Volume 1
Capítulo 23: BRUTAL
POW! POW! POW! POW!
O som sequência e ensurdecedor seria capaz de atordoar todo um habitat.
Pássaros alçaram voo para longe daquele alarido, mais do que incomodados com o batuque persistente.
POW! POW! POW! POW!
Suspiro.
Milan apertou os punhos e os encarou bem. Uma camada grossa se fazia presente na junta dos dedos. Mesmo revestindo de aura, ainda assim era fraco demais.
Um mês se passou desde que ele erguera acampamento naquela clareira.
Milan tinha aprendido a usar sua aura como revestimento natural numa batalha, mas havia muito o que percorrer.
O represeiro velho e grosso na extremidade da clareira servira de saco de pancadas, mas sequer apresentara rachaduras.
Mas algo estava mudando; internamente. A árvore estava com um fluxo de energia reduzido, e suas raízes apresentavam fraqueza, secas. O dano estava ali, não é como se não estivesse claro.
Milan, sem querer, acabava de criar uma técnica que destruía de dentro pra fora.
Sua mão latejou. Ele respirou fundo e se abaixou para beber de seu cantil.
Havia uma pequena foz logo ao leste da clareira, e ele sempre tomava muito cuidado para ir buscar suas provisões.
Ele checou mais uma vez seu punho e a árvore, sem qualquer arranhão presente.
Ainda tentava recriar o que seu mestre fez, mas o que será que vinha fazendo de errado?
Era certo que tinha aprendido algo. No início, ele não conseguia manter nem 1 minuto de socos ininterruptos.
Suas mãos doíam e sua aura se dispersava. A concentração exigida era anormal.
Ele seguiu no ritmo de acordar, fazer seu desjejum, meditar e treinar as técnicas de luta de seu mestre a fim de circular seu orka, e então passar a tarde socando o velho represeiro.
E foi assim durante um mês. Agora conseguia socar a árvore durante cinco minutos inteiros, era um grande feito.
Sua energia circulava com bem mais fluidez, e sua aura havia ganhado espessura. Mas ainda sentia que algo faltava, mas o que?
Ele se sentou de pernas cruzadas, analisando seu punho. Revestiu-o de aura e observou enquanto uma fina camada enluvava a sua mão. Era azul escuro, diferente do azul claro. Estava subindo os degraus lentamente.
Mil se concentrou e ativou a Vontade, puxando um conectivo. Uma pedra surgiu diante dele, mas diferente de antes, veio flutuando lentamente. Ele havia conseguido controlar o fluxo.
Ele observou a pedra pousar em sua mão e sua aura entrar nela feito água sendo sugada por uma esponja. Dois segundos mais tarde, a pedra se deteriorou de dentro pra fora, se tornando um pó cinza.
Milan bufou. Sua aura tinha sido empurrada na pedra, e ela era bruta, mas não resistiu à ambição de Mil contida em sua informação genética. A vontade imperecível.
Milan ativou a Vontade outra vez, fazendo uma pedra maior ondular até ele. Quando esta sugou sua aura, demorou quase um minuto inteiro para que rachaduras surgissem e, por fim, a pedra se tornasse em pó.
A dúvida pairou outra vez. O que estava fazendo de errado?
Esta não era uma técnica ruim, mas Mil sabia que contra um inimigo formidável, danos internos não seriam o suficiente. E uma besta de núcleo ou um orc não se tornaria pó somente com aquele fluxo de aura. Nem o represeiro se tornou.
Mil puxou outra pedra, desta vez do tamanho de uma cabeça de boi. Ela flutuou até ele, lenta e pesada. Caiu diante de si com um baque chato, levantando poeira.
Ele abriu a mão, esticando os dedos e juntando-os. Concentrou-se e formou uma fina camada de aura ao redor dela. Uma lâmina fraca se formou.
De olhou fechados, Milan golpeou a pedra com sua lâmina de aura. Não demorou nem meio segundo para cair suando frio e respirando pesado. A lâmina de aura se desfez.
O esforço era demais para ele. Imaginar a aura ao redor de sua mão era uma coisa, mas a força mental que era exigida para pensar numa lâmina e cria-la era quase três vezes maior.
Ele suspirou fundo, cansado. Mas foi ao olhar para a rocha que algo veio em sua mente.
Diferente de antes, Mil não deixou que sua aura fosse sugada, mas a deixou presa ao seu corpo. Um corte de 0,3 cm de largura se formou. Ele tateou, mas somente a ponta de seus dedos se encaixaram na fenda. Era liso e frio.
