O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 24: MEDITANDO

Milan meditava no centro da clareira.

Sua ida àquela floresta visava o treino não só físico, como mental.

Cildin havia sido conciso e claro em suas palavras, e Milan acreditava nelas com todo seu ser. Isto é: para poder controlar uma gama maior de habilidades, era necessário que ele tivesse controle sobre sua mente também.

Em outras palavras, Milan precisava fortalecer a mente, aprender a entender seu lugar no mundo e suas contribuições para ele. Precisava entender que existiam coisas que fugiam da compreensão e do controle, e gastar energia buscando reparar um problema sem solução era perda de tempo. Foi isso que Milan deduziu das palavras de seu mestre.

Mas ele ia além, sendo capaz de pensar por si mesmo. Milan não era bobo, apesar da tenra idade e de todos os recentes problemas pelos quais passara. A vida era difícil, mas ele não era o centro do mundo, e assim como seu mestre também disse, ele não podia esperar que as pessoas fossem boas com ele ou compreensivas somente por causa de seu passado doloroso. Todo mundo tinha problemas.

Por isso ele queria ser forte, para não ter que colocar seu próprio peso nas costas de outros. Para não precisar necessitar dos outros; para que um novo Piro não surgisse em sua vida. Para que não se tornasse Piro.

E saber a lógica por trás disso, entender que todos os problemas, tivessem solução ou não, deveriam ser resolvidos com consciência e paz espiritual.

Mesmo sabendo disso, Milan percebeu que seria incapaz de abandonar toda a raiva e ódio que mantinha dentro de si. Também percebeu um novo lado seu. Um lado que preferia estar sozinho, sem pessoas por perto.

Milan se sentia traído, e feito um animal acanhado, tinha dificuldades para confiar nos outros. Era melhor estar só, pois sua capacidade de confiança não seria facilmente alterada.

Ele praticou a solitude, percebendo que sua própria presença era algo bom, algo necessário.

Ficar sozinho com seus próprios pensamentos, aquém do que os outros acham ou estivessem planejando contra ele, era ótimo. Ali, sozinho, Milan percebeu que não tinha poder sobre o que os outros pensavam ou sobre suas ações, por isso se contentar com sua própria presença era mais fácil.

Esses pensamentos faziam-no retornar para o mesmo pensamento central: ninguém tinha a ver com suas dores, ninguém estava nem aí para isso, e isso era um problema somente dele. Quanto mais ele percebesse isso, mais fácil era de lidar com as coisas, sem criar expectativas, sem considerar esperar algo de alguém que não ele mesmo. Assim, não iria se decepcionar fácil, pois não esperaria nada de ninguém além de si mesmo.

E assim Milan separou seus pensamentos, conseguindo compreender ações e consequências.

O que aconteceu foi um misto de ações de outras pessoas, que decidiram tornar sua vida nessa terra um pouco mais complicada. Mas isso significava que estas ações ficariam impunes? De maneira alguma.

Milan não nutria qualquer raiva por Piro. Ele buscou se colocar na situação do homem. Se fosse ele a escolher entre um forasteiro e sua irmã, quem ele escolheria? A resposta era óbvia. Piro não teve escolha. O homem fez o certo, e Milan sabe disso porque é o que ele faria numa situação contrária.

E por isso ele queria ser forte, para que nesse tipo de situação, sua espada fosse a terceira opção. Ele derramaria o sangue do mundo antes de escolher entre duas vidas inocentes. Era por isso que o único sentimento de Mil em relação ao velho sujeito era de pena. Por ser fraco e não conseguir reagir diante de tamanha maldade.

Mil não queria que um novo Piro surgisse em sua vida. Ficaria forte antes disso.

Já Droner a situação era outra. O Orc estava sendo punido por outras questões, ele sabia. Mas ele seria punido pelo único e exclusivo crime de ter feito mal a Mil. Tirara sua inocência, mostrara o lado perverso do mundo, lhe deu a perspectiva amarga da vida.

E por isso Mil não o perdoaria. E por isso ele jurara sangue. Esse era um daqueles tipos de juramentos que mataria aquele que jurou. Corrompe todos seus pensamentos até que cumprisse o que prometeu. Mil não se perdoaria se não conseguisse tornar suas palavras em realidade.

Por isso ele pensou bem sobre o alvo de seu ódio, de sua raiva. Ele tinha que ter certeza de que não traria este ódio a outros. Milan não poderia se tornar tão amargurado assim.

Ou poderia?

Esse era seu dilema. Parte dele queria queimar tudo e todos, pois tudo lhe causava raiva, tudo o enfurecia. Mas a outra parte dizia que isso era errado, e que os inocentes não tinham a ver com o motivo de seu ódio.

