Volume 1
Capítulo 50: O ERRO DO HEROÍSMO
Ao longo das semanas adjacentes ao Primeiro Trabalho, Milan nutria a si mesmo sob uma perspectiva diferente.
Enquanto se recuperava dos graves ferimentos que pareciam demorar demais para se recuperar, ele traçava pequenos treinos físicos e mentais, na esperança de finalmente compreender melhor seu lugar neste mundo.
Isto é, em Lûarendill.
A Câmara parecia ter sentimentos próprios, o que culminava numa abordagem diferente do uso de Aura. Ela era mais poderosa que Milan, tendo sua vasta Centelha de existência, e Milan finalmente entendera que ir contra ela era perda de tempo.
Ao contrário, ele percebeu que deveria seguir o fluxo, compreender as nuances e o próprio ambiente. Era necessário. Era vital.
O controle de Aura era o que o ajudaria a escapar daqui, e ele queria isso o quanto antes.
Tinha onze anos agora. Não queria que outra Vigília passasse sem que ele percebesse. Era vital que ele escapasse antes mesmo de chegar aos doze.
E como ele bem percebeu, a Aura era o fator principal e necessário nessa busca incessante pela saída.
Milan tinha entendido isso desde que treinara com CIldin… não, foi antes. Desde que ele vira o duque reduzir Droner à um simples fantoche. Ele usara Aura naquele tempo, tinha certeza. Isso só avivava sua determinação e compreensão sobre o mundo.
A Aura — assim como o Primor e o Fascínio — era determinante na vitória de um grande campeão. Milan era capaz de usar os três, coincidentemente.
Mas, ser capaz não significava que conseguia. Ou que podia.
Fora firmemente alertado pela Rainha e seu duque de que deveria deixar seus dotes como uma carta escondida por enquanto. E, com isso, foi ensinado a usar Aura…
Bem, o que ele buscava, na verdade, era o uso do combate com Aura. Desde que essa energia possuía várias formas de ser usada, Milan estava mais interessado, no momento, no uso da força.
E esse uso era selvagem. Não fora Cildin que o ensinara a atribuir isso no combate, afinal. Ele apenas o ensinou a sentir.
Foi Milan que, em toda sua genialidade, repassou todo o combate entre seu mestre e o odioso orc, e buscou profundamente esse controle.
E, talvez, a ideia do duque nunca tenha sido que o menino aprendesse sozinho. Talvez, quando o soltou sozinho naquela floresta, ele quisesse apenas que Milan ganhasse massa e casca…, mas as coisas não saíam como planejado. Principalmente para Mil.
Foi assim que ele, numa curiosidade indomável, aprendeu a se revestir com Aura. Descobriu que conseguia infringir o dano, mesmo que pouco, numa velha sentinela.
Mas houve situações para que Milan entendesse mais profundamente as coisas. Isso significava que, entender de forma clara o que era a Aura, suas capacidades e suas técnicas, era mais do que crucial.
Quando ele refletiu sobre o que era a Aura, foi como se recebesse um insight.
Aura era, nada mais, nada menos, do que a intenção imposta ao mundo. A vontade. A força do querer.
Mas como algo tão abstrato poderia ser tão poderoso? Ele não possuía resposta para isso. Contudo, quando refletindo sobre seu tempo na clareira, entendeu porque não conseguia machucar tanto a antiga sentinela.
Em parte era porque ele era fraco e possuía pouco Orka — pelo menos em relação ao que buscava fazer. Conforme meditasse mais e, consequentemente fluísse mais energia, sua capacidade aumentaria. Mas era também por outro fator: sua vontade era pequena em comparação com a da antiga árvore.
Ele não possuía vontade o bastante para conseguir danificá-la e, a falta de força fechava a equação. Em contrapartida, a árvore era como Lûarendill. Ela possuía vontade, e a dela era mais poderosa do que a de Milan. Ela simplesmente não queria ser danificada, o que causava uma breve disputa.