Se recordando do golpe dado por seu mestre, não lhe concebia de jeito algum que o mesmo tivesse usado uma lâmina de aura para destroçar a árvore. Ele teria sentido, e toda essa labuta não seria necessária.
Havia algo faltando...
Milan se pôs de frente para a pedra de joelhos e braços cruzados, a cabeça inclinada como se tentasse desvendar um mistério digno de Conan Doyle, ou uma conta matemática de Euclides, o Geômetra.
Ficou horas e horas observando a rocha, até que a noite chegou. Não entrava em sua mente de modo algum. Mas ele sentia que algo faltava, mas o quê?
E ficou daquele jeito, a noite inteira e metade do dia seguinte, observando a rocha e, de vez em quando, lançando olhares de quem tenta perscrutar cada detalhe para a árvore represeiro.
Sua mente ia e vinha naquele golpe de seu mestre. Nada.
Foi somente quando o sol se pôs no meio do céu, uma quentura escaldante ardendo sobre seu cocuruto, que uma iluminação lhe veio.
Milan parecia a criança que deveria ser quando descobre uma curiosidade típica de quem tem oito anos. Era como se tivesse aprendido a amarrar ou aprendido a ler.
Mas Milan já sabia isso desde os três e meio.
Ele observou sua mão, nada parecida com a de uma criança de oito, e observou a rocha.
“E se eu fizer assim...”
Sua aura, já renovada e espessa, envolveu sua mão mais uma vez, somente uma camada fina. Ele se ergueu sobre a rocha apertou o punho.
Desceu-o bem no meio da fenda. Seu punho sequer encostou na rocha, pois ela explodiu em vários pedaços do tamanho de punhos.
Um sorriso enorme surgiu em seu rosto, infantil e inocente.
– É ISSO! CONSEGUI, CONSEGUI, CONSEGUI! – Gritou enquanto pulava de alegria, sorrindo como não fazia há um bom tempo.
Finalmente se acalmou, controlando a felicidade e observou seu punho.
“É isso..., Mas há um longo caminho pela frente!” Pensou, tornando ao seu eu maduro.
O que acabara de acontecer foi simples. Milan havia passado um dia e meio pensando em seu problema, buscando formas de poder replicar o golpe de seu mestre. Mas não lhe concebia o que ele estava fazendo de errado.
Seu mestre, sem esforço algum, destruiu uma enorme árvore com um único e rápido golpe. Na época, Milan soube que era um golpe sofisticado e que não exigia quase nenhuma aura.
Então ele observou a si mesmo e o modo como se comportava quando usava a aura.
Milan não havia aprendido a usar a aura com ninguém, teve de se empenhar e descobrir por si mesmo. Achava que era um descuido de seu mestre, mas talvez este só fosse seu método de ensino.
Antes, Milan estava deixando sua aura fluir para dentro da árvore, o que vinha causando dano interno gradativo. Ele sabia que se aprimorasse sua aura, o resultado poderia ter um tempo reduzido, ou seja, não precisaria esperar tanto para que infligisse danos.
Mas era uma aposta a longo prazo. Milan necessitava de algo pro hoje, por isso quis replicar o modo de luta de seu mestre.
Já havia aprendido a usar os Passos Lépidos, que vinha sendo útil na sua longa e indefinida passagem pela floresta. Aprendeu também a Vontade, e podia controlar objetos ao seu bel prazer, desde que estes não fossem tão pesados ou não possuíssem uma forte vontade – pois existiam objetos amaldiçoados, Milan já lera num livro de maldições do antigo império.
Ele queria um golpe pro hoje, para que pudesse refinar a si mesmo durante batalhas de vida ou morte.
Não evoluiria de verdade se só treinasse sozinho, cortando árvores e pedras, partindo o fluxo de rios e interrompendo o sono de pássaros. Precisava de experiência, para o quanto antes resolver seu problema com o Rei Onírico.
Mas tinha de dar um passo de cada vez.
Os passos vinham sendo dados, e poderia considerar uma vitória aprender a usar a aura em combate quando nunca ouviu falar sobre isso ou seu mestre tinha lhe dito.
Não é como se não tivesse tentado. Buscou em diversos livros, mas sempre que ia à biblioteca de Kaltsmeade, a doce Srta. Grimlock dizia que não possuíam livros daquele tipo ali. Ele sempre tentava uma nova investida, mas sem sucesso.
Até que numa de suas viagens a Pressard, a província a qual Kaltsmeade pertencia, entrou numa biblioteca e descobriu que aquele tipo de livro não era exibido ali. Na época, Milan queria descobrir sobre os feitiços usados pelos portadores, pois achava fascinante. Com certeza haveria algo sobre auras também.
