Volume 1
Capítulo 38: CANTEIROS DE PRATA
Mil retornara de sonhos febris e distantes, envoltos em névoas de um pesadelo consciente. Algo o chamava, lutava para tê-lo, e estava conseguindo, aos poucos. Gritos sondavam, vozes rugiam. Mãos nodosas arranhavam para rasgar o véu único de sanidade. Milan acordou de modo abrupto.
O mundo retornava devagar, como um lençol úmido sendo puxado dos olhos. Milan acordou envolto num calor estranho, não hostil. Apenas desconhecido.
Ele observou o lugar. O teto acima parecia feito de pedras cantantes, lisas e brancas, iluminadas por uma luz leitosa que não vinha de lugar algum.
— Finalmente — murmurou uma voz amarga, já impaciente. — Estava começando a torcer para que não acordasse.
Milan piscou devagar, sem forças para retrucar. Sentia o corpo leve, como se flutuasse entre a febre e o sonho. A jovem estava de costas, bordando algo com linhas douradas sobre um tecido púrpura, sentada ao lado de uma janela que dava para… campos? Árvores? O cenário parecia derreter em névoas sempre que ele tentava fixá-lo.
Mais um devaneio labiríntico.
Tentou se erguer, mas o braço falhou.
— Não se esforce — ela disse, sem olhar. — Você apagou novamente depois do chá de ervas. Acabou chegando à beira do apagamento. Ainda está contaminado pelas imagens desta cripta.
Mil se encostou e suspirou.
— O que era aquilo? — sussurrou, incapaz de formular seus pensamentos. — Aquelas… coisas. Elas me chamavam pelo nome.
Mil tinha uma certa noção, porque tudo em seu corpo alertava para isso. Mas não passavam de suposições.
Ela se virou. Seus olhos dourados carregavam sombras.
— O lugar não gosta de você, criança. E ele mostra isso da única forma que sabe: com visões. Mortos, desejos, medos. Todos reais. Todos mentira.
Mil fechou os olhos. Vozes ainda sussurravam atrás das pálpebras. Algumas gritavam.
— E você? — a pergunta escapou antes que pudesse controlá-la. — O que é você?
Ela parou e voltou a bordar, como se nada a abalasse.
— Nada que você precise entender agora. Apenas saiba do seguinte: seu lugar não é aqui, de modo que farão de tudo para expulsá-lo, humano. Seja com mentiras e visões, estas muito mais fortes em você, um intruso, do que em outros que…
Ela parou, como se tivesse falado demais. Milan percebeu isso. Ela iria dizer que houveram outros antes dele. Lembrava dela ter citado isso antes também. Ele fingiu que não ligou.
A jovem se ergueu, soltando calmamente o bordado, e flutou para fora do recinto, seu cabelo como se estivesse submerso.
— Apenas descanse e melhore para que, o quanto antes, vá embora. Sua presença perturba o equilíbrio.
Milan abriu os olhos para observá-la sair, sorrindo cansado.
— Também gostaria de evitar sua cara azeda, sua coisinha insípida — sorriu, enquanto caía em sono profundo.
***
Nos dias que se seguiram – ou o que ele julgava ser dias – Milan recuperou movimentos, forçou-se a comer os caldos de raízes que ela preparava (e resmungava quando ele derrubava, deliberadamente, metade) e começou a andar com passos curtos pelo que parecia ser uma antiga morada Élfica.
Havia jardins e pomares, todos muito bem cuidados e cheirando doce-amargo. O rio fluía por eles, serpenteando a moradia da jovem.
Havia canteiros floridos com folhas prateadas que brilhavam mesmo à noite, árvores que tremeluziam ao som do vento, e campos de ervas que a jovem cuidava com uma atenção que não revelava a ninguém.
Ela cantava para as plantas. Mil notou uma singularidade familiar nisso. Era quase como se… engolindo em seco, ficou quieto no parapeito.
Ouviu pela primeira vez quando se escondeu atrás de uma sebe, curioso, ao vê-la dançar com pés descalços sobre o barro. Era uma melodia triste, ancestral, que fazia o solo suspirar. Ele prendeu a respiração, temendo que, se fosse visto, ela parasse. Se lembrou da noite em que os espíritos da floresta cantavam e dançavam ao redor de uma fogueira, quando ainda era tutelado por Cildin.
Mas ele foi visto. E, claro, ela parou.
— Você não tem o que fazer? — perguntou, se sentindo invadida.
Mil piscou, sem saber o que dizer.
— Eu… eu não sabia que… que você…
Ela bufou.
— Humanos não têm modos nem limites. Isso explica muita coisa — disse ela, arrancando uma raiz e guardando numa cestinha de fibras azuis. — Apenas melhore é vá embora daqui.
