Volume 1
Capítulo 40: CHAMAS E SILÊNCIO
Os dias passaram com uma leveza abstrata e etérea.
Milan dormia e, quando acordava, se sentindo renovado o bastante, ajudava a jovem Eliriah nos afazeres matinais.
Primeiro nas plantações e canteiros, lidando com pequenas pragas aqui e ali. Em seguida, ele se dirigia para uma espécie de celeiro onde havia uma estufa. Lá, cuidava das plantas com o mesmo zelo que via na jovem.
Era um pouco estranho como tudo ali funcionava, no fim.
Sem luz solar verdadeira, uma claridade artificial banhava as plantas e flores que preenchiam a estufa. Talvez fosse algum aspecto das habilidades estendidas de Eliriah; Milan não sabia.
Mesmo assim, o ecossistema funcionava perfeitamente. As plantas pareciam realizar a fotossíntese sem esforço algum.
Depois desse processo, ele seguia até um pomar na ala leste da câmara, à direita das plantações de cultivo. Colhia algumas frutas e retornava ao lar da jovem rabugenta.
Eliriah mantinha-se distante, retornando ao abraço pacífico da solidão que a acometia antes da chegada de Milan.
Ela era boa em ignorá-lo, falando apenas o necessário.
Talvez fosse sua verdadeira natureza. Mil tentou se colocar em seu lugar, imaginando como seria ter alguém, de repente, morando em sua casa.
Estranhamente, compreendeu rápido o lado dela; afinal, também precisava lidar com a eufórica Emma. A menina era um ser elemental da natureza. Uma verdadeira força… e dor de cabeça.
De vez em quando, o vento uivava e Mil podia jurar que ouvia o riso de sua irmã.
Sentindo-se saudoso e percebendo os olhos lacrimejarem, Mil seguiu com seus afazeres e assim mais dias pacíficos passaram.
Mas algo o fazia se sentir… estranho.
Talvez fosse Eliriah que, apesar de sua distância, mantivesse um olho nele, observando-o onde quer que fosse…
Sim, pensando melhor, ele se sentia observado. Era estranho, pois, embora Eliriah se esforçasse para disfarçar, havia algo além dela. Algo sobrenatural o espreitava.
Tinha a vaga impressão de que a câmara possuía esse tipo de poder. Aos poucos, era como se aquela sensação tivesse ficado num passado distante… tão alienígena quanto esquecida… indiferente.
Com o passar dos dias, percebeu que o desejo sombrio e odioso, vindo do canto mais escondido do seu coração, havia… esfriado. Essa era a palavra certa. Não que ele ignorasse por tudo que tinha passado, mas às vezes, se perguntava se valia a pena… se era mesmo adequado sentir tanta raiva.
Também se sentia estranho após aquelas palavras que dissera para Eliriah.
Na ocasião, ele afirmara que talvez nunca quisesse ir embora dali. Isso significava abandonar sua vindicação tão aguardada?
…não sabia ao certo. Apenas que, naquele momento, parecera isso: Milan se sentira confortável o bastante para nunca querer escapar. E talvez tenha sido isso que fez Eliriah retornar ao velho hábito de silêncio e distância. Mas estava bem para ele.
Agora, ela apenas o tolerava.
E suas palavras ainda pairavam na mente de Mil, vindas como um claro lembrete:
“Quanto mais você quiser ficar, mais difícil será partir.”
O que aquilo significava? Que queria que ele fosse embora ou sofria por antecipação?
Ou, quem sabe, estava cansada? Cansada de ver pessoas que achava que ficariam… partirem.
Sim… ela dissera que houvera outros. Quem mais alcançou aquele lugar esquecido pelos deuses?
