O Escolhido Brasileira

Autor(a): Bárion Mey


Volume 1

Capítulo 22: Invasão [3]

 

 

“Onde estou?”

 Uma escuridão apossava sua visão. Sentia estar deitado em algo, algo similar a uma cama aconchegante e flutuante. 

“O que é isso?”

 Seus olhos abriram lentamente, tendo em vista o céu limpo com a inexistência de nuvens. Seu corpo estava leve, seu braço foi levado à frente do seu rosto tentando impedir a luminosidade do sol que ofuscava seus olhos.

“Tudo que me lembro é… De uma voz me chamando…”

 O homem sentou-se, investigando os arredores. Nada. Absolutamente nada se encontrava além de um chão. Não. Um líquido sólido que lembrava o oceano. Um oceano sem ondas, sem maré alta ou ondulações.

 Inclinando o rosto para baixo seu reflexo foi refletido através das águas.

“Este rosto é… Arial…”

 A alma perdida de Alduin estava de volta ao seu corpo original. Com seu cabelo médio e olhos negros como a noite mais escura que alguém já vira. Seu rosto com marcas que entregavam sua idade próxima aos 37 anos. 

 A antiga roupa de batalha que usava; agasalho preto que ia até à sola dos seus pés e uma camisa branca que ficava manchada de sangue toda vez que sua lâmina entrava em contato com um corpo. 

“Que lugar é esse?”

 Levantou-se com uma estranha sensação, cada passo que dava a água se expandia e voltava a ficar calma. 

“Estou morto novamente?”

 Tudo que lembrava era de estar sendo apoiado nos ombros da garota invocada, depois disso, sentiu uma enorme pressão no peito e apagou sem perceber. 

— Aqui é diferente do vazio — murmurou.

 Sua visão se concentrou mais a frente, onde uma silhueta de uma pessoa se formava. Aparentava estar com um chapéu de palha grande que ocultava seu rosto. Arial encarou fixamente o sujeito aparecer completamente. 

 Estava em um barco de madeira pequeno, com um remo em mãos. Um homem velho de barba e bigode fino. 

— Arial Blake — disse o velho — Peço que me acompanhe…

— Quem é você?

— Sou Caronte. — O velho deu meia volta com o barco. — O barqueiro das almas.

 Arial ficou relutante, mas algo parecia lhe empurrar para dentro do pequeno barco. Caronte começou a remar, sua tranquilidade era revigorante. 

 Longos minutos se passaram, e apesar desse tempo, pareciam nem mesmo ter saído do lugar que partiram. Nada era avistado como uma terra ou algo do gênero. Assim, segundos se transformaram em minutos. Minutos se transformam em horas, e essas horas pareciam ter se transformado em dias. 

 Fome? Sede? Enjoo? Arial não sentia nenhuma dessas coisas. O barqueiro continuava a remar com toda tranquilidade, não havia parado nem por um minuto durante toda viagem. 

Esse rancor que sente, eu retribuirei adequadamente… — O velho começou a cantar uma canção. — Esse ódio que sente, farei-o sentir cem vezes mais por mim! Entrego as almas perdidas para o fim, e o fim lhes dá o que merecem… Uma morte inquietante e silenciosa, aqui não conhecerá uma morte honrosa!

 Arial sentiu um calafrio o corroer de dentro para fora. Uma névoa começou a surgir ao redor do barco, ofuscando sua visão. O barqueiro parou de remar por um instante quando uma sombra gigantesca cobriu todo o barco.

— Ainda não está na hora, Caronte!

 A voz veio de trás deles. Caronte virou o rosto que antes estava coberto pelo grande chapéu. Seus olhos eram completamente negros e cobrindo os mesmks havia uma enorme cicatriz de queimadura.

— Creio que não tenha permissão para vir a este lugar…

— E quando um subalterno decide onde ou não devo estar! — Sua aura expandiu-se, um azul fluorescente belo, mas que colocava medo. — Arial Blake, ainda não chegou sua hora de partir desse mundo.

 Arial encarou a criatura de perto, lembrando daquele dia. O lobo se encontrava presente novamente em sua frente.

— Vo-você…

— Existem muitas perguntas em sua cabeça… Responderei todas elas, mas primeiro, porque não saímos daqui?!

 O lobo ergueu seu focinho para o alto, surgindo um ponto brilhante no mesmo. Quando sua visão voltou ao normal estava em um lugar completamente diferente de antes. A sua volta, havia construções de mármores erguidas como uma torre na frente, estátuas que via nos livros da sua casa que reconheceria em qualquer canto, as estátuas dos deuses destruídas, uma a uma. 

 Logo atrás um enorme coliseu com diferentes andares e cada um possuindo uma estátua diferente, mas também como as outras, estavam destruídas. Arial conseguiu perceber que sua extensão não se limitava somente à aquilo, era muito maior do que podia enxergar, mas de onde se localizava só conseguia ver isso.