Naturalmente, Milan foi capaz de arrancar algumas lascas de seu caule, e isso se devia por dois fatores: ele era alguém que não desistia fácil, e também alguém de aprendizado rápido. Isso significava que ele tinha ficado mais forte? Provavelmente não.
Mas significava que, mesmo inconscientemente, Milan compreendeu o uso adequado de intenção e vontade e, em retrospecto, a árvore era antiga, velha e cansada. Fraca. Mas não o bastante.
Refletindo sobre isso foi que Milan pôde chegar à vários graus de compreensão.
O mundo era duro, difícil, e nada nele viria fácil.
Tinha que se lembrar de que essa não era uma de suas histórias favoritas sobre heróis vencendo na força de vontade e superando seus limites. Isso era a vida real. Ele não venceria com um poder oculto. As coisas que aqui viviam eram mais poderosas do que ele por muito.
E por muito… significava que havia um oceano de diferença entre eles. Ele não era capaz de sequer rivalizar com elas. Ele era fraco e, às vezes, tentar sobreviver seria o único método necessário.
Milan entendia isso. E entendeu que os próximos trabalhos não necessariamente necessitariam do uso da força. Mas isso significava que ele precisava preterir seu treinamento? Não.
Essa, na verdade, era uma ótima oportunidade para ele compreender melhor seu lugar no mundo e como poderia usar Aura em combate. Era essa a razão para treinar.
Porque mesmo que o dano causado por ele fosse mínimo, ainda era o diferencial. Ainda poderia ajudar.
Mas, novamente, seu entendimento sobre Aura era substancial e selvagem. Tudo o que Milan conseguia fazer era revestir-se com a intenção, elevando levemente sua força.
Entretanto, ele buscava algo mais profundo, mais racional.
Porque como a própria explicação dizia, Aura era o uso da Intenção e Vontade de um usuário sobre o mundo. Era imposição. Como ele conseguia traduzir isso? Sentia que estava longe… muito longe da resposta.
Mas isso chegaria em algum momento, consequentemente.
No momento, ele fluía lentamente pelo pequeno vale de Eliriah, usando passos lentos e respirações ritmadas ao passo que não tentava se impor na Câmara.
Era difícil, algo quase instintivo. Mas ele vinha colhendo bons frutos.
Pouco a pouco, conseguia notar o fluxo de Aura ambiente mesclado ao Orka. Era como se para esses ecossistemas não houvesse diferença entre Aura de Orka.
Havia um ritmo fluído e concreto, ainda que abstrato. Era difícil traduzir em palavras humanas.
‘Sequer é possível traduzir para o luin?’
Havia certa dificuldade, dado o estado de Milan. Ele errava passos diversas vezes. Sua respiração perdia o ritmo e uma dor excruciante lhe assombrava.
Ele riu fracamente.
‘Cildin provavelmente me puniria por isso.’
Sempre que algo assim acontecia, ele ficava mais cansado e mais doente. Mas o dia passou, e ele não descansou até voltar a sentir o toque suave de Aura.
Eliriah olhava de longe, da soleira de uma estufa, fingindo descascar frutas e vegetais.
Ela agia com demasiada cautela, ainda que fingisse indiferença. Para Milan parecia mais com preocupação que ele destruísse suas coisas.
Raramente ela parava o que estava fazendo, e esse era um desses raros momentos.
Sem que Mil notasse, ela surgiu a alguns passos, interrompendo uma série de respirações e golpes lentos.
Ela franziu a testa quando ele parou, se virando. Ambos se encararam por alguns momentos. Ele respirou pesadamente, a boca aberta num ricto habitual.
Eliriah não disse nada, sondando-o de maneira brusca.
— Sim? — ele indagou, após perder a paciência.
A jovem se sobressaltou, desviando o olhar. Um momento depois suspirou.
— Sua… energia interna é fraca e pequena.
Milan ergueu uma sobrancelha.
— Sim, eu sei.
