Escolhido Brasileira

Autor(a): Bárion Mey


Volume 1

Capítulo 25

Agnes

Onde está Luke? Ele saiu com o papai atrás dos selvagens, mas estão demorando muito. O que aconteceu? À minha frente, vejo aventureiros e magos lutando contra vários demônios. Uma batalha é avistada a cada canto que olhamos, casas são destruídas e construções desmoronam em cima de civis e demônios.

A princesa está ao meu lado, junto com os pais e Arkion. Nos acompanhando está a família real de Oredhel. A garotinha está tão assustada que nem mesmo consegue olhar para frente.

— RÁPIDO! — um homem com uma veste estranha grita em meio ao caos. — TEMOS QUE PROTEGER OS CIDADÃOS DE DREAM NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA! — A estranha pessoa não traja uma armadura reluzente, muito menos algo refinado. São roupas de couro comuns, com uma faixa em seu rosto impedindo seus cabelos médios e escuros de caírem sobre os olhos castanhos. Porta somente uma espada em uma mão e uma faca na outra. — ONDE ESTÃO OS MAGOS?

— Cale a boca, seu imprestável! Estamos tão ocupados quanto você!

Uma garota de chapéu cônico e vestido preto faz muralhas de terra impedindo o avanço de alguns demônios em civis. Seu cabelo azul-claro reluz à luz do sol em um tom brilhante, os olhos emitem uma determinação inigualável com aqueles tons verdes.

O cajado na mão está bastante desgastado.

— Caçadores! — grita um soldado. — Onde estão o restante de vocês?

— Espalhados pelo império! — A maga ergue os braços, fazendo surgir dois braços gigantescos de pedra que emergem do chão e esmagam sete demônios que vinham. — E os generais?

— Eu não sei...

— Fiu — Um assobio interrompe a fala do homem. — Vossa alteza, poderia, por favor, não sair por aí em meio a um ataque no império? — Ele ri.

A maga olha para trás com cuidado e consegue nos ver. Logo se vira para frente e continua a lutar contra os demônios. Olho para trás e vejo duas pessoas.

Um homem na casa dos vinte e cinco anos está observando a batalha com um sorriso estranho. Cabelos tonalizados em um azul-escuro e olhos da mesma cor. O reconheço na hora. Anys, o sexto general.

— General Anys! — Esboço um pequeno sorriso.

— Isso vai dar um trabalhão danado. — Ri.

— Perdão? — o rei o interrompe. — Será que dá para levar isso mais a sério, Anys? Mikhan, ajude essas pessoas, e Anys, garanta a segurança da minha esposa e meus filhos, e do rei e rainha de Oredhel.

Mikhan — o outro homem — possui longos cabelos roxos com cortes desajustados e uma pequena franja. Sua pele é morena e os olhos também são roxos. Corpo robusto e musculoso, não traja uma veste imperial, apenas o sobretudo que, ao invés de uma gola alta e grossa, é um capuz que cobre pouca parte do rosto. As mangas são rasgadas e, do seu antebraço até a mão, há uma corda vermelha enrolada. No peito, duas cicatrizes cruzadas.

Ele é o oitavo general, tenho certeza de que os outros estão lutando também. Não serei de grande ajuda aqui, precisamos correr e achar um local seguro.

— Como quiser, vossa alteza. — Sua voz é grossa e intimidadora.

— Só que antes, deixe-me dar uma ajudinha ali também? — pergunta Anys.

Ele começa a andar na direção do combate, e Mikhan fica para trás impedindo que outros cheguem até nós. Eles literalmente ignoraram o comando do rei e fizeram tudo ao contrário, céus. Só que não consigo esconder meu medo, minhas mãos tremem conforme ouço o barulho dos metais e carnes sendo partidos ao meio. Tento segurar o vômito para não parecer fraca.

A maga me chama atenção, ela parece ter em torno de uns dezenove anos, mas, diferente de outros, ela não demonstra medo algum. Encara na linha de frente, conjurando inúmeras bolas de fogo sem parar e as lançando contra os demônios. Seu rosto já está pálido, cheio de suor e a respiração pesada.

— Preciso... matar todos eles... — exclama com dificuldade.

Com as mãos elevadas acima da cabeça, chamas surgem transformando pequenas camadas em uma bola flamejante do tamanho de uma casa. O chapéu dela voa para longe e o calor faz algumas partes do concreto do chão derreterem.

