Volume 1
Capítulo 19: MILAN SGAARD
– Tudo ao redor retém energia – Cildin disse, de braços para trás numa voz nasalada. Seus olhos de peixe semiabertos prescrutavam um Milan concentrado e focado. – As pedras, o solo, as folhas, as árvores. Tudo. Mas não é uma energia consciente, por isso é chamada Vinteiru.
Mil respirou fundo.
Cinco meses haviam se passado.
Desde então, iniciaram um árduo treinamento. Dia e noite, Milan treinou. Fosse mental ou físico, ele treinou. E se aperfeiçoou.
Sua rapidez em aprender e dominar as coisas num espaço curto foi um diferencial. Em poucos dias, ele já conseguia sentir sua energia e a de Cildin. Em duas semanas conseguia colocar em prática os três passos básicos do Orka: Sentir, concentrar e expelir.
Cildin havia sido claro que ele seria 5x mais forte quando pudesse executar isso com maestria, mas mesmo nos estágios iniciais, Mil sentiu a diferença.
Era uma outra perspectiva. Ele via o mundo com outros olhos. Antes, Mil tinha problemas de visão, e o óculos existia para ajudar em sua necessidade. Mas quando ele sentiu o Orka, viu a diferença. Via tudo com mais cor, e notou como tinha uma percepção lenta da realidade. Era como se antes estivesse submerso no mar, e após Sentir, emergisse.
Depois disso, veio o concentrar, e o processo foi árduo. Milan demorou seis dias somente nisso. Não conseguia se concentrar, pois Cildin não deixava, e isso era parte do processo. Após conseguir controlar seu gênio, que não era dos melhores, e aprender a lidar com as constantes provocações propositais de seu mestre, Mil expeliu conscientemente seu orka.
Quando ele sentiu sua aura sendo expelida por vontade própria, foi algo mágico. Nada que ele vivera antes se comparara a isso.
– Pode ser o básico – Disse Cildin, num dos treinos do Concentrar noturnos. – Mas se quiser acessar as habilidades como o modo Berserkir, terá que fazer mais do que isso.
Cildin foi claro que o modo Berserkir necessitava de grandes quantidades de orka, e conseguir controlar o próprio gênio era essencial, apesar de grande parte dos usuários não serem conhecidos por ter um gênio simples. Talvez tenha sido por isso que Mil o despertou e possuísse enorme afinidade. Ele não era alguém fácil de lidar.
Milan estava de sentado de pernas cruzadas e as mãos nos joelhos, de olhos fechados. Uma leve brisa ia e vinha soprando seus cabelos e dobrando a pele de seu rosto. Isso nada mais era o Expelir.
Mil expelia e absorvia a fina camada de aura. Ao passo que se concentrava e sentia o vintei presente no ambiente.
– O que é Vintei e Dontei? – Indagou o elfo, parando a meio metro e observando a suavidade do expelir de Mil.
– Vintei é a energia que reside em tudo que é inanimado, em tudo que é criado a partir doutrem, aquilo sem consciência própria.
O elfo assentiu.
– Bom, mas pode ser mais sucinto em sua resposta. Prossiga.
Mil inspirou, indiferente. Ou estava inabalado? Sua feição era uma incógnita, uma vez que nada mais que um rosto pálido e sombrio o preenchia.
– Dontei é o oposto. Toda energia que reside e que pode ser controlada por seu possuinte. Vitalidade consciente.
– Exemplos.
– Seres vivos.
– E quando estes seres morrem?
– O dontei evolui assim como matéria orgânica. É revitalizado pelo vintei universal, e não pode tornar ao estado em que estava antes.
Cildin assentiu.
– Qual o mantra para controlar a ambos?
Mil inclinou a cabeça, visualizando o próprio mar de consciência. Estava calmo desde o último acontecido. Os portões, bem fechados. E era límpido. Não havia energia estagnada aparente.
O garoto respirou fundo. Era difícil controlar o fogo de seu coração, e o ódio que o consumia. Mas ele buscava fazer isso. Pelo menos não transparecia o abalo.
Expeliu sua aura, buscando os conectivos com o mundo que sabia que estavam lá. Era fraco, sem cor e brio. Era o vintei das árvores, das rochas, do solo. Para controlar o dontei, precisava primeiro controlar o vintei.
Para poder ser um usuário do Sussurros, precisava ter controle sobre si mesmo.
Ele encontrou o conectivo, fraco e fino. Mas estava lá, e o controle do vintei não necessitava do objeto inanimado, e sim da vontade do possuidor. Da vontade de Milan.
