Volume 1 – Arco 2

Capítulo 11: Escrava Áfona.

Corriam. 

Pela floresta adentro. 

Corriam. 

Em um silêncio incômodo, respeitoso. 

Corriam. 

Carregados por dúvidas, desconfianças mútuas. 

Corriam. 

Queriam resolver aquele problema o quanto antes, razões distintas. 

Kenshiro e Erina não queriam deixar pontas soltas. Se havia a mera possibilidade de encontrarem o responsável que os atacou no passado, ou um futuro inimigo, eles precisavam se certificar antes de seguir com a jornada. 

Takashi precisava manter a integridade de sua família, Kuroda o acompanhava, sabia o quão importante aquilo significava para seu amigo. Um traidor — um mero erro — em sua irmandade era inadmissível; a grande operação do Pai poderia estar comprometida, a vida de seus irmãos em risco. O responsável, fosse quem fosse, precisava ser eliminado. 

Erina pensava semelhante, eliminar possíveis inimigos. Quando ela teria a coragem para contar para a dupla? 

Focados em seus objetivos, eles corriam. 

— Esperem — Kenshiro parou bruscamente. 

— O que foi? — perguntou Takashi, não queria ter atrasos. — Esqueceu de ir ao banhe... 

— Estamos sendo seguidos. 

Todos paralisaram com a revelação, sentiam que até o movimento de suas respirações fosse comprometedor. 

Takashi, ainda desacreditando, verificou o caminho que haviam percorrido. Ficou espantado ao ver duas figuras se escondendo rapidamente atrás das árvores. O que mais o impressionava era a distância em que estavam; eram menores que um grão de arroz para seus olhos. 

— Como você os percebeu? 

— E como você não? — rebateu Kenshiro. 

O assassino sentiu a crítica do espadachim o perfurar. Suas habilidades estavam sendo avaliadas e menosprezadas. Havia falhado em sua tentativa de assassinato e, agora, permitira seus pensamentos atrapalharem seus sentidos, ao ponto não notar seus perseguidores. 

“Espere e verá do que eu sou capaz, Kenshiro Torison”. 

— O que faremos? — perguntou Kuroda. — Falta pouco para o esconderijo! 

Erina levou a mão até seu queixo, pensou por alguns segundos. Quando uma ideia veio em sua mente, estalou os dedos junto de seu sorriso confiante. 

— Eu tenho um plano. 

***

Escondidos atrás de uma árvore, a dupla de perseguidores. 

Eram duas pessoas completamente opostas, tanto em mente quanto em corpo, nunca estariam trabalhando juntas se não fosse por obrigação. 

A jovem de cabelo curto e pele bronzeada, era um pouco menor do que a maioria das mulheres. Suas vestes eram avermelhadas, expondo sua pele por diversas aberturas; existia uma em seu peito, chegando até seu pescoço, outra no centro de suas costas. 

Apesar da roupa excêntrica, era feita de um forte e caro tecido, extraído nas Dunas — no deserto. A mulher não nascera lá, mas carregava suas origens na pele e vestimentas. 

Ao lado dela estava um idoso, gordo e asqueroso. 

O velho era pálido e vestia roupas mais brancas ainda, sua camisa não conseguia cobrir completamente sua barriga. Sua barba, mangas e gola ainda estavam manchadas de sua última refeição.  

Era um homem portador de grandes riquezas. Carregava um grande cetro que utilizava como bengala. O cabo do cetro fora feito de uma raiz que subia em espiral, em seu topo uma grande joia dourada estava presa pela madeira. 

Poderia ser um detalhe estranho, mas a anatomia do cetro indicava que ele não fora construído assim. A própria raiz cresceu em espiral e enrolou-se naquela joia. 

Huff! Huff! Por que... Huff! ...nós paramos? Huff... 

— ... 

— Como assim “eles pararam”? 

— ... 

