Volume 1
Capítulo 20: SENHOR CAPITÃO DA JUSTIÇA
Gerrard Ely estava sentado em um banco pouco confortável numa carruagem de tração toda feita de metal, sendo levada por quatro lindos cavalos pesados. Observava a paisagem mudando pela janela, a chuva caía torrencialmente.
Ele nunca sabia o que esperar daquele mundo. O clima era uma incógnita. Seis meses atrás, quando fora ali pela primeira vez, estava nevando. Esperava que estivessem na primavera, mas quem decidiu isso?
Inverno. Cascatas e mais cascatas de jorros de água caiam, como se o mundo fosse acabar. E ele sequer estava preocupado com isso. Ou com o fato de que a carruagem ficasse emperrada com meio metro de lama até a metade mais uma vez, e tivessem de interromper seu percurso.
Não, ele estava era preocupado com a situação que encontraria. Todos os dias voltava para sua mente aquele dia em que quatro meninos morreram e uma menina ficou traumatizada, após o ataque de uma besta de núcleo.
Ele, como capitão de uma Instituição conhecida como Grêmio, que atuava diretamente sob as ordens do rei e seus ministros, ficou atolado em problemas até o pescoço. Por que o rei tinha de dar uma resposta ao povo, que seguia frenético e impaciente. Queriam respostas. Quatro crianças.
E lá estava Gerrard, indo novamente até aquele fim de mundo, onde nada mais do que ferreiros e mercadores viviam. Onde nada mais do que neve e chuva e aqui e acolá uns diazinhos de verão despontavam.
Mais problemas. Kaltsmeade. Mais problemas.
Finalmente chegaram na estrada asfaltada, onde, dos lados, apareciam a cada mil metros uma estalagem. Se a carruagem tivesse sorte de parar mais uma vez, que fosse próximo a um desses acolhedores lugares.
Ely olhou para a papelada em suas mãos. Dor de cabeça. Uma menininha de cabelos longos e claros com uma franjinha rente aos cílios, encarava o nada com olhos verdes e arredios, medrosos. Era a foto de uma menina cujo irmão despertou, há seis meses; ele fora a resolução dos problemas naquela época, agora ela fora a causa deles.
O capitão releu o relatório com olhos gelados e cansados, revisitando toda a história já lida mais de cinquenta vezes nos últimos três dias.
Tinha estacionado espiões em Kaltsmeade, a fim de vigiar a família da menina, com a tola esperança de que pudesse tirar proveito dessa tragédia toda. Seis meses depois, se culpava. Foi tolo, impaciente e ganancioso demais.
Levou a mão ao rosto, e só agora se tocou que precisava fazer a barba. Seus olhos arderam, em decorrência dos dias sem dormir. Deslizou a mão pelos cabelos, buscando um conforto inerte ali. Adorava fazer isso quando mais novo. Percebeu que só fazia isso quando tinha um enorme problema para resolver.
Ficou matutando a história toda de novo, criando os cenários na mente, até que ouviu o som do cocheiro gritando, e a carruagem brecando. Dali a poucos segundos, a porta se abriu para um mundo gelado e cheio d’agua.
Uma mulher de um curto cabelo negro olhou para ele. Ela tinha se esforçado para que a capa não a molhasse muito, mas foi inevitável; estava encharcada. Ely observou o broche preso ao peito dela. Era o brasão da Entardecer, guilda que ele prontamente alocou em Kaltsmeade.
– Capitão do Grêmio, sou Lyanna Gusman, oficial destacada para recebe-lo. Queira me seguir.
Ely assentiu; era a primeira vez em muito tempo que não ficava sem voz diante de uma mulher. E não poderia ser num momento menos propício para isso. Ficou encantado com sua beleza, e encarou seus olhos verdes por tempo demais.
Percebendo isso, Lyanna não deixou de soltar um suspiro. Não era a primeira vez que isso acontecia.
Ely, que soube que ela percebeu, voltou a si. Não era hora nem o momento, recordou. Nunca seria.
– Obrigado pelo seu serviço, por favor, tome a frente.
Seguiram pela chuva, enquanto ouviam o Ploc das botas ressoando no asfalto enlameado. Ely olhou ao redor, procurando por algo. Haviam muitos oficiais, na verdade.
– Estão sendo alocados muitos oficiais recentemente – observou Ely, quebrando o silêncio.
Lyanna assentiu e olhou de soslaio.
– O líder da guilda aumentou a patrulha, já que os membros do Grêmio estão em minoria e não podem estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Gerrard notou o sutil tom de crítica da Oficial. Era uma verdade. Os patrulheiros do Grêmio não estavam em maioria se comparados com os de Guildas grandes como o Entardecer. Mas com a recente troca de líderes, Gerrard não esperava que estivessem tão bem.
Notou os oficiais muito bem vestidos, trajando armaduras e até armas de alto escalão. Gerrard era muito observador e tinha bons olhos para tais coisas. E tinha sido adotado por uma família de ferreiros, por isso sabia que as armas eram boas. Bastou colocar o olho na espada de Lyanna.
Então Balin não era um tolo completo. Mas havia caroço nesse angu. Dez moedas de ouro não deveriam ser capazes de reestruturar todo o vestuário de uma guilda tão grande. Gerrard guardou isso para depois.
– Com a criação das guildas, tem sido difícil o alistamento voluntário de futuros guerreiros.
– É por isso que ficam de olho em prováveis despertados?
Ely sorriu. Não era de todo uma mentira.
– Não julgue nossos meios quando estes são em prol de um belo fim. Deus sabe o quanto as guildas tem tirado de nós.