Caçadores e magos que estão no caminho começam a correr para lados opostos quando percebem.

— Morram... Morram todos vocês, seus desgraçados!

Ela estica os braços à frente do peito e a bola de fogo gigante segue seu movimento. Destrói casas antes de chegar ao destino e para em pleno ar. Seus punhos se fecham, e, em um movimento desajeitado, abre os braços. A grande bola de fogo explode no mesmo instante, exalando uma enorme fonte de calor ao redor.

— Essa daí é das minhas. — Anys sorri.

— Para de palhaçada — diz a maga. — Faça alguma coisa logo!

Suas mãos tremem enquanto conjura uma parede de chamas que impede os demônios de ultrapassarem. Atrás de nós surgem mais magos de fogo conjurando algo. Com o encantamento finalizado, um calor escaldante ondula o ar, deixando-o ainda mais pesado.

— Detesto lutar ao lado de magos de fogo — pragueja Anys. Ele limpa o suor descendo pelo rosto e observa todas as bolas de fogo formadas. — Só queria um pouco de água...

São dezenas, todas elas direcionadas para um demônio específico. Com o rosto pálido, a garota abaixa a parede de chamas e recua para trás em um pulo.

— AGORA!

Todas disparam juntas nos demônios em volta. Uma chuva de chamas descreve bem essa cena. Eles são queimados um a um, reduzidos a meras cinzas no chão.

Mais uma horda vem por trás. Mikhan pisa no chão o afundando, estufa o peito e uma luz cintilante no punho esquerdo aumenta consecutivamente. Um leão do tamanho do próprio corpo se forma no punho dele, é possível escutar um som similar ao rugido da besta.

Ele se prepara e, quando chegam a dez passos dele, dá um soco no ar levantando uma rajada. A criatura de mana que formou no punho sai em um tom azul-transparente arrasando tudo pela frente em uma explosão forte o bastante para dizimar uma área inteira.

— Ainda preciso fazer algo? — pergunta Anys sorrindo.

Todos estão cansados, a garota olha por cima do ombro observando a força de apenas um dos generais, ela engole seco. Não de medo. Não, é admiração.

Vários dos soldados têm dificuldades enfrentando apenas alguns demônios. Deixam vários civis serem mortos, alguns até os usam como iscas para tentar escapar.

A ganância do ser humano pela sobrevivência fala mais alto do que a própria honra. Para eles, neste momento, tenho certeza de que "honra" é apenas mais uma palavra. Aqueles que juraram lealdade ao império e protegê-lo com as próprias vidas estão usando pessoas inocentes, incapazes de se defenderem sozinhas para salvar a própria pele.

Cresci ouvindo pelos arredores que os caçadores eram vistos como vagabundos pelos soldados. Eles diziam que os caçadores tinham medo do dever real, por isso não se tornaram soldados e que, no fim, quando o império necessitasse deles, seriam os primeiros a se afugentarem. Na verdade, os covardes eram corajosos, e os que diziam ser corajosos eram os verdadeiros covardes.

Para que me tornar um soldado? Uma cavaleira? Qual o sentido de todo aquele juramento à coroa se são apenas palavras vazias? Isso faz ao menos sentido? Não. Eu não serei igual eles. A esses soldados de merda que mancham a honra de um verdadeiro soldado. Irei mudar isso, não importa o que aconteça!

— Criança... — escuto a voz de Mikhan —, gostei das chamas em seus olhos.

Lúcia

Consigo escutar o barulho das explosões vindas de todos os lados. Os gritos, o som das espadas e dos encantamentos. Estou vendo aquela cena novamente. A do meu povo sendo extinguido por Hades e pelos cinco Reis-Demônios. Se algo acontecer com Luke, eu… jamais me perdoarei.

— O que é aquilo? — A criança loira aponta para frente.

A silhueta parece borrada por causa do calor escaldante do sol. Ele anda tranquilamente, caminhando até nós, ignorando qualquer soldado ou demônio que passe por ele. Essa pessoa… Essa armadura… Eu me lembro… nunca poderia esquecer da sua aparência!

— Arya — fala a criança de cabelos pretos e curtos. — Estou com um péssimo pressentimento…

— Eu também… Esse cara… é perigoso!

Estamos presos. É impossível ir pelos lados, já que a única coisa que nos separa do lago é essa ponte. E pular dela para tentar escapar pelas águas e deixar essas crianças para trás está fora de cogitação!