Em pensamento, ele puxou a fina linha, mas forte demais. Quatro pedras do tamanho de punhos voaram em direção à sua cabeça, mas com uma paz estarrecedora, ele abriu os olhos lentamente e desviou de todas.
Cildin caminhou para longe e esticou a mão. Uma espada de madeira veio voando até ele, e pousou suavemente em sua palma. O elfo fitou seu aluno. Ele com certeza havia mudado bastante.
Tinha conseguido controlar seu gênio, mas sabia que por dentro, o garoto ansiava por extravasar isso. E era nos momentos de troca justa que ele o fazia.
Inicialmente, Cildin esperava que após dois anos, conseguisse desenvolver o treinamento de Milan e que o menino pudesse manter um equilíbrio para só então, começar a verdadeira labuta.
Mas tudo foi um baque quando Milan levou dias para sentir seu mar de consciência, quando deveria levar mais de seis meses. E não somente, levou semanas para conseguir controlar os passos básicos do controle de Orka, e isso reduziu em mais da metade o tempo necessário do treinamento de Milan.
O menino também era um prodígio, pois aprendia tudo numa velocidade assustadora, sem que Cildin precisasse repetir duas vezes a mesma coisa.
E nos treinos de espada... Milan evoluiu enormemente em poucos meses. Apesar de ser pequeno e magro, ele tinha músculos e membros superiores bem desenvolvidos. Com o treino de peso, Milan conseguiu ganhar massa muscular. Mas seu rosto infantil entregava que era apenas uma criança.
Cildin apresentou algumas habilidades áureas para Milan, e uma delas foi a Vontade, que era a habilidade de controlar objetos inanimados, como o próprio duque fizera a pouco. A esta altura, Milan já excedia as expectativas de seu mestre, e com apenas duas tentativas de encontrar o conectivo, teve êxito.
A Vontade era contraposta da Sussurros. A primeira funcionava como um ímã, um pegador de objetos.
O sistema de habilidades áureos era prático e fácil. Haviam caminhos e conectivos, e para acessar a Vontade, bastava que Milan se concentrasse nos finos conectivos que haviam nos caminhos áureos entre ele e os objetos inanimados.
Começou com pequenas folhas. Milan conseguia distinguir os vintei dos objetos; conseguia fazê-lo por meio da cor e peso. As plantas eram mais claras e leves. As rochas, no entanto, eram escuras e pesadas, como se submergisse em água com os bolsos cheios de pesos.
Também havia a distância. Milan não conseguia acessar os conectivos em mais do que 40 metros. No entanto, fora a primeira habilidade após o despertar de Berserkir que Mil conseguiu. Isso o deixou feliz, mas não diminuiu seu ímpeto.
E ele descobriu algo. Quanto mais concentrado e calmo...
Esticou o braço e, numa velocidade absurda, uma espada de madeira surgiu por entre as árvores, produzindo um som inquietante enquanto cortava o ar enlouquecido. Quando encontrou a mão de Mil, produziu um baque absurdo, e uma pequena veia se contraiu em seu rosto. Cildin notou.
– A sutileza no impacto ainda não está boa. Lembre-se, puxar o conectivo pode ser um empecilho. Sabe por que não está conseguindo arrumar isso?
Milan se ergueu, meneando a espada de madeira e respirando fundo.
– Ainda não possuo a prática adequada. Preciso calibrar o peso entre objetos de inserção. – disse, sua voz num tom calmo e complacente.
Cildin sorriu.
– Venha, então.
Milan flexionou os joelhos, sob o olhar inquisidor de seu mestre. Diminuiu espaço enquanto portava o fio da espada para baixo. Quando se aproximou, girou no próprio eixo e trouxe a espada junto, num floreio magnífico.
Cildin deu um passo para o lado quando a espada passou vibrando em vertical. Seus cabelos ondularam ante a força expelida pela arma.
O duque observou os passos de seu aluno. Ainda havia o que melhorar, mas ele quase parecia uma nova pessoa. Ele era uma nova pessoa.
Em poucos meses, ele consegue refletir com maestria meus passos, algo que nunca cheguei a ensina-lo... pensou o Duque, mantendo a inexpressividade. Este menino é mesmo um gênio.
O duque deu vários passos para trás quando seu aluno cortou, seguidamente, o ar.
Milan deu um passo para trás e respirou fundo.
O gasto de energia é controlado, e ele sequer está suando. Também consegue enxergar os pontos futuros, mas sua reação segue sendo lenta. Nada que a prática não resolva. Vamos ver sua força...
Cildin finalmente saiu do estado de defesa, ciente de que antes, seu aluno teria feito de tudo para tirá-lo do sério. Mas o menino aprendera a visualizar uma luta. Aprendera a ler o campo e o inimigo. Sim, em três meses, Milan Sgaard era outro.
