O Fim Perfeito Brasileira

Autor(a): W.S.


Volume 1

Capítulo 3: O Mundo da superfície e o Reino de Érinfall

A luz do sol a despertou logo pela manhã. Ele era fraco, mas quentinho e reconfortante, acolhedor. 

Damesha abriu os olhos devagar, sentindo o corpo pesado. Ainda estava no beco — o mesmo onde havia desmaiado após escapar do inferno. O ar era diferente: leve, frio, cheio de sons desconhecidos.  

Uma voz ecoou dentro dela, suave e distante:  

— Bem, é aqui que nos separamos, cara Damesha. Aproveite sua tão desejada vida feliz na superfície ou que quer que queira aqui. 

Ela olhou em volta — ainda um pouco tonta. 

— Marowkai...? — chamou.  

Silêncio. Ele já havia partido.   

Damesha se levantou, cambaleando. O beco era estreito, entre duas casas de pedra. Mesmo durante o dia, a luz mal entrava ali. Ela se observou e bufou.  

— É... com essa aparência eu seria queimada viva em cinco minutos.  

Assim, com apenas um segundo, a sua pele lilás se tornou branca como leite, o cabelo escureceu num castanho suave e os olhos ganharam um tom avermelhado. Um vestido marrom simples cobriu seu corpo, surgindo do nada. 

“Assim está melhor. Camponesa normal, nada suspeito. Tudo certo, ninguém vai desconfiar.”  

Ela saiu do beco e foi recebida por um mar de sons e cores. As ruas estavam cheias — barracas por todos os lados, vendedores gritando, pessoas rindo, o cheiro de comida invadindo o ar.  

“Caramba... que movimentado! E que cheiro delicioso!”  

Damesha caminhou pela feira, fascinada. Cada rosto, cada cor, cada objeto parecia mágico. Mas algo adiante chamou sua atenção: uma multidão agitada em volta de uma barraca.  

Curiosa, ela se aproximou. Antes que pudesse chegar, um velho baixo e careca, de barba branca e bengala, trajado com roupas simples, uma camisa e uma calça, estendeu a sua bengala impedindo sua passagem.  

— Calma aí, senhorita! — disse, sorrindo. — Melhor ficar aqui, senão vai atrapalhar.  

— Tá, tá... — respondeu ela, tentando espiar. — Mas o que tá acontecendo?  

— Uma competição! — disse o velho, orgulhoso. — Quero ver quem aguenta beber mais do meu licor especial e continuar de pé!   

— Beber? Ficar de pé? — Damesha arqueou uma sobrancelha.  

— Quem aguentar até o fim leva cinco garrafas de graça! — ele disse, com brilho nos olhos. — E ainda paga o que bebeu durante a disputa! Um ótimo jeito de divulgar meu licor e fazer uns trocados.  

Damesha sorriu de canto.  

— Mas que velho ganancioso, não é?  

— Ora, minha cara... sem dinheiro, não há prazer na vida! — retrucou o velho. — E falando em prazer, me parece nova na cidade. Que tal um passeio depois?  

“Esse velho não parece muito apetitoso... só que no inferno eu comia coisa pior.”  

— Claro. Por que não? — respondeu Damesha, num tom sedutor.  

— Perfeito! Assim que a competição acabar, te mostro o melhor da cidade.  

O velho a levou até um ponto onde a visão era melhor. No centro da confusão, dois homens disputavam quem beberia mais. Um deles era careca e barbudo, com roupas parecidas com as do velho. O outro, loiro e musculoso, exibia tatuagens pelo corpo e um sorriso presunçoso.  

As canecas iam e vinham, o público vibrava. Por fim, o loiro desabou sobre a mesa, e o careca bateu a última caneca sobre a mesa, vitorioso. 

— HÁ! Seu fracote! Posso beber o dia inteiro! — gritou, triunfante.  

Então, outros dois homens loiros vieram e retiram e levaram o loiro bêbado embora. Eles eram praticamente idênticos, e saíram carregando outro pelos braços.  

— Bom, nós temos um vencedor! — anunciou o velho. — Cinco garrafas do meu licor, por conta da casa! 

Antes que ele entregasse o prêmio, Damesha avançou entre a multidão e encarou o homem e, como se não fosse nada provocou ele. 

— Sabia que mentir é feio? — disse, com um sorriso debochado.  

O público se calou. O homem franziu a sobrancelha, fazendo cara feia, enquanto encarava Damesha. 

— Mentir?! Eu?! Tá doida, mulher?!  

— Se é tão confiante, prove. — Damesha cruzou os braços. — Um duelo. Quem beber mais vai vencer. Se eu ganhar, você vai me fazer um favor. Se você ganhar... pode pedir o que quiser.  

