Volume 1
Capítulo 6: Vinte anos Depois e um Náufrago
O tempo passou rápido após sua batalha final contra o falcão assassino de um olho, bem como seu encontro casual com Lewin... Os sentidos de Ryo lhe diziam que já fazia vinte anos desde então... mais ou menos.
No começo, ele contava os dias para medir a passagem do tempo desde sua reencarnação, mas então o verão passou, o outono chegou, o inverno veio e a primavera visitou mais uma vez, e Ryo abandonou a tarefa. Ele descobriu que, no fim das contas, não havia motivo algum para marcar os dias. Dito isso, ele definitivamente achava que já tinha vivenciado o ciclo das estações pelo menos umas vinte vezes até agora...
Naquele momento, um espelho de corpo inteiro feito de gelo refletia a aparência de Ryo com bastante clareza. Ele precisou ajustar a refletividade do gelo quando o criou para dar a ele propriedades de espelho, mas... a imagem refletida era a mesma que ele vira quando reencarnou ali pela primeira vez.
"Eu... não estou envelhecendo... estou?"
Seu cabelo ainda crescia, e ele o cortava de vez em quando. Suas unhas também cresciam, então ele as aparava. Sua altura, no entanto, continuava a mesma... assim como seu rosto de bebê.
Dezenove para sempre... Que fantasia aterrorizante...
Ryo sabia que isso não era normal. Ele também não achava que o fenômeno pudesse ser explicado apenas pelas circunstâncias fantásticas de sua nova vida, mas também não analisou a situação muito a fundo. O fato de ele ter reencarnado em outro mundo já não era, por si só, nada normal.
Não demorou muito para que uma nova crise surgisse na vida tranquila de Ryo.
Mais cedo naquele dia, ele tinha ido até o mar para conseguir sal e satisfazer seu desejo por peixe de água salgada grelhado com sal, algo que não apreciava havia um tempo. Ele não encontrava um kraken desde a vez em que um quase o matou em seu mergulho no oceano. Ele só ia ao mar duas ou três vezes por ano, então estava claro que as inúmeras vezes em que quase morreu no mar ficaram gravadas em sua memória a ponto de afetarem seu comportamento inconscientemente. Resumindo, ele não era um grande fã do mar, apesar de ser um mago da água.
"Não, espera. Não é que eu não seja fã do mar. Eu só não sou fã de krakens! No fim, até comi aquele camarão!"
Vocês ouviram direito. Ryo havia comido o mesmo camarão que o nocauteou com sua bolha de ar na primeira vez que mergulhou no mar. Ele também investigou minuciosamente a composição de sua garra gigante. O que mais o surpreendeu foi o fato de que, apesar de seu poderoso ataque de bolha de ar, ele era um animal normal, e não um monstro. Ele percebeu que era uma versão gigante de um camarão-de-estalo depois de se lembrar de ter assistido a vídeos sobre eles. Eles também habitavam as águas costeiras do Japão.
Quando a garra gigante se fecha, ela cria uma bolha de ar, que gera ondas de choque ao estourar. Esse fenômeno é chamado de colapso de bolha ou cavitação, e o plasma gerado durante esse processo produz uma temperatura de até 4.400 graus Celsius. Os camarões-de-estalo nos mares ao redor do Japão têm apenas cerca de cinco centímetros de comprimento, mas podem gerar plasma de tamanhos similares.
Os três estados da matéria mais conhecidos são sólido, líquido e gasoso, mas existe um quarto também — plasma. O fato de a garra de um animal ser capaz de gerá-lo demonstra a verdadeira e aterrorizante força da natureza... Caçar e comer o camarão permitiu que Ryo superasse seu medo desse tipo de camarão, mas ele não podia dizer o mesmo do kraken. Até agora, ele ainda não havia superado seu medo daquela criatura em particular.
Enfim, voltando ao passeio de Ryo ao mar. Ao chegar, a visão que o recebeu foi... em uma palavra, um desastre. O contraste entre a bela praia de areia branca e o horizonte azul além dela era sempre sobrenatural, mas hoje parecia que um navio havia naufragado e espalhado seus destroços por toda a costa.
