Volume 1
Capítulo 8: A Muralha
No dia seguinte, os dois continuaram avançando para o norte sem qualquer incidente—pelo menos até a hora do almoço.
"Uma... muralha, hein?" disse Abel.
"Isso é realmente... uma muralha.”
Uma fileira de rochedos que se estendia de leste a oeste, sem nenhuma abertura aparente, erguia-se a cerca de trinta metros acima deles. “Muralha” era a única maneira de descrever o obstáculo que bloqueava a rota à frente.
"É, não tem como a gente escalar isso.”
"O topo tem uma inclinação invertida, então definitivamente não vou conseguir subir.”
Uma inclinação invertida acontece quando uma saliência se projeta a noventa graus para fora da face vertical da rocha. Superar algo assim com as mãos nuas exigiria habilidades de escalada avançadíssimas.
"Argh! Se eu fosse um mago do ar, eu conseguiria passar por cima disso fácil!" reclamou Ryo.
"Duvido muito. Acho que nem magia do ar serviria nessa situação.”
Abel tentou imaginar Rin, o mago do ar da sua party, escalando aquela parede à frente deles. Sim, totalmente impossível.
"Parece que vamos ter que ir pro leste ou pro oeste até achar uma saída.”
"Verdade, mas... tô com um mau pressentimento, independente da direção... " disse Ryo, sem realmente ter um motivo concreto para isso.”
Abel tirou uma única moeda de cobre da bolsa.
"Então que tal deixar a moeda decidir?”
"Cara, ou coroa? " Ryo perguntou.”
"Cara, vamos pro leste. Coroa, pro oeste.”
Ele lançou a moeda para cima com o polegar. Pegou no ar quando caiu e abriu a palma.
"Cara. Leste, então.”
"Entendido. Vamos nessa.”
Ryo assentiu, mas seus olhos continuavam fixos na moeda na mão esquerda de Abel.
"Essa moeda te chamou atenção, é isso? Tem algo estranho nela?”
"Não. É só que... é a primeira vez que vejo dinheiro…”
De fato, era a primeira vez que Ryo via dinheiro ali em Phi. Desde sua reencarnação, ele vivia sozinho, sem necessidade ou oportunidade de interagir com moeda nenhuma.
"Ah, entendi…”
Abel sentiu pena dele, achando que o motivo era pobreza—já que, quando se conheceram, Ryo estava usando apenas um tapa-sexo e sandálias.
"Abel, posso dar uma olhada mais de perto?”
Ele entregou a Ryo a moeda de cobre, a menos valiosa entre as moedas reais. A unidade básica de moeda usada nas Províncias Centrais era o florim. É claro que cada país emitia sua própria moeda, mas o florim era a unidade comum. Existiam vários padrões diferentes antes da adoção do florim. No presente, um florim equivalia a uma moeda de cobre, e era usado em todos os tipos de transações. Abel explicou tudo isso a Ryo.
Então é como o ducado, que era a unidade comum de moeda usada na Europa da Idade Média até o século XIX, pensou ele.
Ryo aceitou a explicação encaixando tudo nessa comparação. O lado da frente da moeda mostrava o perfil de um homem, enquanto o verso exibia a gravura de algum tipo de flor.
"Esse é um florim de cobre do país em que eu vivo, o Reino de Knightley.”
"Knightley! Que nome estiloso!”
Ele lembrou de uma certa atriz da Terra com esse sobrenome—linda demais! Ryo ficou ainda mais empolgado.
"C-Certo... O perfil na frente é do atual rei do Reino, Sua Majestade Stafford IV. E do outro lado é a flor da família real, o lírio.”
"Stafford Knightley... Nome perfeito de protagonista! Muito estiloso!”
"Bem... ele tem um monte de nomes do meio também, então não sei se dá pra dizer que é tão estiloso assim…”
Mas as orelhas de Ryo ignoraram totalmente o resmungo de Abel. “Síndrome de Protagonista Principal” aflige homens de qualquer idade. Embora... talvez fosse meio desrespeitoso comparar Sua Majestade a isso.
Ryo ainda não conseguia conter a empolgação com o quão incrível era o nome Reino de Knightley.
Esse era o país onde Abel vivia. O país para onde os dois estavam indo.
Abel, claro, ficou feliz por seu país causar uma boa impressão. Mas era inevitável que a impressão dele sobre Ryo tivesse caído um pouco, vendo aquele comportamento... infantil. Abel agora achava o jovem um pouco patético.
