Escolhido Brasileira

Autor(a): Bárion Mey


Volume 1

Capítulo 1

4 anos antes

A chuva densa deixa o solo escorregadio e enlameado. A expressão vazia, cheia de medo e insegurança está estampada no rosto de todos. Os corpos estraçalhados de soldados ao redor e todo aquele sangue impregnado na lama são um dos principais motivos. Delgron, o deus da ruína, que levou destruição a Zendrut, tinha finalmente caído. Com que sacrifícios no fim? Eu, que sempre lutei para defender quem amava e completar minha vingança, estou agora deitado na lama impregnada com sangue, prestes a cair em um sono eterno.

Uma mulher chega em mim e me coloca entre seus braços. Consigo escutar seu choro silencioso, mesmo que meus ouvidos já não estejam em uma boa situação. Ela é uma mulher loira, de cabelos trançados e olhos azuis. Usa uma armadura reluzente de ouro com lindas asas brancas. A espada dela está fincada ao lado do meu corpo. Minha visão turva só consegue enxergar os borrões de outras pessoas reunidas à minha volta, abaixadas, gritando algo em uníssono.

— Me desculpe..., Freya — digo, minha voz quase trava e sai meio trêmula. O sangue para na garganta toda vez que tento dizer algo. É mais que evidente, estou morrendo.

Não posso fazer muita coisa além de só aceitar essa situação de merda. Freya diz algumas palavras, porém não consigo escutar nada à minha volta. Está silêncio, ouço apenas o barulho do vento frio que bate na pele e da chuva colidindo na lama. Sinto apenas o cheiro dos cadáveres à minha volta e as mãos geladas.

Aos poucos, a consciência se afasta, indo de encontro a uma enorme escuridão. Meu único arrependimento é não conseguir matar Delgron com minhas próprias mãos. Mesmo após o juramento que fiz quando criança, fui um completo inútil até o fim da minha vida. Se ao menos eu fosse tão forte quanto Freya, Damari e Rahjin, conseguiria ter feito algo a mais e talvez, só talvez, ainda estivesse vivo em Zendrut.

O tempo passa e começo a notar que ainda estou vivo, pelo menos minha consciência. É quase como se ela vagasse além da escuridão, em frente, sem rumo algum. É como estar em uma paralisia do sono com um Hailith, com garras de bronze e dentes com caninos de prata babando em cima de você, prestes a devorar sua mão, enfiando a ponta do rabo de osso dentro do seu olho esquerdo para comer como petisco depois… enfim, papo para outra hora.

Acontece que aqui, no meio do breu, a primeira coisa que consigo escutar depois de longos minutos enxergando apenas trevas à minha frente é o som de um assobio sendo cantarolado bem distante. Após um tempo em repleto silêncio, o som volta ainda mais perto.

— Ora… — diz uma voz. Ela é aguda, como se três pessoas com vozes grossas conversassem ao mesmo tempo. — Um humano!

Escuto um estalar de dedos, e a escuridão que me cerca começa a sumir lentamente, transformando-se em um espaço branco sem fim.

— Uma alma perdida pelo vazio — a voz surge de novo. — Pergunto-me como isso é possível… — Ela some gradualmente, parece ser a própria expansão branca.

Mais à frente, observo um pequeno borrão negro que se aproxima a cada segundo. Anda em minha direção com uma sombra enorme e cantarola uma estranha canção, lenta e com alguns sons longos e assustadores. Olhar para aquilo me espanta e me faz lembrar de imagens que estou acostumado a ver em guerras que travei. Sim, encarar aquela coisa me faz pensar que pode ser a personificação da própria morte.

— Como isso aconteceu? — Mesmo distante, sua voz parece entoar ao lado do meu ouvido, como um sussurro.

— Quem… — tento perguntar, mas, por um momento, travo. Ergo uma das sobrancelhas e o examino de longe. — Quem é…

— Quem é você? Onde estou? — A criatura tira as palavras da minha boca. — Essas perguntas são bem comuns de almas errantes que param neste lugar. — Em um piscar de olhos, surge na minha frente, sua aparência se assemelha a estilhaços que se destroem e se refazem ao mesmo tempo. — Mas… faz muito tempo desde o último. Muito tempo mesmo.

