O Nefilim Primordial Brasileira

Autor(a): Ghoustter


Volume 3 – Arco 1

Capítulo 191: Prelúdio do Fim

Situada em meio a um vasto vale fértil, rodeada por exuberantes florestas e campos de flores silvestres, um dos maiores centros comerciais de Hervron, a cidade de Thornfield, conhecida por seus belos jardins de rosas, viu um gigantesco portal vermelho como sangue fresco cobrir toda a sua extensão.

Crianças que brincavam na rua sentiram falta da luz clara e calorosa do Sol. Uma velhinha levantou seus olhos, devagar, ao céu. Um comerciante, que fechava uma venda gorda de flores para um casamento, xingou, em sua mente, a falsa sorte. Todos pararam tudo o que estavam fazendo.

— Vermelho? — indagou-se o jovem, ao lado da sua noiva, que fazia a encomenda das flores. — Um irregular? Mas como assim?

Algo nítido estava fora de lugar: um portal irregular só ficava vermelho depois que alguém entrava nele, o que só seria possível depois de alguns generosos dias.

Rachaduras ecoaram, alto, da estrutura colossal, e uma chuva de fogo misturada com sangue caiu sobre os campos floridos do belo vale que circundava Thornfield,

De imediato, sem tempo para preparo ou mesmo reação, um terço das florestas foi queimada; em sua terça parte: árvores e pessoas foram dizimadas; junto a toda a erva verde que um dia cobriu a terra.

Ao leste de Hervron, barcos atracavam nos portos da cidade costeira de Stormhold, fossem carregados com os resultados da pescaria do dia, fossem transportando mercadorias dos outros continentes.

Mais ao centro da cidade, visitantes e habitantes locais degustavam dos mais diversos tipos de peixes, crustáceos e moluscos; ninguém poderia passar por aquela cidade sem apreciar o toque especial das suas famosas iguarias.

Mais ao longe, nas águas do vasto oceano Índigo, que um dia foi palco do embate entre Raizel e Baal, um portal vermelho surgiu, visível como uma imensa mancha carmesim para aqueles que o viam, distante, da costa.

Uma substância avermelhada eclodiu do portal e se espalhou pelas águas, que borbulharam, enquanto a terça parte das criaturas aquáticas fervia até a morte.

Os navios, que ainda estavam a caminho do porto, atacados por criaturas alheias daquele mundo, jamais alcançariam o destino que tinham em mente no início do dia.

Um ser misterioso que ataca e chupa o sangue de animais das fazendas, em especial, as pobres cabras indefesas.

Uma entidade feminina que pode ser invocada, se for chamada repetidas vezes em frente ao espelho de um banheiro à noite.

Um golfinho róseo capaz de tomar a forma de um homem charmoso e sedutor, que pode aparecer em momentos festivos.

Uma criatura cuja pele seca se prende aos ossos hediondos de alguém desprezível; de tão ruim, rejeitado pelo céu, pela terra e também pelo inferno.

Berço de lendas urbanas e rurais. Lar de museus, parques sombrios e casas de terror, a cidade de Shadowfen se destacava pelo seu apreço peculiar pelos mais variados tipos de lendas, principalmente as de horror e carnificina.

O chão de Shadowfen, até então escuro e feito de pedras, se tornou vermelho com a imensidão do portal que surgiu sob os pés dos cidadãos, que pareciam pisar em sangue.

Uma densa fumaça ardente, como se todo o lugar tivesse se tornado uma grande fornalha, subiu dos domínios do portal; escureceu-se o Sol acima, e o ar se tornou pesado.

Criaturas, como gafanhotos mutantes, saíram do meio da fumaça e assustaram todos aqueles que viram os seus longos cabelos humanos e dentes de leão.

Um ruído estridente vinha do bater das do enxame de monstros, que em nada tinham desejo pelas plantas ou animais, apenas pela carne das pessoas.

Atacado, um homem jogou uma pedra na carapaça dura de uma das criaturas, que nada sentiu; por outro lado, perfurou o peito do pobre infeliz com a sua cauda de escorpião.

— Ahh! — Agonizando no chão, junto ao lamento de outras vítimas, o homem sentiu o ferimento em seu peito se fechar. — Ahh!

A ardência do veneno injetado era infernal, a queimação fazia desejar a morte, e o pobre coitado, abandonado pela criatura, bateu a testa no chão de pedras, apenas para ter a ferida sangrenta curada de novo.

— E naqueles dias os homens buscarão a morte e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles — recitou, nas profundezas do portal, um homem que possuía um par de asas escuras. — O que fará quanto a isso, queridinha do Rafael?

Em pé, de frente para a recém-nomeada diretora da Academia de Batalha Ziz — Sapphire de Leroy — Trevor e Sophie ouviam o relatório dos intitulados Portais do Apocalipse, que apareceram em três dos pontos centrais de Hervron.

— Portais que se abrem de forma imediata — sussurrou a jovem loira, não resistindo ao ato de levar uma mão ao queixo; o dedo indicador curvado em frente à boca. — É quase uma réplica do incidente de Erebus.

