Volume 1
Capítulo 42: O SONO DOS DIAS
– Uma Vigília inteira… e algumas Lúnulas.
Como assim? Milan piscou, ressabiado.
Não… não podia ser. Uma vigília… inteira? Isso era… um ano.
De repente, foi como levar um soco sem aviso prévio.
Antes, quando estava treinando, já haviam se passado seis Lúnulas… quase uma Vigília inteira. Então outra se passou e…
Tudo se encaixava perfeitamente bem. Seu crescimento muscular, o cabelo longo…, mas como nada disso fazia sentido para ele? Milan sequer sentiu e notou a passagem do tempo.
Uma Vigília era algo muito grande e valioso. Uma Vigília inteira! E era como se ele tivesse vivido apenas algumas semanas.
De fato, olhando para trás, nada disso fazia sentido. Mas também fazia.
O sentimento de que suas tarefas eram repetitivas, mas a sensação estranha de gostar… como se isso não fosse dele.
Franzindo a testa, Milan reviveu cada dia passado. Para ele, havia sido há algumas semanas que lutara contra a Besta. Mas para benefício da dúvida, ele arrancou a blusa feita por Eliriah e observou as cicatrizes.
É certo que ele havia se curado mais rapidamente após se alimentar do corpo da besta, mas isso não necessariamente apressou o processo de cicatrização externa. Apenas evitou que Mil sangrasse até a morte ou morresse envenenado, com o sangue coagulando devido ao veneno.
Contudo… as cicatrizes eram pálidas e ressequidas. Tinham perdido um pouco da coloração há tempos…
Como ele não percebeu isso?
De volta ao mural, tudo fazia um pouco de sentido também.
Ele balançou a cabeça, incrédulo.
– Um… ano? Como isso é possível? Por que eu não senti a passagem do tempo?
Eliriah o encarou, franzindo levemente os lábios.
– Eu lhe disse para ter cuidado com o que desejava. Você apenas não me ouviu.
Mil franziu a testa.
– Mas isso é diferente!
Eliriah sorriu ironicamente. Talvez fosse a primeira vez que ela expressava alguma emoção em tempos.
– Não, não é.
– Ah, é? — Milan semicerrou os olhos, iracundo. — Então me explique, porque estou mesmo tentando entender como funciona essa sua cabecinha psicótica.
Suspirando, Eliriah se virou. Ela o perscrutou dos pés à cabeça.
– Você se lembra, Sgaard, que eu lhe disse que quanto mais quisesse ficar, mais difícil seria partir? Pois bem. Você desejou de todo seu coração ficar, e a câmara entendeu isso muito bem, realizando seu desejo. Ela lentamente fez com que você se sentisse mais e mais confortável, até que abandonasse todo o desejo de ir embora… se tornando um…
– Prisioneiro… — Completou Mil, estático.
Então foi por isso que ele percebeu essa diferença interna. O ódio, a raiva, a vindicação pela qual ele ansiava dias… não, meses atrás, lentamente perderam a força, obstruídas pelo desejo genuíno de permanecer lá.
Com isso, Milan não mais era escravo da vingança.
…Mas escravo da acomodação.
Como isso poderia estar acontecendo? Ele se lembrou dos murais.
– Mas como é possível que eu não tenha notado a mudança do tempo e, você, sim?
Eliriah suspirou, como se tivesse ouvido essa pergunta um milhão de vezes. Recordando do que tinha visto, Milan não duvidava disso, afinal…
Ele sabia a resposta, mas queria ter certeza, mais uma vez.
– Sou a guardiã da câmara, Lûarendil, A Travessia dos Ancestrais e, portanto, desempenho um papel além do tempo. Ele não me afeta, o que faz com que eu não precise me preocupar com as tolices mortais. Em outras palavras, o tempo não me afeta pois sou a linha tênue entre a existência deste lugar e a sua destruição.
Mil suspirou. Era como ele imaginava. Não precisou de muito para entender isso quando lera o mural.
A câmara tinha lentamente criado vida própria, se tornando um ecossistema único. O que aconteceria se simplesmente se desfizesse da descendente de seus criadores, a última que poderia fazê-lo permanecer?
Em contrapartida, muitas coisas se assentavam. Isto é, dentro de Lûarendil, o tempo passava como lá fora, mas de modo que não fizesse seus intrusos perceberem.
No início, Eliriah disse que o lugar tentaria expulsá-lo, usando de planos e caminhos para chegar ao seu desejo final. Isso parou por um tempo, porque Eliriah havia aceitado-o como sua visita.
Isso… também significava que ela tinha mais controle sobre o lugar do que parecia. Sim… era como se o ecossistema estivesse ligado diretamente aos seus desejos, mesmo que lugares como o mural ainda existissem.
Milan suspirou, irritado.
– Então você permitiu que eu vivesse por um ano inteiro de modo tolo, pensando que apenas dias haviam se passado? Quão cruel…
Um riso despontou do fundo da garganta da Guardiã. Parecia que estava muito tempo guardado.