Olho para trás, por cima dos ombros. Consigo ver o castelo e o templo de Abyss, é onde ele está. Tudo que posso fazer é soltar uma grande quantidade de mana para que perceba que estamos com problemas.

Volto a olhar para ele. Ainda é o mesmo de quatrocentos anos atrás. Um elmo negro com dois chifres. Estampado, um sorriso diabólico da cor vermelha, com uma cruz da mesma cor entalhada entre os olhos e um pouco acima da testa.

A capa preta cobre uma parte da armadura negra com detalhes de rachaduras se encontrando e segura uma espada de cabo cinza mesclado com preto e com a lâmina avermelhada apontada para baixo. Ele para de andar e me encara.

— Há quanto tempo… Lúcia Drakhar.

Sua voz pela armadura sai em um tom abrangente, rouca e grossa. Sinalizo para que as crianças se afastem. Estão com medo. Sério… até eu estou com medo. Do lado direito voam três lâminas pretas e vermelhas, e do seu outro lado também.

— Digo o mesmo, Mephur!

Mephur… O primeiro Rei-Demônio de Hades e o mais poderoso entre eles. O que está fazendo aqui? Droga! Ergo as duas mãos e faço uma parede de gelo alta e grossa para nos dar tempo de correr.

Voltamos para trás e, após correr por alguns minutos desesperados, saímos em um local de Mighur, onde a espada de Arthur Pendragon está fincada.

— Vocês... — falo para as quatro crianças —, tentem tirar essa merda de espada do chão!

— O... quê? — A menina de cabelos loiros fica confusa.

— Só obedeçam! Agora!

Elas correm desesperadas em direção à espada. Um dos garotos é o primeiro a tentar. Ele consegue segurar o cabo sem nenhum contratempo, só que ela não se move. O outro tenta, mas nada acontece. A menina de cabelos curtos segura firme e tenta puxar com toda sua força, só que nada.

— É inútil tentar correr! Irei corrigir meu erro de quatrocentos anos atrás, garota Drakhar!

Merda! Olho de relance e a garota de cabelos loiros coloca a mão no cabo, algo acontece. A joia negra brilha intensamente junto com a lâmina em um tom prata quase branco. Aos poucos, vejo ela sendo retirada.

— Finalmente! — Mephur ri. — Vocês não possuem mais nenhum crédito em estar vivos! — Ele avança com um passo e para.

Vejo uma faísca de raios e, logo ao lado da cabeça de Mephur, Luke surge, tentando acertar o rosto dele com o pé. Mephur agarra sua perna e o joga na minha direção. Eu o agarro no ar e o coloco no chão.

— O que pensa que está fazendo? Não sabe o quão perigoso ele é…

Ele está… sorrindo?!

— É bom ver que ainda está bem…, mãe.

Luke vai para trás de mim, tentando proteger as quatro crianças. Haaah, não há outra escolha, preciso lutar! Encará-lo até que ele consiga chegar até aqui!

Corro na direção de Mephur empunhando a espada para cima dele. Lanças de gelo me acompanham! Luke está usando aquela estranha magia novamente. O chão que piso congela e ergo a espada em um corte vertical de baixo para cima, criando uma coluna de gelo pontiaguda, mas…

— É inútil.

A coluna se parte em pedaços junto das espadas de gelo no momento que o toca. Não. Nem mesmo chegaram a tocá-lo! Ergue o braço e dá uma estocada com a espada para frente, desvio o rosto, porém ainda consegue fazer um pequeno corte na minha bochecha.

Três das lâminas que flutuam no ar ao seu lado vão em direção às crianças. Luke as bloqueia, criando uma parede de gelo, mas é inútil, pois se quebra segundos depois jogando todos para trás.

— LUKE! — grito. O medo dele ter se ferido faz com que eu perca a noção de quem está na minha frente por um momento.

Quando volto o foco para Mephur, ele desfere um soco almejando meu rosto. Cruzo os braços e defendo por pouco. O impacto me joga bem longe. Sinto que meus ossos trincaram. Essa força absurda, e ainda por cima as duas magias lançadas foram canceladas… Como isso é possível?

Meus braços tremem. Sinto o sangue escorrer pelos dedos. Isso está ficando perigoso! Ele desaparece em um único passo e surge atrás de mim, mas tenta golpear Luke dessa vez, que desvia pulando para o lado. Mephur brande a espada para o lado e o acerta com a prancheta da lâmina, jogando-o contra a parede.