Seria infantil demais querer a primeira parte? Ele era uma criança, afinal. E por isso Mil meditou sobre isso, buscando alternativas, razões. Mas quem precisava de uma razão? Era difícil. Ele não queria ceder, mas o ódio era grande. Mas ele tinha jurado a si mesmo que traria cinzas e chamas. Traria destruição.

Por que dava pra trás agora? Milan sabia que para alcançar seu objetivo, precisava fazer coisas ruins. Precisava se tornar ruim.

Então por que? Ele percebeu que lentamente nos últimos dias estava sendo direcionado a ter um outro pensamento das coisas.

Estava bem para ele não pensar demais em ódio, afinal não conseguiria evoluir nada se focasse apenas na vingança. Mas esse sentimento de pena do futuro… Não era dele.

Milan não queria ter pena, por isso meditou também. E sabia exatamente o que estava acontecendo aqui.

Foi assim que ele chegou ao entendimento de que isso era um problema muito ambíguo e subjetivo. Não era algo que pudesse lidar agora. E não desistiria de algo que já tinha se convencido por causa de sentimentos e pensamentos externos. Precisava direcionar essa raiva, e sabia para onde direcionar. Só não tinha o entendimento e a prática.

E semanas se passaram assim. Milan meditava mais do que treinava sua nova descoberta.

Ele sentia que meditar e gastar o tempo pensando sobre o mundo e sobre si era um grande ajudante, evitava que o ódio invadisse e que seus pensamentos se tornassem negros.

Deixar que esses pensamentos nublassem sua percepção poderia dificultar seu controle de energia.

Aquela clareira também era ótima para ajudar a clarear seus pensamentos. Aqueles momentos de paz e silêncio faziam com que seus pensamentos não ficassem obscuros.

Com isso Milan ganhou dois esclarecimentos, que vieram num dia ensolarado. Um ele já vinha fazendo com certa frequência, que era o poder da repetição.

Milan repetia um mantra para si mesmo, que o ajudava a impedir os pensamentos ruins e de pensar demais. Mesmo que fosse uma frase que incutiu nele raiva, inquietação e ansiedade, também incutiu paciência e resiliência. Deu a ele o entender de que apressar as coisas não tornaria nada fácil, só mais difícil. Afinal, sua intenção não era esquecer o ódio por Droner, era não deixar que esse ódio fosse transferido para outros.

Mesmo que não estivesse nem perto de conseguir um resultado adequado, pois sua mente sempre estava nublada e querendo justiça… vingança, era bom para acalmar a mente. Mantê-la no presente. Entender que o ontem já passou, que o amanhã será um mistério e o hoje é uma realidade. Focar no hoje. Isso esclarecia as coisas.

O outro esclarecimento foi entender que as coisas nem sempre são perfeitas e permanentes. Ninguém seria o mesmo para sempre. Nada era igual o tempo todo.

Perceber isso o ajudou a não se martirizar demais. Não se culpar por ter sentimentos tão mundanos e perceber que a imperfeição é algo comum. Ser capaz de ver a realidade do hoje, era simples e complexo. Mas consistente.

No fim, Mil deveria abraçar a transitoriedade, a imperfeição.

Ele não era alguém religioso, mas acreditava numa força maior, e se algo podia ser aprendido com a história era que o carma existia. Assim, Mil conseguiu compreender uma pequena, mas considerável parte de seu ser.


***

POW! POW! POW! POW!

Os punhos de Mil socavam a grande árvore repetidamente. Isso o ajudava a esclarecer a mente também.

Não era como se todo o ensinamento - isso se considerasse como um - que Cildin lhe deu fosse ser jogado fora.

MIlan entendia que não sucumbir ao ódio seria o correto. Ele só não queria desistir de seu juramento. Por isso, socar a árvore também lhe dava um novo foco. Evitava que pensasse demais.

Ele fazia isso de punhos nus, sem inserir energia ou aura.

O uso de aura era muito grande, por isso ele se cansaria facilmente, tendo de esperar para que suas energias fossem repostas.

Por isso ele meditou por um longo tempo, tendo de lidar com a dualidade de seus pensamentos. Entre a já existente ciência do que estava disposto a se tornar, sabendo dos riscos e das perdas, e uma recente sensação de comedimento. Ele sabia a razão de estar hesitando, mas não hesitaria.

Trabalharia a mente e seu físico. Se tornaria forte. Alcançaria seu objetivo.

Observando a grande árvore, abriu um longo sorriso amarelo.

“Vamos lá!”

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