Aquele estranho lugar que guardava o sarcófago de um ser primordial e poderoso…
Havia tantas perguntas e, ainda assim, Mil não tinha vontade alguma de buscar por respostas. Talvez fosse o poder insidioso da câmara fazendo efeito, mexendo lentamente com sua mente e seu desejo sombrio de vingança…
Ou talvez não. Aqui era muito relaxante e despreocupante. Não havia necessidade de tanto ódio, de tanta ânsia por vendeta. Ele podia viver com isso, afinal, não era tão ruim assim…
Mas de vez em quando uma onda de adrenalina lhe tomava: lembrava-se de que devia sair dali, que ficar parado era errado, que algo o observava nas sombras…
…mas a sensação logo se dissipava. Voltava aos afazeres como se nada tivesse acontecido.
Dias se passaram e, conforme iam e vinham, Eliriah parecia mais carrancuda, diferente da pequena demonstração de afeto de dias atrás.
Milan não entendia o motivo, e tampouco se importava, no fim. Gostava dali.
Podia dormir e acordar quando quisesse. Trabalhar lembrava o lar. E o melhor: não precisava lutar. Era como se empunhar uma espada fosse um passado distante, ainda que não fizesse nem uma semana desde a batalha contra a Besta horrenda.
Sim… tudo estava bem.
Enquanto cultivava e colhia frutas, notou a pele bronzeada sob a blusa fina, meticulosamente bordada por Eliriah.
Quando ele havia ficado tão… delineado?
Não como o pai, é claro, mas seus músculos estavam mais firmes, como se feitos de uma liga fraca, mas resistente, de metal.
Os cabelos encaracolados também haviam crescido, caindo sobre os olhos.
Um sentimento de inquietação ardeu em seu peito. Quando crescera tanto?
Algo escapava de seu olhar, algo importante … mas ele não sabia o quê.
Tudo parecia diferente. Mesmo repetindo a rotina – colheita, estufa, corte de verduras, o tear de Eliriah – havia algo estranho. Era como se fizesse isso há mil vidas e, ainda assim, fosse sempre novo.
Eliriah também o observava, às vezes surpresa. Nesses momentos, ficava ainda mais taciturna.
Talvez triste.
Ele não ligava. Sua rotina permaneceu com uma boa e singela calma.
Milan sabia o nome das flores: orquídeas, crisântemos, gérberas, ciclamens, impatiens, escabiosas. Ele aprendera a bordar também. Na maior parte do tempo ele espetava o dedo e chupava o sangue com pequenas gotas de lágrimas escapando. Nesses momentos, podia jurar que ouvia uma risada escapar da linda e jovem etérea… antes dela voltar à carranca habitual.
Milan até mesmo aprendera certas melodias, e vinha pensando em construir uma flauta, mesmo que tenha sido copiosamente advertido a não fazer isso.
Gostava das histórias que Eliriah contava sobre o mito de criação de cada uma. Ela arrumava tempo para isso quando não estava nem emburrada ou distante. A jovem era uma verdadeira incógnita.
Um dia, sentou-se diante da fogueira e observou sem muita vontade.
Todos os dias, eles se reuniam ali, diante daquela chama que nunca se apagava, e permaneciam em silêncio logo e confortável.
Mil aprendera a gostar disso também. Às vezes era difícil, especialmente para alguém que cresceu num lar tão alegre e cheio de vida.
Aqui, contudo, havia esse acolhimento gentil diante do silêncio. Não havia pressa para falar ou expressar pensamentos. Isso era como uma terapia para Mil, que se tornara alguém reservado.
Enquanto engolia o ensopado vagarosamente, a mente dele vagava pelas estrelas artificiais do teto da câmara.
A fumaça se erguia, e ele vez ou outra se perguntava para onde ia…
O fogo estalou. Um besouro chiou. Asas bateram. As folhas farfalharam. Milan se concentrou no bebericar de sua sopa e, de vez em quando, lançava olhares para Eliriah.
Talvez pela convivência, talvez por curiosidade, começou a observá-la com mais atenção.