Havia pessoas entre os destroços também. Três, ao que parecia. Seu primeiro encontro real com humanos nos vinte anos (pelas estimativas de Ryo, de qualquer forma) desde sua transmigração da Terra para Phi.
Ele se aproximou de cada um deles cautelosamente, colocando a mão sobre suas veias jugulares para verificar se estavam vivos. Dois deles já estavam mortos, mas o terceiro ainda vivia. Ele aparentava ter seus vinte e poucos anos, com cabelo ruivo escuro e um físico solidamente musculoso, mas não robusto. Uma espada impressionante repousava em sua mão, sua lâmina longa, mas não muito grossa. Parecia ser o que chamavam de espada bastarda, que podia ser usada com uma ou duas mãos. Ele era claramente um homem que vivia pela espada.
Duvido que minha consciência me deixe em paz se eu abandoná-lo agora, né?
Era bem terrível que Ryo tenha considerado a ideia, mesmo que por um momento.
"Carrinho."
Ele gerou um carrinho de dois metros de comprimento feito de gelo. Sendo do tipo autopropelido, seus movimentos eram simples, capaz apenas de segui-lo. Originalmente, ele usava o Ice Bahn para transportar coisas, mas arrastar coisas manualmente — especialmente o número crescente de caças que conseguia abater em uma única caçada — havia se tornado irritante com o tempo, então ele inventou o carrinho como solução.
Na verdade, ele queria criar um golem de duas pernas que pudesse simplesmente andar sobre qualquer tipo de terreno irregular, mas cada tentativa de construir um falhou até agora. Mesmo agora, vinte anos depois, ele ainda não conseguia produzir um golem funcional.
De qualquer forma, ele construiu um caminho de paralelepípedos de sua casa até a praia para as poucas viagens que fazia todo ano até o mar, e seu feitiço Carrinho era mais que suficiente para percorrê-lo. Ele decidiu carregar o homem que ainda respirava, que parecia ser um espadachim, em seu carrinho, assim como quaisquer materiais aproveitáveis ao redor. Assim que fizesse isso, voltaria para casa.
"Ah, o sal... Posso pegar depois."
No entanto, quando estava prestes a erguer o espadachim para dentro do carrinho, Ryo notou um fluxo abundante de sangue escorrendo de um ferimento bastante profundo no braço esquerdo do homem.
"O sangue é vermelho vivo... Isso significa que uma artéria foi atingida? Ele vai sangrar até a morte nesse ritmo. Hmmm..."
Ele examinou os arredores em busca de algo que pudesse usar para estancar o fluxo de sangue. O princípio básico para parar um sangramento é aplicar pressão. Usar um pano ou algo similar para pressionar o ferimento deveria funcionar. Infelizmente, tudo o que apareceu na praia estava sujo, tornando infecções uma preocupação real. Além disso, ele não tinha pano ou fio para ajudá-lo a enfaixar o ferimento.
"Não tenho outra escolha."
Com essas palavras murmuradas, ele começou a aplicar pressão no corte pressionando a manga que o cobria, mas não parecia estar funcionando.
Um corpo humano adulto é sessenta por cento água. Dois terços estão nas células e o um terço restante está no sangue e nos fluidos intracelulares. Ou seja, como um mago da água, eu deveria ser capaz de manipular o sangue humano também...
Ryo visualizou o interior do braço esquerdo do espadachim. No olho de sua mente, ele passou através de sua própria mão que o apoiava e foi direto para o braço do homem... Ele sentiu como se pudesse ver as correntes de água fluindo em seu corpo... Então, ele se concentrou nos próprios vasos sanguíneos.
"Achei o ponto de hemorragia!"
Ele revestiu o exterior da veia rompida com uma membrana de água, tentando ao máximo evitar esmagar o vaso sanguíneo...
"Consegui."
Em sua mente, o sangue parou de vazar do vaso sanguíneo. Ainda assim, ele não saberia o que realmente aconteceu até remover a mão que aplicava pressão no ferimento. Ele finalmente ergueu a mão para inspecionar o braço do espadachim. O sangue... não estava escorrendo!
