Volume 1
Capítulo 43: AS DECISÕES QUE TOMEI
O silêncio que se seguiu à pergunta de Milan foi pesado demais para ser ignorado. Eliriah se virou de costas, e manteve-se imóvel, observando os fios do tear balançar suavemente com um vento que não devia existir.
Milan sentiu o peito apertar, pois ela não negou. Aquela pausa era uma confissão muda, e isso doeu mais do que qualquer palavra. Mais do que ele imaginou que doeria. Seus dedos se fecharam com força ao redor do punho de Espectro, e por um instante ele pensou que talvez fosse perder o controle ali mesmo. Não perdeu, mas algo rachava.
— Por quê? — Indagou ele, quando o silêncio ficou difícil demais de suportar.
Não houve resposta imediata. Eliriah parecia mais pálida que o normal, distante daquilo que se pode tocar. Por fim sua voz soou baixa, cansada.
— Por que você não teria parado — ela se virou apenas o suficiente para que ele visse seus olhos âmbar, opacos como pedra antiga. — Você estava ferido demais para entender limites. Sua memória era uma lâmina apontada para tudo ao redor… inclusive para você. Se eu não tivesse feito o que fiz, você teria transformado este lugar… meu lar… em um campo de ruínas antes mesmo de compreender onde estava. Não houve misericórdia; houve contenção.
Milan franziu o cenho, tentando manter a voz firme, tentando ser maior do que a raiva que subia como fogo bruto em seu estômago.
— E você decidiu mexer com minha mente? Por quê? O que isso tinha a ver?
Eliriah sorriu, irônica.
— Não tenho dever algum de lhe explicar nada, criança. Fiz o que era melhor para mim e meu lar. Sua presença indevida traria sua morte… sua presença consciente, traria ruína para meu lar, para meu dever ancestral.
Milan franziu o nariz, revirando os olhos.
— Ah! A bondosa Guardiã, com mortes demais nas costas para poder lidar com mais uma.
Eliriah bufou.
— Não seja ingrato. Eu salvei sua vida.
— E eu gostaria de saber em que momento eu pedi para que o fizesse. — Milan parecia inconformado, era inconcebível para ele que ela tivesse feito isso.
Eliriah o encarou, incrédula. Ela, por sua vez, parecia ofendida com as palavras de Milan.
— Isso ainda não explica o porque… Me diga!
Ela se afastou, como para evitar a pergunta de Milan. Mas ele era insistente, e perguntou novamente. A jovem suspirou.
— Era cedo. Você não tinha a capacidade.
Milan riu copiosamente.
— Pois eu acredito que você só não queria perder sua mão de obra barata — provocou, sarcástico. — Vai ver que queria viver como madame. Havia a mim para cortar, cultivar, bordar… o escravo ao seu dispor.
Ela se virou de repente, o cenho irritado.
— Poupe-me. Se eu quisesse rabanetes cortadas em triângulos teria pedido aos sapos no lago.
Milan se aproximou, incapaz de se manter em um canto por muito tempo. Ele sabia que ela escondia a verdadeira razão… mas porquê?
Ela o encarou, fria.
— Você ficou porque queria esquecer.
Suas palavras soaram como ponta de faca. Ela estava o culpando. Mas ele sabia, mais do que ninguém, que tinha verdade nisso.
— Não faça isso… — pediu.
Ela ergueu o queixo.
— Você chama sua dor de injustiça, mas a veste como coroa.
Milan a encarou, perplexo. Ela estava sendo baixa, e isso poderia ser cruel. Mas Milan também havia sido.
— E por isso decidiu apagar a minha memória.
— Eu não apaguei a sua memória!
Milan riu descontroladamente, parecendo mais velho do que deveria ser.
— Então por que eu não me lembro de nada?
— Porque lembrar traria rompimento, e era cedo.
— Cedo para quê? — Milan gritou, impaciente.