Ryo seguia examinando a moeda com brilho nos olhos enquanto acompanhava a muralha rochosa rumo ao leste. Abel caminhava ao lado dele.
"Ah, certo, Abel. Você disse que o florim é a unidade padrão nas Províncias Centrais. O Reino de Knightley é um dos países dessa coalizão?”
"Sim, na verdade é um dos Três Grandes Potências" respondeu Abel, balançando a cabeça afirmativamente.
"Três Grandes Potências... Quais são os outros dois?”
"O Império Debuhi e a Federação Handalieu.”
"Debuhi..." Ryo murmurou, fazendo uma careta.
"Hm? Você teve alguma experiência ruim com o Império ou algo assim?”
A expressão de Ryo ficou ainda mais amarga.
"Não, é só que... o nome é incrivelmente feio…”
"C-Certo... Então nomes são importantes pra você, né, Ryo…”
Abel encarou Ryo, claramente desapontado com aquele comportamento repentino.
Ryo, sem perceber nada, começou um discurso inflamado:
"O nome de um país é importante pros seus cidadãos, e isso é um fato pelo qual eu morreria defendendo! Eu com certeza não ia querer dizer pra alguém que eu sou do Império Porco Gordo... Espera, acabei de ter um pensamento horrível... E se... o nome do imperador for Sei Lá O Quê Debuhi e ele for um cara rechonchudo…”
Abel balançou a cabeça.
"Não, o sobrenome da família imperial é Bornemisza. Casa Bornemisza. O imperador atual é Sua Majestade Imperial Rupert VI da Casa Bornemisza. Ele tem mais de cinquenta anos, mas não tem um grama de gordura sobrando. O corpo dele ainda é firme como aço.”
"Então por que ele não muda o nome do país?!" gritou Ryo.
Ele não gritava por causa do próprio senso estético. Não, ele gritava pelos cidadãos condenados a viver sob um nome tão devastador. Ele simplesmente não conseguia aceitar Debuhi... Talvez algum anagrama funcionasse... Não, Hidebu era ainda pior... Sem saída, então...
༄
Eles continuaram seguindo a muralha rumo ao leste. Aproximadamente duas horas depois, a parede rochosa começou a diminuir de altura gradualmente.
"Ainda bem que tá ficando mais baixa, mas mesmo assim não dá pra escalar, né?”
"É, seria difícil demais. Mas não estamos com pressa. Aposto que, se continuarmos assim, vamos encontrar uma passagem.”
A muralha tinha agora apenas uns dez metros de altura, mas ainda era praticamente impossível de escalar.
Parece que algo enorme passou um laser gigante nisso... Será que um mago da luz conseguiria um efeito desses?, pensou Ryo.
Não havia ninguém para responder a pergunta em sua mente. Mesmo que tivesse dito em voz alta, ninguém ali saberia responder.
Eles caminharam por mais uma hora até que a muralha desapareceu abruptamente.
"Finalmente. Já era hora.”
"Opa, olha só. Parece que tem um campo aberto em vez de uma floresta adiante" disse Ryo.
Tirando alguns aglomerados de rochas de um metro de altura aqui e ali, um vasto campo se estendia até onde a vista alcançava, exatamente como Ryo havia dito. A mudança na paisagem era bem brusca, considerando que estavam viajando por uma floresta densa até trombando com a muralha.
"Dá pra ver longe, mas... não adianta especular sem motivo. Só temos uma opção: continuar pro norte, certo?”
"Então é pro norte que vamos, Abel.”
Apenas três minutos depois caminhando pelo campo, Ryo ouviu um clink. Abel, ainda como vanguarda, sacou a espada e golpeou algo que vinha disparado pelo ar.
"Uma... pedra? " murmurou.
Seja lá quem tivesse lançado a primeira pedra, disparou logo uma saraivada de pedrinhas do tamanho de um polegar contra Abel. Ele desviava ou aparava com a espada, enquanto forçava a visão para enxergar o inimigo. Parecia vir de uma rocha a dois metros à frente.
"Muro de Gelo " disse Ryo, criando uma barreira para proteger Abel.”
Agora que não precisava mais se preocupar com as pedras, Abel estreitou os olhos para observar melhor o oponente.
"Ryo, isso é ruim. Acho que caímos numa toca de golems de pedra.”
“Eu nem sabia que golems tinham tocas " disse Ryo, correndo para ficar ao lado dele.
“Lugares onde golems aparecem em grande quantidade são chamados assim. Mas é a primeira vez que vejo uma com meus próprios olhos.”
