O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 45: APENAS... UM SONHO

— Foi… o Rei Onírico. Ele que escreveu a nova lei de Lûarendill.

Milan ouviu suas palavras melodiosas de maneira sucinta e clara. Então o entendimento caiu sobre ele como um peso mortal.

O Rei… Onírico.

Novamente, este ser estranho era citado. Um calafrio percorreu a espinha de Mil, um frio gélido irrompeu em seu estômago e seus pelos eriçaram.

A simples menção fez suar frio. Isso… era sua intenção?

Quando Cildin citou o ser pela primeira vez, Milan não sentiu nada, porque naquela época ele sequer sabia sobre seu lugar no mundo.

Mas conforme adentrou mais a floresta, sentiu um peso mortal sobre si, como se olhos o observassem a todo momento.

Milan teve sonhos estranhos e suspeitou que alguns deles foram obra do Rei Onírico… nunca parou de fato para refletir sobre isso até agora.

Ele era a criatura que deveria ajudá-lo a lidar com a Oneirocinese… ou escapadas, como seu mestre bem falou com aquele humor mórbido dele.

Mas o que se sabia sobre ele… O Rei Onírico? Nada. Era um elfo? Um Deus? Uma divindade? Não sabia. Era um mistério.

E agora que ele sabia mais sobre si mesmo, entendia também o peso desse nome. Porque até mesmo os nomes faziam parte da intenção. Quão poderoso era esse ser?

Imensamente poderoso, isto é. Ele reescreveu as leis fundamentais criadas por uma divindade, afinal. Durante todo o seu treinamento ao longo das seis Lúnulas, ou seja, na clareira, foi para o momento em que encontraria com o Rei. Quem seria ele e que tipo de ser era? Como era sua personalidade e como isso afetava o mundo ao redor?

Deixaria isso de lado, pois uma dúvida despontou em Mil.

Percebendo a reação levemente parcial de Milan ao nome, Eliriah inclinou a cabeça.

— Não é a primeira vez que ouve esse nome — disse.

Mil assentiu. Até onde ele revelaria seu “envolvimento” com o Rei Onírico? Não confiava em Eliriah nem um pouco. Suspirando, contou apenas que seu mestre o havia citado, certa vez. Quanto menos sobre sua vida ela soubesse, melhor.

Apesar de o olhar estranhamente, ela pareceu aceitar a resposta.

Ele se inclinou, franzindo a testa. A pergunta martelava em sua mente que não se aquietou um segundo sequer.

— Então… o Rei Onírico é alguém poderoso… Por que ele não acabou com a corrupção ao invés de remodelar as leis do lugar?

Eliriah deu de ombros.

— É uma pergunta que deve ser feita a ele — ela limpou a garganta. — Não possuo as respostas.

Milan se inclinou de volta, refletindo sobre isso. Sem dúvidas, estava frustrado. Afinal, seu lado curioso queria saber mais sobre essa criatura… de que modo, então, poderia dispor-se diante dele?

O Rei Onírico era, contudo, alguém realmente poderoso. Que tipo de motivos teria para não acabar com a corrupção do mundo…? Bem, se conhecia algo sobre ele, diria que havia zelo pela floresta, afinal, estava intocada desde os primórdios — mesmo que a guerra tenha tido início ali próximo.

Por que o Rei Onírico deixaria que algo capaz de devastar seu lar vivesse e, não somente, fosse aprisionado em seu quintal? Havia algumas respostas, mas quase nenhuma era concreta e conclusiva. Era uma pergunta a ser feita a ele, de fato.

Milan olhou para Eliriah, franzindo a testa.

— Então quais eram as novas leis?

Eliriah, por sua vez, parecia pronta para a pergunta. Não havia hesitação ou dúvida em seus olhos.

Ela balançou a cabeça.

— Se tratava apenas de uma lei. Tudo que entra, nunca mais sai.

Enquanto as palavras de Eliriah caiam, Mil refletia sobre elas. Havia certo peso nisso. Era simples, básico e, ainda… contundente.