Foi a vez de Eliriah erguer a sobrancelha.
— Se sabe, por que não faz nada a respeito?
Milan suspirou pesadamente, se virando e revirando os olhos. Ele se afastou um pouco, indo buscar um cantil de água. Deu alguns goles e despejou a água em sua nuca.
— Não é óbvio? — perguntou.
Eliriah negou. Milan, por sua vez, bufou.
— Para fluir mais dessa energia eu preciso meditar — respondeu. — E é bastante difícil para mim, sabe?
Eliriah balançou a cabeça de novo, negando. Milan franziu o cenho. Estava irritado. Quase poderia culpar o seu vazamento de Orka, mas a causa era muito menos substancial.
Suspirando, tentou se acalmar.
Estava realmente muito irritado, e isso atrasava sua compreensão. Ele sabia agora como induzir a Aura a reagir, mas isso necessitava de calma e paciência que ele não era capaz de ter. Mas tentou, lutando para controlar seu Orka.
Eliriah ergueu um dedo, apontando para seu esterno.
— Sabe que é isso que impede de usar sua… como é mesmo?
Milan estreitou os olhos.
— Aura?
Eliriah bufou.
— Nunca me acostumarei com os termos de hoje — sussurrou, mais para si do que para ele.
— Como é? — Milan se inclinou.
— Nada! — Ela negou com a cabeça. — Enfim. Você não será capaz de usar sua Aura se sua energia estiver tão baixa. Diga-me. O que vocês fazem hoje em dia para elevar suas energias?
Milan franziu o rosto, estudando a jovem. O que mudara? Ela estava… ajudando-o?
Não, não podia ser. Ela só queria que ele saísse logo dali. Até agora, ela não agira com nada mais do que condescendência. Era natural que quisesse ficar sozinha logo. E, pra alguém milenar, isso seria divertido.
Ele suspirou, não querendo se irritar novamente.
— Meditação. Mas não preciso dizer como é um saco.
Eliriah assentiu.
— Dado alguém como você.
Milan virou, estreitando os olhos.
— Que quer dizer com isso? Como assim, alguém como eu?
Ela o observou. Alguns momentos se passaram. Ela não parecia cautelosa com o que queria dizer. Na verdade, parecia buscar palavras… ou termos corretos.
— Alguém que se entedia fácil.
Milan a observou. Não parecia ser um insulto. Era só… a verdade. De fato, ele se entediava fácil. Sua mente parecia estar a todo tempo precisando de algo para distraí-lo.
Mesmo que ele gostasse de ficar em silêncio e, muitas vezes, preferindo ficar calado pensando nas mais diversas coisas… a meditação, que era algo que apreciava essas coisas, se tornava uma dificuldade.
Porque Milan gostava do silêncio e de observar as coisas como um passatempo. Não havia pressão nem dever. Mas quando colocado nesses termos de responsabilidade… se tornava algo cansativo, perdia a graça.
Ele suspirou. Quão complexo isso era? O bastante, provavelmente.
Milan se virou de novo indo até o lugar de antes e firmando os joelhos. Ele fechou os olhos, ignorando a jovem parada. Estava cansado demais para responder. Ele se concentrou em seu interior, sentiu seu Orka fluindo por seu corpo, dilatando seus poros, jorrando e lavando sua energia e…
— Dessa maneira — Eliriah disse, fazendo-o se desconcentrar. — Você vai apenas abrir algumas feridas e gastar sua energia.
Milan suspirou, abrindo apenas um dos olhos, e não deixando de evidenciar seu descontentamento em uma carranca.
— E qual seu interesse nisso?
Eliriah revirou os olhos.
— Mais trabalho para mim, gênio. Dessa maneira, você vai apenas adiantar seu funeral.
Milan sorriu torto.
— Pelo menos você vai estar sozinha novamente, coisinha.
Ela franziu o cenho.
— Não me chame assim! Tenho idade para ser…
— Ser o quê? — atalhou Mil, abrindo o outro olho e encarando-a. — Avó dos meus tataravós? Me poupe.
