O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 41: O VAZIO ENTRE OS DIAS

O Cântico do Coração de Kareth ficou martelando na cabeça de Milan incessantemente. 

Aquilo mexeu com ele de uma forma que não achou que seria possível. Era lindo e trágico, como tudo no mundo é. 

Milan já tinha lido incontáveis histórias sobre heróis… e essa com certeza não era uma delas. Era um simples mito de criação, como a dos crisântemos e das orquídeas. 

Mas por que mexera tanto com ele? Milan não sabia ao certo. 

Suas noites se tornaram inquietantes, e ele acordava no meio delas, jurando ter sonhado com o coração partido. 

Em outros momentos, ele ouvia o vento soprar palavras que logo se perdiam na distância. Ele parecia entender a princípio… mas tudo o que restava eram dúvidas. 

Pesadelos o assombravam e ele de repente era aquele menino outra vez que corria para os braços da mãe quando acordava assustado de noite…

…Infelizmente, contudo, não havia mãe, e Milan abraçava as próprias pernas.

Os dias passavam lentos, úmidos e escuros. 

Não havia mais aquele gosto por cultivo e plantação. Ele não se sentia bem fazendo isso. Ele não queria mais bordar, esquecendo os principais pontos de cultivar sua paciência.

Havia apenas a dúvida… plantada em seu cerne. 

O que estou deixando passar…? O que?

Se sentia fatigado, observando um vento artificial varrer as plantações e os gramados. 

O sol, também irreal, surgia pálido, menos forte do que antes, quase como se uma ilusão estivesse se desfazendo. 

Eliriah era a única que continuava a mesma. Mais distante, mais sombria, mais fria…

Até mesmo ele estava se sentindo inquieto. 

A sensação de estar sendo observado também aumentou. Milan acordava todos os dias aos gritos, tateando o nada e respirando pesado. 

Durante alguns dias, ele sentia uma presença ali, observando, espreitando…

Foi quando ele resgatou sua espada e passou a dormir com ela. 

…Isso não mudou muito, apesar dele se sentir mais seguro. 

Aqueles dias onde ele se sentia calmo, pacífico e feliz estavam lentamente indo embora.

Agora, Milan estava rabugento, irritadiço e pouco interessado nas coisas que antes quisera aprender de bom grado. 

Assim, os dias passaram novamente e, eventualmente, ele parou de colher as frutas, de cuidar das plantas na estufa e cortar os legumes e verduras para as refeições. 

O que estou deixando passar…

Ele não sentia fome, tampouco Eliriah vinha ao seu encontro perguntar o que havia. 

Milan somente… perdeu o brilho. 

Se sentava distante, num pedaço de pedra erguido, observando os dias passarem. 

Ele olhava para nada em específico, apenas enxergando o vazio. Seu olhar parecia perdido, e seu rosto lentamente perdia a cor. Emagrecia lentamente, perdendo a robustez.  

Quem visse de fora, diria que Milan estava doente…, mas ele relutava em desistir.

Isto é, Milan passava os dias refletindo, apesar de sua humanidade parecer perdida. 

Que sentimento de urgência e… vazio… são esses?

Ele nunca chegava a uma resposta, pois sempre parecia esquecer o ponto principal da questão. 

Milan ficou um longo tempo ali, parado, estático, sem brio. Sem cor. Sem vida. 

Eliriah vinha, deixava uma tigela de ensopado durante o fim do dia. Mas na manhã seguinte, ainda estava lá, intocado. 

Ela não dizia nada. Parecia… querer dizer, no entanto; se mantinha em silêncio. 

Milan se levantava apenas para dormir. E de noite, se levantava gritando, berrando, tentando alcançar um sonho que já estava se apagando de sua mente. 

Antes de amanhecer, ele já estava na pedra de novo, olhando o nada. Às vezes observava uma linda flor roxa tremeluzir. Uma ruga aparecia em sua testa, mas sumia quando desviava o olhar. 

Durante os dias, sentia que havia algo por trás da névoa – algo que o chamava – mas cada vez que tentava lembrar, o som se desfazia como respiração no vidro. 

Uma noite ele observou Eliriah se sentar sozinha diante da fogueira, como sempre fazia, e lembrou-se do Cântico… uma tristeza insondável assolou seu peito. 

Naquela noite Milan foi mais cedo para seu quarto.

Gritos sondavam seus sonhos. Dor, medo, raiva. Cidades queimando e choro inconsolável. Eram pesadelos outra vez. 

Ele se arrepiava, chutando o nada.

Então acordou num pulo, gritando e berrando, lágrimas misturadas com suor. Milan nunca esteve tão apavorado. 