Acontece que só saber sobre algo nem sempre ajuda muito.
"Aquela coisa que parece uma pedra é um golem de pedra?”
"É, é sim.”
" Mas... golems não deveriam ter braços e pernas como pessoas...?”
O conhecimento de Ryo vinha da Terra. Embora não houvesse evidências históricas de golems reais, eles surgiam no folclore judaico como bonecos de barro animados. E considerando quantos mitos envolvem dar vida a terra ou moldá-la na forma humana, talvez golems realmente tenham existido algum dia...
"Então... golems assim existem quando são criados por alquimia. Já ouvi dizer que tem um país no oeste com um exército de golems. Golems naturais dizem surgir em diversos formatos... e esse aqui, no caso, é um pedregulho.”
Assim que Abel terminou a frase, virou-se para trás para desviar de outra pedra com a espada.
Clink.
Outra pedra veio voando por trás deles.
"Muro de Gelo.”
Ryo criou também um Muro de Gelo atrás deles.
"Agora que pensei... a gente passou por várias pedras iguais a essa no caminho. Será que elas despertaram?" disse Ryo.
"Então eles atraíram a gente pra atacar pelos dois lados, hein? Nada mal pros cabeçudos.”
"Dá pra derrotar um golem com a sua espada?”
Por sinal, o Compêndio de Monstros, Edição para Iniciantes não tinha entrada nenhuma sobre tipos de golems, então Ryo estava completamente no escuro.
"Nunca lutei contra um, então não sei.”
"Certo, justo.”
"Mas... acho que vai ser uma experiência útil. Vou me aproximar e atacar um. Ryo, você fica aqui.
Com isso, Abel saiu de trás do Muro de Gelo e correu rumo ao golem de pedra que se aproximava pela direita. Embora parecesse só um pedregulho, ele diminuía a distância pouco a pouco.
Um jato normal de água não iria cortar uma pedra. Mas um jato abrasivo... esse sim... Ainda não consigo usar o meu instantaneamente, então... vou ter que testar depois.
Enquanto pensava nisso, Abel se aproximou do golem e preparou um golpe.
"Habilidade de Combate: Perfuração Total” disse ele, avançando.
Krsh.
A espada mágica de Abel, sua parceira de aventuras, cortou o golem. Impulsionada pela Habilidade de Combate, a lâmina atravessou horizontalmente o corpo do golem de um lado ao outro. Qualquer criatura normal teria morrido ali, mas... a fenda começou a se fechar.
"Droga!”
Abel chutou o golem para derrubá-lo enquanto ele se regenerava, tentando ganhar tempo para correr de volta ao Muro de Gelo. O golem, porém, parecia incapaz de disparar pedras enquanto estava caído, então Abel conseguiu retornar em segurança.
"Isso não funcionou" disse Abel.
“Ele se regenera.”
"Sim, eu vi. Incluindo o que você acabou de atacar, temos sete golems ativos na nossa frente e cinco atrás de nós.”
"Total de doze, huh... As chances de fugir não são boas.”
"Concordo, escapar é impossível por enquanto. Hm, então... você se importa se eu testar um ataque?" perguntou Ryo, olhando para o céu.
"Pode tentar. Já tô sem ideias mesmo.
"Lá vou eu então. Muro de Gelo de 10 Camadas.
Ao entoar o feitiço, Ryo criou um Muro de Gelo paralelo ao chão, quarenta metros acima dos golems. Um instante depois, ele despencou, atingindo o solo com um estrondo ensurdecedor e levantando terra e grama vários metros no ar.
Ryo e Abel não sofreram nenhum arranhão sob a proteção do Muro de Gelo defensivo, mas a área onde o Muro de 10 Camadas caiu ficou irreconhecível. Naturalmente, não sobrou vestígio dos dois golems de pedra que estavam embaixo quando ele desabou.
"Agora sim dá pra chamar isso de arma de destruição em massa! Sinistro, né?”
Ryo não fez nada demais. Só criou um Muro de Gelo no meio do ar e deixou ele cair. O motivo de usar a versão de 10 camadas era simples: ele achou que o peso ia causar estrago sério...
Considerando que ele também adorava criar Lanças de Gelo no ar, talvez ele simplesmente gostasse de ver coisas despencando lá de cima. Seja qual for o caso, ele estava muito satisfeito.
Por outro lado, Abel permanecia parado, boquiaberto. Demorou cinco segundos para conseguir reagir.
"R-Ryo... o que diabos foi isso?”
