O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 22: AURA

Por uma dúzia de vezes... Diabos! Fora mais do que isso. Milan viu seu mestre lhe derrotar com nada mais do que força bruta.

Mas como ele, Milan, que exalava aura e estava em constante treinamento, conseguia perder para alguém que sequer gastava um pingo de orka?

Então fez sentido para ele.

Da aura, advinham várias habilidades. Sussurros, Vontade, Berserkir... todas com uma ligação profunda com a aura, não o orka. Por que se fosse assim, um civil conseguiria utilizar estas habilidades.

E Milan entendeu porque passou pelos três passos. Ele precisava compreender por si só.

Sussurros era uma habilidade capaz de controlar seres vivos e, dependendo do nível do usuário, a vítima sequer poderia saber disso. Cildin foi bom o bastante para deixar que Milan soubesse.

A Vontade controlava objeto inanimados, e foi a segunda habilidade que Milan descobriu.

A primeira foi Berserkir, que levava o usuário à um estado de mais primitiva sede de brutalidade. Ele lembrava daquele momento, onde seu ser foi consumido por ódio. Sentiu uma reles vontade só de lembrar.

Mas isso fez sentido para ele. Se um áureo usava sua aura para estas habilidades, então Cildin...

Usar Passos Lépidos, uma habilidade que, mesmo em seus estágios iniciais mais básicos também fora aprendida por Mil, então seu mestre também usava algo mais.

Ele com certeza usava a aura para combater. E era num nível tão sofisticado, que alguém sequer conseguiria sentir. Nem mesmo ele, Milan, que tinha uma sensibilidade advinda do recém-desperte.

Ele sentou de pernas cruzadas, focando no vintei ambiente. Focando na energia dos objetos, focando no dontei também. Mas estava longe demais de ser capaz de usar isso.

Tinha a leve consciência de como fazê-lo, mas não faria. Seu foco era outro.

Não apertou os olhos e se concentrou. Isto também tinha se tornado bem fácil. Era como o fechar de uma torneira. Ele ligava e desligava quando queria. Acontecia também de modo inconsciente, e este era bem mais frequente.

Focou em sua aura, azul bruxuleante. Lembrou de como a de Cildin era amarela, quase laranja. Aí estava a diferença também. Na ocasião, ele só sentiu o cheiro, quente e doce. Não viu nada mais do que fagulhas, fiapos de orka.

Mas o dele... era frio e quente ao mesmo tempo. O rodeava em bem menos quantidade do que antes, quando ele sentiu pela primeira vez.

Antes era como se ele estivesse usando pele de panda como jaqueta. Era espesso, e vazava feito água jorrando da nascente.

Agora estava mais comedido.

Milan se imaginou erguendo um braço, mas na verdade era a aura. Imaginou exatamente o mesmo peso, diâmetro e quantidade. Pensou que fosse ser mais difícil do que quando meneava a aura para os conectivos. Na ocasião, tinha de concentrar uma pequena e fina camada de aura para se conectar ao conectivo mais fino ainda.

Se surpreendeu, no entanto, quando o esforço não chegou nem perto. Era realmente mais fácil manejar uma grande quantidade do que se concentrar em imaginar uma pequena.

De olhos fechados, ele sentia a aura se agitando como um braço, feito uma onda. Mas de olhos abertos ele não via nada. Era quase incolor, apesar de estar ali. Ele sentia.

Então se concentrou em transformar a aura numa bola espessa em suas mãos, desgarrando a aura de si mesmo.

Depois de quase três horas, ele suava feito burro, seu orka no limite. Voltou-se para dentro, no seu Mar de Consciência, e suspirou aliviado ao ver a energia intacta.

O orka que ele usava atualmente era do meio ambiente, criando um foco em seu corpo para guardar essa energia. O suor nada mais era do que o esforço excessivo para tentar desprender a própria aura de si.

Ele estava tentando criar uma bola de aura, tal e qual portadores criavam bolas de fogo. Mas era difícil. Difícil pra burro

Era como se estivesse tentando arrancar pele de urso com os dentes. Então desistiu de tentar, pois já não aguentava mais circular orka por seu corpo ao passo em que tentava fazer essa loucura.

Mas não desistiria fácil.

Suspirou fundo e se pôs a meditar. Era nestas horas em que uma clareza alcançava o sujeito.

A aura podia ser usada para combate, do contrário, seu mestre não teria vencido Droner somente com força bruta.

Mas e se ao invés dele tentar se separar de sua aura, como um portador faria, por que ele não tentava algo mais prático?

Não deveria se prender a amarras.

E se ele tentasse se proteger com a aura?

Abriu os olhos e só então percebeu que era dia. Deu um sorriso e se ergueu, caminhando por entre as pontes de galhos médios das árvores.

Tirou uma pera de dentro de suas vestes e mastigou durante todo o caminho.

Alguns dias atrás tinha encontrado uma clareira que, por algum motivo, estava livre de predadores. Foi o único lugar que encontrou na primeira semana.

Mas sabia que haveriam outros.

