frangell, o carroçeiro. – Shannah então apontou para a frente da carroça. Lá estava um homem alto dormindo. Era difícil ter uma ideia de sua altura visto que ele estava encostado dormindo, mas chuto que ele tinha seus 1,85 de altura. Sua pele era parda e seus olhos não podiam ser vistos já que sua franja enorme cobria seus dois olhos. Seu cabelo era escuro e bem liso.
— Ele parece meio...
— Esquisito...? — Indagou, Shannah
—...Diferente...
— Acho que todos nós somos, de alguma maneira. Mas num se preocupe que ocê vai se costumar
Não estava com eles há muito tempo. Por mais que sabia que devia tentar me enturmar, era ainda muito custoso para mim. A morte de Erich ainda estava fresco em minha cabeça, então, não tinha algum clima para brincadeiras.
Entretanto, foram eles que salvaram a minha pele. Queria ajudá-los de alguma forma.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer?
—...Hã...? Ah! Não não, eu já terminei por aqui.
— Eu sei, mas...
—...Realmente não tem... nada?
—...Hum...— Shannah pareceu entender minhas preocupações. Ela segurou o seu queixo com os dedos da sua mão direita, cerrou os olhos e começou a murmurar sozinha. Depois de alguns segundos, ela pareceu ter tido alguma ideia, já que sua mudança de personalidade foi bem rápida. —...Já sei! Que tal ocê me ajudar a fazer o armoço? Normarmente, Fran me ajuda, mas como ocê pode ver ele tá dormindo feito pedra! – Exclamou com um breve sorriso.
— Almoço?! — Fiz essa pergunta em reflexo, já que não sabia que havia acordado tão tarde. Felizmente, consegui entender antes que pudesse passar outra impressão. — Ah, claro! Eu te ajudo.
— Ótimo! Então, vamos lá!
Shannah então correu em direção ao outro lado da carroça, andei rapidamente para alcançá-la. Quando cheguei ao outro lado, havia um barril de madeira; ele estava tampado, então, não conseguia ver seu conteúdo. O barril, por sinal, era maior que a própria garota.
— Ocê pode abrir pra mim? — Indagou a garota.
— Claro.
Assim que abri o barril, notei que estava cheio de um ingrediente. Shannah parecia já saber do que tinha dentro do barril, mesmo que não pudesse enxergar.
— Só temos isso... será que dá pra fazer alguma coisa?
— [...]
— É o suficiente.
***
Passou-se então 45 minutos. O grupo de caçadores vieram de uma mata no sul, aproveitei a distância para colocar a comida nos pratos. Como não era um grupo muito grande — contando com Shannah seriam apenas 6 pessoas — a comida seria o suficiente.
O que estranhei é que eles não trouxeram caça alguma nas mãos. Tinha certeza que eles traríam alguma carne, mas pelo jeito tiveram azar.
"Mas, o que mais tem aqui são animais... isso não faz qualquer sentido..."
De qualquer forma, decidi que seria melhor esperá-los para conseguir alguma informação. Tinha que me apressar já que acreditava que eles estariam morrendo de fome
Com o auxílio de uma colher grande de madeira, conseguia colocar a comida nos pratos dos caçadores. Frangell havia acordado há uns 15 minutos atrás, então, ele conseguia me auxiliar junto de Shannah. Ele conseguia segurar o prato quente sem qualquer problema, provavelmente, devido a suas mãos calejadas.
— AI! TÁ QUENTE!!
Entretanto, Shannah tinha mãos muito delicadas pra esse trabalho. Percebi isso quando ela quase derrubou o prato com o caldo quente nela. Por isso, decidi que seria melhor esperar a chegada do resto do grupo.
— Ufaa... Cansaço da peste!! — Disse, o homem com a cabeça lustrosa.
— Eu disse que não ia dar certo! Mas, ocês são uns teimosos! — Reclamou, o homem com o cabelo mal tratado
— Pelo menos, tentamos sô...