"Olha, eu só criei um Muro de Gelo igual ao que tá aqui na nossa frente, mas no ar, e deixei cair. Só isso. Bem simples e direto, mas eficiente, não acha?" disse Ryo, tentando tranquilizar Abel com um sorriso animado—embora ele preferisse parecer todo estiloso depois de executar tão perfeitamente seu plano. A arma de destruição em massa tinha sido até mais eficiente do que ele imaginava.
"Agora que acabei com dois, vou derrubar o resto usando o mesmo método.”
Dito isso, ele começou a conjurar o Muro de Gelo de 10 Camadas repetidamente, esmagando os golems de pedra cada vez que o muro caía. Enquanto fazia isso, notou que apenas o golem que Abel havia derrubado com um chute continuava imóvel.
"Pronto, Abel, onze derrotados.”
"Onze? Hm? Não eram doze?”
"Sim. O primeiro que você atacou não se mexeu desde que você virou ele de barriga pra cima.”
Ryo apontou para a criatura em questão.
"Huh... verdade.”
Ryo desfez o Muro de Gelo defensivo para que eles pudessem se aproximar do golem caído. Abel cutucou-o algumas vezes com a ponta da espada, mas não houve reação nenhuma.
"Por que será que ele não tá se mexendo...? " comentou Abel.
"Tenho certeza de que seu chute poderoso desligou ele. Abel, você devia largar essa vida de espadachim e virar um grappler!”
"Um ‘grapp-ler’? E eu nem acho que meu chute foi tão forte assim.”
Abel não estava tentando causar dano; ele só queria derrubar o golem. A forma como ele o empurrou com a sola do pé lembrava... o mais próximo seria um chute de yakuza no pro-wrestling. Se o alvo fosse um humano, doeria — ainda mais porque acertou o plexo solar —, mas não seria o suficiente para ferir um golem de pedra.
"Talvez tenha alguma coisa... " disse Ryo, agachando-se. Ele começou a examinar com cuidado a parte inferior do golem, aquela em contato com o solo. Sua teoria era de que algo no chão fornecia energia ao golem, e que somente a parte inferior dele conseguia receber essa energia.
Sua experiência com carregamento sem fio de smartphones o inspirou. Se instalassem essa tecnologia no chão ou nas paredes, não seria mais preciso usar tomadas... Ele sempre pensou nisso quando vivia na Terra, então ver o golem parar de se mover depois de ser virado lembrou imediatamente aquele conceito.
E, no fim... ele estava certo.
"Abel, olha isso " disse Ryo, apontando.
"Isso é... uma pedra mágica?”
A pontinha de uma pedra mágica amarela aparecia na parte de baixo do corpo do golem.
"Devemos tentar retirar ela do golem?" perguntou Ryo.
Sim. Esses monstros são duros pra caramba, mas acredito que Perfuramento Total dê conta…”
"Não precisa. Eu resolvo. Pode demorar um pouco, mas tenho a magia de água perfeita pra isso. Jato Abrasivo.”
Agora que não estavam mais com pressa, o mesmo Jato Abrasivo que ele tinha decidido não usar antes era perfeito para extrair a pedra. Ele não sabia o tamanho exato da pedra embutida, então começou a desgastar a rocha ao redor dela aos poucos. Depois de cinco minutos, conseguiu arrancar a pedra mágica amarela. Era grande o suficiente para cobrir toda a palma da mão.
"Uau. Ela é... bem grande.”
Até Abel ficou surpreso, mesmo tendo coletado inúmeras pedras mágicas de incontáveis monstros ao longo da vida.
O valor de uma pedra mágica é determinado pelo tamanho, pela cor e pela profundidade do tom. Quanto maior a pedra, mais valiosa. Em geral, monstros mais fortes possuem pedras maiores. Os atributos elementais determinam a cor — por exemplo, uma pedra de atributo fogo é vermelha, e assim por diante. Já a profundidade da cor depende da vida do monstro e da experiência acumulada. Quanto mais escura, mais valiosa.
"Com certeza a maior que já vi pessoalmente. A cor amarela indica que é de atributo terra. A tonalidade escura também me surpreende. Esse golem deve ter ficado aqui por muito tempo, derrotando qualquer monstro que invadisse a área" comentou Abel, maravilhado.
"Oooh, despojos de batalha. Pode ficar com ela, Abel.”
"Eu?”
"Isso mesmo. Eu não tenho bolsos, lembra?”
"C-Certo, faz sentido.”