"Há! Eu consegui. De algum jeito."
Então, ele carregou cuidadosamente o homem em seu carrinho e o empurrou lentamente para casa.
( Imagem )
Abel abriu os olhos e olhou ao redor.
"Alguém... me salvou?"
Ele podia mover os membros livremente. Nenhuma corrente o prendia. O colar que ele sempre usava ainda estava lá. Sua espada, que ele considerava sua parceira, e o restante de seu equipamento descansavam bem ao lado da cama em que estava deitado.
Ele não sentia dor ao mover os braços e as pernas. Quanto às roupas... ele ainda estava com suas calças, mas seu torso estava nu. Embora tivesse um ferimento relativamente recente no braço esquerdo, não sangrava.
No geral, ele estava com uma saúde decente e não parecia ter sido capturado.
Abel firmou os pés no chão e levantou-se da cama. Então, pegou sua espada, que estava encostada na parede.
Estou numa casa... Até que é bem grande. A do prefeito da vila, talvez?
Ele passou pela sala de estar, abriu a porta da casa e saiu. Lá fora, encontrou o sol brilhando radiantemente sobre um quintal espaçoso.
Isso não é... uma vila? Onde diachos eu estou?
"Ah, você acordou? Ainda bem que sobreviveu."
Abel se virou surpreso. Ele não tinha sentido a presença do outro homem de forma alguma. Ao vê-lo, ficou ainda mais pasmo. Ele era uma cabeça mais baixo que o próprio Abel. Aparentando estar no final da adolescência, possuía cabelos pretos e olhos pretos, sua pele bronzeada de forma escura.
O mais chocante era que ele mal usava algo que pudesse ser chamado de roupa. Apenas um par de sandálias e uma tanga, ambas curtidas de algum tipo de couro animal, cobriam seu corpo.
Tenho quase certeza de que até crianças nas favelas usam roupas adequadas... Não, essa não é a primeira coisa que eu deveria dizer a ele.
"Meu nome é Abel. Foi você quem me salvou, certo? Obrigado." — disse ele, inclinando a cabeça.
"Não foi nada. Não fiz muito. Só trouxe você para casa depois que apareceu na praia. Infelizmente, só consegui salvar você, Abel. Já era tarde demais para os outros..."
"Ah, então eles também apareceram na praia? Não se preocupe com eles. Eram contrabandistas."
"Contrabandistas?"
Incapaz de compreender a situação, Ryo inclinou a cabeça em perplexidade.
Eles eram contrabandistas...? Então o que isso faz do Abel, já que eles chegaram juntos na praia? Um contrabandista também? Não, duvido que ele me contaria se fosse. Ele é bem direto, mas não parece um cara mau. Um cara direto, hein... Ah, espera. Nós estamos conversando. Não acho que ele esteja falando japonês, mas de alguma forma conseguimos nos entender... Não tenho ideia de como ele fez isso, mas bom trabalho, Falso Miguel. Um homem talentoso como sempre.
"Que tal comermos agora? Você deve estar com fome. Pendurei suas roupas ali, Abel. Acho que já devem estar secas. Ah, sim. Deixe-me me apresentar. Meu nome é Ryo. Prazer em conhecê-lo."
Seu salvador, Ryo, era diferente em muitos aspectos.
Primeiro, no que dizia respeito à comida, Ryo não tinha pão, mas tinha arroz. O grão era um alimento básico comum nas regiões do sul das Províncias Centrais, e o próprio Abel já o tinha comido antes. Ele se lembrou do prato específico que Ryo havia preparado, aquele que era acompanhado de... algum tipo de molho grosso e bem temperado. De qualquer forma, tinha um sabor requintado.
A carne grelhada e temperada que Ryo lhe serviu estava excelente. Depois, havia a coisa que ele chamava de "onigiri", uma mistura compacta de carne grelhada e arroz. Abel achou aquilo ainda mais delicioso que a combinação de pão e carne.