Eles pareciam estar muito desgastados, e com o humor não muito bom. O sol estava forte então isso não era uma surpresa. Alguns também carregavam algumas coisas estranhas que chutei que seriam instrumentos para caça. O suor deles escorriam pelas suas testas e desciam até os seus queixos, me arrependi então de não ter separado alguma água gelada pra eles beberem.
A única que parecia animada era Shannah. Ela parecia estar extremamente animada para servi-los e talvez receber um elogio.
— Venham em fila!! — Gritou animada.
Obedecendo suas palavras, os caçadores começaram a se enfileirar perto do caldeirão. Tinhamos muitos pratos já separados, então, eu os enchia com 2 ou 3 colheradas muito bem servidas. Quando eu enchia o prato de um, logo via outro e mais outro.
"Espero que sobre um pouco pra mim..."
Quando estava terminando, estava fazendo tudo no automático. Por isso, não notei a figura em minha frente. Pelo menos, não até que ele mesmo chamasse a minha atenção.
— Parece bom! Brigado, garoto! — O tio de Shannah tinha essa voz animada. Era difícil não ver um sorriso em sua face. — Ocê já tá se costumano com nós? — Indagou com seu rosto suado
— [...]
— Estou tentando.
—...Vai dá tudo certo, homi! Ocê já é da família já!
— Obrigado pela hospitalidade...
—...Gegege! Pegue o seu prato e venha comer! Vai ser bom pra ocê conhecer o grupo!
— Certo. Irei me apressar.
Por coincidência do destino, restava 2 pratos: o de Shannah e o meu. O sorriso animado da garotinha parecia ter mudado para um semblante de incômodo, resultado de sua fome. Apesar de que ela parecia não querer admitir isso.
Logo, coloquei 2 colheradas cheias no prato de Shannah. A garota parecia engolir em seco enquanto me observava fazer aquilo. Era muito divertido provocá-la, não nego. Mas, não poderia perder mais tempo ali. Se não o restante dos caçadores provavelmente começariam a reclamar. Depois de colocar a comida no prato, olhei para Shannah e com um olhar tenro disse:
— Tome! Esse é o seu!
—...Ah!! Br-Brigada!
A garotinha com suas pequenas mãos agarrou o prato despreocupadamente. Coitada...
— Ahhh!!! TÁ QUENTE! TÁ QUENTE!
"Pffffffffff...."
Era difícil segurar o riso com aquela garota burrinha. Ainda sim, tentei esconder o máximo que pude.
— Hã?! Não tá mais quente...
— Cui...dado... — Era Frangell, o caladão. Em algum momento, ele tinha chegado ali e acabou segurando o prato para Shannah.
— Ah! Brigada, Fran!
— Quando diabos você chegou aqui?
— [...]
— Cinco minutos... atrás...
"Você é o quê?! Um gato?!"
Naquele momento, percebi que aquele cara era ainda mais esquisito do que pensei. Apesar disso, não é como se eu tivesse muito o que fazer, então apenas raspei o resto do caldo da panela e coloquei em meu prato. Assim, como os outros caçadores não sentia tanto calor quanto Shannah fazia parecer. Talvez, ficar subindo em árvores como um doido varrido tenha valido para alguma coisa afinal.
— Ei! Iori!
— Hã?! — Estava perdido em meus pensamentos, por isso, acabei tomando o susto com Shannah chamando meu nome. — O-o que foi?
— Venha! Vamos comer juntos!
A luz e o calor do meio brilhavam sobre a garota. Ao fundo, o grupo de caçadores estavam sentados sob a grama verdejante — comendo e bebendo — com sorrisos em seus rostos. Todos de idades e aparências diferentes, mas ainda sim, todos comiam e sorriam sob o mesmo céu azul.
Aquilo me atraia de alguma forma.
— [...]
— Já estou indo...
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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