Ryo vasculhou as áreas onde tinha esmagado os golems de pedra para ver se alguma lasca de pedra mágica tinha sobrevivido. Infelizmente, todas tinham sido reduzidas a pedacinhos.
Moon: Que coisa não?
"Bem, esse método foi um fracasso" disse Ryo, deixando os ombros caírem em desapontamento.
“Nah, eu não diria isso. Se você não tivesse acabado com eles, a gente já era... Não é como se você tivesse outra escolha pra sobreviver. Além disso, nem dá pra dizer que você sabia que dava pra extrair as pedras mágicas.
"Verdade. Como é que aquele cara rico vivia dizendo mesmo? Ah, é. ‘Sobreviva primeiro e ganhe dinheiro depois." Ryo repetiu a frase do homem que recebia bilhões de ienes por ano em compensações, o mesmo responsável por quebrar o Banco da Inglaterra. Então ele assentiu com convicção.
"Tô vendo vários mais pra frente. Eles ainda não se mexeram, então o que você quer fazer?”
Somente os golems de pedra na área imediata tinham atacado. Mais adiante, a oeste, ainda havia vários aglomerados de rochas imóveis.
"Oh, é mesmo... Sinceramente, eu tô com medo de cutucar um vespeiro aqui, então prefiro não fazer o primeiro movimento se pudermos evitar. Sem contar que você não pode ficar carregando pedras mágicas no bolso pra sempre, Abel.”
"Ignorando a parte dos meus bolsos, eu concordo que não devemos morder mais do que conseguimos mastigar. Nesse caso, vamos seguir pro norte.”
Eles começaram a caminhar nessa direção.
"Não acha loucura que a gente não fazia ideia desse ninho de golems de pedra bem em cima da muralha, durante todo o tempo em que seguimos por ela?”
"Faz sentido pela localização, mas não sei como eles vieram parar aqui.”
"Talvez tenha algum tipo de magia especial vazando do solo...? Ou talvez alguém armou uma armadilha? " disse Ryo, como se fosse um detetive renomado analisando o caso.”
"Alguém, é...? Eu duvido. Isso aqui com certeza não parece um lugar onde alguém viveria.”
Os olhos de Ryo brilharam de empolgação.
"Exceto que não estamos limitados apenas a pessoas, certo?”
"O quê? Você quer dizer elfos ou anões?”
"Ha" Ryo lançou um olhar cheio de significado para Abel, como se tivesse acabado de marcar um ponto no debate. Em seguida ergueu as mãos num gesto de “não há nada que eu possa fazer” e deu de ombros, exasperado.
"Ei, não me olha como se eu fosse uma decepção.”
"Não, eu não quis dizer nada humanoide. Tava pensando mais em Akuma ou algo assim.”
"A-ku-ma... O que é isso?”
"Hã? Huuuh?”
No final do Compêndio de Monstros – Edição para Iniciantes, o Falso Miguel havia incluído um apêndice chamado “Compilação Especial”. Nele havia duas entradas " uma sobre dragões e outra sobre Akuma. Como tinham sido escritas à mão no volume, Ryo assumira que a existência dessas duas criaturas era conhecimento comum entre as pessoas de Phi. Além disso, Abel sempre parecia bem informado ao explicar diversas coisas sobre as Províncias Centrais. Com base nisso, Ryo pensou que seu companheiro seria bem mais instruído do que a média das pessoas desse mundo.
Mas Abel acabara de dizer que não sabia o que era um Akuma...
"Abel " perguntou Ryo
“Você sabe sobre dragões?”
"Claro que sei. Nunca vi um, mas sei que estão além do lendário.”
Ryo decidiu não contar que dragões realmente existiam. Por algum motivo, sentiu que aquilo era o certo a fazer.
"E já ouviu falar de demônios ou diabos?”
"Diabos, sim. Eles são os antagonistas dos deuses e dos anjos.”
Ahá. Então Akuma eram conhecidos como “diabos” ali.
Mas algo naquilo soava errado para Ryo. Se fosse o caso, por que Falso Miguel simplesmente não escrevera “Demônio” no lugar de “Akuma”? Além disso, a descrição dizia claramente: “Não... anjos caídos. Suas origens são desconhecidas.”
Hm, tem algo estranho aqui. Mas não adianta ficar encucado com isso.
"Então, Ryo, você acha que um diabo colocou esses golems aqui como uma armadilha?”
"Quero dizer... é uma possibilidade, né? Não dá pra afirmar com certeza que não foi.”
Naturalmente, nada do que ele dizia tinha base em fatos.