— Para que lidasse com isso! — Eliriah finalmente urrou, deixando a palidez de lado. — Você não estava pronto para o que virá. Sua mente estava colapsando, e a câmara se alimentava disso. Sua morte seria muito mais um alimento para ela do que outra coisa. Assim… assim…
Milan piscou, tentando freneticamente saber se ela dizia a verdade ou, no mínimo, acreditava nisso. Não conseguiu.
— Assim o quê?
Ela respirou fundo.
— Sua alma é forte, isso causaria mais desequilíbrio do que equilíbrio. Busquei evitar este fim… pelo menos enquanto você se recuperava.
Ele a olhou incrédulo. Se sentia usado. Sua liberdade havia sido burlada, e ele nem se lembrava.
— A câmara tentou diligentemente lhe atrair, e conseguiu. Esse foi o meu meio de tentar evitar a sua morte e, de quebra, minha perdição. De nada.
Ele não acreditava no que ouvia. Eliriah acreditava que estava certa. Pior. Pelo seu tom, ela muito provavelmente faria tudo de novo.
Eliriah apertou os dedos com força, como se o próprio corpo exigisse contenção.
— Não pense que fiz isso ilesa — disse, enfim. — Cada dia em que você caminhou aqui sem notar os dias indo… foi um dia em que eu precisei sustentar esse silêncio. Não por você apenas. Mas porque, se errasse… não haveria retorno. Não existe redenção para uma guardiã que falha. Apenas permanência. E eu aceitei esse peso antes de colocá-lo sobre você.
Milan escutou, refletindo essas palavras. Ele queria muito acreditar nisso.
Mas o estrago estava feito… Um ano.
— Você não tinha esse direito — respondeu, mas a frase saiu falha, quebrada no meio. Ele deu um passo à frente, sentindo as pernas tremerem. — Eu poderia ter escolhido. Poderia ter lidado com isso do meu jeito. Você…
Eliriah se inclinou para frente, sobressaltada.
— Você é apenas uma criança, distante de casa e perdida no mundo! — Sua voz soou como tanta autoridade que o brilho do sol empalideceu. — Não possui autonomia para tomar decisão tamanha que acarretasse o fim ou sobrevivência de algo mais antigo que seu próprio povo. Você não sabe nada sobre nada!
Milan jogou a mão para frente, irritação aparente em seu semblante.
— E daí? O que você saberia sobre mim? Tão cheia de si. Tão conhecedora de tudo. Me diga, que diferença tem entre eu e você? Diz que eu não sei sobre o mundo…, mas é você quem vive enfurnada nesta caverna intocada!
O urro de Milan pareceu atingir um ponto crucial em Eliriah, que também perdeu a compostura. Ela parecia pálida e enérgica ao mesmo tempo, como se as palavras afrontosas de Milan fossem demais para serem digeridas.
Ela estava profundamente ofendida.
— Calado!
Milan jogou-se para frente, iracundo e incapaz de conter a avalanche de sentimentos ruins que apalpava seu peito. Não podia mais calar… não podia.
— Calada você! Você decidiu por mim. — A cada palavra, o ar parecia mais denso, e sua respiração começou a falhar. A lembrança veio como uma avalanche tardia: mãos que o empurravam, vozes que negociavam seu destino, ordens dadas sem que ele jamais fosse consultado. Seu rosto se contraiu, e o controle que tentaram manter escorreu pelos dedos como areia molhada.
Pior… Sua aura vazava como uma torneira aberta. A grama assobiava com o vento gerado pela intenção de Milan, e Eliriah franziu a testa observando o quão enraivecido e… chateado Milan parecia estar. A copa de uma árvore balançava e os grilos pareciam mais distantes, tentando escapar da fúria velada.
— Todos decidem por mim — explodiu, a voz finalmente rompendo. — Sempre! Piro, Droner, Cildin… e agora você! Sempre alguém dizendo o que é melhor, sempre alguém me empurrando para onde quer!
Ele caiu de joelhos sem perceber quando isso aconteceu, os punhos socando contra o chão de madeira.
Lágrimas vieram quentes, misturadas à raiva, e ele gritou. Um som bruto, animal, de algo que havia sido pressionado longe demais. Milan não estava apenas irritado por ser feito de objeto…
Ela olhou para ele, cerrando os olhos.