Pois o Rei não parecia alguém simplório. E Milan já havia deduzido corretamente sobre isso. Contudo, porquê?

Isto é, porque o Rei Onírico, mudaria as leis…? As almas não mais passavam por aqui desde antes da Corrupção. De modo que, apenas vivos, entravam… e Milan também deduzira a razão disso.

Eram todos… sacrifícios. Seres primórdios e de alma poderosa. Esses sacrifícios serviam para… prender algo dentro.

— Então os sacrifícios são alimentos para o que quer que esteja contido aqui?

Milan arregalou os olhos.

— O Deus Partido… é ele, não é? O que está sendo mantido preso.

Eliriah não respondeu, e ele entende isso como consentimento.

Mas… ele devia confiar nela? Parecia perigoso demais manter mesmo que fosse só o eco de algo divino. Mesmo que o tecelão de tais grilhões fosse um divino, também.

Então, novamente: quais eram as razões do Onírico? Um mistério, que levemente ia sendo desvendado como peças de um quebra-cabeça. Deixando isso de lado, ele se virou para Eliriah.

— Há muitas coisas não respondidas aqui… e uma delas é sobre mim e os elfos sacrificados. Por que eu seria capaz de libertar essa coisa, mas eles não foram?

Eliriah o encarou.

— Porque você é humano.

Mil estreitou os olhos.

— E? Mesmo que minha alma seja poderosa, não deve ser mais do que a deles. Sinto que tem algo que você não está me falando.

Eliriah passou a mão no rosto, se levantando. Suas vestes ondulavam e seu cabelo parecia flutuar. Ela estava muito cansada. De repente era como se tivesse o peso de milhares de éons nas costas…

— Saiba apenas que você criaria uma fenda de destruição, e isso não pode acontecer.

Milan balançou a cabeça, não conseguindo fazer a conexão. Não fazia sentido. Por que ele sim, e eles não? Por quê?

Ele ergueu-se também. Quando chegou ali, era menor que ela, e podia ver até mesmo seu queixo erguido de baixo — mesmo que algumas vezes ela flutuasse. Agora, estava maior do que ela por dois palmos. O tempo…

Milan apontou para ela.

— Você disse que eu precisava sacrificar algo se quisesse sair daqui.

Ela balançou a cabeça, rindo taxativamente. Um riso que não alcançou seus olhos.

— Eu disse que deveria conquistar algo, e o Labirinto é quem decidiria.

Milan deu de ombros e fez um gesto vago com a mão.

— Tanto faz. Apenas… você disse primeiro que não havia como sair… depois, disse que deveria conquistar algo. Isso não faz sentido para mim. Por que eu teria a chance, e eles não?

Ela sorriu novamente, cerrando os dentes e uma leve contradição em seus olhos.

— Como sabe que não dei a chance?

Milan deu um passo à frente.

— Apenas sei. Você…

— Como? — Atalhou ela, incisiva.

Milan balançou a cabeça, olhando para ela.

— Como?! — Eliriah estava quase gritando.

Ele suspirou e pareceu entender. Era simples, na verdade. Era mortal e cruelmente simples.

Milan chegou ao entendimento rápido demais.

— É porque… sou humano. Eles foram o sacrifício para… manter os grilhões, enquanto eu… um humano, sou a chave que liberta…

Era como Eliriah vinha dizendo. Ele não precisava saber o que estava sendo contido ali, ou que tipo de Chamado Oculto era esse que roçava em sua mente quebrada com dedos leves.

Ele podia ter certa ideia, lembrando-se do dia em que acordou no meio da noite e sentiu aquela presença vil… encarando. Seria aquilo a corrupção? Não sabia.

Sabia, contudo, o básico. Ele libertaria a coisa, enquanto aqueles milhares de elfos o prendiam. Não serviam de alimento para ela… serviam de sacrifício para as fechaduras.