Ele descobriu que a roupa de Ryo — ou pelo menos sua tanga — era feita de algum tipo de couro de javali. Quando perguntou de onde ele tirara o couro, soube que o próprio Ryo o curtira. Ele conseguia ver vestígios do esforço no material assim que descobriu aquilo. O que surpreendeu Abel ainda mais foi que Ryo não tinha nenhuma outra roupa.
"Você realmente não tem mais nada para vestir...?"
"Isso mesmo. Não fiz mais nada desde então. Não tenho muito pano ou linha sobrando."
"Espera, o quê? Não é como se você tivesse que fazer suas próprias roupas. Poderia simplesmente comprar algumas..."
Tarde demais, Abel percebeu que poderia ter feito uma suposição infundada. Era preciso dinheiro para comprar coisas, então, e se seu salvador não tivesse nenhum e fosse por isso que ele não podia? Ele se arrependeu de suas palavras impensadas, que Ryo poderia facilmente ter interpretado como um insulto.
"Bem, sabe como é, não há uma única pessoa vivendo por aqui, muito menos uma cidade."
Abel jamais poderia ter imaginado sua resposta. Quando o pressionou por mais informações, descobriu que aquele lugar se chamava Floresta de Rondo e era desabitado por pessoas.
"Floresta de Rondo? Desculpe, mas nunca ouvi falar. A única coisa que me lembro é dos outros no navio dizendo algo sobre a maré estar nos levando muito mais ao sul do que o planejado..."
"Ah, imagino que faça sentido. Falando no seu navio, Abel, o que aconteceu com ele?"
Ele contou a história em poucas palavras.
O navio havia deixado o porto antes do programado, e foi por isso que ele não conseguira desembarcar a tempo. Quando saíram para o mar, encontraram uma tempestade e o leme sofreu danos, momento em que o navio foi soprado consideravelmente para o sul. Infelizmente, encontraram outra tempestade, e aquilo os levou ainda mais ao sul. Então, finalmente, um kraken destruiu o navio.
"Um kraken!"
Arrepios surgiram na pele de Ryo.
"Não acredito que você sobreviveu a tudo aquilo, especialmente a um kraken..."
"Bem, acho que se pode dizer que a sorte esteve do meu lado, considerando que o resto acabou morto."
"Ah, verdade."
As armas de Ryo também deixaram Abel curioso. Ele tinha duas facas, uma em cada lado da cintura. Aquilo indicava que Ryo era, muito provavelmente, um lutador de facas, mas sua falta de armadura não condizia. Apenas a tanga, que... Embora ele soubesse muito bem que lutadores de facas e espiões preferiam usar armaduras leves, aquilo era leve demais.
Ryo lhe dissera que não havia cidades ou pessoas ali. Como a requintada carne grelhada que ele comera era definitivamente algum tipo de coelho, ele achou que Ryo devia tê-la caçado sozinho. No mínimo, isso significava que Ryo era capaz de se defender numa luta. Caso contrário, não teria sido capaz de sobreviver numa terra onde krakens viviam na costa.
"A carne que você serviu mais cedo estava excelente, Ryo. Por acaso, você mesmo caçou o animal?"
Abel queria satisfazer sua curiosidade, mas hesitava em perguntar diretamente, então formulou a pergunta da forma mais sutil que conseguiu.
"Isso mesmo. Caço bastante na parte leste da floresta. O que comemos agora há pouco foi coxa de coelho-menor."
"Ah, então... você é um lutador de facas? Imagino que caçar coelhos-menores com uma faca seja incrivelmente difícil."
Sutileza claramente não era o forte de Abel, já que ele se via fazendo cada pergunta da forma mais direta possível.
"Ah, na verdade, sou um mago da água. Uso essas facas para autodefesa e para esquartejar caça e tal..." — disse Ryo, envergonhado, ao se lembrar do que o Falso Miguel dissera sobre apenas vinte por cento da população de Phi ter a habilidade de usar magia. Ele esperava que Abel dissesse algo como: "Uau, você consegue usar magia?" ou "Você é um dos escolhidos, hein?" ou "Queria eu poder usar magia também."
Na realidade, no entanto...