— Se tivesse o poder que eu tenho, teria feito diferente?
Milan sequer olhou para ela. Estava perdido, distante. Enraivecido.
— Se eu fosse forte… se eu fosse forte de verdade, ninguém teria ousado tocar em mim!
Sua voz falhou no fim, quase inaudível.
— O que sou, sem a utilidade para vocês, poderosos?— sibilou, os olhos baixos. — Fui útil para a rainha e seu servo. Servi bem para aquela família. Se eu parar… se eu escolher errado… o que sobra? Um erro? Um nada?
Havia ironia, acima de tudo. Porque Milan lembrava bem quando sua existência não exigia nada além de amor. Quando seus pais não lhe pediam nada além de cuidado e felicidade.
A aura ao seu redor tremulou, instável, como uma chama prestes a se apagar ou explodir. Eliriah o observava em silêncio agora, sem ironia, sem frieza ensaiada. Havia algo antigo em seu olhar — não pena, mas reconhecimento.
Ele ergueu o rosto, os olhos vermelhos e fundos, e a encarou como se fosse desafiá-la a atravessar aquela dor também.
— Espero que entenda meus motivos — disse ela, o queixo erguido. — Fiz para preservar mais do que para prejudicar.
— Mas prejudicou. Tirou de mim a escolha, justo quando pensei que seria capaz de cortar o fio.
Ela inclinou a cabeça, encarando-o com mais vigor. Milan era uma criança… incomum. Ele tinha uma visão diferente do mundo, e essa raiva não parecia apenas superficial. De novo, havia uma sensação de camadas aqui, que ela não sonhava nem estar perto de desvendar.
— Nunca mais — disse, entre soluços e fúria. — Nunca mais mexa na minha mente. Nunca mais decida por mim. Mesmo que eu morra… essa escolha tem que ser minha.
O jardim parecia prender a respiração.
Eliriah fechou os olhos por um breve instante, como alguém que aceita uma sentença já esperada. Quando os abriu, sua voz não carregava mais dureza, mas um peso solene.
Havia um entendimento raro aqui. Milan estava no ápice do que podia aguentar, e finalmente chegara ao colapso. Ele aguentou muito, e aqueles dias tranquilos realmente foram uma fachada para o quão profunda sua dor pulsava. Havia mais camadas aqui…
— Então escolha — respondeu. — Mas saiba que a câmara não poupa ninguém. Para sair de Lûarendil, você precisará enfrentar o que enviou a vida inteira. Seis provações… seis fragmentos… e nenhuma delas se curva à força ou ao ódio.
Ela se afastou do tear e, ao fundo, algo na própria câmara pareceu despertar, como um coração antigo voltando a pulsar.
— Se ainda assim quiser seguir, Milan… o primeiro caminho já está se abrindo.
***
Mais tarde, Milan encarava a fogueira baixa com uma expressão indiferente, pálido dos dias não dormidos, e magro, dos dias que não comeu.
Quem quer que o visse pela primeira vez, diria que esta criança perdera o equilíbrio. Que ele perdera o brio. Seus olhos cinzentos e costumeiramente tempestivos estavam opacos, com o cinza da vida nublado, triste e frio.
Suas sobrancelhas caídas e a expressão também não eram diferentes disso. Seus cabelos ondulados e castanhos estavam secos, sem vida e quebrados. Sua boca, igualmente seca.
Mas havia algo que contrariava toda essa perspectiva de desalento. Porque apesar dessa tristeza e olhos turvos e cinzentos, por trás de todo esse emaciamento havia uma fagulha, invisível e flamejante. Era pequena, mas estava ali.
O âmago de Milan pulsava ardentemente em determinação. A mesma que o fez despertar para a realidade. A mesma que o tirou do torpor, o transe que o fez perder um ano de sua vida.
Seus pensamentos estavam distantes, e a raiva já não ardia em Milan. Sua aura era contida, fraca… mas também determinada. Porque a aura estava ligada à intenção, e a de Milan era polvorosa e célere.