— Não estou nem aí se você não sabe! Eu te trouxe aqui por um motivo... 

Acima deles, descendo cuidadosamente pelo tronco das árvores, como duas aranhas prontas para dar o bote, estavam Kenshiro e Takashi. O espadachim era melhor em furtividade que Kuroda, não queriam arriscar serem descobertos; o jovem assassino ainda teria sua chance de provar seu valor. 

Concluindo que não extrairiam nenhuma informação valiosa do monólogo do senhor, Kenshiro encarou Takashi para avisar quando fossem atacar. 

“Em três, dois, um...”, apenas seus lábios falavam. 

Em sincronia, eles caíram em cima de seus perseguidores. O ataque surpresa foi tão efetivo que conseguiram os amarrar sem dificuldades ou resistência. 

Kenshiro apareceu no campo de visão de Erina e sinalizou para ela e Kuroda se aproximarem. 

— M-meus s-senhores — Suava frio o idoso —, i-isso tudo não passa de um m-mal entendido! E-eu posso lhes garantir que eu não tenho nenhuma i-intenção errada com vocês. 

A mulher permanecia em silêncio, com uma expressão neutra. 

Com o grupo reunido, era hora de decidir. 

— O que faremos agora? — perguntou Takashi. 

— Vamos matá-los, aqui e agora! — Kuroda sacou suas adagas curvadas. 

— Não. Ainda não — disse Erina. — Vamos primeiro descobrir quem eles são, e como souberam da gente. 

Kenshiro, irritado com a lamentação do idoso, o amordaçou. Suas lágrimas e gemidos continuaram. 

Por garantia, decidiram separar os dois, não queriam que ouvissem as perguntas que fossem feitas. Kenshiro interrogaria o idoso, Erina a mulher. 

Takashi e Kuroda decidiram não participar. 

***

— Quem é você? — Começou Kenshiro, retirando a mordaça, rudemente. 

Ahh! Eu sou Zudao, governador da cidade-livre de Shenxi. 

Cidades-Livres são aquelas que não obedecem ou servem ao Império. São livres de seus impostos, mas não possuem qualquer vantagem ou proteção. São neutras em relação à guerra contra os Remanescentes. 

— “Shenxi”? — Kenshiro recordava-se dos mapas imperiais, tentava lembrar-se da localização desta cidade. — Isso dá vários dias andando a cavalo, e ainda sendo um governador... — Kenshiro sacou suas lâminas. — O que fazem aqui? 

— Viemos procurar por vocês! Mas não queremos problemas! Precisamos de vossa ajuda para adentrar ao templo de Budai, o Iluminado. 

— Um Herói? 

— Sim! 

Era vez da Erina. 

— Quem é você? — sua voz era firme, demonstrava que seria implacável com qualquer mentira, mas piedosa, se merecesse. 

A mulher não respondeu, apenas olhou para suas mãos atadas. 

Erina entendeu rapidamente o motivo do silêncio. A libertou sem hesitar. Sabia que se tentasse fugir, conseguiriam pegá-la sem muitas dificuldades. 

A mulher esticou os braços e estalou os dedos. Então gesticulou alguns sinais, dizia seu nome. 

— “Xin”, é isso? 

A mulher confirmou, balançando a cabeça. 

— Não irá tentar fugir ou fazer algo estúpido, não é? 

Novamente, ela confirmou. 

Aliviada, Erina foi direta ao assunto: — Quem são vocês? E o que querem conosco? 

Xin respondeu sem muitas cerimonias. Foram atrás do casal, pois eram os únicos que poderiam chegar ao Herói. 

As mesmas perguntas foram feitas aos dois. As mesmas respostas foram ditas, de maneiras diferentes, falavam a verdade. 

Zudao era um homem religioso, governava sua cidade sob uma Teocracia. Assim, Zudao não era apenas um político, mas uma santidade. Buscando atingir um estado de divindade, entendeu que não conseguiria sem a ajuda de Budai, mas o Herói se encontrava isolado em seu templo, protegido por uma barreira que impedia todos de entrar. 

