Volume 1
Capítulo 39: SOB O OLHAR IMÓVEL DAS ERAS
O tempo passou, Milan se recuperando bem.
As visões haviam diminuído com relação à antes, e ele tinha uma leve suspeita. Mas decidiu ficar quieto por um tempo. Precisava descansar, e por mais que o ódio ardesse dentro dele, ele sabia que esse tempo seria raro na caminhada que desejava seguir. Seu futuro era incerto.
Ele acordou, em certa manhã, com um aroma que não reconhecia. Tinha cheiro de café da manhã em um dia de neve na casa dos Sgaard.
Era doce, mas não enjoativo. Algo entre hortelã e casca de árvore recém descascada. O teto da câmara estava salpicado por liquens dourados, e uma luz oblíqua tremeluzia na entrada. O canto da jovem soava baixo, em algum ponto do jardim, quase indistinguível do farfalhar das flores.
Milan piscou. A visão recente de chamas frias e vozes que gritavam seu nome ainda repicava nos ossos. Mas sumia devagar. Pela primeira vez em dias, talvez semanas, não acordava coberto de suor.
Sentou-se. Um pano de linho cobria seu peito nu — não era dele. Vestígios de ervas no canto da boca. A língua amargava.
Sem o mínimo som de passos, a jovem surgiu com um feixe de raízes nas mãos e um arco preso às costas. Nem o olhou.
— Demorou para acordar. — Jogou as raízes sobre a mesa. — Tenho pensado em cobrar por essa longa estadia.
Milan franziu a testa, mas não rebateu. Ela já saira em direção a um dos canteiros. Ele a observou com atenção. O modo como os pés deslizavam sobre a terra sem deixar rastros. A maneira metódica com que regava as plantas com uma concha feita de folha e cristal. Cada movimento parecia um ritual — não para manter a vida, mas para lembrar que ainda a possuía.
Mesmo de longe, ela notou seu olhar.
— Está com pena de mim, criança?
— Não. — Respondeu de pronto. — Só… nunca vi alguém regar as plantas com tanta raiva.
Ela revirou os olhos. Mas um canto da boca quase se curvou. Quase.
Naquele mesmo dia ele tentou ajudá-la a preparar uma pasta de musgo e leite para os canteiros.
— Está fazendo errado. — disse ela, sem sequer olhar.
Ele revirou os olhos.
— Você nem está olhando.
— Eu sinto. O erro tem cheiro.
Mesmo assim, ela não o impediu.
Mais tarde, a brisa dançava diferente.
A jovem se movia pelo chão de seu lar num giro leve, os cabelos brancos como teia de lua. Um sopro inexplicável ecoava pelas fendas da pedra. Sem perceber, Milan ficou parado, encarando. Ela girava, pés descalços, braços erguidos, e os olhos semiabertos, como se falasse com algo ausente.
Ele finalmente quebrou o silêncio.
— Por que você dança?
Ela parou, virando-se devagar.
— Para não esquecer que estou viva.
Houve um silêncio frágil. Algo tocara Mil, mas ele não sabia o quê. Havia essa vontade inebriante de falar com esta pessoa, mesmo que ainda rugisse a vontade de ódio e ardor pelo mundo. Mas, quando ele a olhava, tudo isso perdia o sentido, a força.
Tentando imitar os passos dela, Milan tropeçou no primeiro giro. Ele soltou um som tosco, desafinando, como se cantarolasse a mesma melodia do vento. Ela arqueou a sobrancelha.
— O que é isso?
Ele parou, piscando para ela.
— Meu canto. É assim que os humanos fazem.
A jovem soltou um som abafado, que parecia um riso. Mas morreu na garganta.
— Isso é… horrível.
Milan cerrou os olhos.
— Eu sei.
Ela o encarou de olhos bem abertos, e finalmente sorriu. Um riso breve, infantil, que escapou antes que pudesse controlar. Quando percebeu, limpou a garganta e o empurrou com o cotovelo.
— Não repita isso. Nunca mais.
Naquela noite, ele tentou carregar um balde de seiva até um dos pilares e tropeçou. Um caco de pedra cortou sua perna. O sangue pingou nos canteiros. A jovem, ao ver, correu até ele.
