O Fim Perfeito Brasileira

Autor(a): W.S.


Volume 1

Capítulo 1: A Súcubo e o Inferno

“— Que droga!”   

A jovem Súcubo murmurava. Damesha lançou uma pedra no rio de lava. O som seco ecoou e sumiu, engolido pelo calor. O inferno ardia como sempre — insuportável e faminto.   

Seu cabelo se movia sozinho, subindo e se retorcendo como se tivesse vontade própria — algo comum entre as Súcubo, mas em Damesha parecia ainda mais vivo, como se respirasse. A pele lilás refletia o brilho avermelhado da lava, dando à sua figura nua uma aura quase divina — e perigosamente demoníaca.   

Ao seu lado, Sashaa observava, notando a sua irritação. De pele roxa escura e cabelos tão longos que arrastavam pelo chão, ela tentou consolar a amiga:   

— Calma, Damesha. Também estou morrendo de fome. Vamos para outro nível do inferno.  

— Tá, tomara que a gente ache algo logo.  

— Não se preocupa — disse sorrindo — vamos sim, uma hora ou outra a gente acha alguma coisa. 

Damesha concordou, mas ela ainda fazia cara feia. Fome e frustração a acompanhavam em cada canto no inferno.   

O Inferno, afinal, se assemelhava a uma montanha invertida: com sete andares, um para cada pecado capital, e sete grandes demônios — os príncipes infernais — reinavam sobre cada um deles. Para descer, bastava encarar o fosso — um abismo vertical no centro de tudo, por onde as almas condenadas caíam do mundo dos mortos e os demônios se arriscavam a viajar.    

Mas bastava um deslize e a queda seria eterna.   

As duas seguiram para o fosso, deixaram o primeiro andar, Luxúria, domínio de Asmodeus, e começaram a descida. A próxima parada, o Reino da Ganância, governado e comandado por Mammon — o andar mais populoso, e por consequência, também o mais quente.    

A maioria dos demônios vivia deitada sobre as pedras, esperando alguma alma condenada se aproximar o bastante para a capturarem. Os rios de lava, imprevisíveis, arrastavam os descuidados e desatentos para a morte. Outros viravam estátuas de pedra, petrificados pelo calor ou pela fome, se tornando parte dele. O inferno era imortal — mas não misericordioso.   

Damesha e Sashaa mantinham sua jornada com cuidado, como alpinistas invertidas. As garras afiadas serviam de apoio nas rochas incandescentes, e o calor aumentava a cada metro. Quando seus pés tocaram o chão do andar da Ganância, o ar pesado e quase sólido de tão quente, tornava a respiração mais ofegante.  

— Que lugar insuportável... — resmungou Damesha, abanando o rosto. — Estou começando a ficar com náusea.  

— Então é melhor a gente andar rápido — respondeu Sashaa, rindo. — Vamos comer e dar logo o fora daqui!  

Caminharam entre formações de cristal escarlate e rios ferventes, à procura de almas condenadas. Nada. Nada. Nada. Andavam, andavam e andavam, sem encontrar uma alma sequer.  

No silêncio sufocante, Damesha resolve quebrar o tédio com curiosidade:  

— Sashaa, você já esteve na superfície?   

— Por que pergunta? — retrucou a amiga.   

— Porque você parece bem antiga. E eu nasci aqui, depois do banimento.  

— Não tenho toda essa idade. — disse rindo.  

— Eu sei..., mas você deve ser pelo menos um pouco mais velha que eu, não é?  

Sashaa sorriu, como quem se recorda de algo distante.  

— Sim. Nasci uns quatro anos antes do banimento. Mais ou menos isso.  

— Ah... então você não é tão velha assim — Riu Damesha.  

Então, Sashaa dá um pequeno soco no braço de Damesha sorrindo.  

— Isso mesmo!  

— Mas então?? — Damesha retrucou. — Não vai me contar como era lá em cima??  

Sasha deixou escapar uma risadinha.  

— Bom... a vida lá em cima era boa.  

— Aposto que sim — Damesha riu. — Clima agradável, comida à vontade...   

— Era perfeito — suspirou Sashaa. — Até as mais fracas viviam bem. Mas alguns de nós exageraram... matavam vinte humanos por noite. 

Sashaa parou por um momento. Seu rosto sorridente mudou, seu olhar se tornou caído, quase distante. 

— Bom... tinha um problema... 

— Ué??? — retrucou Damesha. — Qual o problema, se tinham tantos humanos para devorar à vontade??? 

Silêncio. Sashaa demorou a responder. 

— ... esse problema se chamava Igreja de Luz... 

Silêncio. Nenhuma das duas se disse mais nada. No meio do infame silêncio, Damesha tenta se distrair olhando ao redor. 