Ele tremia, balançando pra frente e pra trás. Ninguém veio consolá-lo. Mas ele via, escorado na parede, uma sombra insidiosa… macabra, vil, obscura. Ela o encarava de volta. 

Milan não pôde mais dormir. Antes do sol nascer ele se levantou e foi de novo para a pedra. 

Outro dia se passou e a noite chegou mais uma vez. 

Desta vez não houve pesadelo. Mas Milan acordou num pulo, olhando para os lados e tremendo, respirando fundo, agarrado ao cabo de Espectro. Sua energia envolvia, fraca, a lâmina da espada. Ela parecia faminta por orka. 

Ele continuou vasculhando o quarto, até que seus olhos enxergaram o nada além da janela. 

Uma lua artificial banhava os jardins da câmara, grilos cricrilando e a luz fraca de vagalumes vagueando. 

De repente, faíscas determinadas piscaram no breu de seus olhos, e se erguendo antes do habitual, Milan pegou sua espada e saiu da casa na árvore. 

 

***

 

Mil conhecia bem o jardim, afinal – andou por aquelas plantações incontáveis vezes. 

Essa familiaridade era estranha. Milan sentia que estava há pouco tempo ali, mas era como se uma eternidade tivesse passado. Ele fazia parte daqui tanto quanto um príncipe está destinado ao trono. 

Vagalumes iluminavam o caminho entre as hortas. 

Ele passou pelo pomar e pelo celeiro. 

O ambiente estava banhado por um vermelho alaranjado. 

Milan seguiu sem dar conta de quanto tempo andara. Ele parou um momento e se virou, observando a pequena fazenda de Eliriah de uma longa distância. 

Ele andou até que finalmente estava claro. Pássaros cantavam e o vento lambia seus cabelos. 

Algo nele dizia para seguir. Sua intuição pinicava em algum lugar dentro dele. 

Finalmente, Milan sentiu que estava perto, pois observou paredes curvas…

Ele havia caminhado até as bordas da câmara. 

Alguns metros depois, estava diante da parede imponente. 

Era larga, curvada para cima e lados. Era alta e estava cheia de musgo amarelo, e hera venenosa. 

O chão estava cheio de uma vegetação alta, com grama alta e espinhos traiçoeiros. 

Mas por que Milan andara até ali? 

Não havia nada. Nem vento, nem sopro, nem vida, nem canto. 

Apenas uma sensação crescente de desconforto. 

Ele encarou a elevação curvada, forçando a vista. Havia algo ali. 

Caminhando até lá, lutou contra a grama, que parecia ter vida própria. Se cortou nos espinhos, mas carregava espectro consigo. 

Foi preciso apenas alguns movimentos para que finalmente pudesse abrir caminho. 

Ele se aproximou de uma das bordas da câmara, onde o musgo havia crescido em camadas espessas, quase escondendo a parede inteira. Com cuidado, começou a arrancar a vegetação, usando a espada de vez em quando. 

Aos poucos, foi-se revelando primeiro, contornos borrados, depois linhas mais nítidas. 

O que encontrou o deixou em silêncio. Era um mural, mas não um comum. 

Conforme ele foi removendo o musgo, seções foram surgindo, cada uma narrando algo diferente, como se várias histórias se sobrepusessem no mesmo espaço. 

Em um canto, uma árvore antiga se erguia. Seus galhos estavam cobertos de folhas novas, flores abertas e frutos maduros… e ao mesmo tempo, partes da árvore já estavam secas, caindo, mortas. 

Entre os galhos, figuras humanas se moviam: uma criança corria, um adulto colhia frutas e um velho observava a cena sentado no tronco. 

E, estranhamente, todas as fases pareciam coexistir em um único instante. 

Ao lado, uma série de ampulhetas estava gravada na pedra. Em algumas, a areia escorria para baixo rapidamente; em outras, subia, como se desafiasse a gravidade. Relógios tinham ponteiros torcidos, alguns acelerando, outros girando lentamente, e alguns flutuando sem eixo algum. 

Ele notou árvores que cresciam em círculos, flores que brotavam e se fechavam numa sequência interminável. 

O relevo da parede tinha musgo entre as linhas, sombras que pareciam se mover quando ele mudava de posição. Era estranho, quase hipnótico. Ele passou os dedos sobre as figuras, percebendo o desgaste do tempo, mas sem sentir que ele tivesse passado de verdade. 

Em outros trechos, figuras humanoides de repetiam de maneira imperceptível, gestos parecidos, mudando minuciosamente. 

Milan recuou, pensando demais. As figuras pareciam vivas, mas de um modo silencioso. E enquanto ele caminhava pela câmara, observando mais paredes, sentiu apenas uma estranha sensação de desconforto, sem entender por quê. 