Eliriah bufou, se virando e se afastando.
— Vã é toda diligência! Quando estendo a mão, sou tida por errante; quando recolho meus passos, ainda assim incorro em culpa. Esses humanos, criaturas diminutas e grosseiras, todos talhados do mesmo barro imperfeito… não sei por que razão ainda me detenho.
E quanto mais se distanciava, mais palavras irritadas e rebuscadas proferia. Milan franziu a testa, ciente de que, talvez — e somente desta vez —, ela tivesse a melhor das intenções.
Revirando os olhos para si mesmo e praguejando baixinho, suspirou fundo e fez algo que se arrependeria. Mas que custava tentar? Afinal, ele mesmo pediu ajuda.
— Espera! — Gritou, enquanto observava a jovem parar, flutuando a alguns palmos do chão.
‘Isso vai ser um saco.’
Ele caminhou até ela, que ainda pairava no ar, e limpou a garganta.
— Desculpa, tá bom? Se você veio até mim, é porque viu algo errado e pensou em uma maneira de melhorar.
Ela resmungou algo, balançando a cabeça.
Milan passou a mão no rosto.
— E então? Pensou?
Eliriah se virou, o rosto irritado.
— Pensei, como sempre me cabe fazê-lo. Não é hábito que partilhamos.
Uma veia saltou na testa de Milan, enquanto ele sorria de modo forçado.
‘Essazinha…’
— E então? — perguntou.
Ela se virou novamente, caminhando em direção à árvore onde fazia morada.
— Venha.
Milan o fez sob protestos internos. Dali a pouco já haviam cruzado metade do caminho, Eliriah com passos mais distantes dele.
Finalmente chegaram na árvore e ela entrou, pedindo que ele esperasse. Quando retornou, trazia um conjunto de agulhas e fios.
Milan franziu a testa, não conseguindo evitar a curiosidade somada ao descontentamento.
— Você quer que eu costure?
Eliriah assentiu, o rosto impassível.
— O Ofício do Fio é uma prática ancestral, voltada ao labor do íntimo: a concentração, o domínio e a temperança do espírito.
Ela se adiantou, pousando diante dele as ferramentas do fio — agulhas finas, linhas vivas, tecidos ainda crus. Não era um treino. Era um ofício.
Milan olhou para ela, consternado.
— Caso queira refinar a concentração, é por este caminho que procedo — afastou-se, flutuando, lançando-lhe um olhar de soslaio. — E não se limita a isso. Há também o exercício da escrita, da leitura…
Milan se sobressaltou, agindo feito um menino que era. Às vezes era fácil esquecer-se disso.
— Mas eu já sei ler e escrever — gritou, se inclinando.
Eliriah franziu a testa.
— Ainda é insuficiente. — ela apoiou as mãos na cintura, gesto que, por um instante, evocou à mente de Milan a figura de sua mãe. Havia nela algo diferente; como se, subitamente, carregasse mais de uma Centelha de vida. — Aprenderás também a tocar, a desenhar e — mais importante… — hei de ensinar-te a dançar.
Milan piscou uma vez, depois outra. Não fora exatamente o conteúdo das palavras que o desconcertara, mas a maneira como haviam sido ditas. A frase carregava uma solenidade estranha demais para alguém que acabara de anunciar aulas de dança.
Havia ali um peso estranho, uma cadência que não combinava com o momento — como se Eliriah tivesse recuado para um tempo que não era o deles.
Ele a encarou por alguns segundos, incrédulo, tentando decidir se aquilo fora uma brincadeira velada… ou se, de fato, ela acabara de falar como alguém muito mais antiga do que aparentava.
Por um instante, ele se perguntou se Eliriah estava encenando algum tipo de ritual antigo… ou se simplesmente decidira soar como uma ancestral milenar para dar mais peso à ameaça.
Mas ela estava decidida.
Realmente o ensinaria a… dançar.
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