"Magia, hein?" — disse Abel. — "Apenas metade das pessoas nas Províncias Centrais consegue usar magia, sabe. Eu não sou uma delas, a propósito."
"Metade..."
Mas... o Falso Miguel disse que era vinte por cento! Ele mentiu para mim?!
Deprimido, Ryo ficou caído, sua expressão quase comicamente abatida.
"Hm? O que houve, Ryo?"
"N-Não, não é nada..."
“Ryo, eu quero falar com você sobre uma coisa", disse Abel, abordando o assunto depois que terminaram de comer a carne grelhada e de cuidar da arrumação básica.
"Hm? O que é?"
"Eu quero ir até a praia onde eu apareci, para verificar uma coisa. Se importa de me mostrar o caminho?"
"Não, de forma alguma. Então, devemos sair agora?"
Ryo vestia seu traje habitual: tanga, sandálias e as duas facas. Ele não tinha usado muito sua lança de bambu e faca ultimamente. A única razão pela qual ele sequer a fez, em primeiro lugar, foi a sensação de segurança que ela lhe dava quando a usava para combate à distância. Usar Murasame em seus treinos diários com o Dullahan e, depois, em seu encontro final corpo a corpo com o falcão assassino de um olho, o ensinou a dominar a lâmina especial ao ponto de ele não precisar mais da garantia da distância da lança. Ele de fato havia ficado mais forte.
No entanto, essa não era a forma como Abel via a situação.
"Ryo. Você disse que é um mago da água, certo?"
"Sim, está correto."
"Então, cadê seu cajado mágico? Por que não está levando ele com você?"
"Bem..."
Nas Províncias Centrais, o último lugar onde Abel estivera, era um princípio básico para magos possuírem cajados, pois eles desempenhavam um papel vital em suas vidas — ao atuarem como condutores de magia, os cajados auxiliavam seus usuários a controlarem a ativação e a eficácia de sua magia. Sem cajados, os magos precisavam de dez vezes mais energia mágica para ativar seus feitiços e, mesmo assim, produziriam resultados apenas um décimo tão eficazes. Em outras palavras, Abel francamente achava que Ryo era inútil sem um cajado.
"Ah, bem... eu não tenho um", disse Ryo, que nunca havia usado um cajado, varinha ou coisa do tipo...
Abel se arrependeu profundamente de ter perguntado ao ouvir aquela resposta.
Estraguei tudo de novo... Viver na pobreza é difícil de várias formas, então é possível que ele tenha perdido o cajado em algum momento e isso não teria sido uma prioridade. Como pude insultar meu salvador assim? Que pergunta idiota... Ah, espera aí. Acho que me lembro de ouvir rumores sobre "Magos do Inferno" ou algo assim, que conseguem usar magia com uma capacidade monstruosa mesmo sem cajados... Certo, talvez um cajado não seja o suprassumo que eu penso que é.
Apesar dos vários pensamentos que se agitavam em sua mente, Abel teve o cuidado de ser mais circunspecto quando falou novamente.
"Ah, sim, claro. Nem todo mundo tem um. Já que eu sou um espadachim, desde que eu tenha esta espada, ficarei bem", disse Abel, batendo na arma em suas costas. "Se acontecer alguma coisa, eu assumo a liderança e luto. Você pode ficar para trás, Ryo."
"De jeito nenhum. Eu não posso simplesmente deixar você carregar o fardo sozinho..."
"Por favor, me deixe fazer isso por você. Não me sinto bem em ser salvo sem retribuir o favor. Digamos que é uma questão de honra para mim", disse Abel, aproximando muito seu rosto do de Ryo.
"Oh, bem... se você insiste. Obrigado. Vou contar com você quando a hora chegar."
Era a melhor resposta que Ryo conseguia dar.
Os cadáveres não estavam mais na praia. Nem sequer cinco horas haviam se passado desde que Ryo carregou Abel de volta para sua casa, mas os corpos dos dois contrabandistas haviam sumido. É claro, Ryo não havia feito nada com eles. Muito provavelmente, algo do mar havia feito o serviço.
