O Fim Perfeito Brasileira

Autor(a): W.S.


Volume 1

Capítulo 2: A Proposta Irrecusável e Uma Fuga Ousada

Quando ela soltou aquelas palavras, a alma sombria pareceu reagir. O ar ao redor dela parecia se curvar, como se a presença distorcesse o próprio inferno. Damesha congelou. O seu peito voltou bater descontroladamente mais uma vez. 

— E-eu... estava caçando algo para comer, mas não encontrei — mentiu rápido, tentando soar calma. — Então estou subindo para procurar em outro lugar.  

A alma ergueu a cabeça devagar. A voz que saiu era irregular, como se mil vozes falassem ecoando ao mesmo tempo:  

— Eu sOu sÓ mAis uMa aLmA coNdEnAdA... nÃo prEciSa mEntiR. Eu sEi quE mE prOcUrAvA. Se nÃo fOssE pOr iSsO, nÃo tErIa deScIdO aTé aQuI... eSte É o aNdAr coM mEnOs aLmAs dE tOdO o InFeRnO, poRQUe cAÇariA pOR aQuI? 

Damesha engoliu seco. Ela não conseguia manter a calma e racionar, ela soava sem parar. 

— E-eu não sabia, eu juro!  

A alma emitiu um som distorcido, como se achasse a situação engraçada.  

— NÃo pReCiSa tEmEr. NãO vIm fErIr vOcÊ... vIm oFeReCeR aJuDa.  

— Ajuda? — Damesha se levantou bruscamente. — Que tipo de ajuda?  

— OuVi sUa cOnvErSa cOm a SuA aMiGa SÚcUbO.... VoCê dEsEjA vEr a SuPeRfIcIe, nÃo é? PoSsO mOsTrAr uMa fOrMa dE fUgIr... dE iR pArA o MuNdO dOs vIvOs...  

O olhar de Damesha se acendeu. 

— Sério? Como?  

A voz sussurrou dentro do ar, carregada de tentação:  

— eU POssO ENtrAR eM SeU COrPo. PoSSO LhE dAR pOdEr PaRA mATar CÉRBERUS, O gUarDiÃo. AsSIm VaI poDER FuGiR e ViVEr a VidA quE tANto QuER. O QUe AchA? 

Damesha hesitou. Seu instinto dizia para fugir. Mas a mente... a mente via uma chance única.  

“Almas não podem possuir demônios ou anjos” 

Ainda hesitante, Damesha para e se perde dentro de sua própria mente, entre desejo e certo a se fazer. 

“É uma lei do universo. Mesmo que ele seja poderoso, não pode me possuir. Se ele me fortalecer e eu derrotar Cérberus... posso fugir! Posso ver a superfície! Comer à vontade! Viver bem! Por que não tentar?”  

Ela ergueu o olhar e aceitou balançando a cabeça. A alma vibrou, emitindo um som agudo.  

— Então nós temos um acordo.  

Uma fumaça negra se estendeu pelo ar e mergulhou em seu peito. Damesha sentiu o corpo estremecer. Uma energia fria percorreu suas veias como gelo derretendo fogo. Ela caiu de joelhos. O chão rachou sob seus pés. A voz agora estava dentro da sua mente — mais clara, calma... e ainda assim, aterrorizante.  

— Muito melhor... — disse a presença. — Posso falar direito agora. Eu sou Marowkai. Prazer em conhecê-la, Damesha, a Súcubo.  

Damesha arqueou as sobrancelhas.  

— Como sabe meu nome?!  

— Quando me deu permissão, tive acesso às suas memórias — respondeu a voz, serena.  

— Isso não é legal, viu?! Ficar fuçando a cabeça dos outros! — resmungou, irritada.  

— Perdão. Mas, se quiser mesmo fugir, siga rumo ao fosso. Suba até o início dele, além do andar da Luxúria. Lá começa o caminho.  

— Certo.  

Damesha se levantou e começou a escalar. Subiu pelas paredes do fosso, atravessando os andares — do Orgulho a andares além. O calor diminuía, mas o ar se tornava denso, quase vivo. Finalmente, alcançou o início do abismo: uma caverna imensa, mergulhada em trevas antigas. 

Lá em cima, uma entrada enorme e circular. Do teto, as estalactites pingavam gotas de um líquido viscoso. Uma gota desse líquido pingou no chão bem na frente de Damesha e, ela pode ver a gota corroer parte do chão em sua frente. Depois ela percebeu que todo o chão em sua frente estava completamente corroído. 

Mesmo com o chão naquele estado, ela decide seguir em frente. Andou por horas. Logo afrente, o chão se tornou liso como vidro, o ar pesado como ferro. Mesmo assim, Damesha seguiu em frente, mas havia algo que a incomodava, então ela decide tirar sua dúvida naquele momento. 

