Escolhido Brasileira

Autor(a): Bárion Mey


Volume 1

Capítulo 21

O barulho cessa por alguns instantes. O público se alarma em curiosidade, medo e desconforto. O orquestrador fica em silêncio num conjunto de milésimos de segundos. Olho em volta e vejo três elfos, preocupados igual nós.

A mulher possui aparência requintada com lindos cabelos dourados que vão até sua cintura e com belas curvas. Seus olhos verdes brilham como uma esmeralda lapidada. Usa uma coroa simples feita de um galho fino e algumas flores coloridas.

Sentado ao seu lado, há um homem de cabelos da mesma cor, porém curtos. Sua pele é tão branca quanto a de sua esposa, dando brilho aos seus olhos. Sua coroa também é feita de um galho, mas sem nenhum detalhe característico. Sentada e encolhida ao seu lado, há uma garotinha, aparentemente assustada com os humanos à sua volta.

Ela é um pouco mais baixa que eu e puxou a grande beleza da mãe. Contudo, as aparências se divergem um pouco. Embora as cores dos cabelos dos seus pais sejam dourados, o dela tem uma cor cintilante e brilhante como a lua, batendo nos ombros. Os olhos da cor do céu mesclados com o brilho que parece as estrelas mais brilhantes de Zendrut chamam a atenção aqui em cima.

— Sabemos que precisamos de pessoas fortes para nos proteger de atos malignos contra seres hostis. — Um sorriso se mostra em seu rosto. — E como fazer isso a não ser… — Uma breve pausa surge enquanto aguardamos sua próxima fala. — Invocar um herói que seja forte o bastante…

Invocar… um herói? Vejo assustado Arkus e percebo o olhar inquietante dele. Direciono os olhos para Drake. Ele está batendo as pernas e fazendo movimentos estranhos com as mãos, ansioso.

— Um herói?

— Do que ele está falando…

— Será possível isso ser realmente realizado?

— Deu um pouco de medo agora…

— Estamos no meio disso, será seguro?

As vozes preocupadas ecoam pelo templo de Abyss. Ficam inquietos com as palavras duvidosas do orquestrador. Os magos se prostram ao redor da grande pedra redonda e ali ficam, olhando para o centro. Nesse momento, Drake se levanta.

— Meu povo… — Sua mão se eleva para o alto em um cumprimento. — Estou aqui para dizer que dias conturbados estão vindo para nos assombrar novamente. Nossas forças precisam ser ajustadas, pois não sei quando alguma tragédia pode acontecer. Cheguei em um consenso com o Conselho Governamental e decidimos fazer o que achamos certo.

Conselho Governamental? O que é isso?

— Hoje… — Drake continua — será realizada uma magia de invocação para nos trazer alguém digno de ser chamado de herói… — Seus olhos se dirigem para a plateia feminina. — Ou heroína.

Um homem se levanta e anda para o lado de Drake. Usa um chapéu de lã e um terno verde. Seu bigode é grosso e branco e a pele contém marcas da idade avançada.

— Este homem se chama Omar. Um dos três governantes do Conselho Governamental.

— É um prazer estar aqui hoje. — Faz uma reverência curta.

— Ele convenceu os outros dois governantes de que nosso mundo necessitava de um brilho maior, e aqui estamos hoje. Senhor Owen… — diz para o mago em destaque —, podem começar!

O cetro dos feiticeiros se eleva delicadamente com seus gestos. De repente, o céu passa de um brilho lindo e harmonioso com nuvens calmas e um sol refrescante para um conturbado. As nuvens começam a escurecer e ficar agitadas. Desenvolvem uma espiral e clarões podem ser vistos no centro dela.

— Até parece que há um deus descendo para Alduin — fala Claus, inquieto.

Meus olhos brilham intensamente. Em Zendrut havia uma teoria de outros mundos existentes. Grandes arquimagos se perguntavam se seria possível invocar um humano ou criatura além da compreensão humana de outro planeta, mas nunca colocaram em prática. Estou testemunhando uma invocação de um herói com meus próprios olhos! Não posso perder nenhum instante sequer…

Uma mão surge em meu ombro direito. Viro-me e vejo Agnes com um semblante preocupado.

— Estou com uma má impressão. Vou ficar aqui para te proteger se algo acontecer…

— Não precisa ficar preocupada — falo segurando a mão dela. — O que pode acontecer?

Ela fica em silêncio, porém ainda assim permanece ao meu lado. Alguns segundos depois, uma sombra maior intervém.

— Irei ficar ao seu lado também, criança. Estou com um mal pressentimento.

— Senhor Claus…

O rosto das pessoas está aflito. O que pode acontecer agora é um grande mistério. Os olhares inquietantes não param de surgir e um clima de ansiedade se apossa de todos os lados. Owen — o grande mago — começa a murmurar algo somente para si. As pessoas no templo ficam em silêncio observando o que vai ocorrer em seguida. Ventos fortes começam a surgir, as bandeiras penduradas por barras de metais passam a se mover como se fossem se arrancar do concreto.

Os mantos dos magos restantes balançam violentamente e parece que o vento irá levá-los embora a qualquer instante. De repente, a voz de Owen fica mais aguda e o público o escuta recitar perfeitamente um cântico que faz o céu estremecer e surgir trovões quase tão assustadores quanto o rugido de um dragão.

A língua que pronuncia é algo que jamais vi antes. Um idioma desconhecido que causa pavor em cada um com apenas uma única palavra. Um diagrama surge no centro da pedra com uma luz negra que brilha e se expande cada vez mais.