Foi a vez do duque atacar. Diminuiu o espaço com ainda mais rapidez, sem produzir som algum.
Passos Lépidos pensou Mil. Foi assim que o menino apelidou, apesar de saber que a habilidade poderia ter outro nome.
Ao observar que seu mestre usava o ‘Passos Lépidos’ em batalha, ele tentou copiar. E conseguiu, apesar de não ser tão perfeito quanto o original.
Mas em questão de semanas, Milan se viu utilizando o Passos Lépidos até mesmo fora dos treinos de combate.
O duque ergueu a espada acima da cabeça e desceu sobre a de Milan, que pôs sua espada em uma defesa horizontal.
O menino arregalou os olhos quando viu que fora uma má ideia. Isto porque não havia nenhum truque ou ideia por trás daquele golpe, como bem Cildin estava acostumado a fazer. E esse foi o erro de Milan. Ele não esperava que o golpe fosse tão forte, e se perguntou de onde, pelos céus, surgira tanta força naquele corpinho tão franzino.
Foi como se um graveto tentasse segurar um tronco de árvore. Milan sentiu todo o peso antes mesmo do impacto, a vontade avassaladora de Cildin sendo posta a prova.
Mas ele firmou bem os pés no chão e aguentou firme o golpe. Seus braços tremeram e suas pernas afundaram, o joelho fraquejando.
O duque aproveitou a abertura e o tempo de reação lento de seu aluno, e ergueu o joelho na direção das costelas do garoto.
Milan trocou a espada de mãos e desceu o braço curvando o corpo para o impacto. Novamente não esperava que a força fosse tão grande, e se perguntava a razão daquilo. Não somente seu braço que ainda nem tinha se recuperado do outro golpe, ficou dormente, como sua visão escureceu e tudo rodou.
Mas ele não perdeu a consciência, sua pressão apenas caíra.
Com a espada na outra mão, ergueu-a num ímpeto absurdo e cerrou os dentes, forçando a clarear a vista. Apertou bem a mão no cabo, e desceu sobre seu mestre.
Ele era bem menor que o duque, e na posição que estava, conseguiu apenas visar sua bacia. Foi o suficiente. O duque deu dois passos rápidos para trás, e a ponta da espada tocou na sua coxa de raspão.
Milan inspirou fundo, seus pulmões ardendo em frenesi. Não tinha cansado tanto quando era ele atacando, e percebeu como estar em defesa poderia ser bem mais desafiador do que em ofensiva.
Ergueu-se num pulo. Diminuiu o espaço e então começaram uma troca franca, cientes de que era isso que a luta necessitava.
O duque não parecia cansado, mas Milan sim. Isso não impediu ou diminuiu sua força de vontade. A cada golpe trocado, um baque surdo se expandia, levando consigo lufadas de ar.
Milan socou, chutou e estocou. Tudo defendido por Cildin. O duque também socou, chutou e estocou, sendo defendido por pouco.
A força e a agilidade de Milan despencaram, mas ele não diminuiu. Ainda não.
O duque sorriu diante disso.
– Você é maluco, garoto. Mas se quer dormir um pouco, posso fazer isso pelo meu jovem aluno.
O elfo finalmente começou uma série de golpes, empurrando o menino para trás.
Milan foi forçado a ir até uma árvore, e abaixou quando seu mestre proferiu um golpe horizontal forte. Quando olhou de soslaio, um rombo havia sido feito no tronco, e a árvore ameaçou cair.
Nesse pequeno instante de desfoco, Cildin aproveitou para dar uma forte joelhada no estomago de seu aluno. O menino arquejou, segurando a espada, quase apagando. O duque fechou bem o punho e deu um passo para trás. Quando se moveu, deu um forte soco de cima para baixo que pegou no queixo do menino.
Milan rolou pelo chão, e apagou por alguns segundos. Quando voltou a si, seu mestre estava de pé diante dele, de olhos semicerrados e um sorriso bobo no rosto.
O garoto balançou a cabeça, mas isso apenas o deixou mais tonto.
– Está pronto, Milan. Pelo menos vinte meses mais cedo do que o esperado.
O garoto, ainda grogue, ergueu o rosto.
– Está brincando?
O duque suprimiu um riso.
– Vou deixar esta acusação passar, pois percebo que fui muito severo contigo. Deve ter tido uma concussão para alegar isso de mim. Pareço ser alguém que brinca?
Milan pigarreou. Não, não parece, droga.
O duque suspirou.
– Você é um gênio, Sgaard, e tudo o que eu poderia lhe ensinar, já foi ensinado. Pelo menos toda a teoria. Agora o que se sucede é a parte prática, e deve ser realizada unicamente por ti. Minha parte, pelo menos, está no fim.