— MALDITO!

Giro o corpo tentando o acertar, mas quando meus olhos o avistam, ele desaparece novamente e surge por trás. Paro rapidamente e tento voltar o corpo para contra-atacar.

— Não cometerei o mesmo erro de antes. — Ele diz com uma voz calma.

Meu corpo todo queima. Aargh! Minha visão treme por um momento, e consigo ver as quatro crianças com semblantes assustados. Eles olham para minha barriga, o que tem ela? Largo a espada no chão e caio de joelhos, vendo o sangue escorrer da lâmina atravessada pelo meu corpo. Porque dói? Vejo tudo em câmera lenta, e o sorriso do meu filho que abre toda vez que vê meu rosto aparece na minha lembrança.

Sinto algo enfiar em meu ombro, costela e nas costas, são três das lâminas que flutuam ao seu lado. Meu corpo queima e treme. As vistas borram por um momento e apoio meu corpo com as duas mãos no chão.

Dói. Todo meu corpo dói… 

— Lú… cia…

Meus olhos seguem a voz que trava ao tentar pronunciar meu nome. Luke me observa com os olhos alargados e repletos de fúria. Não… Por favor, não… Meu bebê… fuja, por favor! Ele anda até mim e, por algum motivo, Mephur não faz nada, apenas observa. Eu fui fraca de novo. Não consegui defender meu clã, minha família, meu povo. Que ódio. Ódio. Ódio… 

Sinto meu corpo pesar, minha criança me apoia entre suas pernas, com a mão no meu rosto. Haah… Como você é bonito, meu bebê… consigo sentir as gotas de cada lágrima pingarem em meu rosto. Você cresceu tanto… 

— Meu… querido… — O sangue começa a escorrer pela boca. — Essa é a primeira vez… que te vejo chorar. E-eu sinto muito.

Meu corpo está pesando. Sinto que algo me puxa, puxa minha alma para longe do meu corpo. Algo… além da escuridão me chama.

Luke

A mão dela que toca meu rosto cai no chão. Seu corpo está frio, e seus olhos estão sem vida. Isso… Isso não está acontecendo… Ela… Lúcia… Minha mãe está morta?! Tudo de novo. Está se repetindo tudo de novo. Aonde quer que eu vá, aonde quer que eu esteja, tudo acontece novamente.

Mas que droga! Que droga! Droga! Droga! Droga! Apoio meu rosto no dela, e as lágrimas não param de cair. Depois de tanto tempo longe dela, depois disso tudo que aconteceu… Eu não consegui dizer a ela o quanto eu a amava… O quanto a amo…

— Depois de você, só restará um erro meu. Aquele velho é o próximo… — O demônio salta para trás.

— Sinto muito. — Uma mão se apoia em meu ombro. — Eu não cheguei a tempo…

A pessoa que suspeito que seja meu pai surge. O semblante furioso e a aura ameaçadora são impossíveis de esconder tamanha raiva. Ele carrega algo na mão direita. Segurando pelos cabelos e com o sangue pingando no chão, segura a cabeça de Vargas.

Ele se apoia com um dos joelhos no chão, passando a mão entre os cabelos de Lúcia, os tirando de seu rosto. Eu só consigo ficar parado, com os olhos mortos encarando o rosto dela sem vida.

— Menino Drakhar, essa raiva em seus olhos..., eu já a vi antes! — O demônio fala, parece estar sorrindo.

O homem se levanta e, de seus punhos, algo se distorce. É como se a realidade em si estivesse se moldando em volta do seu punho. Ele desaparece e, quando percebo, já está na frente do demônio o golpeando no rosto. O ser voa para longe indo contra a parede de uma casa.

— VOCÊ IRÁ PAGAR! SEU IMUNDO DESGRAÇADO! 

O demônio se levanta e pula na direção dele. Nas mãos do homem chamas surgem no formato da cabeça de um leão. Antes que o golpe o atinja, as chamas se dispersam e apenas a mão limpa dele o acerta.

— Cancelamento de magia…?! — Rahter fica surpreso.

Cancelamento de magia? É por isso que nossa magia não funcionou nele? As quatro crianças se aproximam de mim e tentam me tirar de perto da luta, mas me recuso a sair de perto dela. Lúcia está em meus braços, eu não vou deixá-la!

