Volume 1
Capítulo 44: ENTRE SONHOS E RUÍNAS
— Havia — disse ela. — esperança para o resto do mundo. E eu, por todas essas incontáveis Centúrias… fui a linha tênue entre sua sobrevivência e sua derrocada destruição. Suportei o peso do mundo como Krigoss, quando nem os deuses o fizeram.
Milan refletiu sobre as palavras de Eliriah. Ele vinha deduzindo tudo corretamente, mas nem tudo podia ser deduzido, afinal, algumas verdades poderiam ter sido esquecidas, ocultadas ou até mesmo mudadas.
Tudo que ele percebeu e notou não foi nada além do que o mural dizia — mesmo que não fosse com palavras.
Mas ela era esperança, afinal. Mas de que modo?
Milan encarou-a enquanto ela lutava para não encontrar seus olhos. Parecia perdida, triste e cansada. Um misto de emoções passou seu rosto antes de uma sombra pesada cair por ele.
— Após a ida do Deus Partido, nós, os sacerdotes, ficamos incumbidos de prosseguir com o dever, a missão original dele.
Mil cerrou os olhos.
— E por partir, você quer dizer… morrer.
Eliriah finalmente o encarou, olhando por todo seu rosto, mesmo que estivesse somente parcialmente iluminado. Ela pareceu digerir as palavras e concordou lentamente.
— Nosso dever era guiar as almas perdidas após sua morte. Lûarendill era, de fato, um salão pós-mortem. E nós éramos Psicopompos, trazendo a lucidez e a clareza necessária para aqueles que não associavam corretamente o que havia lhes ocorrido.
Milan suspirou. Isso tudo era etéreo e sobrenatural demais para ele. Era difícil acreditar que existia um lugar físico para isso, onde seres divinos guiavam os mortos. Ele se perguntava como isso funcionava.
Estava claro que era um lugar de descanso dos elfos…, mas todos? Claramente, com a guerra dos dias de hoje, eles estavam divididos. Mas ele suspeitava que este lugar existia antes dessa guerra ter início. Afinal, os elfos eram um povo só, no começo.
Ele manteve o olhar nela, observando enquanto a ninfa organizava seus pensamentos.
— O que mudou? — Perguntou.
Eliriah suspirou. Ela abriu a boca, mas não disse nada. Ficou assim por um tempo, como se avaliando se podia contar mais do que deveria.
— A… corrupção vil — disse, a voz rouca. — Corrompeu um de nós, e isso… remodelou a natureza de Lûarendill.
Milan estreitou os olhos. O que era essa corrupção e como ela poderia remodelar a natureza de um lugar vivo como Lûarendill?
— Mas… como assim? — perguntou Mil, a testa franzida. — Como algo assim poderia configurar tal existência como se fosse um autômato?
Eliriah franziu a testa e cerrou os olhos.
— Não sei o que é um autômato… e a existência da corrupção é… complicada demais para explicar em detalhes. Pense na escuridão…, mas pense nela como algo ruim e malévolo, que corrompe tudo o que toca, deixando veias de escuridão por todo canto. Foi o que aconteceu conosco… com eles. Corrompeu-os, poluindo cada um de seus fios de existência…
A voz rouca de Eliriah caiu, cheia de ressentimento e dor. Ela estava claramente emocionada.
— Alguns de nós tentamos combater, mas era perigoso demais, forte demais para qualquer um de nós, meros servos…
Ela fungou, virando o rosto para longe. Milan não estava inclinado a sentir pena de Eliriah, mas sabia como era perder algo — parcialmente. Os sacerdotes eram a família dela… imagine perdê-la e ser fadado a viver incontáveis éons guiando pessoas para sua morte…
Ele suspirou, dando tempo para ela se recuperar. De repente, entendeu como ela não poderia se sentir culpada depois do que fez a ele. Essa nova faceta era reveladora e dizia muito sobre Eliriah.
Contudo, era só. Milan ainda sentia receio sobre ela e não confiava nem um pouco. Nutria uma espécie de… indiferença. Isso significava que ele mesmo estava perdendo seus sentimentos? Talvez. Não sabia.
O que sabia era que ainda havia muita coisa a ser dita e destrinchada.
Ele olhou para ela, que ainda enxugava algumas gotas de lágrimas.
— Mas como essa… corrupção… remodelou a natureza de Lûarendill? — Indagou.
Eliriah fungou, virando-se para ele.
— Nunca entendi muito bem;, era jovem, afinal. Sei apenas que em determinado momento, um pouco antes da corrupção, as almas pararam de vir. Talvez a Câmara tivesse notado a semente da corrupção? Não sei, realmente. Apenas sei que no momento em que os outros foram… Corrompidos, como passei a chamar, uma nova lei foi escrita.