"Ah, Abel, você não mencionou elfos e anões?”
"Sim, mencionei. Porque um certo mago da água desgraçado tava se esforçando ao máximo pra fazer graça com a minha cara " respondeu Abel, lançando um olhar atravessado para Ryo.
"Abel, você não vai se tornar um espadachim excepcional se ficar preso a coisinhas assim.”
"Você é a última pessoa que eu quero ouvir dizendo isso!”
Depois de sobreviverem a situações perigosas repetidas vezes, os dois tinham se tornado praticamente irmãos de batalha. Isso era algo bom para os dois companheiros de viagem.
"Enfim, me conta mais sobre elfos e anões e tal.”
Claramente, a irritação de Abel não impediu nem um pouco Ryo de ceder à própria curiosidade.
"Grr... Você vê anões com certa frequência nos povoados. No fim das contas, a maioria deles são ótimos ferreiros. Um a cada três ferreiros especialistas é anão. Também há vários anões aventureiros. Eles geralmente atuam como vanguarda por causa da força física.”
"Entendi. Bem como eu imaginava.”
"Que imaginação é essa, hein... A população de elfos é incrivelmente pequena. Você dificilmente vai ver um em uma cidade. Em Lune, a cidade que eu e meu grupo usamos como base, tinha um aventureiro elfo, mas tenho quase certeza de que não havia mais nenhum. A maioria absoluta vive em assentamentos nas florestas e geralmente nunca sai de lá. No Reino de Knightley, eles habitam as florestas na parte oeste do país.”
"Entendi. Também como eu imaginava.”
"Sério, qual é dessa sua imaginação?!" Abel perguntou, meio irritado, meio impressionado.
Depois de contornar o ninho dos golens de pedra, os dois caminharam por uma boa distância. Diferente da floresta densa que tinham atravessado antes, as planícies naturalmente permitiam que acelerassem o passo. Eles também queriam se afastar daquele ninho perigoso o mais rápido possível.
Quando o sol começou a se pôr, chegaram a um rio.
"Vamos acampar por aqui hoje à noite " disse Ryo.
"Entendido. Que tal grelharmos peixe temperado com sal no jantar?”
"Ah, boa ideia. Vou pescar então.”
Normalmente, Ryo era responsável pela caça, já que sua magia era mais adequada para capturar presas como coelhos menores. Mas naquela noite, Abel se oferecera para assumir o trabalho.
"Tem certeza absoluta? " perguntou Ryo.
"Qual é, cara. Para de me olhar como se achasse que eu não dou conta. Eu era o responsável por pegar os peixes quando tava com meus amigos, tá?”
"Tudo bem, vou deixar com você então, Abel. Eu vou juntar galhos secos.”
Cada um foi cumprir sua função: Ryo para juntar lenha e Abel para pescar no rio.
"Não acredito nele... Sou profissional em pegar peixe. Vou mostrar pra ele.”
Murmurando isso, Abel tirou os sapatos, arregaçou a barra da calça e sacou a espada do quadril. Então entrou no rio até a altura dos joelhos.
Uma vez dentro da água, ficou parado em silêncio. De repente, enfiou a espada na superfície do rio. Quando levantou a arma, um peixe estava espetado na ponta.
"Boa.”
E assim Abel continuou pegando o jantar dos dois.
Já fazia um bom tempo desde a última vez que comeram peixe assado. Mesmo temperado só com sal, estava delicioso. Ryo e Abel adoravam carne, mas...
"Às vezes, peixe é exatamente o que eu quero. Cara, isso tá bom demais.”
"Tá ótimo mesmo, e é tudo graças a você e às suas habilidades excepcionais de caça, Abel. Eu subestimei você " disse Ryo, inclinando a cabeça em penitência.
"Ei, sem problema. O importante é que você entendeu.”
Abel parecia um pouquinho envergonhado.
"Eu realmente acho peixe de rio o melhor. Total e completamente diferente dos do mar.”
"O quê, você odeia o mar ou algo assim? Mesmo depois de ter me salvado lá?”
"Odeio, na verdade. Sabe, eu quase morri uma vez, há muito tempo…”
"Sério?! O que diabos aconteceu? Não consigo nem imaginar algo capaz disso, considerando sua habilidade com magia de água.”
"Um kraken.”
Com essas palavras, Ryo jurou para si mesmo que um dia derrotaria aquela criatura.
"Hã? Você também foi atacado por um kraken, Ryo? Mas não lembro de você ter um barco ou algo assim... Ah, será que o kraken destruiu naquela época?”