— Seu tolo! — Ela gritou, tão logo começou a limpar a ferida, feito uma mãe que primeiro bate e depois acalenta.— Você é idiota ou só quer se provar mais inútil do que já é? — Indagou ela, as sobrancelhas arqueadas em desprezo, mas os olhos fixos na ferida.
— Eu estava tentando ajudar.
— Você nunca ajuda.
Com um pano úmido, limpou a ferida, os olhos fixos na pele dele. Havia raiva na forma que esfregava, como se o erro fosse dela. Como se não suportasse vê-lo frágil.
— Foi apenas um arranhão — disse Milan, envergonhado por ela agir feito sua mãe.
Ela ergueu os olhos.
— É. Você vai sobreviver, infelizmente. — Resmungou, revirando os olhos.
Ela não ergueu os olhos, mas disse, seca:
— Não gosto de sangue humano aqui.
Mas suas mãos tremiam.
***
A rotina se enroscava neles como vinhas. Ele começou a decorar os cantos dela. Sabia que dois passos à direita havia uma pedra que ela sempre chutava. Sabia que, ao anoitecer, ela bordava em silêncio, mas parava se ele a olhasse por mais de cinco segundos. Sabia que toda noite ela dançava, mesmo quando não havia música.
Pouco a pouco, ele sabia como bordar, pegar numa pá e como ela gostava dos legumes picados, ainda que houvesse parte de um ostracismo velado. Um ódio morno, incisivo.
Sabia onde ela guardava os talheres e como gostava de suas verduras picadas.
O fim de tarde caía dourado sobre a entrada da câmara. O céu, apesar de nunca se revelar por completo, se tingia de rosa enevoado. O lugar, o lar dela, exalava com cheiros de cozinha, ressoando com sons frágeis: água fervendo, colheres arranhando cerâmica, o eco lento do vento entre folhas.
Ela cortava legumes, e Milan a ajudava.
— Me passa a raiz vermelha. — Pediu, com o tom menos hostil do que antes.
— Essa? — Ele ergueu a raiz errada de propósito.
— Isso é uma batata, obtuso. — Ela pegou da mão dele com força. Mas seus dedos demoraram meio segundo a mais sobre os dele. Milan soltou um sorriso gentil, inocente. Ela, não.
— Essa? — Milan ergueu uma folha de contorno irregular.
— Não, essa é venenosa. Você morreria em dois minutos.
Milan deu um sorriso infantil.
— Ah. — Ele jogou no pilão errado de propósito. — Então é essa aqui, né?
— Não! — Ela respondeu entre dentes. — Essa dá sono por três dias. Serve para feras em hibernação.
— Tá bom… vou anotar.
Ela o olhou, uma sobrancelha arqueada. Surpresa fingida preenchendo o rosto.
— Você sabe escrever, criança?
Milan sorriu, prestes a responder de um modo bem Milan, mas notou que essa havia sido a primeira vez que ela tirara uma brincadeira. Como as coisas haviam evoluído à esse ponto?
Ele sorriu, e traçou o melhor modo Emma em suas memórias.
— E você sabe sorrir?
O silêncio que se seguiu doeu mais do que ferida. Mil não sabia mais sentir isso. Era ruim, como se o silêncio precisasse ser quebrado. Ele sempre gostou da presença dele, oras.
Ela se virou para ele, o rosto envolto em sombra. Por um instante, algo dançou entre seus olhos — não raiva, não desdém, mas um cansaço antigo, como se ela estivesse sempre prestes a desistir de tentar explicar.
Milan suspirou.
— Já que vamos morrer juntos — Milan disse, mexendo no pilão com um graveto — podia ao menos me dizer como não te chamar.
A frase flutuou entre os dois. Ele não esperava uma resposta. Não realmente. Era apenas um comentário ingênuo.
Mas ela veio. Baixa. Quase imperceptível.
— Eliriah.
A palavra caiu no chão como uma semente.
Milan não sorriu. Não provocou. Nem piscou. Apenas deixou que o nome dela se assentasse em sua memória como algo que nunca mais pudesse ser arrancado. Como se fosse uma canção em melodia. Mas com um gosto que grudava na língua.
— Sou Milan Sgaard. É um prazer.
Ela não disse nada. Apenas voltou ao pilão. Seus dedos, no entanto, tremiam imperceptivelmente.