E ela se foi.
***
Os dias passaram entre irritações mútuas e pequenos gestos inesperados. Quando Milan cortou a mão tentando colher uma flor, a jovem o repreendeu como se fosse uma ameaça viva ao jardim… só para em seguida enfaixar o ferimento com o mesmo cuidado com que dobrava suas mantas. Quando ela queimou o mingau, distraída em seus cantos, Milan zombou, e ela jurou que o transformaria em adubo.
Mas algo morava nos silêncios entre essas farpas. Uma doçura áspera. Um vínculo estranho, quase imperceptível, mas em crescimento. Como as flores dos canteiros de prata — que se recusavam a florescer para Milan, mas que não morriam em suas mãos.
Ele começou a ajudá-la, mesmo sem permissão. Primeiro colhendo frutos, depois mexendo a terra. Depois — sem querer — aprendendo a ouvir a música que ela não queria ensinar.
O aroma do chá amargo pairava no ar. Milan estava sentado à soleira da porta, balançando os joelhos e cantarolando a música que ela sempre cantarolava, observando com os olhos semicerrados a figura da jovem se mover entre os canteiros.
As mãos delas, de longos dedos hábeis, dançavam entre folhas prateadas, arrancando brotos secos com um cuidado que beirava a reverência. O vestido esvoaçante estava manchado de terra, mas ela parecia não se importar.
— Vai ficar me encarando como um cogumelo apodrecendo? Ela soltou sem sequer se virar.
Milan não respondeu de imediato. A insolência com que ela o tratava já perdera o efeito cortante; agora havia algo quase cômico na maneira como ela bufava e franzia a testa, como se a simples presença dele ofendesse a ordem natural das coisas. E ofendia.
— Você está regando errado — disse ele, apontando. — A raiz está muito exposta. Vai murchar.
Ela se virou lentamente, como uma gata selvagem que ouve um estalo seco na mata. Seus olhos faiscaram por um instante, mas havia cansaço ali também. Um silêncio áspero pairou entre eles.
— Quer tomar meu lugar, criança? — murmurou ela, voltando-se para o canteiro com mais força que o necessário.
— Só tentando ajudar — Milan disse, já se levantando. Caminhou até ela com passos lentos. Pegou uma das pás, ajoelhou-se ao lado e, sem pedir, começou a enterrar a raiz com mais firmeza. Ela o observou de esguelha, os lábios pressionados com raiva contida, mas não o impediu.
— Esse broto aqui… ele dá flor?
— Claro que dá — ela respondeu, com um leve tom de ofensa. — São anetiriades. Só florescem sob tristeza.
Milan levantou o olhar.
— Então esse lugar deve estar cheio delas.
Ela sorriu de canto, mas não respondeu. E por um instante, o silêncio foi outro — menos hostil, quase cúmplice.
Mais tarde, enquanto ela remendava um tecido em frente à lareira, Milan apareceu com um punhado de gravetos e musgos. A jovem levantou as sobrancelhas.
— Achei que podia usar isso pra acender mais rápido. Vi você soprar umas três vezes e nada.
— Eu não preciso de ajuda — ela rosnou. — Nunca precisei.
Milan franziu a testa e o nariz.
— E quem disse que eu tô te oferecendo ajuda?
Ela pegou os gravetos, bufando. Não agradeceu. Mas também não devolveu.
Os dias tornaram a passar, os pequenos embates como esse longe de terminar. Ela tentava manter a distância com farpas afiadas, e ele persistia, de modo implicante, persistindo com ações miúdas. Ele limpou o chão de um lugar pequeno parecido com um alpendre, ela refez o desenho que ele estragou com os pés.
Ele tentou cantarolar uma música qualquer, ela silenciou com um estalar de língua. Mas quando pensava que ela ia mandá-lo calar a boca, ela, sem olhar, murmurava:
— …a nota está errada.
E o corrigia.
À noite, enquanto repousava perto da lareira, envolto em uma manta rústica, as visões retornaram em fragmentos. Ecos de um mar que ele nunca viu, pássaros cantavam em vozes humanas, e olhos — os olhos dela — agora reluzindo em meio às sombras do delírio. Era como se o labirinto plantasse nela a única flor viva de sua febre. A imagem dela não o abandonava, mesmo quando tudo parecia ruir.
Ao despertar, encontrou-a sentada ao lado, costurando. Os olhos dela estavam semicerrados, mas vigilantes.
— Ainda está aí… — ele murmurou.
Ela respondeu sem tirar os olhos da agulha.
— Infelizmente.
Mas seu tom não era tão afiado. Não como antes.
Talvez… algumas flores realmente abrissem no fim do mundo.
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