O careca sorriu de orelha a orelha.  

— Há! Vitória fácil. E quando eu ganhar, você vem comigo, doçura!  

— Vamos ver. — Ela se sentou, com o olhar desafiador.  

O velho preparou as canecas — fileiras delas, cheias de seu líquido na cor âmbar.   

E a disputa começou. Um gole. Outro. Depois dez. Vinte.  

  O público aplaudia, gritava, vibrava. Mas aos vinte e dois copos, o careca empalideceu. Cambaleou, tentou levantar a caneca... e desabou vomitando sobre o chão. Silêncio. Damesha pousou a caneca vazia e sorriu.   

— Eu venci.  

A multidão explodiu em risadas e aplausos. 

O velho foi até sua barraca para buscar um pouco de água. Ele a deu ao homem e o ajudou a levantar. Damesha só observava a cena. Depois de alguns minutos, o homem já parecia estar melhor. Então, ela decide cobrar a aposta. 

— Agora, quanto à aposta... Você vai me acompanhar, junto com o velho. Tenho muito o que ver por aqui.  

O homem suspirou, sem graça.  

— Só isso? Mulher, você é barra pesada, hein. Mas tá bom, cumpro o combinado.  

— E o seu nome? Qual é?  

— Ralph.  

— Prazer, Ralph. — Damesha sorriu, debochada.  

O velho riu, ajeitando a bengala.  

— Que mulher interessante...  

E os três seguiram pela feira, o sol brilhando sobre o novo mundo que Damesha está finalmente vislumbrando. 

Damesha caminhava ao lado do velho pela cidade, enquanto ele tagarelava sobre cada rua e cada história com o entusiasmo de quem jamais havia deixado aquele lugar. Ralph os seguia logo atrás, bufando a cada passo, visivelmente contrariado.   

— Ei, Ralph! — provocou Damesha, virando-se com um sorriso debochado. — Ainda bravo só porque perdeu pra uma mulher?   

— O quê?! — ele explodiu. — Eu só perdi porque já tinha bebido antes!  

— Ah, claro... — ela respondeu com ironia. — O campeão invicto do bar, derrotado por uma mulher.  

Ralph bufou e desviou o olhar, e Damesha riu, satisfeita, se divertindo da situação. 

O velho os conduziu pela rua principal. Era uma via larga, pavimentada com pedras claras e cercada por casas de arquitetura nobre. Carruagens iam e vinham em fluxo constante, puxadas por cavalos que reluziam sob o sol.   

— Essa é a capital do Reino de Érinfall, minha jovem — explicou o velho com orgulho. — E essa rua é o coração dela. Aqui moram os nobres de menor influência, mas lá no Norte estão as cinco grandes mansões — Máron, Fastenis, Aubem e Fernis, cada uma representada por sua cor. A azul pertence à família da Duquesa Érinfall, parente direta da realeza.  

— Érinfall… como o nome do reino? — perguntou Damesha, curiosa.  

— Exato! — respondeu o velho, satisfeito. — A primeira Duquesa era irmã do primeiro rei. E, dizem, a linhagem dela é formada apenas por mulheres — um matriarcado.  

Damesha arqueou uma sobrancelha, com o olhar arregalado.  

— Só mulheres? Interessante… — murmurou, quase para si mesma.   

Eles seguiram, e o velho mostrou as ruas mais povoadas, onde o cheiro de pão quente e ferro queimado se misturava ao som de risadas e martelos.  

— Aqui vive o coração da cidade — disse ele. — Camponeses, comerciantes, trabalhadores. O povo que move Érinfall.  

— E por que parece gostar tanto daqui? — ela perguntou.  

— Porque é o único lugar onde ainda há vida, moça. À noite, sempre há festa.  

O sorriso de Damesha foi leve, quase humano. Mais adiante, chegaram à área sagrada, dominada por torres brancas e vitrais coloridos. O velho parou para apontar as duas grandes igrejas.   

— Então, a da esquerda é a Igreja da Luz, que adora o Criador. A da direita, a Igreja de Platina, que venera o antigo Dragão guardião da capital. Só fiéis ou convertidos podem entrar.  

— Passo — disse Damesha, desconfortável.  

— Eu compreendo. — Ele riu. — Eu mesmo sigo a Igreja da Luz. Foi ela quem criou o Santo Expurgo. Graças a eles, os demônios foram banidos e minha família pôde reconstruir o que esses monstros destruíram.  

Por dentro, Damesha sentiu o sangue ferver.  

“— Igreja miserável.”  