"Não, eu lutei com ele um contra um no mar... e perdi.”
"Tá, eu não tô entendendo absolutamente nada do que você tá falando.”
"Bem, não é como se eu quisesse lutar, tá? Sabe como todo homem tem uma batalha da qual não pode fugir? Era isso pra mim." Ryo então assentiu vigorosamente, como se tivesse tido uma ótima ideia, e continuou: "Eu perdi naquela época porque tentei enfrentar sozinho, mas tenho certeza de que agora eu conseguiria vencer com sua ajuda, Abel! Vamos lutar contra um kraken se a gente acabar perto do oceano, beleza?! Vamos batalhar com ele nas profundezas! Vai ser a revanche”
"É... então... boa sorte, Ryo. Vou estar torcendo na praia! Pode deixar isso comigo. Apesar da minha aparência, sou muito bom em torcer!”
Moon: Eu e Abel igualzin, parece até meu irmão.
“Então... você vai fugir... Que cruel, Abel…”
"Com certeza que vou!”
E assim se passou mais uma noite no subcontinente de Rondo.
Ryo ficou de vigia na primeira metade da noite. Abel cuidou do segundo turno.
Quando Ryo acordou cedo na manhã seguinte, Abel não estava sentado perto da fogueira.
Em vez disso, ele praticava golpes de espada a uma certa distância. Seus movimentos polidos lembravam uma bela dança com a lâmina. Ele se movia com intenção, mas sem hesitação, cada golpe refletindo o treinamento enraizado em seu corpo.
O conhecimento que Ryo tinha sobre as artes com espada vinha do kenjutsu japonês, e os movimentos de Abel eram completamente diferentes. Ainda assim, mesmo sendo totalmente leigo nas artes marciais de Phi, ele não conseguia tirar os olhos de Abel.
Era evidente que Abel não descuidava das bases. Dava para ver, pela forma como empunhava a espada, que cada fase do aprendizado o havia levado até ali. Talvez fosse talento natural aliado a esforço — que acabava produzindo alguém extraordinário como Abel.
Ele duvidava que o próprio Abel visse suas habilidades como fruto de trabalho duro. “É algo natural pra mim”, ou “Esgrima faz parte da minha vida”, era o tipo de coisa que diria. Ryo apostaria que Abel tinha passado anos convencendo a si mesmo de que sua habilidade vinha do talento... Mas, para qualquer observador, era óbvio que havia muito esforço por trás.
Mesmo assim, esforço não garantia que alguém atingiria os resultados que queria na hora que queria — e era por isso que também existiam pessoas cujo esforço jamais parecia render. Uma tragédia, para elas.
Ryo, porém, acreditava firmemente que esforço nunca te trai. Ele seria o primeiro a admitir que nem sempre o resultado vem quando você quer, mas, no fim das contas, seus esforços acabam se manifestando.
Ainda assim, existiam pessoas que não entendiam essa verdade fundamental, por mais que você explicasse. Talvez porque não compreendessem aquilo que nunca experimentaram. Humanos acreditam no que querem acreditar... Talvez esse seja o tipo de criatura que são.
Ao ver alguém como Abel de tão perto, Ryo sentiu que talvez também pudesse mudar um pouco. Ele permaneceu hipnotizado enquanto observava a dança com a espada. Empolgado com o que via, analisava cada movimento de Abel e os memorizava sem perceber.
"Ah, oi, Ryo. Vejo que acordou.”
Depois de concluir uma sequência, Abel chamou por ele. Tinha percebido desde o início que Ryo o observava, mas como ele não tentou interromper e Abel queria continuar treinando, simplesmente continuou. Ser observado não o incomodava " tinha se acostumado com isso desde muito jovem.
"Você é incrível, sabia, Abel? Eu sempre achei sua esgrima bonita, mas ela é tão refinada que acho que ‘bela’ é uma descrição melhor.”
As palavras de Ryo eram um elogio genuíno, dito com sinceridade.
"Argh, chega, vai. Eu faço isso há muito tempo, sabe? Meu corpo simplesmente se move assim. Deixa eu lavar o suor no rio rapidinho e já vou até aí.”
Ahhh, agora entendi por que ele treina logo cedo. Ele pode simplesmente se jogar no rio depois, em vez de me pedir uma ducha. Uau, ele realmente pensa em tudo.
O café da manhã acabou sendo o peixe que Abel tinha pegado no rio enquanto se lavava. Café da manhã — a refeição mais importante do dia... uma verdade que atravessa eras e países.
