O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 21: POSSIBILIDADES

Milan estava empoleirado sobre um galho grosso e pesado, observando a obscuridade da noite.

Estava sensível aos desejos do mundo, isto é, sua percepção aguçara-se, e ele já dominava os ensinamentos básicos dos três passos.

Sentia o frio 3x mais, como também ouvia os longos e longínquos sussurros de criaturas escondidas e amedrontadas diante o pavor noturno daquele organismo incendiário e natural. Aquela floresta obscura.

Não se atreveu a acender uma fogueira, temia despertar monstros perigosos demais para que pudesse lidar. Ao invés disso, sua mente vagava por cada luta que travou com seu mestre nos últimos meses.

Ele reescrevia todos os movimentos em sua cabeça, cada movimento milimetricamente calculado, cada passo dado, cada menear de cabeça e farfalhar de árvores.

Não lhe concebia como seu mestre detinha tanta força num corpo tão pequeno. Num dos treinos, ocorreu-lhe de perguntar, o sujeito apenas riu e disse que ele deveria descobrir sozinho.

Milan era sincero demais para não admitir que isso causava raiva, um desapontamento tolo brotando feito ouro negro. Estava ali, pau a pau com o fogo do ódio que carregava, forçadamente empurrado ao mais profundo poço de seu âmago.

Neste período, Mil já cansara de sentir raiva de tudo e todos. Sabia que era uma batalha perdida e exaustiva, demandando cada aspecto de seu ser a uma disputa sem fundamentos. Concentrava seu ódio para um único e específico alvo.

Mas ele era esperto demais pra saber que, por enquanto, isso só o atrapalharia. Por isso deu o que seu mestre queria, até mesmo para que pudesse aprender aquilo que estava destinado a aprender.

Mordiscou a maçã que pegara mais cedo, enquanto brincava com uma pedra. Estava mais para treinamento do que brincadeira.

Concentrava-se no fino fio do conectivo, enquanto expelia uma pequena e fraca aura, a fim de puxar e jogar a pedra, ao passo que tocava levemente os outros conectivos do vintei. Percebia como estava se tornando um hábito, tão simples quanto respirar, tão simples quanto pensar.

Era algo básico, mas essa brincadeira boba o ajudava a fortalecer a sua conexão com a Vontade.

Já sentia que o repuxe não era tão presente e algo mais natural. Ao jogar a pedra, puxava um dedo, como se estivesse brincando com um Ioiô. Ela voltava, subserviente e com fluidez, sendo aparada pelo Expelir e jogada longe outra vez pelo próprio ato feito o respirar. Em breve, gostaria de estar fazendo isso com um pensamento.

No início, precisava se concentrar. Passou doze horas olhando para a pedra, tentando encontrar o conectivo. Foram mais doze horas para conseguir tocá-lo.

Depois de muita prática, bastava senti-lo e demandar toda sua força de vontade para aquilo. Foi duro, mas conseguiu colher os frutos disso.

No momento, estava satisfeito, pois bastava sentir o conectivo e erguer uma mão. Foi o método que encontrou para diminuir o tempo de concentração e repuxe ao meio. Foi observando seu mestre que chegou ao presente resultado.

Não se importava que era um método mais prático e que fosse como se estivesse trapaceando, no momento, ele conseguia agarrar até três objetos ao mesmo tempo com a metade do tempo, somente erguendo as mãos e gesticulando com os dedos. Não era o apropriado, já que a Vontade era uma habilidade áurea mental. Era trapaça, mas no fim ele colheria os frutos mais uma vez.

Seu mestre não mostrou desconforto, cada método era único. Contanto que no futuro ele conseguisse controlar a Vontade como quem se lembra do alfabeto, estaria ótimo para ele. O céu não era o limite.

No fim, tudo sairia como ao seu querer bem, já que ele tinha avançado o bastante ao ponto de brincar com a pedra e, ao mesmo tempo, demandar sua força mental para outras coisas.  

Entrementes, Milan observava o fluxo da floresta. Sabia que ali não havia o traço de proteção de antes. Era como se o lugar não fosse nada além do que deveria ser: um organismo vivo que abrigava a mais pura lei da selva, cheia de criaturas à espreita.