Ela… também era algo fora do comum. Uma força da natureza. Sua beleza era algo tão etéreo e distante, como um quadro pintado a óleo.
Mil constantemente se recordava de um que vira diversas e diversas vezes na capital: uma jovem parada num jardim ensolarado, abraçando os joelhos enquanto observava crianças brincarem.
Ela parecia tão triste. Tão melancólica.
Eliriah era assim, também. Era linda.
O rosto curvado e perfeitamente simétrico. Os lábios carnudos e rosados. Os olhos amendoados e insensíveis.
Ele a observou por cima da tigela por muito tempo.
– É falta de educação encarar por tempo demais.
Sua voz perturbou a calma silenciosa do ambiente.
Milan se engasgou, tossindo severamente durante um minuto inteiro. Imperturbável, Eliriah continuou a olhar para o fogo, fria como sempre.
Ele limpou a garganta e se remexeu no assento, momentaneamente abalado. Ele não se desculpou.
Era mestre em fingir que nada tinha acontecido, o que a irritava profundamente.
– Você é muito descarado, criança.
Milan piscou, sorrindo internamente. Ela finalmente havia parado de chamá-lo de idiota ou semente murcha. Isso era um avanço.
Permaneceram quietos, o silêncio natural outra vez.
A fogueira ardia calma, tingindo os troncos em âmbar. O vento frio serpenteava entre as árvores fazendo as chamas se curvarem, como se escutassem algo que apenas ela podia dizer.
Eliriah ergueu os olhos do fogo e, por um momento, a luz tremeluzente pareceu dourar-lhe o rosto. Sua voz saiu calma, como quem recordava algo antigo…
…ou uma ferida antiga demais para cicatrizar.
Ela retornou os olhos para o fogo, como quem observa um abismo, e então falou:
– Há um conto que as sacerdotisas da Aurora guardavam. Dizem que é o mais antigo de todos… o Cântico de Næva e o Coração de Kareth.
Sua voz, rouca de cansaço, parecia vir de um lugar além da memória. Milan ergueu os olhos, sem saber o porquê. Talvez pelo como “Kareth” ecoou dentro dele, feito um nome esquecido.
– Næva era uma sacerdotisa… guardava o coração do primeiro sol. Um fragmento vivo que mantinha o amanhecer respirando: se a luz morresse, o mundo adormeceria para sempre.
“Mas ela era humana, e o coração, pesado demais. Um dia, um homem apareceu. Um forasteiro ferido. Rëhan. Ela cuidou dele, e, contra as leis do templo, começou a sonhar com ele.”
“O amor deles queimou tanto que até o sol sentiu ciúme. O amanhecer começou a atrasar. Os deuses advertiram: ou ele parte, ou a luz morrerá.”
Eliriah fez uma pausa. O fogo estalou, e o silêncio se espalhou entre eles. Seu olhar frio e mortal caiu sobre Milan.
– Næva achou que podia enganar o destino. Partiu o Coração de Kareth em dois, e o escondeu dentro dos dois. A luz se dividiu. E então começou a matá-los: ela ardia por dentro, ele congelava em vida.
“No último amanhecer, os deuses tiveram piedade - ou raiva - e os transformaram em estátuas. Uma de cristal flamejante, outra de gelo.”
“Dizem que, quando o sol nasce, é porque eles se tocam por um instante
Mas… se algum dia o sol se atrasar, é porque ela o beijou cedo demais. Ou porque ela cansou de esperar.”
A chama pareceu murchar quando ela terminou. Nenhum deles falou por longos segundos.
Milan sentiu algo prender-se em sua garganta – um eco antigo, um espelho dolorido.
O amor que consome o dever… a fé que se transforma em condenação. Como se o fogo diante dele ardesse também dentro dele.
Eliriah se recostou, os olhos perdidos no escuro. O vento soprou, e a fogueira dançou, uma última vez, antes de ceder à cinza.
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