Vol 11.5 – Volume 11.5
Capítulo 1: Tudo Começou com um Simples Pedido
Desde seu aniversário, Mahiru começou a ligar para Koyuki regularmente.
Antes disso, ela se contentava em enviar uma carta a cada seis meses, apenas para atualizar as informações. Ela se preocupava que entrar em contato com muita frequência pudesse incomodar Koyuki. Afinal, elas originalmente não passavam de empregadora e empregada. Mas quando Koyuki a olhou com ternura e disse: “Nunca pensei em você como um incômodo. Deixe-me ouvir sua voz de vez em quando,” as conversas recomeçaram.
Dito isso, elas só haviam se adaptado à rotina de ligar uma vez a cada um ou dois meses. Para Mahiru, ligar com mais frequência do que isso seria pedir demais. O simples ato de conversar com Koyuki era o suficiente para deixá-la feliz, então ela nunca pensou em insistir mais do que isso.
E assim, em uma tarde tranquila de fim de semana, Mahiru manteve o dia livre para se encaixar na agenda de Koyuki e, após cerca de um mês de intervalo, elas se reencontraram por meio de uma chamada de vídeo.
“Faz um tempo,” cumprimentou Mahiru.
“Hehe, com certeza faz. Embora eu suponha que não tenha sido tanto tempo, considerando o contexto geral.” O sorriso gracioso e incessante de Koyuki podia ser visto enquanto ela olhava para Mahiru através da tela. “Fico feliz em ver que você está com boa saúde. Você tem se mantido bem, Mahiru-san?”
“Sim. Hum, nada fora do comum aconteceu... Sinto-me mal por não ter muito a relatar.”
“Querida, não precisa soar tão formal. Você pode compartilhar o que quiser me dizer e não precisa mencionar nada que não queira. Uma vida sem mudanças é uma vida pacífica.”
“...Muito obrigada.”
“Por que você está me agradecendo? Eu mencionei que queria ouvir sua voz, então não precisa ser tímida.”
O sorriso terno na tela não desapareceu.
[Moon: Oh!... Então, esse sentimento quentinho aqui dentro, o que pode ser? Orgulho? Carinho? Felicidade?... Acho que é um pouco de cada! Tão bom saber que a pitica anjinho ainda fala com o Koyuki-san! | Kura: Esses momentos deixam o leitor bem mais quentinho hehe.]
Mahiru sempre sentiu que a consideração de Koyuki era uma de suas qualidades verdadeiramente admiráveis e que era algo que ela queria imitar. Desta vez, ela não expressou sua gratidão em palavras e, em vez disso, suavizou o sorriso. O que Mahiru considerava um ato de genuína gentileza era algo que Koyuki demonstrava com tanta naturalidade que ela nem sequer o considerava.
“Você fez algo divertido ultimamente?” perguntou Koyuki.
“Esqueci de te contar da última vez, mas tive uma festa de Natal com o Amane-kun e nossos amigos.”
Mahiru tentou pensar em um assunto agradável que não atrapalhasse a conversa e lembrou-se de que não havia contado a Koyuki sobre o Natal.
No ano anterior, ela teve um Natal modesto e pitoresco com Amane. Mas este Natal que acabara de passar tinha sido diferente. Amane era seu namorado agora, e ela havia feito amizade com Itsuki e seu círculo. Comparado ao anterior, comparado a qualquer Natal que ela já tivera, este tinha sido um dia que realmente fez seu coração pular de alegria.
“Nossa, não é ótimo? Lembro que uma vez você me disse que queria fazer uma festa de Natal com todos os seus amigos, não é?”
Mahiru sorriu ironicamente ao ouvir o tema nostálgico que Koyuki mencionou. Ela, aliás, se lembrava de ter dito isso há muito tempo. Era um dos seus sonhos de criança.
Para realizar esse sonho, no entanto, ela não tinha amigos próximos o suficiente para convidar, nem liberdade para trazer outras pessoas para sua casa. Claro, não era lugar para uma criança convidar pessoas sozinha, mas, mais urgentemente, a casa em que Mahiru morava na época era grande demais e inadequada para uma criança morar sozinha.
Ela queria manter sua situação em segredo de todos. Nem mesmo Koyuki, sua guardiã interina, conseguia sorrir com a ideia. No fim das contas, uma festa de Natal não passava de um sonho inalcançável. Houve momentos em que Mahiru pensou que seria algo que passaria a vida inteira sem experimentar. Mas a vida era cheia de surpresas.