"Os outros dois estavam certamente mortos", disse Ryo, impassível. "Talvez carniceiros tenham devorado seus corpos? Ou monstros marinhos os arrastaram para as profundezas."
"Eu teria acabado como eles se você não me tivesse encontrado, Ryo", disse Abel, com gotas de suor frio escorrendo por suas costas.
"A Senhora Sorte realmente o favoreceu, hmm, Abel?", perguntou Ryo, sorrindo alegremente.
"É... acho que sim. Vou pensar dessa forma. Além disso, você não precisa falar tão formalmente comigo. Isso me deixa desconfortável, considerando que você é meu salvador e tal."
"É o correto, já que você é mais velho que eu... Mas se você diz, certo."
"Obrigado por me aturar. Eu prefiro deixar as coisas casuais, já que é assim que meus amigos e eu somos um com o outro."
"Amigos, hmm...", disse Ryo, refletindo sobre a ideia.
Eu pedi ao Falso Michael para me colocar em um local isolado porque achei que queria ficar sozinho. Mas... ter amigos parece bom. Sinto um pouco de inveja agora. Quero dizer, vinte anos é muito tempo para se passar completamente sozinho.
Atrás dele, Abel estava procurando por algo.
Eu sabia, pensou Abel. Não sobrou nada. Ou afundou no fundo do oceano. Pode estar até mesmo dentro do estômago do kraken. Não há muito que eu possa fazer sobre isso agora. Vou descobrir depois que me reunir com os outros novamente.
"Não encontrei o que procurava", disse Abel. "Obrigado mesmo assim, Ryo."
"Que pena. E agora então?"
"Para começar, quero voltar para meus amigos. Se eu conseguir chegar à cidade de Lune, devo poder enviar uma mensagem para eles de lá..."
"Lamento, mas não sei onde fica", respondeu Ryo, balançando a cabeça. "Acho que provavelmente é bem ao norte daqui, embora... o que significa que você terá que viajar bem longe. Nem sequer há pessoas nestas bandas, muito menos cidades."
"É mesmo... Acho que vou ter que me preparar para qualquer coisa então." Abel ficou em silêncio enquanto ponderava as coisas. Depois de um momento, ele olhou de volta para Ryo. "Ei, Ryo. Por que você não vem comigo?"
O convite de Abel foi uma completa surpresa para Ryo. Navegar sozinho por esta floresta era definitivamente um desafio. Seria difícil até para Abel fazer a jornada solo, apesar de sua habilidade com a espada. Pausas só tornariam a jornada mais difícil. Se os dois fossem juntos, um poderia dormir enquanto o outro ficava de vigia. Se ele fosse sozinho, não conseguiria dormir o suficiente porque sempre teria que estar em guarda. Quanto mais tempo ele ficasse acordado e cauteloso com o entorno, mais cansado ficaria. E o cansaço eventualmente levava a erros. Era um fato inescapável da vida para todos, novatos e especialistas igualmente.
É por isso que, na Terra moderna, a menor unidade militar é a célula de dois homens.
Apesar disso, até agora, Ryo não tinha imaginado jamais deixar a Floresta de Rondo. Ele construiu um arrozal ao redor da casa, cavou um sistema de esgoto e calçou os caminhos que costumava usar com paralelepípedos. Ele até cultivou uma enorme variedade de frutas dentro da barreira. Embora vegetais estranhamente faltassem em sua dieta, ele ainda assim não tinha queixas de sua vida aqui. Ele realmente não tinha, mas... quando Abel pediu para ele vir junto, ele não podia negar que uma pequena parte dele estava inclinada a concordar imediatamente.
Eu não tenho queixas. Também não estou infeliz. Mas... bem, eu meio que — de certa forma — quero ver como é uma cidade neste mundo de espada e magia. Só um pouquinho. Realmente sinto que seria um desperdício jogar fora esta vida tranquila que levei tanto tempo para construir para mim mesmo...
A falta de reação de Ryo deixou Abel um pouco em pânico.