Mas o bibliotecário prontamente recusou, alertando-o sobre uma coisa: que não procurasse mais sobre aquele assunto.
Mais tarde, sua mãe, que era uma aventureira de uma grande guilda, lhe disse que tais curiosidades não eram encontrados em bibliotecas do interior e em livros vendidos por poucos florins – a moeda mais barata do mundo.
Na verdade, estes eram segredos confiados apenas às guildas e ao governo. Não se vendia livros que ensinassem a fazer magia, lutar com espadas e etc.
Apenas aventureiros e nobres com o aval do governo poderiam obter tais curiosidades, e somente aqueles que tinham grande valia ou se mostrassem dignos de um futuro promissor. Em outras palavras, os ensinamentos do mundo Fantástico não eram de direito público, sendo informações sigilosas, que até para Lojas renomadas que quisessem repassar esse tipo de conhecimento, seria necessário um aval do governo e do grêmio. E mesmo os clientes mais antigos não desembolsariam menos que vinte moedas de Estanho Soberano.
Claro que Milan ficou feliz ao descobrir aquilo sozinho, sem nunca ter lido nada do tipo.
Por este motivo, tudo isso era muito novo para ele.
O que ele acabou por descobrir foi que para conseguir projetar o soco de seu mestre, não deveria deixar sua aura fluir e que, naturalmente ela se auto injetasse no alvo. Se fizesse isso, estaria causando danos internos.
Para causar danos externos, só precisaria de algo simples: manter a aura como um escudo em si mesmo. Ou seja, manuseá-la ao ponto de se tornar uma camada externa.
Quando se acalmou e a adrenalina baixou, sua visão escureceu e ele caiu pra trás. Acordou após alguns segundos, pálido. Tinha descoberto algo empolgante, mas isso não viria sem um custo.
Era necessário um controle absurdo para a aura não vazar. Ele notou que sua mão não doía e seu punho não latejava. Talvez porque diferente de antes, sua mão estivesse sendo protegida ao invés de ser um catalisador. Mas havia muito o que treinar...
Com certeza não seria agora, pois do jeito que Mil estava, só fechou os olhos e dormiu.
Talvez tenha sido a conversa anterior com seu mestre, mas Milan soube que estava vagando.
Primeiro que era como se tudo estivesse tomado por uma névoa, e ele não enxergava nada além de cinco palmos de distância.
Ele caminhou e caminhou, mas não estava cansado ou dolorido. Só caminhou.
De repente o ambiente à frente se alargou.
Milan caminhou por uma estrada de barro, ladeada por cercas que separavam quilômetros e quilômetros de um campo arado, ovelhas pastando e vacas ruminando.
A estrada encontrou uma curva, e carroças surgiram no horizonte. Passaram por ele de um lado, indo na direção que ele viera.
Então uma ponte surgiu, e um muro tão alto que olhar para as ameias causaria torcicolo e cegueira.
Ele passou pelo portão de madeira, flanqueado por homens vestindo trajes leves de couro vermelho, capas negras e lanças afiadas. Trajavam sobre as cabeças elmos grandes com fissuras para os olhos e nariz.
Dentro, havia outra estrada, que se estendia para todos os lados. Milan se admirou com a riqueza dos detalhes: o chão era revestido por blocos retangulares de pedra bruta, com degraus que seguia por uma estrada central e bifurcada. Mas ele gostava disso, desses detalhes, sempre fora muito observador.
Haviam enormes alojamentos feitos de pedra branca e telhados de tijolo vermelho. Homens e mulheres surgiam correndo num ritmo lento e coordenado em bandos de seis, trajando nada mais do que coletes de couro negro, calças leves e botas de cano alto. Seus rostos eram severos, pareciam concentrados.
O fluxo daquele lugar parecia lento, mas gostoso e aconchegante. Passou por uma arena aberta, com vários blocos separados e cheios de armas e alvos. Grupos maiores treinavam com afinco.
Passou por um lugar que julgou ser a cantina, pois sentiu o cheiro de pão e moqueca.
De repente não haviam mais alojamentos, somente a estrada se alongando em degraus cansativos, cheia de árvores finas e altas, com distancia moderada entre elas.
No fim da estrada, uma casa pequena, mas grande, surgiu.
Havia um terraço diante dela, e era feita de pedra lisa e retangular, vermelha. O telhado era inclinado, e haviam várias janelas.
Três pontos se destacavam ali. Um homem alto de cabelo ralo. Sua barba por fazer e o olhos cauteloso encarava uma menininha de cabelos loiros. A outra pessoa era uma mulher muito bonita de cabelo curto e olhos verdes.