Seus olhos transmitem um sinal vazio de vida, somente as pálpebras se mostram brancas como aquele lugar.

— Humano… quem é você? — O som repudia meus ouvidos.

A criatura ergue a mão na minha direção. Os dedos possuem unhas grandes e afiadas. Com delicadeza, toca na minha testa com o indicador. Minha vida inteira passa diante dos meus olhos. Em questão de segundos, tudo que vivencio parece ter se tornado um grande livro aberto.

— Impressionante…, Arial Blake. — A boca se contorce em um sorriso alarmante.

Estremeço. Sua presença é mais poderosa que a de Freya, Damari e Rahjin, os três escudos de Yuhai, protetores do rei Layry, o chifre do demônio. Só senti uma presença parecida antes — era Delgron, o homem ou, melhor dizendo, o demônio que me matou, conhecido também como o deus da ruína —, e não chega nem perto da dessa criatura.

— Como sabe meu nome? — pergunto. Meu lábio treme, quem dera ser de frio.

Minhas mãos começam a tremer e minha pele empalidece. O olhar dele é como agulhas sendo enfiadas lentamente por meu corpo.

— O que foi? — Leva a mão acima da cabeça. — Como? O oráculo está dizendo ser este… humano? — O jeito que a criatura fala me causa uma pequena raiva, mas o que posso fazer? Nada, claro. Designa um olhar repleto de desdenho, então continua: — Aquele humano que portava uma foice maior que o próprio corpo tinha muito mais capacidade do que…

Parece estar discutindo com algo — ou alguém. A propósito, acredito que a pessoa a que ele se refere seja Rahjin, que morreu lutando contra Delgron. Se for ele, tenho que concordar que era realmente melhor que eu, seja lá pro que for.

Após um longo tempo discutindo com o vento e fazendo expressões horripilantes, olha-me intrigado.

— Haah… — suspira, parece tão pesado que posso sentir o ar mudando à minha volta —, muito bem. — A criatura cruza os braços, como se estivesse se fundindo ao seu corpo, e diz: — Escute atentamente. Não desaponte o oráculo. Caso o faça…, não preciso dizer o que vai acontecer, né? — Termina o belo discurso com um sorriso engraçado, mas posso jurar que, se eu disser apenas um mísero A, estarei morto… de novo.

Tudo fica muito confuso, não entendo o que acaba de acontecer. Então, a criatura estala os dedos e um zunido ensurdecedor parece que vai explodir meus tímpanos. Borrões vermelhos e negros cobrem minhas vistas e tudo volta a ser como antes: trevas e mais trevas à frente.

Durante longos e duradouros minutos, estou preso naquele lugar. Até que, bem distante, uma luz branca surge como um ponto de salvação para minha alma. Seja o que for, meu corpo parece levitar cada vez mais para perto, como se eu estivesse sendo atraído por ela, sendo arrancado à força das trevas.

Quando atravesso, um brilho ofusca minhas vistas enquanto sons agridem meus ouvidos. Tento dizer algo, porém tudo que consigo fazer é chorar. Escuto vozes abafadas, e vejo silhuetas estranhas na minha frente.

— Parabéns, senhora Lúcia — diz a voz de uma mulher.

Essas são as primeiras palavras que escuto quando minha audição volta ao normal. Olho para cima com bastante dificuldade e me deparo com uma senhora no ápice da idade. Usa um trapo de roupas velhas, rasgadas e sujas. Ao seu lado, há um homem de meia-idade. Roupas comuns, uma barba que cobre metade do rosto e um mal cheiro que, minha nossa, há quanto tempo esse senhor não toma banho?

"Que droga é essa?", penso. Óbvio que essa situação é algo completamente novo para mim. Tento me colocar de pé, mas parece que a própria gravidade me puxa para baixo, obrigando-me a ficar deitado em algo extremamente macio. Em uma tentativa de virar o corpo para o lado, pequenas mãos entram no meu campo de visão.

Que porra e que diacho são as únicas palavras que consigo pensar no momento. Mãos pequenas — e quando digo pequenas, quero dizer extremamente pequenas — parecem estar interligadas ao meu corpo. Então é assim que começa meu primeiro dia em um novo corpo, em uma outra vida.

 


 

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