— O que foi aquilo Marowkai? — questionou ela. 

— A que se refere Damesha? 

— Àquela hora que te encontrei — ela aperta seu antebraço esquerdo com a mão direita — toda aquela pressão sobre o meu corpo, como se... 

— Como se estivesse sendo esmagada... como se fosse ter uma parada cardíaca, não é? 

— Sim... uma alma não tem uma presença dessas... o que você é? 

— Como disse, sou apenas uma alma condenada. 

— Não, não é, pois se fosse, você teria uma forma diferente, um azul translúcido, e não escuro feito a escuridão!! 

— Eu sou uma alma condenada, distinta das outras, mas sou. 

— Olha só, temos um acordo, então não custa nada me contar a verdade, não é? 

— Eu não minto. Sou uma alma, ou o que restou de uma alma de um ser da superfície. 

— Um ser da superfície? 

— Sim, um fragmento. 

— Tem como fragmentar uma alma? 

— Sim, sou metade da minha alma, com esse acordo me reunirei a minha outra metade e poderei ser um de novo. 

— É isso que você quer? Então por que não sai sozinho? 

— Porque há como uma alma, nem mesmo uma parte, sair sem passar pelo portal. E ainda tem o Guardião. 

— Entendi, não pode enfrentá-lo, certo? 

— Sim, esse acordo mútuo traz benefício a ambas as partes. 

— Tá, entendi, vou me esforçar para conseguirmos! — Damesha cerrou os punhos concentrada em seu objetivo. 

— É bom mesmo ou vai morrer. 

— Não fala isso nem brincando!!! 

 A conversa cessa. O silêncio volta a reinar, Damesha caminha com calma e cuidado, para não escorregar no chão escorregadio. Conforme ela vai caminhando, o local vai mudando gradualmente, se tornando mais morto, cinzento, sem vida. 

Ela continua caminhando, até se aproximar de uma enorme abertura, como se algo realmente monstruoso vivesse lá. Adentrando mais no local, eles podem avistar um pequeno buraco brilhante — não muito maior que uma pessoa — em uma parede. 

Mas entre o portal e ela havia algo. E ela então viu — adormecido sobre uma rocha colossal — Cérberus, o Cão do Inferno. Três cabeças. Dentes maiores que espadas. Um hálito que cheirava a enxofre e sangue.  

Damesha respirou fundo. E pela primeira vez em toda a sua existência... sentiu medo e esperança ao mesmo tempo. 

Damesha sorriu por um instante ao ver a saída. Mas o sorriso desapareceu no mesmo segundo. Diante dela, dormia o Cão do Inferno — três cabeças colossais, presas por correntes quebradas, respirando fumaça e fogo.  

— Como vamos passar por aquilo...? — perguntou, ela engolindo seco.  

— Você não vai passar — respondeu Marowkai, com calma assustadora. — A não ser que o mate.  

Damesha saltou para trás.  

— O quê?! Matar aquilo?! Súcubo não são demônios de combate! Eu nunca conseguiria!  

— Vai conseguir. — A voz soou dentro de sua mente, firme. — Modifiquei seu corpo enquanto subíamos o fosso. É mais resistente agora e pode moldar suas mãos em qualquer arma branca.  

Ela apenas piscou o olhar repetidamente, tentando entender. 

— Sério? Arma branca...? Tipo... qualquer uma?  

— Qualquer uma. Pense e transforme suas mãos.  

Damesha inspirou fundo e se concentrou. As mãos começaram a ficar mais leves, quase molengas — os dedos se fundiram, se esticando até se tornarem duas lâminas curtas, triangulares e afiadas. Ela observou as novas armas com um sorriso.  

— Legal! E o que mais?  

— Asas. — Marowkai respondeu. — Vão ser muito úteis para você. 

— Perfeito! Agora sim tenho uma chance!  

— Então vamos logo, acorde Cérberus.  

— Certo. 

Damesha se aproximou devagar, o ar vibrando com o calor que emanava do corpo da fera. Usou o cabelo — vivo e afiado — como chicote, golpeando uma das cabeças adormecidas bem no olho. O som do impacto ecoou. Os olhos da besta se abriram de uma só vez. Um rugido sacudiu as paredes da caverna.   

E então, Cérberus se ergueu. A pata desceu como uma montanha. Damesha pulou para trás, o chão rachando onde ela estava. As asas se abriram desajeitadas num reflexo, levantando-a alguns metros no ar, mas caindo logo em seguida. 

— Ele é rápido demais! — gritou. — Marowkai, me ajuda!  

— Eu sou uma alma, não posso lutar sem corpo físico.  

— O QUÊ?! Você disse que ia me ajudar!  