Junto ao rei, as pessoas encaram Owen. Mantenho meus olhos pregados em cada detalhe. O que vai surgir? Um homem? Uma mulher? Um deus?

Uma luz ofusca nossa visão, é como uma grande magia de luz sendo lançada, podendo vê-la mesmo estando longe do templo. Uma voz ressoa nos meus pensamentos.

— Espero que se deem bem… — Um riso perturbador surge em sequência.

O que… foi isso?! O brilho cessa. Quando os olhos de todos se acostumam novamente, olham direto para o palco de pedra.

— Nã-não tem ninguém…

Sinto uma estranha sensação me corroer. Ainda não acabou…

Olho para o céu e há algo saindo das nuvens. Lentamente uma luz desce, até que vem rapidamente no local em que se formou o diagrama. É como uma ponte de conexão feita de luz. Um estrondo ensurdece o público, que leva suas mãos para cobrir os ouvidos.

O impacto da luz ao solo causa um pequeno terremoto. Tudo treme, como se fosse desmoronar cada tijolo levantado. Depois da grande comoção, as pessoas voltam seus olhos para onde a luz atingiu. Ficam perplexas ao ver o que está parado, de pé, bem ali no centro.

São… quatro… Ando para frente abismado. São quatro… crianças?!

Parados em pé, no meio do templo, há quatro crianças. Duas delas são garotas, e os outros dois são garotos. Um deles possui uma pele morena, cabelo castanho curto ondulado e seus olhos possuem a mesma cor.

O outro menino tem um cabelo cinza médio, na altura dos ombros. Os olhos possuem uma cor densa amarelada, e a pele é clara como a dos elfos. Quanto a uma das garotas, uma possui um cabelo preto na altura dos ombros, olhos puxados e da cor preta, sua pele é como uma cor branca mesclada com um cinza-claro. Meus olhos se direcionam para a outra menina em questão.

Fre-Freya…? Não, isso é impossível. Seu cabelo loiro e olhos azul-safira permeiam minha mente, fazendo-me lembrar do meu antigo amor. Os olhos dela se encontram com os meus e nós dois nos encaramos por alguns segundos. Ela tem um semblante sério e parece não estar com medo de estar nessa estranha situação.

— São… apenas crianças… — Escuto as vozes.

— O encantamento foi feito corretamente?

A dúvida se aflora por meio da plateia. Owen se aproxima das crianças delicadamente, para não as assustar.

— Quem é você? — pergunta a garota loira, com uma cara de marrenta.

— Meu nome é Owen. Grande mago do império de Dream e…

— Ah, sei quem é você. Ele nos disse.

— Ele?

— Você não precisa saber…

As outras três crianças permanecem quietas, apenas observando os dois. Os olhos da garota voltam para mim e a encaro com uma expressão calma, diferente dos outros presentes.

— O que foi? — pergunta.

Levo o dedo perto do olho, puxo minha pálpebra e lhe mostro a língua. Ela se surpreende.

— Eh?

De repente, sinto um calafrio, parecido com como se estivessem arrancando minha traqueia para fora do meu corpo. Algo está vindo…

— Velho, o que é…

Quando olho para Arkus, meu rosto empalidece. Observo em volta e todos que ali estão parecem estar paralisados. Claus me puxa para trás pelos braços e me joga perto de Agnes, que se afasta para perto dos três elfos.

— Arkus! — grita Claus.

— Eu sei!

Ambos se posicionam na frente do público e estendem seus braços. Um cântico estranho ressoa por meus ouvidos e algo se expande na frente deles. Uma barreira, grossa o bastante para aguentar um ataque capaz de deixar o templo em ruínas.

Vejo uma bola negra se aproximar. Ela vem na nossa direção e se choca contra a barreira de mana que Arkus e Claus criaram. O impacto é tão forte que faz a proteção trincar, e o vento causado joga as pessoas para trás, fazendo-as cair no chão.

Uma pequena parte do prédio começa a desmoronar, e cai destroços e pedregulhos em cima de alguns.

A barreira toma uma forma diferente, igual um líquido parecido com água, transformando-se e engolindo a bola negra. A esfera, após ser concentrada dentro de uma espécie de bolha de mana, explode violentamente, quebrando-a e jogando todos com força no chão. O edifício começa a desmoronar pelo baque da força. Agarro a mão de Agnes e a jogo para uma porta ligada à saída logo atrás. Pulo na direção oposta quando uma parte do telhado cairia em minha cabeça.

Eu me levanto rapidamente e corro para a janela através da fumaça e destroços à minha frente. Jogo-me para fora e reforço o corpo para que aguente o contato com o solo. Olho para as quatro crianças com semblantes assustados e tento ir até elas.

Passo! Passo!

Meu corpo para por um momento e me concentro no barulho de passos sendo dados pausadamente. A fumaça ofusca minha visão além de onde as crianças estão, conseguindo ouvir apenas as vozes assustadas da multidão nas arquibancadas.

A fumaça se esvai aos poucos e, quando minha visão fica livre do ofuscamento, direciono os olhos para um homem. Não, aquilo não é um cara. Suas orelhas são mais longas que as dos elfos, a pele tão cinza que parece não haver uma cor. Os olhos têm o formato de uma espiral vermelha e marcas da mesma cor subindo pelo braço que se assemelham a chamas querendo consumir seu corpo. Longos chifres brancos com a ponta vermelha destacam seu cabelo acinzentado. Traja apenas uma calça branca larga, estando descalço e sem qualquer vestimenta de cima.

Ele se aproxima das crianças, observando-as como uma presa.

— As coisas saíram do controle — diz o estranho ser com chifres.

 


 

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