“Eu não conseguiria dar uma festa sem nenhum guardião por perto. E, bem, as pessoas poderiam ter me acusado de me gabar da casa em que morava, então esse foi outro motivo para eu não poder.”
“Não foi sua culpa, Mahiru-san. Além disso, se proteger é muito importante. É sempre melhor não despertar inveja desnecessária... Um dos seus sonhos se realizou, não é?”
“Sim, se realizou. E também, hum... eu também ganhei um presente dos pais do Amane-kun.”
Koyuki nunca foi de dar coisas para Mahiru. Mahiru sempre sentiu seu carinho, mas, por causa dos papéis que cada uma desempenhava, presentes eram algo que Koyuki nunca lhe oferecia.
Mahiru nunca se sentiu triste com isso.
Quando ela teve idade suficiente para entender, Mahiru sabia que não cabia a Koyuki comprar presentes para ela. Em vez disso, em aniversários, Halloween ou Natal, haveria uma refeição especial. Essa era a maneira de Koyuki comemorar, e Mahiru sempre soube disso.
Ela sabia que havia sido querida e amada à sua maneira. Mesmo assim, lá no fundo, Mahiru sempre teve um pequeno desejo infantil: Quero receber um presente do Papai Noel.
[Del: “Se você não gosta da ideia de um prêmio, pense nisso como algo deixado para trás por um velho robusto com uma barba branca e um terno vermelho.” - Amane, Vol 1, Cap 14.]
Ela o desejara, mesmo pensando que nunca se realizaria.
Mesmo depois de entender que o Papai Noel não existia, que os presentes eram secretamente colocados ali pelos pais, o pequeno desejo ainda persistia em seu coração. E então, finalmente, esse desejo foi realizado. Não por seus pais biológicos, mas pelos pais de seu amante, que têm um vínculo de coração com ela.
“Você conheceu os pais do Fujimiya-san?” Koyuki piscou várias vezes, surpresa. Mahiru então se lembrou de que, embora tivesse contado a Koyuki que estava namorando Amane, nunca mencionara ser próxima dos pais dele.
“Sim. Eles nos visitaram aqui em várias ocasiões, e eu também... hum, fui com o Amane-kun passar um tempo na casa da família dele.”
“Hehe, não acredito que você já fez as apresentações. Parece que você se dá bem com os pais dele também. Não tenho com o que me preocupar.”
“Sim, não há motivo para preocupação. Os pais dele são muito parecidos com o próprio Amane-kun e são muito gentis comigo...”
“Se forem parecidos com ele, então não há nada a temer. Suas expressões e ações me disseram o quanto ele te ama.”
“...Sim.” Ouvir Koyuki dizer isso fez Mahiru se sentir incrivelmente envergonhada a ponto de seus olhos virarem para o chão. No entanto, ela não podia negar o que havia dito. Afinal, era ela quem sentia o amor de Amane mais profundamente.
Ela se envergonhava de admitir isso em voz alta, mas tudo em Amane revelava seu amor por ela. Sua voz, seu olhar, suas expressões, o ar ao seu redor, a maneira como ele agia — cada parte dele falava como se fosse natural amar Mahiru.
Ela jamais poderia imaginar, no momento em que se conheceram, que ele se tornaria tão aberto e direto. No entanto, mesmo naqueles primeiros dias, ele lhe dera apenas honestidade, sem bajulação. Nesse sentido, talvez fosse natural que ele tivesse se tornado alguém tão transparente com seus sentimentos.
Koyuki também sentiu isso. Sua voz satisfeita soou pelo alto-falante quando ela disse: “Homens tão puros e devotados são raros hoje em dia.”
“O Amane-kun... hum, me valoriza como ninguém. Ele me mostra com todo o seu ser o quanto me ama, então não há com o que se preocupar.”
“Eu nunca me preocupei, sabe? Observando o quão sincero ele é, você pode ver claramente sua verdadeira natureza. É claro como o dia que ele já tem a determinação de se estabelecer.”
“O-o quê!?”
Um grito de susto escapou da boca de Mahiru. Ela jamais imaginaria que Koyuki usaria essa expressão em seus sonhos mais loucos. Estabelecer-se — em outras palavras, casar-se.
Amane nunca mencionara casamento diretamente, mas, pela atitude dele, Mahiru sabia que o relacionamento deles não era temporário. Ele também lhe dissera mais de uma vez que pretendia ficar ao seu lado nos anos vindouros. Mas ouvir outra pessoa apontar isso agora fez com que todos os seus sentimentos vagos e confusos de repente tomassem forma. Seus pensamentos giravam em círculos, as palavras piscando e desaparecendo uma após a outra dentro de sua cabeça.