"Desculpe por isso. Deveria ter preparado o terreno, né? Que tal você ir comigo até Lune? Eu realmente apreciaria sua companhia. Pense nisso como ser meu guia. Espera, não. Pense nisso como um emprego! Sim, um emprego. Eu vou te pagar para vir comigo. Vou até te ajudar se você pensar em tentar a vida na cidade quando chegarmos lá. Eu realmente não tenho a menor ideia de como chegar a Lune daqui. Então, o que você diz...?"
Depois de soltar tudo isso, Abel baixou a cabeça e esperou em silêncio.
Ah, certo. Eu não preciso deixar a Floresta de Rondo para sempre. Posso simplesmente voltar depois de ver um pouco do mundo. Não é como se eu envelhecesse mesmo... Tenho quase certeza de que a barreira do Falso Michael vai se manter enquanto eu estiver fora também.
Ryo não tinha base lógica para sua avaliação da barreira, apenas uma tremenda fé no Falso Michael.
"Sim, está bem", disse Ryo. "Preciso cuidar de algumas coisas primeiro, então o mais cedo que podemos partir é amanhã. Se isso estiver bom para você, aceito o emprego."
"Aaaah, você é um salva-vidas, Ryo!"
Abel agarrou a mão de Ryo com ambas as suas e a apertou feliz. Para ele, Ryo representava um raio de esperança. Ele havia sobrevivido até agora apenas graças ao fato de Ryo tê-lo encontrado e carregado de volta para sua casa.
Ryo podia não saber onde ficava a cidade de Lune, mas ele parecia bastante certo de que era "bem ao norte". Isso significava que ele devia saber o suficiente sobre a região para fazer um palpite fundamentado. Além disso, seria muito difícil para Abel partir por conta própria, considerando que ele nem sabia quão longe esta floresta se estendia.
Ele pode não ser ótimo em combate, já que é um mago sem cajado, então eu simplesmente cuido dessa parte. Vai ser bom só ter alguém para revezar a vigia à noite. Ah, isso me lembra... Vou comprar um cajado e roupas para ele quando chegarmos à primeira cidade da jornada. Acho que ele não ficará insultado se eu fizer isso. Pensando bem, eles podem nem deixá-lo entrar na cidade vestido daquele jeito...
Evidentemente, Abel estava sob a impressão equivocada de que a pobreza era a razão pela qual Ryo não tinha um cajado e vestia apenas uma tanga... Bem, pelo menos ele não estava errado sobre Ryo não ter um tostão.
Quanto ao próprio homem, sendo Ryo como era, ele decidiu cuidar de algumas coisas em preparação para deixar sua casa desacompanhada por um período indefinido de tempo. Ele não precisava fazer nada na casa em si, pois ela e suas funções, como a barreira e o silo, haviam sido cuidadosamente projetadas pelo Falso Michael. Ele sabia que elas continuariam funcionando perfeitamente mesmo se ele não estivesse lá.
O arrozal era uma perda, no entanto. Ele teria que reconstruí-lo quando voltasse, então congelou parte do arroz não descascado. Poderia comê-lo ou cultivá-lo após seu retorno.
O mesmo valia para as frutas crescendo em seu quintal. Tudo o que ele podia fazer era rezar para que algumas delas sobrevivessem a qualquer chuva.
Basicamente, quase tudo o que ele deixasse para trás ficaria bem, de uma forma ou de outra. O problema era o que levar consigo. A coisa típica do isekai seria algum tipo de inventário ilimitado ou subespaço mágico para armazenar coisas... mas ele não tinha nada parecido, o que significava que precisava escolher cuidadosamente o que levar.
Primeiro, ele decidiu trazer sal e pimenta-do-reino. Colocou os temperos em uma pequena bolsa de cordão que havia sido curtida com pele de cobra-pipa. Suspensa na cintura, não seria um grande estorvo. Além disso, ele não precisava de muito de nenhum dos dois, mas a comida ficava sem graça sem eles, então eram absolutamente essenciais nesta jornada.
Ele também jogou ervas para feridas em sua forma original na bolsa, assim como uma pederneira. Ele deveria ser capaz de criar uma faísca usando a faca que o Falso Michael lhe fornecera.
Ele podia fazer água por conta própria.
Espera, isso realmente vai ser o suficiente? Não levou muito tempo, hein?