O ambiente havia começado a mudar. Os rios de lava deram lugar profundos valões secos, enquanto os cristais escarlates foram substituídos por uma fina areia vermelha. O calor começou a aumentar drasticamente, sendo impossível um ser vivo qualquer sobreviver. 

E, no meio daquele local, as duas avistaram duas almas cabisbaixas. 

— Olha, duas almas moscando ali — Sashaa apontou à frente — Presas fáceis. 

As duas atacaram rápido. As almas não tiveram chance. Quando terminaram, voltaram em direção ao fosso para subir. 

No caminho de volta, Damesha resolva tocar novamente no assunto anterior. 

— Sashaa... 

— Oi? — disse se virando para trás. 

— É... o que era essa Igreja de Luz? 

— Era um grupo de humanos que adoravam um tal de Criador... 

Ao ouvir isso Damesha arregala olhar. Ela fica pensativa. 

“O que humanos poderiam fazer de mal a nós??” 

Então, Sashaa continua: 

— O líder deles, era cruel, convenceu os outros humanos de que deveríamos ser banidos... 

Damesha continua a escutar, com o olhar se tornando mais arregalado conforme Sashaa continuava. 

— Então, eles começaram a nos caçar... eles criaram o Santo Expurgo. 

Ela não podia acreditar. Damesha não conseguia entender como humanos — seres fracos em comparação com os demônios — poderiam conseguir banir eles da superfície. 

— Sashaa... como os humanos, uma das raças mais fracas, conseguiram nos banir??? 

— Damesha, eles podem ser muito fracos fisicamente, mas a real força deles é a inteligência e o oportunismo. 

— Caramba... 

— No fim, todos os demônios foram banidos para o inferno, jogados pela Grande Beirada. 

Então, ainda curiosa, Damesha resolve perguntar mais sobre Sashaa. 

— Mas e você? — Damesha deu um soquinho no ombro da amiga. — Era uma dessas assassinas famintas?   

— Eu? — Sashaa riu. — Era até que bem-comportada. Comia o bastante para viver. Eu gostava da vida lá em cima... pena que acabou. 

— Imaginava — Damesha sorriu — você não tem cara de assassina, hehe. 

— Será que não? 

— Você não era comportada?? 

— Sim... só estava brincando, hehe. 

Conforme andavam enquanto conversavam, elas iam se aproximando do fosso e o ambiente vai se tornando mais ameno. Logo, podiam ser vistas novamente os cristais escarlates e os rios de lava voltavam a correr.  

Damesha sente a sua barriga rocando e se tornando cada vez mais incômoda, mas ela tenta ignorar, conversando mais com Sashaa. 

— Sashaa, por que todos os demônios gostavam tanto de lá?  

— As principais coisas boas de lá de cima eram que você conseguia comida fácil e era extremamente confortável de se viver... provavelmente por isso eu diria... eu não os culpo, era realmente muito bom... 

— Então era tão calmo e farto assim? 

— Pra falar a verdade para você Damesha era, mas também não eram as mil maravilhas! 

— Ata. 

Damesha começou a invejar os demônios que viveram na superfície antes do banimento. Ela se imaginava, com uma bela vida, podendo esbanjar comida, diversão a vontade... 

— Nunca pensou em fugir? — Questionou Damesha. 

— Já. Mas Cérberus guarda a única saída. Não dá escapar. E... o motivo que eu tinha pra fugir... talvez ele nem exista mais.   

— Que motivo era esse, hein? — provocou Damesha, com um sorriso.   

— Segredo — respondeu Sashaa, dando um peteleco em sua orelha.   

— Ai! — Damesha fez uma careta. — Achei que confiava em mim!   

— Confio. Mas você também nunca me contou um segredo seu hehe. 

— É porque eu não tenho! — retrucou Damesha, bufando.   

Sashaa riu. Depois de um tempo, a risada se perdeu entre as labaredas, conforme o fosso podia ser visto ao longe.  

— Tá bem, eu prometo te contar um dia. — Sorriu Sashaa. 

— Tudo bem, mas não pense que esqueci da promessa! Hunf! 

Mas Damesha insiste: 

— Ah me conta vaaaaiii!! 

— Eu já disse que não — cortou Sashaa — contente se com ele e com a minha futura promessa de talvez eu conte ta. 

Sashaa então, pressionou o nariz de Damesha com seu dedo indicador, e completou dizendo para ela: 

— Além do mais, esse segredo é só para demônios que já passaram pela superfície... se não como vai conseguir entender? 

— Sacanagem — replicou Damesha — assim você só me deixa mais curiosa! 

Com a aproximação do fosso, Sashaa corta a conversa e apontando para o fosso diz: 

— Olha lá, discutimos mais depois, vamos! 

— Tá — respondeu Damesha fazendo uma cara feia. 