— Eu ajudei. Lhe dei poder. Agora o resto é com você. Se quiser fugir, melhor não ser morta.  

— MERDA! 

Damesha atacou. Avançou em direção a Cérberus, mas enquanto corria, a cabeça direita olhou fixamente para ela. Assim que fizeram contato visual, a cabeça abriu sua boca enorme, lançando dela uma rajada de um líquido incandescente em sua direção. 

“Caramba! Foi por um triz!!” 

Ela se esquivou, mas pode sentir o calor daquela rajada — ERA LAVA!!! 

— CARALHO!! EU PRECISO DE AJUDA MAROWKAI!! 

Nenhuma resposta, ela estava completamente por conta própria naquela luta. 

De repente, mais uma rajada — mal havia escapado da última — vindo a toda velocidade. Ela se esquiva pensando que escapou, mas a cabeça continua com a rajada, a seguindo, como se a seguisse. 

Para fugir ela correu na direção do monstro e, saltou por cima dele, forçando-o a parar a rajada. Ele se virou rapidamente e continuou a atacar, tentando a acertar com suas patas. 

Ela desviava, rolava, voava — cada golpe da fera criava enorme crateras no chão. O calor, o cheiro de enxofre, o barulho das garras... tudo era insuportável. 

Sempre por um fio, Damesha desviava e se virava como podia. 

“Se eu conseguisse usar essas asas direito eu conseguiria fugir dele mais fácil!” 

— Sai do meu pé, cachorro de merda! — gritou, girando as lâminas.  

— Posso fazer algo — disse Marowkai, a voz soando mais densa. — Mas você vai ficar exausta... mental e fisicamente.  

Cérberus rugiu e golpeou. A pata acertou Damesha, lançando-a contra a parede. Ela gritou de dor. O sangue escorria pelo seu braço.  

— CARALHO, FAZ LOGO! EU VOU MORRER!  

Silêncio. Depois, um sussurro:  

— Certo, pedido concedido. 

Uma força tomou conta do corpo dela. Os olhos de Damesha ficaram negros. As asas se expandiram. As lâminas ganharam um brilho púrpura. Marowkai havia assumido o controle. Tudo o que ela podia fazer naquele momento era assistir. 

Ela disparou contra o cão — um borrão lilás cortando o ar. A primeira lâmina atravessou o pescoço da cabeça direita. Numa segundo investida, a lâmina atravessou o pescoço da cabeça esquerda. O sangue do monstro explodiu em jatos. Cérberus rugiu, mas antes que caíssem, as cabeça arrancadas começaram a se regenerar. Dos pescoços cortados das cabeças, cresceram novos corpos, idênticos ao anterior.  

— Ele se divide?! — gritou Damesha, ouvindo a própria voz abafada dentro da mente.  

— Cada cabeça tem mente própria... — respondeu Marowkai. — Ele só morrerá se seu coração for destruído.  

— ENTÃO VAI LOGO!  

A alma controlava o corpo dela com uma precisão mortal. Damesha voou, desviando dos ataques coordenados dos três cães. Em mais um ataque, ela atingiu o peito do corpo principal, mas a pele grossa resistiu. A fera tentou derrubá-la, sacudindo-se como um terremoto vivo. Ela cravou as lâminas no corpo do monstro, se mantendo presa.  

Um dos corpos divididos atacou — mas o golpe atingiu o corpo principal, rasgando o peito do cão original. A ferida abriu um buraco com espaço suficiente.  

— Agora! — rugiu Marowkai.  

Damesha enfiou as lâminas até o fim. Um grito ensurdecedor ecoou. O corpo de Cérberus começou a cair, enquanto as outras cabeças se dissolveram em uma fumaça negra, até se fundirem novamente no corpo morto.  

O inferno tremeu. O silêncio veio logo depois. Damesha caiu de joelhos, exausta, suando, com suas asas tremendo. Ela havia recuperado o controle. 

— Vitória... — sussurrou, sorrindo.  

A voz dentro da mente voltou, mais fraca agora:  

— Corra... o portal... antes que ele renasça.  

— Tá...  

Ela se ergueu com esforço e correu. O portal era um túnel estreito, frio, e a luz no fim dele ardia como fogo. Quando emergiu, o calor deu lugar a algo completamente novo: Uma brisa de ar fresco. 

Damesha cambaleou para fora, saindo em um beco, o sol a atingindo pela primeira vez. A luz a cegou por um instante — e ela sorriu, mesmo sem forças, enquanto cobria seu rosto com a mão. O seu corpo caiu no chão sem forças. Mas o sorriso permaneceu.  

“Nossa! Eu não acredito... eu... consegui...” 

E, assim Damesha desmaiou sob o brilho do mundo, o mesmo mundo do qual sonhara em finalmente poder conhecer. 

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