– Isso...
– Tem dificuldade de acreditar em mim?
– Não... É só que... foi tão pouco tempo.
O duque se afastou.
– Como eu disse, sua habilidade de aprender é extraordinária, o que economizou muita saliva de minha parte. Na parte do conceito, você já sabe todo o necessário. Na parte do combate, você já consegue produzir meus ensinamentos, e o refinamento é alcançado em combates reais. Repito: não há mais o que lhe ensinar. Mas não se acomode, você possui o conhecimento teórico e básico, mas precisará aperfeiçoar tudo, há bastante coisa que não foi polida adequadamente. Contudo, você possui a capacidade de perceber o que precisa de polimento e o que não precisa.
Milan assentiu. Não esperava que fosse estar pronto tão cedo.
– Qual o próximo passo?
Cildin se virou, o rosto indecifrável.
– Você precisa de um tempo sozinho, descobrindo suas dores e suas fraquezas. Precisa pensar sobre o mundo e sua presença nele por si só; não devo interferir neste questionamento com ideias pré-projetadas e tão enraizadas no que eu julgo ser certo e errado.
Milan abriu a boca, mas seguiu-se um ricto. Ele limpou a garganta e umedeceu os lábios.
– Siga-me – disse o duque, num tom sombrio.
Caminharam durante todo o arrebol por entre as árvores, observando a linda paisagem que se seguia após o cair do sol.
Caminharam por lindos pomares e uma série de outras plantações de frutas. Milan pegou algumas, ciente de que não iria consumi-las por um longo período.
Depois de muito andar, pararam diante uma enorme floresta, com árvores altas com copas que se entrelaçavam e com pontes naturais de galhos entre si, no topo. Cipós e musgo nasciam na base das raízes, e a grama era alta. Era escuro, e Milan sentiu o vintei vindo dali, era perigoso.
– Aqui começará o verdadeiro teste – disse o duque, observando a estreita passagem entre a relva alta e o ciciar de cigarras. –Deve aprender a lidar com teus poderes, com tua força, com teu trauma. E te aperfeiçoa, usa tudo ao teu favor. Não se esmoreça, mas saia da bolha, expanda tua visão.
O garoto olhou para a floresta, com um medo borbulhando em seu âmago. Mas não havia nem um traço de pavor em seu rosto. Ele estava certo do que faria. Estava decidido.
– Tome isso – disse o elfo, esticando a mão, que carregava um pano dobrado.
Milan pegou e abriu o pano. Dentro, havia uma arma milimetricamente projetada. Deveria ter mais de 70cm.
Ele pegou firme no punho, feito de couro, para não escorregar. Sua bainha era totalmente de couro sobreposto, com runas inscritas num pálido tom azul. Ao desembainhar, Milan pegou-se apaixonado pela lâmina. Era plana e afiada nos dois gumes, com uma ponta igualmente afiada. Era feita de uma prata tão límpida que podia ver a si mesmo nela. Na parte plana, haviam mais inscrições rúnicas.
Milan entendia muito bem de espadas para saber que esta era enfeitiçada. Havia magia nela. Mil girou-a para ler o que estava escrito nela. Mas não compreendeu, era antigo demais.
– Encontrei esta espada durante uma campanha, há cem anos, nas Torres Campanários a nor-nordeste de Brumilo, reino do homem ao leste de Elendil. Levei num bom amigo ferreiro, e este diz que data de Mil anos. Deve ter sido de um grande guerreiro.
Milan observou sua palidez refletida na lâmina. Estava mais bronzeado e o rosto menos infantil, mas ainda era ele. Um nome veio à mente.
– Espectro... – disse, entredentes.
– Como? – indagou o elfo, inclinando a cabeça.
– O nome dela – Milan ergueu o rosto, guardando a espada em sua bainha. – Chamarei de Espectro.
O duque sorriu.
– Bom. Grandes espadas sempre têm bons nomes. Não preciso lembra-lo para nunca puxar a espada, a menos...
– Que pretenda usá-la – Atalhou Mil. – Sei bem meu lugar no mundo, senhor. E é por isso que... Obrigado.
Cildin assentiu, tornando a encarar a floresta.
– Fique forte e firme, Milan. Agora vá.
Milan se inclinou, como um súdito o faz para seu mestre. Depois prendeu a espada num laço firme às costas e caminhou floresta adentro, sem dar uma olhada sequer para trás.
Observando as atitudes de seu aluno, Cildin se orgulhou pelo crescimento de seu garoto e também temeu por ele. Não ficaria nem um pouco mais fácil a partir dali.
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