Se você não precisasse de roupas extras como Ryo, acabava que você podia viajar com muito pouca coisa.
A única coisa que resta é me despedir...
Depois que terminaram de jantar, Ryo disse a Abel que sairia um pouco.
"A esta hora?", perguntou Abel, desconfiado.
"Vou. Este é o único horário em que podemos nos encontrar, então preciso avisá-lo que ficarei ausente por algum tempo. Por favor, espere aqui enquanto estou fora, Abel."
"Sim, claro."
Ele disse que ninguém mora por aqui, pensou Abel... Então, para quem exatamente ele está contando sobre sua jornada? Talvez o espírito de alguém que ele amou muito? Só porque ele está sozinho agora não significa que sempre foi assim. De qualquer forma, não é algo em que eu deva me intrometer.
Ryo ficou de pé na margem do lago situado no centro dos vastos pântanos ao norte. À medida que a lua se aproximava do zênite no céu noturno, o Dullahan apareceu, como de costume, montado em seu cavalo decapitado. Nesse ponto, a rotina normal deles seria Ryo assumir uma postura de luta com Murasame. Ele sinalizaria para o Dullahan fazer o mesmo e então eles cruzariam espadas.
Hoje foi diferente. Ryo se aproximou de seu mestre sem remover Murasame de sua cintura.
"Tenho algo para te contar hoje", disse Ryo.
"Vou deixar a Floresta de Rondo amanhã e não voltarei por algum tempo, então a sessão de hoje será a última por um tempo."
Ele não sabia se o Dullahan entendia suas palavras. Na verdade, ele nem sabia o que era um Rei das Fadas, para começo de conversa. Mesmo que ele não entendesse, o Dullahan o havia treinado na arte da espada há muito tempo, então Ryo sentiu que era o mínimo tentar expressar sua gratidão.
"Obrigado por tudo. Sinceramente, do fundo do meu coração. É só por sua causa que consegui sobreviver até agora."
Talvez Ryo tenha imaginado, mas o Dullahan parecia um pouco triste agora. Claro, ele não podia ler as expressões do Rei das Fadas por causa da falta de cabeça e rosto. No entanto, ele sentiu uma tristeza envolvendo seu professor.
"Não quero que seja como nossos combates de treino habituais. Quero que você venha para cima de mim com tudo o que tem esta noite", disse Ryo, criando a lâmina de Murasame.
Em resposta, o Dullahan desembainhou sua espada e assumiu sua postura. Então, a luta de espadas deles começou.
Durou duas horas sem cessar. A pontuação foi de dois contra três, a favor do Dullahan. Embora Ryo tivesse conseguido marcar aqueles dois golpes fatais... ele perdeu quando seu mestre finalmente desferiu seu terceiro golpe.
Outra derrota não fazia muita diferença para Ryo, já que ele nunca havia vencido mesmo, então ele se levantou para se despedir. Mesmo se sentindo instável, ele conseguiu.
"Muito obrigado", disse Ryo, curvando profundamente a cabeça.
O Dullahan se aproximou dele e lhe deu algo.

Mon: Oi Ryooo! 🫦👊 Feliz Natal~~ akakaka Gente é meme pelo amor de Deus!! | Sol: Olha a baixaria na minha Novel….
"O que é isso... Uma túnica e uma capa? Para mim?"
Ele pegou as roupas e as vestiu. Serviam nele perfeitamente, como se tivessem sido feitas especificamente para ele. A túnica era branca, mas lindamente bordada e fácil de se movimentar. A capa, que parecia ter sido feita como um conjunto com a túnica, adquiria um tom azul pálido quando colocada sobre ela. Sem mencionar o lindo gradiente azul no forro!
Ryo imediatamente se apaixonou pelas roupas.
"Muito obrigado! Vou estimá-las."
Ele se curvou profundamente mais uma vez. Quando Ryo se endireitou, sentiu que conseguia perceber a satisfação de seu mestre. Logo depois, o Dullahan montou em seu cavalo decapitado e desapareceu como de costume.
Traduzido por Moonlight Valley
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