Milan refletiu. Ainda havia pouca coisa acerca da criação da Câmara. Mas ela não podia ter surgido do nada, afinal, era muito bem construída e detinha toques de uma construção física. Tanto no mural quanto nas fundações de suas paredes.
O sarcófago indicava isso. Este jardim também. Eliriah não parecia alguém capaz de criar e escrever leis tão poderosas, do contrário, ela mesma poderia lidar com a natureza vil da câmara e com a própria corrupção. Ele cerrou os olhos.
— Bem, se o que diz é verdade, então há uma ordem cronológica aí — ele suspirou. Eliriah assentiu. — A Câmara não poderia ter escrito lei alguma, já que parece ser substancialmente intrínseca e consciente. Não atribuo isso à corrupção também, pois não me parece ser datada de inteligência. Me diga… a câmara foi criada pelo seu… Deus Partido…?
Eliriah o encarou por um tempo, cerrando os olhos. Eles brilhavam enquanto progrediam com as afirmações de Milan. Havia surpresa…? Sim, de fato. Milan era jovem demais e, no entanto, era observador e entendia as coisas muito mais rápido do que o comum.
— …Sim — ela disse, concordando.
Milan suspirou.
— Mas, segundo a linha, a corrupção veio depois de sua… partida — outro menear de cabeça. — Então ele não poderia ter escrito essa nova lei, uma vez que se estivesse vivo, ele mesmo poderia combater a tal corrupção… certo?
Eliriah inclinou a cabeça, cerrando os olhos.
— Por que pensa assim?
Milan endireitou a postura. Ele era uma criança incomum, de fato. Desde muito novo, sempre gostou muito de leitura ao invés de ir lá fora desbravar com Emma.
Épicos, aventuras, terrores, fantasias, história. Tudo isso sempre o cativou. Mas havia uma linha literária que vinha ganhando força entre os comuns nos últimos tempos; isto é, entre aqueles que não eram aventureiros nem despertos. Eram os romances de mistério e investigação. Havia até mesmo uma peça de teatro que ele adorava ver sempre que ia à capital e, vez ou outra, a própria peça vinha até sua cidade.
Milan esqueceu disso com o tempo. Mas não podia esquecer do que aprendeu depois de tanto tempo lendo e fazendo ele mesmo suas investigações.
Mil era observador. Tinha uma dedução rápida e pensamentos além do comum. Era ingênuo, mas isso estava se perdendo com o tempo…
Ele corou diante do olhar curioso de Eliriah. Não notou que vinha fazendo tantas deduções até agora.
— Você o chamou de ser celeste uma vez e, depois, de Deus Partido. — Milan limpou a garganta. — Se criaturas com tamanha divindade conseguem criar um organismos como Lûarendill… então naturalmente poderiam combater a corrupção, correto? Porque, afinal, divindades devem ser… divinas…
Eliriah assentiu lentamente, refletindo sobre as palavras de Milan.
De fato, ele tinha um ponto. E estava certo… de novo.
— Sim, tem razão.
Os olhos de Milan brilharam em determinação, e ele ficou mortalmente sério.
— Então quem? Quem escreveu essa nova lei? Vocês naturalmente também tiveram alguma ajuda… — ele parou, arregalando bem os olhos. Então rapidamente completou, olhando para os lados, para explicar seu ponto: — Já que não vejo nenhum Corrompido por aqui…
Eliriah meneou a cabeça. Depois olhou para cima e fitou um ponto distante no teto acima.
A luz prateada os banhava gentilmente enquanto ventos artificiais balançavam a copa da árvore, produzindo um som tranquilo e acolhedor…
A ninfa tornou a olhar para Milan.
— Sim, tivemos ajuda. — ela inclinou a cabeça. — Foi ele quem escreveu a nova lei e deu novas ordens para mim, a última remanescente do Sacerdócio Imaculado.
Milan esperou, algo parecido com ansiedade borbulhando em seu peito. De repente era como se estivesse no seu quarto, lento o quarto volume daquele romance… As Peregrinações de Kudret Moll.
Era preferencialmente um romance jovem adulto… o que não deveria ser algo que Milan poderia ler. Mas quem ligava? Provavelmente não a bibliotecária que ele subornou com um ano de pães doces.
De repente, seu lado jovem, voraz e que ansiava por novas descobertas, ficou ansioso para descobrir o nome daquele que empurrou a corrupção para trás. O mistério já estava o matando.
— Foi… o Rei Onírico. Ele que escreveu a nova lei de Lûarendill.
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