Ele não podia se dar ao luxo de entristecer.
Contudo… ainda se perguntava como tudo tinha acabado assim. Isso era muito diferente de tudo que ele sonhou. De tudo que sua mãe lhe contara noites à fio na cabeceira de sua cama, sobre dias gloriosos e intransponíveis, quando era uma aventureira.
Ele havia dado um significado para aventura bem diferente, naquela época.
Hoje, a aventura significava dor, drama e sangue. E Milan custaria a se acostumar. Ele aprenderia, com sangue e suor, no entanto. A vontade do mundo…
Por que, afinal, ele tinha de sofrer tanto? Ele já não tinha passado por coisas demais? E qual fora a última vez que deu um sorriso tranquilo e verdadeiro? Ou a última vez que dormiu sem se preocupar com criaturas à espreita…?
Tantas perguntas, tantos medos, tantos anseios… todos devorados pela intenção mordaz do mundo. Sua própria intenção não passava de fagulha crepitando.
Por que… tanta dor? Por que ele?
Uma Vigília. Foi o que perdeu. Um ano de sua vida como se não fosse nada. Um ano desde que percebeu que estava longe de casa. Milan não era mais criança.
Quanto alguém podia mudar em tão pouco tempo?
Quando fora afastado de casa, faltavam dias para completar nove. Houve aquele dia, na clareira — ainda treinando sua aura — em que percebeu: fazia um ano desde sua partida. E ali estava ele, com dez anos.
Agora, mais tempo havia passado. Tanto que Milan já nem sabia se tinha feito onze… ou se ainda faria.
E se Eliriah tivesse tirado dele mais do que isso?
Seu peito encheu-se de angústia. E, mais importante, como estavam seus pais? Emma? Ela era a mesma menina brincalhona? Decerto que não. Seu despertar mudou a vida de sua família para pior. Mas o despertar fora assim tão custoso para os outros? Ou só para ele? E, de novo… por quê?
E seu treinamento? Havia ficado estático durante um ano. Não meditava, não treinava com sua aura, nem sabia se conseguiria ser capaz de voltar a usá-la…
Mas ainda assim, ele ardia em polvorosa. Estava furioso, fazendo sempre e sempre a mesma pergunta, muito embora já tivesse sido respondida.
Milan não tinha interesse em entender o lado de Eliriah, muito embora ela não tenha mostrado vontade em se explicar.
Algo borbulhava no peito de Milan. E era isso que vinha alimentando ele há algum tempo.
Era uma raiva, um ódio. Sua confiança nas pessoas estava abalada, e a crença de Milan de que poder era a única âncora necessária, ganhava força.
Por que confiar nas pessoas? Elas o faziam mal mesmo quando ele não confiava nelas. Então o que fazer…? Traí-las antes de mais nada…?
Estava confuso. Estava irritado. Estava, acima de tudo, com a mente clara. Porque apesar da ira descabida, era isso que o mantinha são. Era isso que fazia ele analisar as coisas com clareza.
Franzindo o cenho, ele olhou para ela.
Eliriah estava imutável como sempre — sua tez pálida soltava um leve brilho perolado. Suas vestes eram de pétalas escuras, musgo e fios translúcidos, cada um emanando uma beleza incorpórea por si só.
Seus cabelos ondulavam para baixo, feito uma cascata de um rio estelar. Seus olhos dourado-esverdeados como folhas no fim do outono, brilhavam com mais determinação do que Milan podia imaginar ver em um único lugar.
Contudo, sua visão sobre ela mudara. Antes, ele ficava embelezado por sua tal concepção divina… agora, ele a enxergava como ela era, além dessa beleza translúcida e etérea.
Eliriah tinha muitas camadas, e nenhuma delas era rasa.
Ela era linda, deslumbrante e formidável. Mas, acima de tudo, era cruel. Ele percebeu isso, e suspeitava dos motivos, embora já não ligasse para eles também. Ela lhe fez um mal irremediável. Ela lhe tomou um precioso tempo. E ele queria entender a fundo porquê.