O velho terminou o passeio explicando sobre a periferia — um lugar que, segundo ele, só abrigava escória e vagabundos e, pelo mesmo motivo se recusou a ir para lá. Damesha ouviu em silêncio, cada palavra dele lhe dando mais vontade de arrancar aquele sorriso de tom hipócrita da voz dele.  

À noite, o velho insistiu para levá-la a uma pousada. Ralph reclamou, mas Damesha, com um olhar sutil, garantiu que ele ficasse — ainda havia uma aposta a cumprir. 

Eles entraram e o velho pediu por dois quartos. Ela ficaria no mesmo quarto que ele. No quarto, o velho preparou um copo de uma bebida perfumada. O aroma doce flutuou pelo ar, atraindo Damesha como um fio invisível.  

— Que bebida é essa? — ela perguntou, curiosa.  

— Ah… é só um chá para aliviar o cansaço — respondeu ele, hesitante.   

Ela sorriu.  

— Que coincidência… eu também posso aliviar o seu cansaço... ou quem sabe até te cansar mais... 

O homem riu nervosamente, e o riso dele soou oco. A luz da lamparina tremulou quando ele se aproximou, e por um instante Damesha deixou que acreditasse estar no controle. As mãos trêmulas dele tocaram sua pele, e o quarto pareceu encolher em volta dos dois.  

Então, o ar mudou. A chama da lamparina oscilou, alongando as sombras pelas paredes. O perfume doce dela se misturou a algo denso e metálico, como o cheiro de ferro quente. O velho recuou um passo.  

— O que… o que é isso?  

— Algo que você não devia ter convidado pra jantar. — A voz de Damesha agora era outra, profunda e envolvente.   

As sombras se moveram sozinhas. Algo no cabelo dela se ergueu contra a luz, como fios vivos que se arrastavam pelo chão. O velho tropeçou para trás, mas antes que pudesse correr, o quarto se fechou em escuridão. O som que veio depois foi breve — um sussurro, um estalo abafado, e então o silêncio.  

Quando a luz retornou, Damesha estava de pé diante da janela, o corpo imóvel do velho aos seus pés. Ela limpava os lábios com o dorso da mão e suspirava, decepcionada.  

— Sangue de velho… gosto de morte. — Murmurou.   

Sem olhar para trás, abriu a janela e deixou o vento noturno tocar sua pele lilás. Saltou para o telhado, movendo-se como uma sombra viva. De lá, viu a janela do quarto ao lado, onde Ralph dormia profundamente. Um sorriso atravessou o rosto dela — um misto de prazer e fome. 

“Boa noite Ralph!” 

Quando a lua foi encoberta por nuvens, o som abafado de um grito ecoou na pousada. E, quando tudo silenciou, apenas o vento continuou soprando sobre o telhado. Não havia mais nada lá. 

A lua sumira atrás de nuvens, e a cidade respirava silêncio quando Damesha aterrissou no beiral da pousada ao lado. O ladrilho sob os pés reverberou o último eco do grito que vira e não quis escutar. Ela se moveu como sombra, deslizando por ruelas até encontrar uma passagem menos iluminada.   

Ao descer pela escada estreita que levava a um beco lateral, seu ombro chocou-se contra alguém, o que fez se poder se ouvir um barulho de algo feito de vidro se quebrando. O impacto a fez perder o pequeno equilíbrio — algo raro, e um gosto breve de surpresa cruzou seu rosto lilás.  

— Ai! — resmungou uma voz rouca.  

Damesha virou-se e encontrou um homem encurvado, envolto em manto esfarrapado e com o rosto parcialmente coberto pela sombra do capuz caído no chão. A roupa fedida denunciava noites na rua; as mãos, calejadas, tremiam levemente. Havia algo nos olhos dele — uma vigília antiga, um cansaço que não vinha só do corpo.  

Ele se levantou rapidamente e recuou um passo atrás, quase instintivo.  

— Desculpe — murmurou Damesha, num tom que poderia ser tanto sincero quanto provocador. — Não te vi. 

O homem franziu o cenho, olhou-a da cabeça aos pés forçando a vista e, depois de um instante, esboçou um meio sorriso que não chegava aos olhos e que Damesha não percebeu. 

Depois, Damesha se virou e correu rapidamente, desaparecendo nas ruas e, minutos depois, escondida num novo beco, onde deixou seu corpo pesar e começou a adormecer. 

“Quem era aquela pessoa estranha?” 

Aquele encontro ficaria lá, escondido, na penumbra de sua memória — uma ficha solta que, quando puxada, poderia desencadear fios que ela nem sequer sabia estar atando. 

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