Então a conversa cessa. Novamente o silêncio reina entre elas. Somente o barulho das labaredas próxima a encosta do fosso podiam ser ouvidas. 

Já na borda do fosso as duas iniciaram a subida. Durante a escalada, próximo ao andar do Orgulho — domínio de Lúcifer —, Damesha escorregou.   

Logo recuperou o equilíbrio, mas algo chamou sua atenção: uma luz escura, uma alma diferente, vibrando com energia espiritual poderosa.   

— Sashaa! — gritou.   

Nenhuma resposta. A amiga já estava muito acima. Curiosa, Damesha desceu em direção àquela presença. Pisou nas rochas do andar e procurou, seguindo o instinto. Nada. Quando se virou para voltar, o ar ficou pesado. 

Damesha começou a sentir seu peito pesado. Sua respiração se tornou mais ofegante. 

“Caramba, será que isso é normal aqui??”  

Ela não se importou. Começou buscar pelo que a trouxe para lá: a misteriosa alma negra. Rochas. Rochas. Rochas. Era apenas isso que ela via, apenas um ambiente rochoso que, a cada vez mais avançando, mais difícil era o caminhar. 

“Mais que dor nos pés!” 

Cada vez mais ofegante e com os pés doendo, ela decide retornar o mais rápido possível e encontrar com Sashaa, para não se perder dela. Ela dá meia volta e começa a caminhar. Seus pés doem a cada vez que ela precisa subir ou descer pelos vários obstáculos, naquele enorme mar de pedras que era o andar do Orgulho. 

Não muito tempo depois, ela já se encontrava com fosso em vista ao longe. Ela apertou o passo já pensando em alcançar sua companheira. 

“Finalmente!” 

Ele chegou a fosso, completamente ofegante, sem mal conseguir ficar em pé. Até que, quando se aproximou da beirada, o ar se tornou opressor. 

Seu coração disparou. Era como se ele fosse explodir pela velocidade na qual seus batimentos alcançaram. Ela se ajoelhou na beirada, enquanto tentava controlar seus batimentos cardíacos. Damesha estava suando frio, sem conseguir parar, até que começou a sentir o peito doer.  

A dor era insuportável. De repente, ela não pode mais ouvir seus batimentos. Uma zona morta. Nenhum som podia mais ser ouvido. Mesmo com seu coração acelerado, ela não ouvia mais seus batimentos, apenas podia senti-los, enquanto faziam seu peito se contorcer. 

— Argh... ah... so... 

Ela tenta gritar por socorro, mas não consegue produzir mais nenhum som. Então por fim, seus pulmões se absorveram o ar pela última vez. 

“Que erro! Que erro!” 

Era tudo o que ela podia pensar. Quando ela olha para os lados tudo o que pode ver é uma longa névoa negra, que estava ao redor dela. Espessa, escura, não podia ser mais nada, ela estava imersa em uma completa penumbra. 

“Mais o que é isso?? Alguém... me ajuda... por favor!!” 

Quando se virou para trás, ela pode ver uma figura distorcida, completamente negra, em pé no meio da espessa penumbra. Ela então, pode perceber, que não verdade caiu em uma armadilha. 

De repente, a penumbra se foi. O lugar voltou a ficar claro, as rochas e o chão puderam novamente ser visto. Com o fim da escuridão, o som das labaredas voltará a ecoar por cada canto daquele lugar. Por fim, seu coração que estava descontrolado, voltou ao normal e começou a bater normalmente. 

Depois, ao olhar para a alma sombria, ela caminha, devagar e lentamente, de forma distorcida. Após dar alguns passos, ela para em uma rocha e então, se senta nela. Sua forma torna-se mais visível e menos distorcida. 

Uma voz — profunda, distorcida, impossível de ignorar — ecoou, pronunciando a sua poderosa presença pelas paredes daquele andar do inferno: 

— O qUe fAz aQuI, pEqUeNa SúCUBo...? 

Aquelas palavras distorcidas, ao tocarem os ouvidos de Damesha, fizeram sua espinha arrepiar e, ela já ajoelhada, teve seu corpo paralisado, mas não pela presença do ser ou algo parecido, sim como uma amostra do seu verdadeiro medo. 

“O que eu faço????” 

Então, mais uma vez, aquela voz complemente incontornável, se pronuncia, exigindo uma resposta agora — algo instantâneo, sem ser ignorado. 

Ela se pronuncia, com seu grunhido aterrador soando e ecoando novamente, mas dessa vez muito mais alto. 

— O qUe fAz aQuI, pEqUeNa SúCUBo...? 

Damesha e engole seco. Ela não consegue pensar direito só reagir. E quase como se fosse de forma automática ela deixa escapar pela sua boca: 

— E-eu... na-nada... 

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