"Parece que esse rio tá descendo lá do norte. Que tal a gente seguir ele rio acima?”
"Acho uma ótima ideia.”
Talvez...
Com esse pensamento, Ryo decidiu revelar a Abel o que sabia.
"Abel, a região onde estamos é cercada em três lados " leste, sul e oeste " pelo oceano.”
“Tá, agora entendo por que você disse que a gente devia continuar indo pro norte.”
"Exatamente. Mas acredito que há montanhas ao norte. Tem uma cadeia indo de leste a oeste que se conecta com outra. Elas basicamente formam uma tampa sobre o subcontinente de Rondo. Pelo que parece, existem pessoas vivendo do outro lado dessas montanhas, depois que você cruza por elas.”
Essa informação fez Abel franzir o rosto, desconfiado.
"Ryo, não é que eu esteja duvidando de você, mas... quem te contou isso?”
"É melhor não perguntar. Tudo que posso dizer é que veio de um ser que ultrapassa os limites da inteligência humana.”
Ryo manteve contato visual direto com Abel o tempo todo. Em momentos assim, os olhos diziam mais do que qualquer palavra. Ele não podia desviar.
Ao ver a determinação irradiando de Ryo, Abel assentiu com firmeza.
"Tá bom, vou confiar só porque é você, Ryo. E, além disso, não é como se eu tivesse outras fontes confiáveis agora.”
Ryo inclinou a cabeça em gratidão.
"Valeu, Abel.”
"Nada, eu que devo agradecer. Tô supondo que você me contou isso agora porque, quanto mais pro norte a gente for seguindo o rio, maior a chance de achar a nascente lá nas montanhas, certo?”
"Isso mesmo. Lembre-se, porém, que atravessar as montanhas é só uma possibilidade. Por agora, seguimos o plano, mas quero que você mantenha essa possibilidade em mente, só por precaução.”
"Entendido.”
Então os dois partiram naquele dia, caminhando rio acima rumo ao norte.
Depois de um tempo, encontraram um bisão-cornudo bebendo água no rio, um tipo de monstro bovino que Ryo já tinha visto perfurar um jacaré com o chifre no rio perto de sua casa. Abel não mostrou misericórdia nenhuma ao derrubá-lo, e aquilo acabou virando o almoço deles.
Ele também lembrou de outra coisa daquela época: as piranhas do rio. Porém, aqueles peixes selvagens não pareciam existir nesse rio específico. Se existissem, Abel teria sido devorado ontem durante a pescaria. Ryo só agora percebeu o quão aterrorizante tinha sido o pedido que fez ao amigo.
"Ei, Ryo.”
" Hã? O que foi, Abel?”
"Você tá escondendo alguma coisa de mim, não tá?”
Caramba, ele tem ESP?!
Na mente de Ryo, ele viu seu próprio rosto distorcido numa expressão dramática de choque. Precisava falar algo rápido pra sair daquela situação. Em momentos assim, os olhos falavam mais que a boca. Ele não podia desviar.
E-Eu não faço ideia do que você tá falando.”
"É, você tá olhando direto pra mim, mas eu consigo ver o suor descendo pela sua cara e o tremor na sua voz. Não é exatamente difícil te decifrar, meu amigo.”
Havia uma clara repreensão no olhar de Abel enquanto encarava Ryo.
Ryo tentou desesperadamente por mais alguns minutos fingir, mas acabou desistindo e contou a Abel sobre o bisão-cornudo e as piranhas.
"Uau, eu nem sabia que existia peixe assustador desse jeito…”
"Você precisa entender que eu não escondi isso de propósito, Abel. Não tava tentando te sacrificar nem nada assim.”
" Eu sei que não... Não vi nenhuma ontem nem hoje, então talvez simplesmente não existam nesse rio... Ryo, tem mais alguma coisa que eu deveria saber? Tem certeza que não tá escondendo alguma informação importante que pode custar minha vida? Tem certeza absoluta?”
"Tenho. Eu já te contei tudo que sei.”
Ele estava mentindo, claro. Ryo não tinha falado uma palavra sequer sobre o dragão ou o Dullahan, mas achava melhor que Abel não soubesse desses dois assuntos, o que era totalmente diferente da história das piranhas. Ele honestamente só tinha esquecido desses peixes bizarros.
Ryo sabia que estava sendo egoísta com essa decisão.
Nem precisa dizer que Abel pescou no rio com muito mais cautela naquela noite do que no dia anterior.
Traduzido por Moonlight Valley
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