Milan apertou os olhos, mas eles pareciam estar tendo uma discussão. Ficou longe, apesar de algo lhe dizer para se aproximar.
– É necessário... – A voz dele foi cautelosa e imponente.
Ela virou o rosto e Milan se aproximou.
– Necessário pra quem? – A menina rebateu, irritada. Aquilo pareceu muito familiar para ele. – Faz um mês que venho tentando, e nada...
– Não é algo que se aprende do dia pra noite, querida – disse a mulher. – Precisa de labuta.
Milan se aproximou e ficou estático. Seu coração palpitou tão forte que a alegria de antes não poderia mensurar. Esta alegria era mais do que bem vinda. Era Emma!
Ele a reconheceu..., mas estava magrinha, triste, cansada. De alguma forma mais envelhecida do que antes.
Milan não disse nada, pois sabia que não seria ouvido. Mas girou a cabeça pelo lugar, revirando seus olhos atrás de... atrás de Jorin e Maria.
Não estavam em canto nenhum.
– O que quer que estejam esperando de mim, não posso lhes dar... não sou como vocês esperam. – Ela rebateu.
Ah, Emma, tão geniosa. Um riso coçou o peito de Mil, querendo se precipitar. Era nostálgico.
– Não queremos força-la a nada, Emma – disse o sujeito, a voz contida de grosseria, mas nada nele parecia ser grosso. – Queremos ajuda-la para que nada daquilo volte a acontecer... e para que possa se proteger e...
Milan apertou os olhos. O que estava acontecendo? Por que sua irmã estava ali, e sem seus pais? Por que estava tão doente?
Ele queria gritar, dizer que estava vivo e que tudo ficaria bem. Mas seria inútil.
– O estrago já foi feito! – Ela rebateu. – E eu não sou como ele...
– Sabemos que não. Seu irmão foi um herói e...
– E o que? – Ela gritou. – E eu não possuo o necessário? Aqui vai uma novidade: eu concordo! – ela estapeou o ar para cima. – Isso não é o que eu queria, não é o que quero... É o sonho dele e...
Ela mordeu a boca, lágrimas brotando de seus olhos. Se virou e correu como se não houvesse o amanhã.
A mulher fez que ia atrás, mas o homem a segurou pelo cotovelo, balançando a cabeça.
Emma passou correndo por Milan, e sua garganta fez um nó. As lágrimas brotaram, ameaçando cair, mas não o fizeram.
– Em... – ele sussurrou, e Emma parou, olhando para trás.
Por um segundo, ele encarou aqueles olhos verdes, tão sem brio, tão irremediavelmente cinzentos. Tão parecida com sua mãe. Ela varreu o olhar pelo lugar, e por um segundo se encararam.
Uma ponta de esperança surgiu em seu peito... ela parecia enxerga-lo..., mas foi só isso. Emma se virou e correu, correu como nunca, sumindo nas árvores que ladeavam aquele jardim.
Milan se virou.
– Demos tempo ao tempo. – Disse o homem.
A mulher assentiu.
– Não posso pressioná-la tanto, então vamos somente esperar...
– Queria protege-la... não é sua culpa.
– Nem sua, Lyanna. – Respondeu o sujeito. – A culpa foi minha.
Lyanna se virou para ele, tocando em seu ombro.
– Não... isso não foi culpa de ninguém. Foi uma fatalidade, e ela terá de viver com isso para sempre... só precisamos estar aqui para ela quando precisar conversar. Quando quiser evoluir.
– E estaremos. Ninguém mais a tocará enquanto eu for seu mentor e estiver ao seu lado.
– E ninguém mais morrerá se a ensinarmos como controlar isso.
Ambos assentiram, como se estas promessas os fizessem seguir em frente, como se isso os impulsionasse a manter a cabeça erguida.
Mas uma raiva irradiou dentro de Milan. Se o que ele ouviu era verdade, Emma...
Então uma dor lancinante irradiou de sua lombar, como se sua espinha estivesse sendo retirada.
Ele sentiu um puxão e foi erguido no ar, seus pés tornando a encostar no chão. Outro puxão, desta vez mais severo. O terceiro puxão foi mais forte e ininterrupto.
Milan foi puxado para trás, vendo todo seu caminho como um borrão.
Acordou num pulo. Sapos coaxavam e a noite estava profunda. A lua iluminara o centro da clareira, mas Milan não ligou para os detalhes desta vez.
Seus olhos liberaram toda a carga emocional que ele carregava, irrompendo em jorros de choro infantil. Milan fungou e mordeu seus punhos cerrados, com raiva e remorso. Estava irado.
“Oh, Emma!” E só conseguiu pensar nisso durante um bom tempo.
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