Chegou lá em alguns instantes, ciente de que se descesse, poderia virar o desjejum daquelas feras que espreitavam.

Mas era como ele adivinhou: a clareira era enorme e compreendia uma série de árvores enormes de junco alto.

No térreo, Milan observou algumas sentinelas de tronco grosso e antigos represeiros.

Se aproximou e tocou-as. Seus olhos se alargaram. Ela era rica em energia, tão antiga quanto a vida pensante.

Então aquele era um santuário, talvez por isso os predadores nem se aproximavam dali. Elas os expulsavam, pulsando energia, pulsando vitalidade.

Milan passou sua mão por ela, acariciando. Ela falou com ele, ela lhe concebeu energia. Ela lhe deu calmaria.

Uma calmaria que Milan não queria, e ele afastou sua mão, piscando forte. Encarou o chão, se perguntando o que tinha acabado de acontecer.

Isto é, ele estava agora considerando tudo o que jurou nos últimos meses. A vontade inabalável.

– Não preciso de sua pena – disse, para ninguém em específico. Ergueu o rosto, determinado. – Preciso de sua ajuda, para ficar forte, para não deixar que nada daquilo ocorra de novo...

“Pensamentos nobres” Ele pensou. Ou será que eram dele mesmo? Os pensamentos. “E depois de sua vingança, o que sobrará?” Ela de novo, a voz em sua cabeça.

Era seu senso comum, ou algum poder obscuro tentando livrá-lo do mal que estava disposto a causar... disposto a se tornar.

– Sobrará cinzas e ruínas. E eu sobrarei.

Um arrepio o percorreu, como o medo mais profundo poderia lhe causar. A ânsia por poder, o tremor de um coração angustiado. As lembranças de uma vida que não eram suas.

Será que aquela devastação observada em primeira mão foi uma vida passada, ou era somente ele vagando pelo mundo dos sonhos de alguém?

E essa voz na sua cabeça. Ela se calou quando sua determinação não se abalou. Não havia uma causa nobre, não havia um depois. Só havia a vingança, e Milan não a largaria tão facilmente.

Vagueou o olhar pela longa clareira, brevemente iluminada por três fachos longos de luz, com o formato de folhas farfalhando.

Sua vista pousou num enorme e antigo represeiro do outro lado da clareira. Convidativo. Ele sabia o que fazer.

Caminhou até lá, diminuindo o passo e respirando, sabendo que era observado. Eram as árvores, detentoras de espíritos das florestas, ou os predadores, ansiosos para um deslize.

Ele não vacilou um segundo e logo estava lá.

Levou a mão ao tronco, e se surpreendeu ao notar sua firmeza e dureza. Usou o Sentir, e teve certeza: ela bastaria.


***


Seis horas haviam se passado, e as mãos de Milan estavam encharcadas de sangue. Ele não estava nem um pouco abalado.

O tronco da árvore sequer estava arranhado. A dureza da árvore fizera jus.

Mil se lembrou do último treino com seu mestre, quando ele partiu uma árvore ao meio com um único soco. O que ele precisou para chegar naquele nível?

Milan não sabia, mas estava ansioso para saber.

Seus músculos latejavam, mas a dor o deixava vivo, o deixava feliz. Não sentia vontade de parar, queria continuar até estraçalhar seu punho. Estraçalharia, mas nenhum proveito viria disso.

Então parou um soco e respirou fundo. Não precisou fechar os olhos para se concentrar; só precisou querer, e a aura estava diante dele, incolor, mas presente.

Imaginou a aura se tornando uma camada por seu corpo, fina, mas forte. Respirou fundo e deu um passo para trás.

Apertou o punho e socou o tronco da árvore.

Sua mão não doeu tanto quanto antes, talvez fosse só a dormência camuflando o sentimento de alerta. Mas seu olho arregalou e seu sorriso cresceu.

Ele notou na árvore uma pequena mudança. Não era aparente, mas havia. Era como se ele tivesse causado dano à energia dela. Seu casco estava inconfundivelmente inabalado. Não havia sequer uma rachadura.

Mas internamente ela sentiu o baque.

Milan fitou seu punho. Então tinha sacado.

Seu mestre lutava se revestindo de aura, no nível que chegara, seria necessário o mínimo para tal. De fato, ele foi capaz de partir uma árvore ao meio. Não uma árvore forte feito essa, mas forte.

Então um mar de possibilidades se estendeu para ele.

Ele foi até o meio da clareira. Focou na sua aura, a fim de criar uma maleabilidade maior. Seu controle ainda era fraco, e ele quase não conseguiu se revestir de aura sem que desmaiasse.

Cildin foi claro nas práticas de aumento de aura. Para práticas espirituais, eram elas: meditação, prática de reiki, oração e conexão com a natureza.

Bom, meditar ele já fazia sem qualquer preambulo, e teria conexão com a natureza melhor do que essa?

No entanto, Milan não tinha qualquer vontade de praticar reiki e oração. O reiki era uma prática espiritual holística, de origens misteriosas, que buscava equilibrar e harmonizar o orka, mente e espírito. Milan não era muito espiritual.