Lyanna assentiu, mas não em concordância. Virou numa viela, onde haviam vários oficiais.
– No fim, todas devem juramento ao rei e à pátria, e uma ordem dele é impossível de ser ignorada.
– Decerto que sim – passaram pelos oficiais estacionados e fizeram uma rápida mesura com suas cabeças. – Mas são tempos caóticos, e decerto que o rei tem em mente uma utilidade mais convincente para as guildas.
– Afinal, elas têm lucrado mais trabalhando por fora do que a mando da corte.
Gerrard franziu a testa. Lyanna claramente estava insatisfeita com algo. O capitão escolheu deixar isso pra lá.
– Fale-me da criança.
A oficial assentiu, sabendo que o dever era mais importante do que problemas pessoais.
– Ela foi colocada sob vigilância constante. Ninguém entra nem sai sem que um oficial de alta patente decida que deva fazê-lo.
Gerrard olhou para o céu, observando as altas construções.
– E houve alguma aparição de besta depois...
Lyanna negou.
– Não.
– É por isso que a população está...
A oficial parou diante de uma escadaria que levava para uma porta logo abaixo. Haviam dois oficiais de prontidão ali, segurando lanças novas e afiadas. Com que dinheiro...? Não.
Gerrard olhou para as duas esquinas, distantes e ladeadas por apenas dois guardas cada uma.
– Eles têm medo, capitão. O amor virou ódio, e a maldição que é para alguns... – Ela se retesou, franzindo os lábios. Gerrard encarou aquele gesto, suprimindo uma louca vontade de... Céus!
– O senhor sabe como é. – prosseguiu ela. – Para alguns é doloroso, e pode ser o causador de traumas obscuros e inesquecíveis. Principalmente para uma criança assim. Só... só trate de ser gentil...
Ouviram um grito e desceram as escadas correndo, pouco se lixando se cairiam ou não.
Gerrard levou a mão à sua própria espada. Chegaram diante da porta, e o capitão levou seu pé sobre ela.
Havia um pequeno vão cinza com uma cama e paredes cheias de marcas retangulares. Na parede extrema, havia uma pequena janela no alto, que produzia um pequeno quadrado iluminado no chão.
Sobre a cama, a menina da foto estava encolhida entre duas paredes, tremendo e apavorada. Um jorro caia por seus olhos.
De pé próximo à porta, havia um homem alto de queixo quadrado e cabelo castanho.
Gerrard levou poucos segundos para entender. Bastou olhar para a menina e seguir seu olhar... o cinto do sujeito estava aberto, e ele lutava para ajeitar a blusa. E ele tremia, céus... como tremia.
Ele ergueu uma mão trêmula, apontando para a menina.
– E-ela...
– Que você estava para fazer? – Bradou Lyanna. – O que você fez?
Gerrard nunca esteve tão frio e calmo como agora. Por fora, era uma carranca indecifrável da mais pálida e incomum indiferença.
Por dentro ele borbulhava. Era ódio. E de repente se lembrou por que tinha tanto nojo de guildas e de oficiais. Por que para eles, era apenas pelo dinheiro.
Foi por isso que trabalhou duro para se tornar o ápice da justiça no Grêmio. Para defender as dores das pessoas, para que os indefesos pudessem proferir seus medos e serem acudidos. Para poder ser aquele quem ouve e quem protege. Aquele que iria pelo povo. O verdadeiro significado de Cavaleiro Real.
Com uma breve olhada para trás de Gerrard, Lyanna entendeu e correu até a menina, que apertava a cabeça e também os olhos, chorando e soluçando feito a criancinha que era.
Ely se virou para o outro.
– Você deveria protege-la.
– N-não
– Deveria impedir que coisas ruins acontecessem. Deveria evitar que mais trauma fosse incutido a esta criança. Mas a corrupção é o mal do homem, assim como a soberba, a perversidade e a incapacidade de reprimir desejos tão imundos e impuros.
O sujeito derramou lágrimas, ciente de quem estava à sua frente. Gerrard Ely apertou o cabo da espada e desceu sobre o corpo do sujeito. Ele golpeou e golpeou, incapaz de parar, incapaz de evitar a vontade que tinha de observar enquanto aquele corpo perdia o brio, perdia a vida, enquanto aquele corpo era dilacerado ante sua justiça.
Gerrard Ely apenas observou após tudo isso. Cansou-se dos falsos comedimentos e a falsa modéstia. Cansou-se do mundo.
***
Mais tarde naquele mesmo dia, Ely seguia dentro da carruagem estrada afora. Do seu lado, a pequena e doce Emma Sgaard dormia feito um anjo. Não parecia nem um pouco a menina que despertou há dez dias e, em prol disto, assassinou vinte pessoas devido a falta de controle.
Era uma despertada do fascínio, afinal. E poderia ser uma aprimorada.
Gerrard, frio como nunca, ordenou que Lyanna levasse sua carta aos Sgaard, com palavras escritas e guardadas numa gaveta há mais ou menos três meses, quando soube que o despertar da menina poderia estar próximo.
Tudo isso poderia ter sido evitado. Ele foi complacente e descansado. Mas não seria mais. Tentaria evitar todo o trauma desta garota, e a protegeria como seu irmãozinho lutou para protege-la. Seria seu mestre.
Observou enquanto ela dormia, os olhos revirando sob as pálpebras. Levou a mão à testa dela, afastando seus cabelos claros dos olhos. Ela tremeu.
Olhou de volta para a janela, e observou enquanto o mundo caía... outra vez.
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