Talvez não houvesse a presença dos senhores das florestas, com seus dorsos esguios e naturalmente humanos, tão distantes de seus troncos nada naturais de cavalos. Estas criaturas eram para si mesmas o que a racionalidade é para as bestas de núcleo. Totalmente desconexas.

Mas Milan os sentia, os perigos noturnos, e sabia que os mais perigosos também o sentiam. Estavam ali embaixo, procurando sua presa, sondando feito uma pantera negra prestes a abocanhar seu desjejum.

A raiva aumentou sem razão aparente. Uma impaciência sem tamanhos. Milan não conseguia evitar, mas era sincero demais, e não se culpava por isso. Focou em seu treinamento, focou em buscar mais conectivos.

Uma rocha cheia de musgo, uma raiz profunda, um roedor se escondendo de seu predador... sua mente vagou distante outra vez.

Se pegou pensando em sua família, um ódio obscuro fervilhou. Tantas possibilidades, havia tanto que fazer por lá. Quem sabe se não tivesse sido transportado por meio mundo, que poderia ter acontecido?

Será que teria virado um ferreiro?! Provavelmente não. Teria despertado, e entrado para uma grande guilda, decerto. Lembrou das horas que passou lendo durante a noite sobre elas, as guildas.

Horas perdidas com sua irmã bonequeira resmungando para que apagasse a luz. Ah... Emma! Que saudade.

Eram horas em que sonhava ser um grande aventureiro da Guilda Solus, uma das três maiores de toda Bravaterra; ou quem sabe da Guilda Diamante Lunar, e que tal da Guilda Gluminosos...?!

Sonhou que era o capitão de sua própria guilda, que passava por reajustes de nome naquele infindo momento.

Naquelas memórias antigas e distantes, tão distantes quanto o sopro da vida. Tão distantes quanto a estrela mais próxima.

O tempo calejaria a sensibilidade, como bem vinha fazendo, obliterando a memória das coisas.

Mil leu um livro de fantasia certa vez, cheio de pensamentos filosóficos e obscuros, cheios de temor, morte e medo. Algo não para ele, claro. Mas gostava daquilo, e em certo parágrafo, dizia que memórias são coisas perigosas.

Você pode revirá-las sem parar, até conhecer cada canto delas, mas ainda assim acaba encontrando uma aresta e se cortando.

Revisitar aqueles momentos que não voltariam... a cada dia as memórias pesariam um pouco mais. A cada dia elas o arrastariam um pouco mais para o fundo. Você da corda nelas, uma de cada vez, acenando com sua própria vestimenta da morte; sua mortalha. Você constrói um casulo e dentro dele a loucura aumenta.

Isso queria dizer que ele deveria deixa-las para trás? Certamente sim. Mas e sua vingança? E tudo o que estava fazendo agora?

Sua mãe gritaria por justiça, não vingança. Justiça. Mas ele teria o bom coração de dar justiça à sua perturbação? Ao provedor de seus pesadelos? Decerto que não.

Pois ali dentro, bem dentro, consumindo cada canto dele, cada molécula, cada célula, cada órgão, cada veia e cada partícula por menor que fosse, pulsava a doce e ansiosa sede por vingança.

Milan não estava preocupado com meias verdades e meias possibilidades, não teria ido com seu mestre se estivesse. Ele queria aquilo que tanto ansiava a cada dia de sua vida. Aquilo que tanto sonhara.

Nem que o ódio o consumisse, nem que raiva brotasse e o mundo queimasse. Nem que o controle fosse sobreposto pela perda da sanidade. Nem que tudo o que ele tivesse de fazer fosse corromper a si mesmo e ao mundo... ele teria sua vingança. Ele teria.  

Voltou a si quando notou que jogou a pedra alto demais, despertando o piar de aves acima. Sorriu levemente, estava se perdendo em memórias e isso não era bom. Nada de útil viria em revisitar um tempo que não voltaria, ele dizia a si mesmo, nada de útil... ainda assim...

O garoto tornou a se concentrar nas lutas revividas em sua mente. Sua memória era boa assim. E essas eram memórias que revisitaria sem qualquer remorso.

Afastou cada diálogo bobo, focando nos passos do seu mestre. Ele era rápido, usando o mínimo de orka...

Então algo fez sentido para Mil. O orka era a energia interna, mas a aura era diferente. Claro, para usar aura, era necessário orka, mas o orka era energia vital de todos, e a aura uma habilidade, tal e qual o fascínio era para os portadores. Nem todos a possuíam. Somente quem tivesse...