Ele aparece do meu lado me surpreendendo, tentando me golpear com a espada. Rahter tenta o impedir, porém ele está perto demais. É impossível deter essa lâmina dessa distância.

O barulho de duas lâminas se chocando ecoa em meus ouvidos. Abro os olhos e uma rapieira está impedindo a espada de cortar minha cabeça fora.

— Parece que chegamos a tempo… ou... parece que não.

A mulher empurra o inimigo para trás e, em seguida, um homem mais velho aparece tentando cortá-lo com uma cimitarra.

— Leyra, não brinque nessas horas. Este homem é perigoso!

— Eu sei disso, Tegan!

— Ei, Rahter. Não deixe o ódio consumir sua razão.

— Ódio? O que estou sentindo nesse momento é um desejo incontrolável de degolar esse demônio milhares de vezes e fazê-lo sofrer eternamente, até que todo seu corpo se despedace por completo. Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos! Não ousem se intrometer!

— Ei... — Ouço a voz de Arya trêmula.

— Eu... Eu vou matá-lo! Matá-lo! — O encaro por cima dos ombros com um olhar profundo. Raios surgem cobrindo meu corpo e, do meu lado, lanças de gelo se formam.

Eu me levanto e viro caminhando na direção do desgraçado. O ódio molda meus raios, deixando-os ainda mais violentos e se dispersando nos arredores. Todos me observam enquanto vou até ele lentamente.

Sinto minha pele queimar, simplesmente ignoro e continuo andando. As pontas dos meus cabelos começam a ficar azuladas e, no reflexo da janela de uma das lojas de Mighur, meus olhos brilham em um tom dourado.

— Eu... — Estendo o braço à frente do corpo criando uma onda de choque no formato de uma lança na mão. — EU VOU MATÁ-LO! — grito bem alto trazendo à tona todo o ódio que reina dentro do meu ser.

Em um instante, surjo na frente dele e vejo os raios querendo se dispersar. Antes que isso ocorra, forço-os a saírem disparados na direção do seu peito esquerdo. Mephur é jogado para longe levantando uma poeira quase imperceptível. Ainda de pé, ele coloca a mão no local em que o raio o atingiu.

— Acho que, por ora, chega — diz.

Algo começa a cobrir seu corpo. Uma névoa negra surge fazendo com que seu corpo desapareça junto dela.

— ESPERE AI, SEU DESGRAÇADO! — Rahter tenta ir até ele, mas já é tarde demais. A névoa negra falta cobrir apenas seu rosto.

— Nos encontraremos novamente, criança Drakhar! — diz, encarando-me pelos olhos vermelhos do elmo negro. — A espada... será nossa! — E desaparece.

— Já chega, Rahter! — fala Leyra. — Ele se foi, eu sinto muito…

— Não. Eu vou encontrá-lo. Custe o que custar!

Rahter olha para mim. Conheço esse olhar. Está segurando o choro a qualquer custo.

— Leyra, você ainda é a segunda general do império. Temos trabalho a fazer — diz Tegan.

Assim, eles partem para as hordas de demônios restantes para eliminá-los. Vejo Rahter pegar e carregar Lúcia nos braços pela cidade. As quatro crianças caminham ao meu lado me olhando com pena. 

Sério… Por que isso teve que acontecer? Lembro do sorriso que ela dava ao me ver acordando, das broncas que me dava quando eu me aprofundava demais na floresta. Esses dias nunca mais voltarão a existir.

Ao lado, Arya carrega a espada de um jeito desajeitado. Então ela foi capaz de conseguir retirá-la… De repente, uma lembrança veio, uma música.

O sangue…  derramado pela liberdade e paz. — Canto baixo, e ignoro os olhares curiosos de Arya e dos outros três. — E os guerreiros que lutaram nunca nos esqueceremos jamais. — Paro para respirar um pouco, e sinto lágrimas escorrerem em silêncio. — Reis e Rainhas… se curvam em respeito ao seu sacríficio…

(...)

Demorou algumas horas para que os generais que estavam por aqui conseguissem eliminar e expulsar todos os demônios que invadiram o império. Contaram com a ajuda de aventureiros e magos para conseguir manter os cidadãos em segurança.

O estrago causado é enorme. A devastação da batalha duraria meses, ou até mesmo um ano para conseguirem reparar. Rei Drake esperou apenas a confirmação de que os demônios que ainda estavam em Dream foram mortos para dar início ao funeral dos guerreiros que morreram defendendo seu lar. No centro da cidade de Mighur, onde a espada de Arthur estava fincada, construíram um monumento de pedra ao lado, com o nome de todos que morreram esculpidos nela.