— O que foi que disse mesmo? Sua aberração!

 O homem de cabelos brancos trançados esticou o braço e uma lança se materializou. Sua forma parecia com um tridente, o cabo azul e figuras de ondulações.

— O ego de Poseidon… 

 Hendriksen ficou cauteloso. Mais demônios começaram a aparecer dos portais, dessa vez por todo o império de Dream. 

— A quanto tempo não nos vemos, Seraph — disse o velho pulando ao chão.

— Continua o mesmo de sempre. — A mulher pulou logo em seguida.

— Vocês são irritantes como sempre, Leyra… Tegan!

— Isso são modos de tratar seus antigos companheiros? — perguntou Tegan.

— Hunf…

— Saiam da frente!

 O homem de cabelos trançados passou na frente de todos.

— Pedir para você ir com calma é pedir demais, Nagar? — perguntou Leyra.

— Hahaha! Não enche. Brincarei um pouco com esse daqui!

 Quatro pessoas que portavam o sinônimo da personificação de ‘monstro’ estavam reunidas em um só lugar. 

 O ataque central foi realizado no meio de Dream, perto da localização do castelo. A oeste, os demônios emergiram de portais dimensionais, não somente nesta região; leste, norte e sul, o império ficou infestado. 

 Os soldados imperiais começaram sua movimentação para defenderem os civis. Uma luta era avistada em cada canto que olhasse. Casas eram destruídas, construções desmoronavam em cima de civis e demônios. 

— RÁPIDO! — Um homem com uma veste estranha gritou em meio ao caos. — TEMOS QUE PROTEGER OS CIDADÃOS DE DREAM NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA!

 A estranha pessoa não trajava uma armadura reluzente, muito menos algo refinado. Eram roupas de couro comuns, com uma faixa em seu rosto impedindo de seus cabelos médios e escuros caírem sobre seus olhos castanhos. Portava somente uma espada em uma mão e uma faca na outra.

— ONDE ESTÃO OS MAGOS? 

— Cale a boca seu imprestável. Estamos tão ocupados quanto você!

 Uma garota de chapéu cônico e vestido preto fazia muralhas de terra impedindo o avanço de alguns demônios em civis. Seu cabelo azul-claro reluzia com a luz do sol em um tom brilhante e seus olhos emitiam uma determinação inigualável com aqueles tons verdes.

 O cajado em sua mão estava bastante desgastado no momento da batalha repentina. 

— Caçadores! — gritou um soldado — Onde estão os restantes?

— Espalhados por todo o império! — A maga ergueu seus dois braços para o alto, fazendo assim surgir dois braços gigantescos de pedra que emergiram do chão esmagarem sete demônios que vinham em sua direção. — E os generais?

— Vi três deles correrem para onde sua alteza estava! — O soldado balançava sua espada descuidadamente, mas de certa forma, conseguia matar alguns com seus movimentos desajustados. — Ao que tudo indica o ataque veio do centro!

Bhum!    Bhum!

 Um barulho estrondoso repudiou o ouvido de todos. Assemelhava-se com passos pesados sendo dados vindo em suas direções.

— O-o que foi isso? — A maga procurou a sua volta.

Bhum!    Bhum!

 De repente, seus olhos se direcionaram para o alto dos edifícios que se desmoronavam aos poucos.

— Tá… brincando…

 Não existia outra forma de descrever o que era aquela coisa gigantesca em suas frentes. Uma ruptura surgiu no céu, assemelhava-se a um espelho sendo quebrado, onde saíam inúmeras criaturas com asas e de aparência medonha, mas o que colocou medo em seus corações ainda estava atravessando a enorme ruptura no céu. 

 Suas pernas eram maiores que o próprio castelo do império. Uma mão saiu, em sua palma havia uma boca grotesca com dentes afiados, a estranha criatura encontrava uma grande dificuldade de sair da ruptura. 

— Fiu~

— Hã?!

 A maga virou seu rosto repentinamente para o lado. Um homem na casa dos 25 anos estava olhando a criatura com um estranho sorriso. Seus cabelos tonalizados em um azul-escuro e olhos da mesma cor. Suas roupas eram idênticas a dos outros três, porém bordado em suas costas estava escrito “sexto”.

— General Anys! — A garota esboçou um pequeno sorriso. — Não acredito que realmente esteja aqui.

— Aquilo vai dar um trabalhão danado, hahaha.

— Perdão?

— Oh! Não vi você ai.

— Haah…

— Aquela coisa é um demônião, em. 

— Se concentre, Anys!

— Hum… Oooh! Quanto tempo, Mikhan.