Era uma verdade cruel e doída. Era assim que o mundo funcionava. E era assim que o Rei Onírico trabalhava. Não havia nada mais do que cruel… e justo.

O que seriam alguns poucos milhares em troca de quê…? Um punhado de florestas? Uma raiva cresceu no peito de Milan.

O Rei Onírico era de fato alguém que poderia lidar com a corrupção. Mas porque não lidara? Milan queria acreditar que havia mais do que o que ele estava vendo aqui… mas se ele deduzira corretamente, o Rei que tanto amava sua floresta, imensamente mais poderoso que aquela corrupção — ele sabia que era —, não acabou com ela porque… tinha medo de perder seu jardim?

Tantas vidas. Tanta perda. Tanta dor.

Ele olhou para Eliriah. Ela também parecia pensar assim, exceto que estava enraizada demais no dever para sequer ir contra ele. Sua crueldade de repente não era tão hedionda assim.

Afinal, ele também não faria o mesmo? Não tentaria ao máximo preservar o último lar em que viveu com sua família? Ele era egoísta assim?

Todos, no fim, eram movidos por interesses próprios. Eliriah, O Rei Onírico, Cildin, Aedrin…

Nenhum escapava, mesmo que houvesse motivos diferentes.

— Então irei passar o resto da minha vida aqui? — perguntou ele, a voz sombria e mortal.

Ela o encarou.

— Não — disse, balançando a cabeça. — Ele sabia que, em algum momento, esse dia chegaria. Não prevíamos que seria alguém tão caquético quanto você, contudo.

Milan sorriu, rangendo os dentes e apertando as sobrancelhas.

— Poupe-me dos elogios, por favor.

Ela suspirou, dando as costas para ele.

— Ele preparou seis trabalhos… essenciais que ajudariam o humano a partir daqui. Cada trabalho exige destreza, força, agilidade, velocidade e perspicácia no ápice. Além de um controle absurdo de si mesmo.

Eliriah se virou, o fogo brilhando em seu lindo rosto fino e pontudo com formato de coração.

— Então pergunto, Milan Sgaard: está pronto para o que está por vir? Pronto para sacrificar algo? O primeiro caminho se abriu.




***



Quando era menor, Milan acreditava que só existiam dois climas no mundo: inverno intenso e chuva com nuvens nubladas e ar úmido.

Kaltsmeade era fundamentalmente fria e intensamente gelada em muitas partes do ano.

Por isso ele se assustou ao perceber esse lugar tão cheio de vida e calor.

Havia uma miríade de cores e cheiros. O sol despontava alto no céu, mas seu toque não ardia nem doía a cabeça. Era suave. Inebriado ao tocar.

Pássaros piavam e sapos coaxavam. Havia um lago perto, pois ele ouvia o som de pessoas rindo e água explodindo para cima. Tudo era muito colorido.

Tudo era muito vívido.

Haviam azaleias, abetos longos, escudeiros e uma série de bambus. Ele podia sentir o cheiro da horta de morangos, e podia sentir o cheiro levemente suave e adocicado de…

Ele correu até lá. Havia uma felicidade se sobressaindo de seu peito. Ele não conseguia contê-la. Estava feliz.

Ouvia crianças rindo e adultos gritando; mas os gritos não eram raivosos. Eram gentis, tão carregados de felicidade quanto ele.

Cada vez mais, cheiro doce inebriava suas narinas. Ele logo chegou no local. Haviam lindas flores de pétalas longas e finas, como patas de aranha, e vermelhas como sangue. Ele puxou uma e trouxe para si.

O cheiro… era maravilhoso.

Alguém tocou seu ombro, balançando.

— Venha — a voz já estava longe, rindo descontroladamente.

Ele também riu. Era uma sensação estranha. Rir. Como se algo coçasse dentro de si, querendo sair…

Mas era bom. E ele logo deixou as plantas e árvores para trás, seguindo uma trilha que se inclinava para baixo.

Chegou às margens de um lindo lago cristalino que refletia a luz do sol tanto quanto deveria. Incontáveis pontos luminescentes se espargiam aqui e ali.