Para lembrar a todo mundo que não precisa estar em posse de uma espada lendária ou ser escolhido para ser um herói, pois todos que têm o nome esculpido na pedra são um.

O ar da cidade fica tenso durante alguns dias. Tristeza, remorso e raiva podem ser vistos no rosto dos que perderam um ente querido. Eu sei disso, sei muito bem como é esse sentimento. Vi a única pessoa que mais me importei nesse mundo morrer diante dos meus olhos e não pude fazer absolutamente nada para impedir.

Esse corpo pequeno e frágil… Se ao menos eu ainda estivesse com aquela magia do Dragão-Rei, talvez, só talvez eu pudesse ter feito algo para que fosse diferente.

(...)

Parece que todos os demônios foram embora, ou mortos. Rahter continua carregando o corpo da minha mãe com fúria nos olhos. As quatro crianças seguem ao lado, me olhando de canto e quase chorando. Por quê? Vocês não me conhecem, não sabem quem sou... Não precisam esboçar essa reação. Cerro os punhos até sangrarem.

— Garoto — diz Rahter —, mantenha esse ódio. Você vai precisar quando encontrarmos aquele desgraçado novamente!

O ignoro completamente. Onde esteve? Por onde andou todo este tempo? Se estivesse conosco, as coisas teriam sido mais fáceis.

— Licença... — A garota loira se aproxima. — Sinto muito... por sua perda...

— Isso não é necessário. — Tento manter a pose.

— Aquela música… que você cantou, era sobre o que?

— Certa vez, ouvi dizer que quando um herói é morto no campo de batalha, reis, rainhas e todos os soldados no campo de batalha cantavam essa música, era uma homenagem. Você não conheceria. 

Sinceramente, nunca ouvi alguém cantar essa música. Em toda minha vida como Arial Blake, nunca me comportei como um herói, era alguém que queria matar Delgron pelo que ele fez, e mesmo assim, eu fiz aquilo, fui um imbecil. Nunca mereci essa canção, e sinceramente tenho certeza que ninguém a cantou.

— O que está havendo aqui? — Meus olhos se direcionam para frente, e parado, com os olhos arregalados se enchendo de lágrimas, está Arkus. — Quem... é essa?

— Sinto muito, velho. — Rahter caminha até ele. — Não consegui chegar a tempo.

— Isso... Isso não pode ser verdade. — Arkus cai de joelhos e suas mão tremem. — Você não. Não. Não você. Depois de todos estes anos... — Lentamente, as lágrimas começam a cair dos olhos de Arkus, sua dor tão palpável que chega a doer no meu peito. — Que... merda... — Ele tenta segurar o choro, mas é em vão. Arkus fecha os punhos e soca o chão com força, depois de novo, e de novo. A pele rasga e sangra, ele tenta dar outro, mas o impeço.

— Ei... — Ele não olha para mim, solto seu punho e ergo seu queixo. Vejo a tristeza de um pai em um único olhar. O abraço, e ele retribui ainda mais forte caindo em lágrimas.

(...)

Um dia se passou desde o ataque, está anoitecendo. Os aventureiros estão ajudando a recolher os restos dos civis e de outros companheiros que morreram na batalha. O império foi completamente destruído. Algumas pessoas se reúnem no centro da capital para lamentar a morte de todos.

Caminho ao lado de Rahter, que tenta impedir as lágrimas de saírem. Não possuo sentimentos por ele, mas tenho empatia. Ela era minha mãe, e vê-la sendo carregada por quatro pessoas desconhecidas com um pano cobrindo seu rosto me faz querer gritar o mais alto que posso e dizer o quanto sinto muito. Eu... nunca disse “eu te amo” a ela, esse é meu maior arrependimento.

Arkus caminha em silêncio, com o rosto baixo e olhos quase fechados. Dá para notar que passou a noite inteira chorando e bebendo álcool. Drake segue caminhando enquanto consola Darnys, que não faz esforço para não chorar. Arlo segue atrás com Leyra e Tegan.

Tento pensar no seu sorriso, nas broncas, nas horas que contava histórias com brilho nos olhos. Quando nasci, do seu toque e da sensação ao ver seu rosto cansado e mesmo assim mantendo um sorriso... Só que a única coisa que volta sem parar, repetindo-se em um loop infinito de lembranças, é o de sua mão soltar meu rosto e daquele olhar sem vida.