 Mikhan possuía longos cabelos pretos com cortes desajustados e uma pequena franja. Sua pele era morena e seus olhos alaranjados. Seu corpo robusto e musculoso, ele não trajava uma veste imperial, somente o sobretudo que ao invés de uma gola grossa e alta, era um capuz cobrindo seu rosto. As mangas do sobretudo eram rasgadas, onde em seu antebraço até sua mão havia uma corda vermelha enrolada. 

 Em seu peito havia duas cicatrizes causadas por alguma garra gigante. Sua aura era intimidadora e sua voz grossa causava imponência.

— Anys, o sexto general e Mikhan, o oitavo general… talvez não seja impossível matar aquela coisa — disse a garota.

 Arkus retirava os escombros de cima de alguns convidados que estavam na área vip. Drake ajudava as pessoas guiando-as através da porta, Darnys cuidava das quatro crianças e Hannah tentava fazer um curativo com os pedaços do seu vestido em Luke. 

 O semblante preocupado estampado no rosto dos presentes deixava um clima pesado ao ver os ferimentos que o garoto tinha espalhados por todo seu corpo, questionavam se ele iria sobreviver.

 A estranha respiração pesada que exalava da sua narina deixou dúvidas no ar. Lúcia guiava os civis para fora, lutando com os demônios que surgiam em sua frente. Balançava sua espada e marcas de gelo surgiam no processo congelando quem estivesse no caminho.

 Sua armadura manchada de sangue preto junto de sua espada. Seus olhos vermelhos e árduos colocavam medo até mesmo nos demônios. Da sua boca saía um ar gélido toda vez que usava magia de gelo.

— Já faz um tempo… Estou enferrujada.

— Hahaha! E pensar que você selou sua magia para que nós não a encontrássemos.

— Algo irritante chegou. — Lúcia olhou para o alto e o subalterno de Hendriksen a encarava em cima de um prédio.

— Querida Drakhar, continua tão bela quanto aquela noite.

— Tsc! Pelo visto você ainda é o cachorrinho do Hendriksen. — Os demônios começaram a cercá-la. — Poderiam não atrapalhar?

 Lúcia respirou fundo e expirou, uma fumaça gélida esbranquiçada emergiu da sua boca. Apontou sua espada para frente surgindo sinais de que iria congelar e então sorriu.

Estou cercada — recitou — livre-me de todos meus inimigos e provarei ser digna: Caixão congelante!

 O gelo surgiu debaixo dos seus pés e se expandiu pelo terreno rapidamente, os demônios que estavam à sua volta tivera seus pés sendo congelados e foi rapidamente apossando seus corpos até ficarem completamente cobertos de gelo.

 Arial olhava admirado para aquela bela vista, embora tudo estivesse em ruínas. Assemelhava-se a uma ilha flutuante no céu, onde as margens do rio com águas tão claras escorriam para o penhasco desaparecendo em seguida.

— Estive observando-o, Arial.

 O lobo olhava para seu rosto fixamente, vendo o encanto que o homem estava tendo naquele momento.

— Posso saber o porquê?

— Você fez algo impossível em outra vida. Derrotou aquele ‘ser’ abominável que até mesmo às três lanças temiam enfrentar sozinhos.

— Pelo visto sabe o que fiz em vida quando era Arial Blake.

— Era? — O lobo sorriu. — Tolo, você nunca deixou de ser Arial Blake.

— Talvez não, mas mesmo assim… — Ele inclinou seu rosto para baixo.

— Luke Drakhar e Arial Blake são a mesma pessoa, e isso não mudará.

— Você tem algum envolvimento com meu renascimento em Alduin?

— Não foi somente eu.

— O que quer dizer? — Arial sentou-se na grama. 

— Nem todos os deuses foram mortos por Hades naquele dia. Zeus ainda continua vivo, embora escondido nas sombras. É bem provável que Poseidon tenha escapado, e Ares permanece vivo.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— Porque…

 Algo estranho começou a acontecer com o lobo. Seus pelos pareciam sumir gradualmente e seu tamanho gigantesco diminuía conforme os segundos passavam. As garras da sua pata de águia começaram a diminuir e seu corpo foi tomando uma forma humanoide.

 Arial olhou assustado para tal cena. Era algo similar ao que tinha em Desborn.

— Metamorfose… — murmurou.

— ‘Porque’ você pergunta… 

 O lobo que vira pouco antes agora tinha se transformado em uma bela mulher de vestido branco feito de seda. Seus cabelos eram lisos e compridos, brancos como a neve, e seus olhos dourados como ouro emitiam um brilho estranhamente belo.

— Porque eu sou Ártemis…

 

 

Para quem quiser contribuir de uma forma a mais com a criação da obra, vou deixar meu pix aqui caso queiram dar aquela ajudada marota com qualquer valor que queiram, eu agradeço profundamente.

Pix: 62993360592



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