Com ajuda de seus sacerdotes, procurou uma visão no futuro, daqueles que fossem capazes de adentrar a barreira. Kenshiro e Erina apareceram. 

Zudao sabia que era apenas uma questão de tempo para eles cumprirem tal destino, mas ansioso e apressado, queria acelerar as coisas. Junto de sua escrava mais leal e habilidosa, os dois partiram em busca do casal na Mancha Verde. 

Estiveram 2 semanas procurando-os. 

— Você... é uma escrava? — perguntou Erina, espantada. 

Xin confirmou. 

Erina fechou os punhos, considerava matar Zudao pelo simples desprezo. 

Ao perceber o descontentamento, Xin tentou acalmá-la. Explicou que precisavam focar em coisas mais importantes no momento, mas que não precisava se preocupar, havia sido ordenada a ser tão fiel ao casal quanto ao próprio Zudao. 

Ajoelhou-se de maneira cordial, para representar sua total submissão. 

Erina sentiu nojo de si mesma. Era mestre de uma escrava.  

Kenshiro ao saber sobre a natureza de Zudao e de Xin, sabia como sua esposa poderia se comportar dali pra frente. Estaria preparado para executar qualquer um dos dois se a ordem fosse dada. 

Reunindo todos, iriam dissertar sobre a próxima decisão. 

Ver a mulher e o idoso andarem de maneira igual ao casal trouxe estranheza para a dupla de assassinos. 

— Para Shenxi! — disse Zudao. 

— Não. — respondeu Erina, friamente. 

— Por que não? 

— Temos um assunto mais urgente para resolver agora. 

— O que poderia ser mais urgente do que um Herói?! 

— Não se preocupe, não lhe diz respeito. Se quiser, siga-nos, ou volte para sua cidade. 

Takashi adiantou-se, ficando ao lado de Erina. 

— Não está pensando em levá-los conosco até nosso esconderijo, está? 

— Não permitirei que eles entrem com a gente, ficarão do lado de fora. 

— Acredita mesmo que isso será o bastante? Só deles descobrirem a localização já irá nos comprometer. Eu não permitirei! 

— Takashi... — Levou a mão até o ombro do assassino. Ao olhar para Kuroda, achou melhor levá-lo para um canto, discutiriam a sós. — Ainda não percebeu? Sua família está condenada. 

O assassino sentiu o medo dominando-o, não havia pensado naquela possibilidade. 

—  Não posso permitir que um grupo que mata pessoas indiscriminadamente continue existindo. 

— Mas... isso foi só um erro. Não pode matar um grupo inteiro pelo erro de só uma pessoa! 

— Você não sabe se essa foi a primeira vez. Vocês podem estar matando inocentes a mais tempo do que imagina. Independente disso, terei que fazer algo a respeito — Erina começou a andar de volta ao grupo, deixando-o. — Espero que nesse breve caminho, você e Kuroda façam uma escolha apropriada. 

O assassino refletiu sobre seu futuro próximo, ainda tentava encontrar uma solução pacífica. Porém não conseguia. Erina já havia se convencido em matar toda a sua família, apenas não entendia o motivo dela ter lhe contado adiantadamente. 

Ao menos, sabia que Kuroda conseguiria se adaptar facilmente a uma nova vida. Imaginava se conseguiria fazer o mesmo. 

— Takashi, está tudo bem? — perguntou Kuroda, tirando-o de seu mundo reflexivo. — O que Erina te disse? 

— Não foi nada — disse Takashi, virando-se e caminhando à frente. — Vamos indo, não falta muito agora. 

Após alguns passos, decidiu correr. Todos acompanharam o ritmo. 

Corriam. 

Para um futuro incerto. 

Corriam. 

Para uma decisão. 

Corriam. 

Para a morte. 

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