Milan continuou explorando, sentindo que algo ali tinha significado. 

Mais para frente, o mural mostrava o sol e a lua sobrepostos, ambos altos no céu, nuvens cobrindo partes do sol enquanto tempestades se formavam ao lado de céus claros. Ele piscou. 

“O dia e a noite… ao mesmo… tempo…?

O que isso queria dizer? Algo pulsava em seu interior, lutando para lembrar, decifrar isso. 

Numa seção, uma criança subia degraus que voltavam ao ponto inicial, pássaros que pareciam voar em círculos sem chegar a lugar algum. 

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Ele sentiu algo familiar: um fogo ancestral, o ódio adormecido no fundo do peito, começando a arder novamente. 

Milan arregalou os olhos, observando ao redor. Tinha algo estranho aqui também. Mas ele parecia perto de desvendar algo muito importante. 

Ele observou a grama alta do lugar, o mural com pedra desgastada. Sufocando um suspiro lento, ele continuou.

Era tudo muito estranho nesses murais. Nada gritava uma ordem cronológica clara. 


Uma história começava e tão logo terminava. Cada seção narrava apenas uma história única.

Um povo reunido, celebrando algo imponente no centro… um sarcófago. O sol escuro se tornando sombrio, e o povo diminuindo a cada nova seção. 

De repente, na próxima havia um vasto salão de estátuas rachadas. Havia corpos e carcaças, uma figura levemente esbelta erguendo uma espada. 

Na seguinte, um pântano raso. No outro, uma torre desgastada.

Os murais nas seções seguintes eram repetitivos. Uma figura solitária e etérea…, mas não totalmente sozinha. Em todas a partir dessa, haviam duas figuras. A solitária, e a de outra pessoa.

Mas por que se repetia sempre?

Milan franziu o cenho, observando mais de perto.

Havia pequenos detalhes. A figura solitária começava próxima, mas ao passo que ele avançava, ela estava distante. E também, a outra pessoa não era sempre… a mesma…

Ao passo que a figura solitária se afastava, o outro também mudava, mas era algo sutil. O tamanho do braço. A curvatura do corpo. O cabelo longo…

Respirando ofegante, Milan continuou avançando, observando a estranha imagem de outras câmaras, mas desgastadas pelo tempo.


Parando nas últimas seções, Mil sentiu sua espinha congelar. Sua respiração era entrecortada e nada fazia sentido realmente.

“Exceto que…”

Mas será que faria? Tinha que fazer. Sem perder tempo algum, Milan deu meia volta e partiu em disparada para a fazenda.

Sua mente estava em polvorosa. Enquanto as peças se encaixavam e faziam sentido, tudo o que ele poderia fazer era lutar contra o tempo e chegar o mais rápido possível.

Não havia tempo para imaginar o que estava acontecendo…

Milan irrompeu no quarto de tear de Eliriah e encontrou a jovem observando pela janela, inabalável como sempre.

Tudo parecia irremediavelmente calmo.

A máquina posta perto da janela. Os fios ondulavam levemente.

A figura etérea da jovem beleza.

Ofegante, Milan lutou para recuperar o fôlego. Eliriah, por sua vez, sequer se virou para ele.

Talvez imaginasse que fosse mais um de seus atos infantis. Para ela, isso tudo não passava de bobagem.

Mas Milan sequer ligava para o que quer que se passasse na mente da jovem rabugenta. Ele tinha que ter certeza…

– Quanto tempo? – Berrou, entredentes.

Eliriah se virou, impassível e sem qualquer vestígio de entendimento. Franzindo a testa, ela suspirou.

– O que? Que saiu? Bem… antes do sol nascer.

Milan rangeu os dentes e deu um passo à frente.

– Não se faça de tola! Você sabe perfeitamente do que estou falando!

Uma sombra cruzou o rosto de Eliriah, e suas pálpebras tremeram. Ela encarou Milan por um longo segundo, sem pressa alguma para falar.

O que se passava na mente da jovem? Como sempre, ela era muito indecifrável. E para Milan, alguém que não era bom em entender as pessoas, isso apenas complicou tudo. Talvez fosse apenas um pouco de inocência.

– Eu vi os murais – explodiu Mil, rangendo os dentes. – Apenas me diga: há quanto tempo estou aqui?

Eliriah virou o rosto, olhando de soslaio para fora. O sol estava pálido, e os animais já não estavam tão interessados em declarar ao mundo que queriam ser notados.

Tudo era um imenso silêncio. Havia apenas o som entrecortado da respiração de Milan, e seu coração pulsando, alvoroçado.

Sem qualquer pressa, Eliriah se virou e suspirou novamente.

– Uma Vigília inteira... E duas Lúnulas. 

Algo dentro de Milan parou. 

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