Mas ele estava… feliz. Ele estava alegre. Ah, como era bom.

Mil olhou para os lados, procurando Emma. Ela com certeza estava por ali, provavelmente à espreita para lhe dar um baita susto.

Mas… em que momento eles tinham ido até lá?

Milan levou a mão ao rosto e aparou uma lágrima. Por que chorava?

Não sabia.

Ele andou até a água, ficando de repente triste. Encarou seu reflexo e paralisou.

Não era seu rosto. Era o de uma pequena garotinha com estranhos olhos redondos e intensamente dourados-esverdeados. O rosto era em formato de coração e o cabelo era na altura dos ombros.

Ele era Eliriah.

Ouviu gritos, o mundo rugindo. Ao erguer o rosto, acordou desesperadamente no lugar onde estivera a noite toda.

A fogueira crepitava e Eliriah não estava ali. Milan engoliu seco. Tinha feito de novo… ele viajou pelos sonhos, e desta vez foi pelo de Eliriah.

A sensação de felicidade e tristeza repentina ainda pulsava frescas em seu peito.

Ele se levantou, indo em direção à árvore, mas algo chamou sua atenção, parcialmente longe do lar da ninfa.

Milan seguiu a trilha iluminada pela luz da lua. A cada passo de distância, um arrepio retumbava. Havia um aviso velado. Mas ele permaneceu, pois Milan não continha a curiosidade.

Ele caminhou e caminhou… chegando diante de um arco escuro e sombrio talhado na pedra antiga.

Um choro infantil soava ao lado.

Mil virou o rosto e viu uma criança de choro muito desolada, com a cabeça entre as pernas e os braços abraçando os joelhos.

Ele franziu a testa. A menina chorava e chorava, nunca parava.

Neste momento, os arrepios se intensificaram. Ele se aproximou lentamente da criança, cujo choro diminuía conforme ele se aproximava.

Milan apertou o cabo de Espectro, sentindo o frio dela.

Então a menina parou de chorar e ergueu de repente o rosto.

Mas… não havia rosto. Apenas… dois olhos profundos, cheios de olheiras, negros, escuros, vazios… distantes. Não possuía boca, nem nariz… nem orelha. Apenas olhos. Olhos que observam. Que te delimitam.

Milan engoliu em seco.

— Não vá lá — disse a menina, a voz infantil… densa. Sua voz soou diretamente na mente de Milan…

— Por que? — Indagou ele, se perguntando de onde tirara tanta coragem. Ele olhou para o arco. — O que tem lá?

— Você não quer saber — disse a menina, sua voz tão séria que dificilmente seria a de alguém que chorava copiosamente há poucos instantes. — É melhor partir.

Milan sentiu um arrepio denso, e algo tocou sua mente. Não haviam palavras, nem figura, nem nada. Mas havia algo lá.

Algo vil, escuro, hediondo.

Dois círculos brilharam na escuridão, intensos e arredios. Convidativos. Encaravam Milan.

— Não tema — a voz da menina surgiu. Milan se sobressaltou. Ela estava parada ao seu lado. Seus dedos das mãos e dos pés em carne viva, sangrando profusamente. — Está preso.

Milan engoliu em seco.

— O que… aconteceu… com você?

Ela ergueu a cabeça e o encarou. Os olhos pareciam mais profundos.

— Não queira saber. Apenas volte — ela tornou a encarar o arco sombrio e caminhou até lá, parando na fronteira entre luz e escuridão. — E nunca… nunca! Nunca. Toque.

Então o arrepio cessou e pavor tomou conta de Milan. Ele gritou copiosamente, e sua voz nunca saiu. Sentiu-se sufocado, e não acordava de jeito algum.

Até que acordou, suando frio, tremendo, apertando o cabo de Espectro e olhando para os lados.

Estava diante da fogueira, e Eliriah dormia pesadamente no seu canto habitual.

Fora apenas… um sonho. 



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