Chegamos no rio Morinlams, que fica logo atrás de Dream. Em frente há uma barricada de madeira no formato de uma cama, com um pano, flores e velas a rodeando. As quatro pessoas a colocam delicadamente e se afastam. As quatro crianças chegam junto com Agnes, Claus e Vrismich em cavalos.

Agnes vem até mim, dessa vez seu sorriso carinhoso e acolhedor sumiu, está com os olhos vermelhos e olheiras. Ela se aproxima e me abraça. Fica em silêncio, consigo escutar as batidas rápidas do seu coração e sua respiração pesada.

Alguns momentos depois, Rahter se aproxima e coloca uma flor negra no peito de minha mãe. Não entendo o porquê, mas só observo de longe. Ele se afasta e Arkus se aproxima junto de Darnys.

— Irmã... — Ela desaba em choro e nem uma única palavra a mais sai de sua boca.

Arkus suspira fundo, toca a mão dela, vejo que está mais pálida do que ela era. Largo o abraço de Agnes e vou até eles. 

— Sabe..., mãe... — Impeço o choro de sair. — Sou muito grato, todas as coisas que me ensinou, as broncas que me deu. — Paro por um momento e limpo os olhos. — Dos sorrisos, dos abraços quentes. — Toco sua mão, está fria, nunca mais irei sentir o calor de sua pele. — Você me fez lembrar várias e várias vezes que... preciso ser forte para proteger quem amo. E sabe meu único arrependimento, mãe?

— Eu... não aguento vê-lo assim... — Ouço Agnes bater os joelhos no chão e começo a escutar sua voz trêmula cair no choro.

— Meu único arrependimento é nunca ter dito “eu te amo”... Você nunca escutou essas palavras desse filho ingrato que a senhora teve. — Eu olho para ela, seu rosto sereno em último adeus. Meus olhos enchem de lágrimas novamente enquanto tento me despedir. O céu se enche de relâmpagos e clareia com os raios. — Você foi a pessoa mais gentil que conheci em toda minha vida, juro... — Deito o rosto em sua barriga, enquanto seguro os galhos de madeira com força. — Eu te amo. Eu te amo..., mãe. Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Sei que é tarde, mas... eu te amo, mãe.

Eu choro, essa é uma dor insuportável. Duas vezes perdi minhas mães. Em Zendrut, agora em Alduin. Como isso... é justo? Arkus me afasta, Arlo coloca o dedo na madeira e uma pequena chama se forma, consumindo aos poucos e deixando tudo completamente em chamas.

(...)

Alguns dias se passaram desde a invasão dos demônios. As quatro crianças estão a salvo. A senhora lutou para manter eles em segurança, mamãe, e conseguiu fazer isso. O ar bate em meu rosto. O barulho da grama sendo soprada pelo vento fresco me faz olhar para o céu por um instante.

Fecho os olhos e imagino o sorriso de Lúcia, o olhar carinhoso e seu rosto bondoso. Na minha frente está a lápide dela, não sei dizer a razão, mas, por algum motivo, consigo ver alguns cristais azuis que não estavam aqui antes. Arkus falou que ela sempre dizia que, quando morresse, queria ter uma lápide no topo dessa colina, localizada atrás do castelo.

Arkus levou metade das cinzas dela para o lugar com mais concentração de gelo em Kraykro, e a outra metade está aqui. Ele disse que essa é uma tradição antiga dos Drakhar. Espero que você esteja bem aonde quer que esteja. Hum?! Por um breve momento, sinto um toque no ombro direito. É como o toque dela… As lágrimas caem, eu me ajoelho na grama com a mão apertando o peito. Até mais…, mãe.

— EEI! — Escuto Arya de longe. — Rahter está te chamando.

Ela está acompanhada das outras três. A garota loira se chama Arya Bonnet. A menina de cabelos curtos e pretos se chama Aika Kirishima. O nome do menino loiro é Alexander Klein, e o rapaz de cabelos marrons se chama Óliver Alves.

Eles começaram a me seguir para todos os lados depois da invasão. Sério, parecem carrapatos, não desgrudam nem por um segundo.

— Eu já estou… indo… — Algo flutua perto do meu olho.

Um pequeno cristal azul, pontiagudo dos dois lados.

— Luke! Cuidado! — grita Arya.