A vontade inerte, a ambição inebriante, o querer, o vigor...

Lembrou de Cildin dizendo que as habilidades áureas eram sistemas únicos de cada usuário, dependendo da personalidade de cada um. Aura também o era.


E sua memória vagueou para mais distante, quando Cildin derrotou Droner num combate unilateral.

Na época, o orc usou algo incomum. Milan não lembrava de ele estar portando armas, mas em um piscar de olhos elas surgiram.

As armas brilhavam e mudavam de forma sempre que isso acontecia. Sim, um portador combatente, como Cildin bem disse.

Como Milan poderia ter esquecido disso? As tatuagens surgiram ondulando por sobre as cicatrizes e seus músculos feito liga de cobre.

Um portador combatente deveria conjurar armas de combate a seu bel prazer somente com a força de seu orka. Ele era um usuário do fascínio, portanto.

Neste mundo, haviam escalas de poder muito bem definidas.

Poderes que conseguiam ser dobrados a vontade de seu usuário sem qualquer explicação aparente eram chamadas de Fascínio. Seus usuários eram os Portadores.

Um portador podia dobrar os céus, manipular os elementos, modificar o gene molecular de objetos inanimados, dá-los vida parcialmente. Ou seja, era a arte de produzir efeitos não naturais, manipulando princípios ocultos, interpolados pela intervenção de seres fantásticos.

O primor era uma espécie de fascínio raro, que pouco se via neste mundo. No fascínio, homens poderiam fazer brotar fogo feito uma moeda dentro de um cofre. No primor, algo mais magnífico poderia acontecer.

Áureos detinham a vontade obscura. Sujeitos que lutavam de mãos nuas, fazendo-se valer da própria ambição feito escudo e fio. Fazendo-se valer de nada mais do que o próprio querer. E estes eram perigosos.  

Um portador combatente deveria ser alguém que usufruía disso para uma luta corpo a corpo. Então eles não deveriam ter um arsenal tão abrangente quanto a casta primária.

Saber disso fez em Mil surgir uma ampla gama de possibilidades.

Certa vez ele viajara com o pai para Pressard, uma das maiores províncias do reino de Kampefeltt.

Lá, ele vira homens lutando entre si, com nada mais do que espadas e lanças e elmos e armaduras laqueadas. Não ficou fisgado. Não sentiu o brio infantil e modesto do sonho. Mas ele vira um combate entre portadores.

Foi mágico. Ele não sabia o que queria ser e possuir até aquele momento, até o momento em que viu um homem erguer um muro e dele dez construtos de madeira, vermes e pedra gasta. Só viu que acabou quando percebeu os construtos destrambelhados por um feitiço de raios. Lembrava-se de o céu escurecer, de lampejos e uma luz cegante.

Agora se perguntava quem venceria: um áureo ou um portador. A resposta deveria estar clara, mas não estava.

Uma coceira irrompeu dentro de sua costela. Não conseguiria cessá-la nem se rasgasse sua pele e arrancasse a carne fora.

Um portador combatente...

Cildin conseguiu vencê-lo sem dificuldades. Mas com o que? O que é que o elfo fazia para suportar tais adversidades?

Experiencia contava, claro. Ele deveria ter o que, uns mil anos? Mil sabia que não, mas riu com a possibilidade.

Mas o que era...

Então algo brotou em sua mente. Um mar de possibilidades. Se ele conseguia expelir sua aura em lufadas de ar, e se ele conseguia, através de uma conexão mental e energética, mover objetos, então...

Um sorriso brotou em seu rosto, tão mortal e medonho quanto poderia ser. Possibilidades.

Então ele terminou a maçã numa só mordida, quase engasgando com a semente, e se sentou cruzando as pernas.

Focou no seu treinamento, nos ensinamentos de seu mestre.

Ele era um garoto que pescava as coisas rápido. Não podia se dar ao luxo de se fazer de bobo.

Focou na luta em sua mente. Não poderia recriá-la em cada parte, em cada aspecto. Sabia disso.

Focou... o que estava deixando passar?

O que... o que... Ali!

Como não se ligou nisso? Como...

E se ele se focasse em dar forma à sua aura... e se...?

Possibilidades.

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