Os princípios básicos eram não se preocupar (anotado); não se irritar (impossível, mas tentando anotar); ser honesto (ele era a criança mais honesta do mundo) e ser compassivo.

Este último não funcionaria nem em um milhão de anos. Milan só sentia ódio, remorso e raiva. Como poderia amar alguém quando perdera a fé?! Era triste que uma criança como essa pensasse assim, mas essa era a verdade.

As práticas físicas ensinadas por Cildin eram: pensamentos positivos (Milan deixou para rir quando Cildin dormiu. Ele quase não conseguiu aguentar);  visualização – que consistia em visualizar uma aura brilhante e expansiva. Milan só conseguia visualizar a morte de Droner. As mil maneiras de se matar um orc; poderia até virar um manual para meninos perdidos.

Autoconfiança, perdão e gratidão. Milan tinha confiança de que conseguiria matar o orc, então estava anotadíssimo. Os outros dois ele descartou.

Ainda haviam as técnicas específicas, como respiração profunda, cantos sagrados e meditação com cores.

Milan usou tudo o que estava ao seu alcance. Só não queria se tornar uma madame de meia idade da cidade alta de Pressard.

Buscou se concentrar; era só ligar e desligar. Imaginou a aura lhe permear, e iniciou os movimentos e exercícios.

Nenhum movimento deveria ser descartado, e ele tentou evitar o excesso de uso dos músculos, bem como movimentos que não agregavam em nada.

Mas havia uma maestria que ainda não lhe era concebida. Talvez fosse a consciência limpa, a certeza de que não faria nada de ruim, mesmo que seus desejos mundanos exigissem isso, como um desejo carnal e incapaz de ser evitado.

Talvez Cildin fosse puro demais, casto demais... santo demais. Mas ninguém permanecia tanto tempo naquele mundo sem se corromper. Será que o elfo havia se corrompido, ou passado por dificuldades grandes o bastante para se corromper? O que o tirou do fundo do poço? O que o libertou?

E à medida em que ele treinava, se perguntava se queria ser liberto, se queria passar pelo processo de auto reflexão, carregada de um cinismo escancarado, carregada de uma vontade não sua, mas do mundo de querer que ele fosse melhor.

Ele queria ser melhor? Sincera e verdadeiramente?

Ele teve a oportunidade de ver um mundo ao qual lutasse por ele e, consequentemente, quisesse levar a sua bondade para ele? Ele, Milan Sgaard, de oito anos, com a mente de quase vinte, tragicamente envelhecida, queria ser um herói? Ou essas vontades pertenciam a uma casca não sua, uma vontade distante e infantil. Algo do passado, não seu. Nunca seu.

De novo: ele queria ser um herói? Ele queria ser melhor? Ele queria salvar o mundo? A resposta que se precipitou por sua garganta o fazendo engasgar era uma só. Não haviam meias verdades e Milan era sincero demais.

E ele não se arrependeu dela, da resposta; nem tentou evitar de pensar nela e de querer ela. Ele não tentou se enganar, não por que era bom demais, mas por que era sincero demais. Ele não era mentiroso.

Mas a mentira não era a filha de seu pai? Não era a filha do encarnado, o mal duradouro e sem perdão?

‘Portanto, cada um de vocês deve largar a mentira e falar a verdade ao seu próximo.’

Milan recordou aquelas lembranças que o fizeram arder em vontade. A maldade escancarada.

Se ele quisesse seguir o caminho que estava disposto, sem omitir e sem fingir nada, ele não deveria aprender a mentir? Ser sincero não deveria ser dádiva única dos seguidores fieis d’O Pai?

Ele era merecedor disso? Ele poderia ser sincero e ainda assim seguir o que estava disposto a seguir? Não havia resposta, por que ele não era de todo mal, e se ele não era de todo mal, ele não poderia ser de todo bom. Não, não poderia.

Possibilidades.

O que sua mãe diria quando o encarasse, no futuro, vendo nos olhos de seu menino todas as coisas ruins que fez  e estava disposto a fazer? Será que o perdoaria? O filho pródigo retorna.

Não, o diabo em pele de cordeiro, o cão encarnado, puro de maldade. Sem perdão, sem desculpas, sem mentiras, sem meias verdades. Por que a vingança o corromperia, e ele não seria capaz de enjaular aquela raiva e ódio ali dentro, a vontade por mais. Deus sabe que não.

Aquela sede de sangue... aquela vontade que voltava com ele cada vez que sonhava com aquele sujeito... com ele arrancando vísceras com as mãos e mordendo o coração feito espólio. Se perguntava se este era um desejo seu ou de outrem.

Por que não havia glória nem orgulho nisso. Nada de heroísmo.

De novo: ele seria capaz de abandonar tudo isso antes que fosse tarde demais? Milan era sincero demais, e não mentiria para si. A vingança não seria o fim, por que ela é um prato que se come frio. E Milan se tornaria a frieza, a maldade. A vingança.

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