O fator de alívio era a ausência da neblina carmesim que restaurava os corpos dos monstros mortos regularmente; no entanto, nem de longe deixava de ser ruim.

— Apenas uma semana em posse do Santo Graal, e a Perpetuum já conseguiu isso — lamentou a diretora. — Toda a vida de duas cidades, aniquilada; a terceira, em uma tortura completa e contínua.

Já era esperado que a nova onda de portais irregulares causada pela Perpetuum seria ainda mais intensa e potencialmente devastadora, mas aquilo estava fora de qualquer consideração.

Com os portais se abrindo tão rapidamente, seria impossível, para os duos, chegarem a tempo de salvar alguém; na verdade, até mesmo as Academias não sairiam sem baixas, caso tivessem uma daquelas coisas abertas sobre si do nada.

— Com a vantagem que possuem agora, eles seriam capazes de dizimar o mundo inteiro — salientou Trevor, estreitando os olhos em busca de uma luz no fim do túnel. — Ao menos, o objetivo deles nos dá algum tempo para reação.

— Huh? — Sapphire encarou o rapaz pensativo; moderado e calmo, diferente daquele Nefilim Primordial. — Sim, você está certo, senhor Foster.

Como o objetivo do Percatuum consistia em converter a energia das emoções negativas das pessoas, como o medo e a insegurança, ele não dizimaria toda a vida no planeta até que conseguisse energia suficiente para produzir o Elixir Demoníaco.

Até mesmo a quantidade limitada de portais servia apenas para plantar a semente da ansiedade nos corações da população? Quais cidades seriam vítimas depois? Quando Hervron sucumbisse, qual continente seria o próximo da fila?

— Mas isso também significa que nós temos um cronômetro em nossos pescoços, e quando o tempo zerar… — A diretora aproximou uma mão da garganta e abriu os dedos de vez. — As nossas cabeças explodirão.

— Então, vamos resolver isso antes que o nosso tempo acabe. — Ver Sophie, uma usuária de Manipulação Temporal, falar aquilo fez Sapphire até sorrir. — Nós vamos fechar o portal de Stormhold.

— Eu deixo a liderança dessa expedição nas mãos de vocês. — Trevor e Sophie assentiram com a mão direita sobre o peito esquerdo. — Estão dispensados.

O duo se despediu e seguiu ao encontro da equipe que estava sendo preparada para lidar com o portal que se abriu no Oceano Índigo e que em breve seria teletransportada por Trevor para lá.

Com o duo Top 1 Rank S da Academia de Batalha Ziz fora de jogo, o peso sobre os ombros daqueles dois jovens havia subido demais, e Sapphire lamentava por isso.

Conforme acordado pelos novos diretores das Academias de Batalha: os duos da Ziz cuidariam do portal de Stormhold; os da Absalon, de Thornfield; e os da Behemoth, de Shadowfen.

Sozinha na sala que uma vez dividiu com Nosferatu, a diretora deixou o peso das suas costas totalmente para o apoio da cadeira; suas mãos já não conseguiam segurar nem mesmo uma caneta.

A notícia sobre aqueles portais já estava se espalhando pelo mundo, e a semente do medo já havia sido plantada. Muitos já temiam os portais, mesmo que houvesse algum tempo para reagir a eles.

— E ainda existe a possibilidade de que eles possam criar mais portais, quando quiserem. — Sapphire olhou para a sua antiga mesa, agora em posse da de Nosferatu. — Eu queria você aqui pra me ajudar, velho.

De frente para a porta da casa do amigo, Trevor hesitou ao segurar a maçaneta fria; Sophie, em silêncio ao seu lado, pôs a mão dela sobre a dele.

Devagar, os dois abriram a porta, que não demonstrou nenhum tipo de resistência e deu acesso a um ambiente silencioso.

O duo caminhou pelo lugar, já conhecendo o caminho empoeirado e desolado que percorriam; o habitual teto preto.

— Apesar de tudo, ele nunca foi do tipo desleixado com a casa — comentou a garota, buscando apoio na mão do companheiro, que a segurou. — Atchim… — Sophie espirrou, quebrando o silêncio. — Desculpa.

Ao olhar para Trevor, no entanto, o que a moça viu foi um semblante distante; nem parecia que ele tinha ouvido o espirro ou se incomodava com o acúmulo de poeira.

O rapaz parou.

Depois de terem percorrido tantos corredores, enfim se viram diante de outra porta que dava um certo medo de abrir, mas pela qual os dois tiveram que passar.

Violinos e saxofones, clarinetes e oboés, instrumentos quebrados para todos os lados, fora dos seus suportes, entregues ao descaso do rapaz sentado no chão, encostado na parede, cabisbaixo.

Sem a existência dos braços, as rachaduras roxas, espalhadas pelo corpo do nefilim, davam certa luminosidade ao ambiente escuro da sala de música.

— Imagino o que traz vocês dois aqui. — Raizel levantou o rosto, devagar, com tantas rachaduras nele quanto pelo restante do corpo à beira do colapso. — Mas não imagino que eu tenha alguma utilidade pra vocês agora.


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