Sua voz saiu monótona, e ele não percebeu que fora incapaz de conter a repulsa até que ela ecoasse naquele jardim banhado pela luz da lua e de vagalumes.
— Como exatamente eu destruiria este lugar?
Eliriah nem sequer piscou. Ela observava o fogo como quem se recorda de uma memória. Embora não se soubesse se era feliz ou triste.
A jovem ninfa suspirou. Seus lábios, vermelhos e cheios, como uma obra de arte feita por confeiteiros renomados.
— Sua alma… é poderosa.
Milan cerrou os olhos, ciente disso. Ela já havia dito. Ele esperou enquanto sua voz doce e melodiosa caia no lugar.
— Quando chegou, ela estava pulsando de poder, mas você… — ela fez uma pausa, organizando os pensamentos. — Seu corpo e mente estavam em desalinho com a alma. Se isso continuasse, você não seria capaz de suportar o chamado oculto…
Milan franziu o cenho, percebendo algumas coisas nisso. De fato, ele sentia como se fosse atraído até ali. Qualquer pessoa, contudo, se passasse pelo que ele passou, teria a mente quebrada.
— Se você cedesse, sua alma serviria de alimento para aquilo que se esconde nas fundações da Câmara. Isso libertaria uma força destrutiva… algo antigo e vil. Eu não podia deixar que isso acontecesse.
Então era isso. Mas havia algo estranho nisso tudo. Lembrando-se de chegar na primeira Câmara e das figuras com rostos entalhados, o sarcófago, a experiência sombria… isso o causou arrepios.
— E aquele Espectro no sarcófago…? Achei que aquilo fosse vil o bastante.
Eliriah virou a cabeça rapidamente, seus olhos levemente arregalados, encarando Mil por longos minutos. Aos poucos, seus olhos ficaram semicerrados e ela olhava para Milan de um jeito diferente.
— Aquilo… — Sua voz era ansiosa e baixa, contendo um horror que poderia ser liberto a qualquer momento. — Ah!... Não era um… Espectro. Era o eco de um Deus Partido.
Milan agitou-se, lembrando dos desenhos no teto: uma divindade enorme de asas rasgadas, com uma coroa de espinhos vivos em sua cabeça e pequenos seres de luz rodeando-o. Algo aqui estava conectado, e aos poucos ele conseguia compreender tudo.
— Aqueles desenhos. Esse… eco… — Milan franziu o cenho. — Você fazia parte de sua comitiva, certo? Aqueles pontos luminescentes… eram sacerdotes desse Deus Partido.
Eliriah não assentiu nem negou. Ela não parecia à vontade para falar, mas Milan não ligava, porque podia ver que tinha deduzido corretamente.
Agora… se aquele era seu túmulo, e esta câmara se qualificava como um outro tipo de túmulo… que Chamado Oculto era esse?
Muita coisa ainda pairava sem explicação. Como por exemplo… ele sabia que a história sobre Lûarendill e o último lugar de descanso do ser celestial e seus doze servos… era mais que isso.
Porque se haviam doze, onde estavam os outros onze? E Milan não tirava da cabeça aquele mural… eles não falavam sobre os outros sacerdotes, apenas a passagem de Eliriah.
Eliriah era a Guardiã da Esperança. Lûarendill era conhecido como A Travessia dos Ancestrais, e o papel de Eliriah era guiar.
Mas, contudo, o que ela guiava exatamente? Milan, inicialmente pensou que se tratavam de espíritos, e por vezes acreditou estar nos salões espirituais do último descanso do povo élfico — a cultura deles era rica o bastante para que éons tivessem se perdido.
Entretanto, não. Era mais do que isso. Eliriah guiara pessoas como ela bem disse. E cada um deles morreu, como bem o mural mostrou. Pois havia a passagem de tempo, e a cada nova pessoa, mais Eliriah se distanciava.
Mas, esses ancestrais…
Milan cerrou os olhos e arregalou-os, chegando a um breve entendimento.