No dia seguinte, Milan plantou algo à sombra do carvalho, inclinado atrás da cabana. Nem soube o quê. Pegou algumas sementes esquecidas, cavou um buraco raso, e cobriu com as mãos sujas.
Eliriah passou por ali depois. Olhou de relance, mas não disse nada.
Horas depois, ao voltar, ela encontrou uma flor pequena e frágil, de pétalas azuis-acinzentadas, brotada onde havia pisado. Sorriu, sem saber por quê. No dia seguinte, a flor estava murcha.
***
No entardecer diante da lareira, ele a olhou, após terem feito sua refeição.
— Me sinto muito melhor… como isso é possível? As visões simplesmente… pararam.
Ela encarou-o por um longo tempo, como se pensasse em dizer as palavras seguintes. Era estranho, Mil nunca a viu medir palavras antes.
— Este lugar… Lûarendil, A Travessia dos Ancestrais, é um lugar incomum. As visões plantadas por ele diminuíram simplesmente porque eu o acolhi como minha visita… nada mais.
Milan observou o fogo também, se recordando das histórias contadas por Cildin em noites enluaradas como esta. Mas ele sabia que aqui as coisas eram artificiais, porque ele estava dentro de uma câmara. Mas era estranho ainda assim.
Um pergunta resfolegou seus pensamentos, ele ergueu os olhos para Eliriah.
— Como veio parar aqui? — Indagou, balançando a cabeça, de repente parecendo a criança que era.
Ela deixou que a pergunta se assentasse enquanto observava vagalumes voejando aqui e acolá. Seus olhos brilhavam, e Milan se via encantado por seu rosto, quase como se… inebriado.
— Havia um ser celestial, que depois de anos governando em conjunto com seus irmãos, decidiu que era hora de viajar o mundo. No fim de sua jornada, quando seus filhos construíram reinos e assentamentos; veneraram estátuas e governaram o povo élfico, finalmente entrou em reclusão com seus doze servos mais leais… estes servos, entre homens e mulheres, deram luz a seu povo num lugar mágico, cujos corredores mudavam para obstruir a passagem dos indignos e dos de coração impuro para as riquezas da vida, e para uma palavra última com o antigo ser celestial divino.
A voz dela morreu, o crepitar do fogo estalando.
Milan piscou.
— Você é a última descendente deles, não é? Nem elfo, nem humano. Um servo, como aqueles que vivem lá fora, no Jardim das Hesperides.
Não houve confirmação, apesar dos olhos dourado-esverdeados de Eliriah brilharem diante da menção ao Jardim.
— Deve ter sido solitário…
Eliriah não disse nada. Ficou quieta, sua boca como um túmulo. Milan bocejou, os olhos pesados, e sorriu docemente, como se não fizesse isso há anos. Tão jovem, tão fadado à tragédia.
— Não quero mais ir embora daqui.
Ela parou de olhar para o fogo. A fogueira estalou.
— O quê? — Sussurrou.
— Aqui é… calmo. Quente. A comida não é ruim. É bonito aqui. E você dança bem. E… eu não sinto medo quando você está por perto.
Ela o encarou.
— Não diga isso. Nunca mais. — disse, sem elevar o tom. Mas o vento parou de soprar. A chama oscilou.
— Por quê? — Milan perguntou, confuso e com sono.
— Porque quanto mais você quiser ficar, mais difícil será partir. — Respondeu ela, com o rosto voltado para a escuridão.
O silêncio foi mais longo dessa vez. Ela se levantou lentamente, como se as palavras dele tivessem se prendido às suas pernas. Caminhou para longe e sumiu entre as folhas prateadas que sussurravam ao vento.
E foi ali que a visão retornou — como uma pancada.
Viu campos ardendo, seis rostos riscados de sangue, os tambores voltando a ecoar. Mas, no centro de tudo… uma flor.
Um campo de flores negras surgiu. Chamas brancas no céu. O som de uma chave girando— dentro dele. A terra tremendo sob seus pés. E depois, silêncio.
Ele abriu os olhos. Estava deitado. À sua frente, onde antes estava Eliriah, uma pequena flor brotava, oscilando como se o mundo inteiro respirasse através dela.
Mas, em poucos segundos, murchou.
E Eliriah, de longe, o observava – como se soubesse o que aquilo significava.
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