– Cruel? Não ouse me chamar de cruel, insípido. Fui boa o bastante para permitir que se recuperasse. Não fosse por mim, você já estaria numa cova rasa como…
– Como os outros? – Irrompeu Milan, bradando mais alto que conseguia. Um riso irônico surgiu incontrolável. – Sim… no começo eu pensei que fosse apenas uma repetição irônica, uma brincadeira de quem quer que tivesse desenhado aquele mural. Mas depois que percebi… Ha! Insidioso.
Eliriah piscou, rapidamente atordoada.
— Isso…
Milan prosseguiu, proibindo que ela falasse:
– O mural… é como uma espécie de linha cronológica, mesmo que não fizesse muito sentido, eu percebi algo importante ali. É como um lembrete, certo? Tão irônico. Percebi que não fazia sentido ser uma repetição, afinal, pequenos detalhes mudavam aqui e ali. Exceto um único. E é claro que era você, certo, Guardiã da Esperança?
Eliriah abriu a boca num rico silencioso, os olhos arregalados, uma palidez não natural. Ela parecia engasgada nas próprias palavras. Mesmo que, contudo, tentasse falar, Milan não deixaria. Ele não suportaria mais ser enganado por ela.
— Sempre ali, cada vez mais distante da outra figura… não, das outras. Quantos não passaram por aqui? Dez? Cem? Mil? Hahaha! — Mil soltou uma risada sem vontade alguma.
“O tempo passou e você apenas os viu indo para a própria cova. Incontáveis antes de mim. Jovens e esperançosos. O que ocorreu para que se distanciasse com o tempo? Nenhum deles era bom o bastante para a Guardiã? Você não deveria instilar Esperança em nossos corações? Por que não fala nada?”
De fato… de volta ao mural, aquelas seções onde havia uma repetição interminável, com mudanças sutis não parecia nada demais… exceto que eram algo realmente demais.
O fato era que a figura solitária era nada mais nada menos que Eliriah, a Guardiã da Esperança. Ele chegou à conclusão ao ver como as primeiras seções deixavam claro sua aproximação entre as figuras. Mas logo em seguida, mostrava distanciamento, e uma leve mudança na figura que permanecia no mesmo canto.
Isso porque… a segunda figura não se tratava da mesma pessoa, mas de pessoas diferentes. Milan não sabia qual o papel de Eliriah, mas definitivamente era guiar os perdidos para fora dessa câmara.
Mas sempre que alguém ia e outro aparecia, Eliriah se distanciava mais. E isso também estava claro.
– Eles morreram, não é? — Balbuciou ele. — Todos eles. É por isso que você se tornou fria. Solitária.
Eliriah se virou, chamas determinadas pulsando em seus olhos.
– Não tente entender como me sinto, criança. Você não sabe o que é carregar o peso de tantos sonhos, edificar um após o outro apenas… para vê-los morrer.
Sim… era cruel, mas também dolorido. Eliriah tinha o papel de, não importasse o quê, guiar as pessoas, sendo fadada à solidão sempre e sempre. Mas eles morriam, e o ciclo se repetia…
Jovens surgiam, eram guiados, e morriam. Era assim que era. Quão mortal era fora dessa câmara para ninguém conseguir sequer sobreviver?
Sim… Milan entendia Eliriah, e era justamente por isso que estava tão irado.
De volta ao dia em que jantaram diante da lareira, Mil se lembrou das palavras de Eliriah. Ela falou sobre os seres ancestrais que prosperaram sobre as terras élficas e, posteriormente, em Lûarendil.
Esse lugar mágico, cujos corredores mudaram para obstruir a passagem dos indignos e impuros de coração, para as riquezas da vida, e para uma palavra com o celestial antigo…
Mas não havia celestial. Apenas o eco oriundo de um tempo distante. Um espectro malvado, vil e corrompido…
Milan recitou as palavras de Eliriah, e ela o observou, irrequieta.
– Quer dizer que eles eram impuros, Guardiã? Todas as suas mortes foram em vão?
Ela não respondeu, encarando-o com seus olhos âmbar mudando de cor levemente. Milan rangeu os dentes.
— Eu… — Eliriah levou a mão ao rosto, escondendo os olhos por trás de dedos trêmulos.
Milan suspirou, enraivecido.
– E eu? Eu sou impuro? Achei que fosse forte o suficiente.
Houve um silêncio sobrenatural. Eliriah, por sua vez, se remexeu. Ela ergueu os olhos e um silêncio mortal pairou entre eles, como névoa gélida escorrendo entre as pernas feito uma cobra esguia. Ela abriu a boca, suspirando.
– Você é… forte.
Milan sorriu, os olhos fundos e pálidos ardendo em ódio. Seus olhos se encontraram, quase como num entendimento mútuo.
Eliriah estava cansada… e Milan… Milan estava irado.
– Então porque você apagou a porra da minha memória e me colocou em um transe por uma Vigília inteira?
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