Eliriah havia dito que aquele não era o lugar dele, um humano. Eliriah deixou claro que a câmara buscava expulsá-lo, e que ele só estava ali por causa dela, pois ela permitira.
Voltando aos dias com Cildin, o sujeito havia dito que aquela floresta há muito tempo fora o berço das primeiras civilizações élficas.
E havia o Jardim das Hespérides, e havia… a história de própria Lûarendill. Afinal, os desenhos no sarcófago apontavam para uma história élfica. Elfos… não, ninfas, as sacerdotisas do Ser Celestial.
Milan se lembrou de uma história que leu, há muito tempo… não era aventura, mas era um compêndio sobre a vida no reino élfico…
Ninfas eram comumente associadas como servas dos elfos.
E Eliriah era a última sacerdotisa, a Guardiã…
Milan se inclinou olhando para ela.
— Eu interpretei mal a Travessia dos Ancestrais… Lûarendill. Este lugar não é a travessia dos mortos… mas a dos perdidos.
Ela olhou para ele, um ricto silencioso escapando de seus lábios.
— Você… guia pessoas que se perderam… para fora, não é? Antes, você disse que esta não era uma prisão, apenas uma veia da floresta. Mas mentiu. Aqui, alguma coisa está presa, e seu dever era evitar que os perdidos élficos encontrassem essa coisa.
Eliriah virou o rosto. Aqui estava sua confirmação. Ele cerrou os olhos, não havia terminado.
— Quando olhei aquele mural, isso pareceu fazer sentido. Mas havia algo… algo que me dizia o contrário.
Milan olhou para Eliriah e sua fachada de doce e gentil menina. Será que isso era apenas uma máscara?
— Porque durante muito tempo, muitos elfos encontraram seu caminho para cá. Pessoas perdidas, que buscavam apenas ir embora. — Ele estreitou as sobrancelhas. — Mas você fracassou, pois cada um deles morreu tentando encontrar a saída que você, como sua sacerdotisa e serva, deveria mostrar. Aquela que guia.
A ninfa permaneceu olhando para o fogo, sua expressão distante. Milan estava com raiva, mas conseguia manter seu rosto impassível.
— Mas fracassou mesmo? — ele aguardou, esperando que sua pergunta ecoasse e tivesse exatamente o tom que ele queria. O de acusação. — Na verdade, você apenas os mandou para o destino que você foi ordenada a guiar. Porque todos eles… serviram de sacrifício, para manter o que quer que estivesse dentro… preso.
Milan se calou, lembrando de uma sessão específica do mural. Nele, havia detalhadamente a passagem de pessoas — elfos — em direção de um portal longe da árvore, e Eliriah aparecia sempre indicando este caminho.
Mas nenhum deles voltava… nem saía pelo outro lado. Ao invés disso, novas pessoas surgiam e apareciam por Câmaras diferentes, parando exatamente diante daquela árvore… a casa de Eliriah.
Ela os enviava para sua própria morte, servindo-os de sacrifício para a coisa.
Quantos deles se deram conta de que caminhavam para a boca da morte, Milan se perguntou. Quantos morreram sabendo exatamente para aquilo que serviam?
Incontáveis. Milhares. Todos.
— Nenhum deles morreu por carecer de força da alma, contudo — prosseguiu ele. — Eles morreram porque careciam de conhecimento… e porque confiaram em você. No fim, não havia esperança alguma, certo?
Eliriah o encarou, sem qualquer remorso em seu rosto. Ao contrário… parecia que ela estava finalmente tranquila. Uma determinação sombria crescera em seus olhos.
— Havia — disse ela. — esperança para o resto do mundo. E eu, por todas essas incontáveis Centúrias… fui a linha tênue entre sua sobrevivência e sua derrocada destruição. Suportei o peso do mundo como Krigoss, quando nem os deuses o fizeram.
NOTA DO AUTOR:
Oi, aqui é o Leonardo. Depois de alguns meses longe, quis voltar entregando algo maior. Obrigado por ainda estarem aqui. Feliz natal. 🎅
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