Vários cristais começam a me rodear, tampando minha visão. Do nada, desaparecem, e consigo ver Arya e os outros correndo até mim. O que é isso? Não é uma alucinação, disso tenho certeza.

Arya abre a boca, dizendo algo, mas não a escuto. Ela e os outros batem em uma parede invisível, porém sinto que não conseguem me ver.

— Não tenha medo.

— O quê?! — Viro-me para a voz. Um garoto do tamanho de Agnes está parado na minha frente, segurando um grimório. Eu me lembro. Ártemis me disse algo sobre o grimório de Athena. É ele! Eu tenho certeza de que é desse garoto que ela me falou. — Você é…

Seus olhos esverdeados me encaram calmamente. A pele dele é tão clara quanto a neve e os cabelos pretos penteados para trás formam um topete. É um pouco… diferente. Traja um quimono branco com listras pretas, e apenas um cinto que provavelmente segura o grimório.

— Eu me chamo D.!

— D.? Apenas… D.?

— Sim. — Ele sorri. — Algo me trouxe até você. Algo maior do que tudo nesse mundo. Sabe do que estou falando, não é?

— Si-sim.

— Vim te alertar. A invasão dos demônios, os bárbaros e tudo que aconteceu em Dream foi orquestrado por apenas uma pessoa… estou atrás dele já faz alguns meses. Tudo o que sei é que o Conselho Governamental o ajuda nos seus planos.

— Quando você diz "ele", quer falar de quem exatamente?

— Zeus!

— Ze-Zeus? Zeus está em Dream?

— Todas as pistas apontam para isso. Contudo, é apenas uma teoria. Se o Conselho Governamental está envolvido com ele, essa é uma das possibilidades.

— O que posso fazer para ajudar?

— Estou criando uma organização. Tive meu primeiro contato com um homem chamado Darkeyes Brastho, nas ruínas de Nafras. Ele estava buscando pelo exoesqueleto de um dos quatro dragões imperiais. Agora não me pergunte para quê.

Dragões imperiais… Claus me disse sobre eles. E pensar que um garoto de doze anos está fazendo tudo isso.

— Sabe onde fica Nafras? — pergunto. — Preciso ir até lá.

— Quando ficar mais velho, eu mesmo o levo.

— E quando diz organização, você quer dizer…

— Minha organização irá contra o Conselho Governamental. Com certeza seremos tratados como criminosos, mas, mesmo com isso…, gostaria de lhe fazer esse convite.

Um convite? Ele planeja…

— Luke Drakhar, o destino me trouxe até você. Existe apenas uma explicação para isso. Devemos trilhar o mesmo caminho para conquistar nossos objetivos. Por isso eu te convido. Gostaria de entrar para a Zero?

Ártemis disse que esse garoto possui um senso de justiça e quer paz mais do que toda Alduin junta. Não há motivos para duvidar de seus princípios. Além do mais, ele disse que Zeus deve estar por trás da invasão dos demônios e dos ataques dos bárbaros, mas qual seria o motivo disso?

O plano dos demônios é libertar Hades, porém, no momento que ele for libertado do selo eterno, vai sair caçando Zeus para matá-lo. Isso não faz sentido. Tem mais coisa envolvida nisso.

Contudo, caso Zeus tenha algo a ver com isso, irei até os confins do mundo para matá-lo! Por que saiu para comer algo justo agora, Ártemis?

— E então? — D. estende a mão.

Vou ter que confiar nas palavras dela. Juro que ficarei mais forte que você, Mephur. Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos!


 

Capítulo tinha sido agendado para 30 de outubro kkkk falha técnica

Primeiro volume da obra finalmente se encerrou e finalmente vocês conseguiram ver o tal fatídico final de Origem. O segundo volume Queda, está em desenvolvimento e terá muito mais derramamento de sangue que no primeiro. Às 13hrs o primeiro capítulo do segundo volume será lançado, ele se passará quatro anos depois desses eventos em Dream. Após isso a obra entrará em outra pausa até eu finalizar o segundo volume e ele passar por um processo de revisão no meio editorial.

Se quiserem adquirir a versão física da novel que restam apenas 7 disponíveis, disponibilizarei o link logo abaixo, e também me siga no instagram para ficar por dentro de qualquer novidade do segundo volume, e acompanhar a arte de alguns personagens, a próxima arte a ser postada será a de Lúcia Drakhar.

Link do  livro físico: Editora Flyve

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