“Ara ara.”
“...M-me desculpe.”
“Não, não, está tudo bem... Eu sei que não é bom ser intrometida, mas ele já teve uma conversa séria sobre essas coisas com você?”
“...Não em termos definitivos. Só que... ele, hum, pretende ficar comigo para sempre.”
Amane não era o tipo de cara que falava descuidadamente ou fazia promessas vagas. Precisamente por entender isso tão bem sobre ele, um único grão de desconforto se infiltrou no turbilhão de sua confusão.
“Entendo. Então talvez eu tenha dito algo que não deveria.”
“O que você quer dizer...?”
“Ele deve ter seus próprios pensamentos e ideias sobre o assunto, então seria rude especular em voz alta aqui. Vou parar por aqui.”
“...Certo.”
Mesmo que ela perguntasse a Koyuki, não havia como saber de fato o que Amane estava pensando. Mesmo que ela pudesse ler o coração das pessoas, Amane não estava ali, então isso estava fora de questão.
“Não se preocupe. Acho que ele é muito mais amoroso do que você imagina. Embora eu nunca o tenha encontrado ou falado com ele pessoalmente, então não posso dizer muito.”
Mahiru quase se esquecera de que os dois nunca se conheceram pessoalmente. Koyuki compreendeu a verdadeira personalidade de Amane melhor do que esperava, mas a verdade é que eles mal se falavam. Tirando uma breve troca de mensagens por telefone e e-mail no aniversário de Mahiru, e aquela conversa que os três tiveram juntos, Amane praticamente não tinha nenhuma ligação com Koyuki.
“...Eu acredito no seu olhar para enxergar a verdadeira natureza das pessoas, Koyuki-san. E como aprendi tanto com você, também posso dizer que o Amane-kun é realmente uma pessoa maravilhosa.”
“Hehe, fico feliz em ouvir isso. Ver você encontrar alguém que ama o suficiente para se gabar me deixa mais feliz do que você imagina.”
“E-eu não estou... me gabando dele.”
[Moon: Anjinho então… Como é que eu te conto onde, deixa eu ver… | Kura: É melhor deixar a mente dela quieta Moon, se não tudo vai girar…]
“Bem, se você insiste. Vamos deixar por isso mesmo.”
Mahiru nunca teve a intenção de se gabar, mas era claramente assim que soava. No monitor, Koyuki a encarava com um sorriso carinhoso e divertido.
“Para ser sincera, eu adoraria conhecer o Fujimiya-san pessoalmente e falar com os pais dele também. Mas a oportunidade nunca aparece.”
“Tenho certeza de que você também está ocupada, Koyuki-san, e precisa se preocupar com sua saúde. Eu não poderia me impor. Já sou muito grata por você estar dedicando um tempo para conversar comigo desse jeito.”
“Eu pedi por essas ligações, lembra? Não há nada para você se sentir culpada.”
Koyuki soltou uma risadinha refinada e, em seguida, franziu levemente as sobrancelhas ao notar o leve pedido de desculpas na expressão de Mahiru.
“Hmm... Já que não posso encontrá-lo, gostaria de uma foto de vocês dois.”
“Uma... foto?” Os olhos de Mahiru se arregalaram com o pedido inesperado.
Koyuki assentiu suavemente, com a voz e a expressão igualmente gentis. “Sim, por favor. Não posso visitar vocês dois no momento, e arranjar tempo para mim seria difícil, não é? Tenho certeza de que o Fujimiya-san também tem suas próprias obrigações a considerar, e com vocês dois entrando no terceiro ano, seria difícil deixar sua prefeitura para uma visita casual.”
Amane disse uma vez que queria cumprimentar Koyuki adequadamente algum dia, mas a oportunidade nunca parecia chegar. Para começar, Koyuki morava em uma região completamente diferente do Japão, e quando Mahiru uma vez procurou seu endereço, viu como as opções de transporte eram precárias. Só chegar lá levariam boas horas.
Amane estava ocupado com o trabalho, então uma viagem relâmpago que o deixasse exausto no dia seguinte estava fora de questão. Além disso, eles logo estariam atolados com tarefas preparatórios para as provas, deixando-os com pouco tempo livre. Este ano, Amane nem planejava voltar para a casa dos pais para poder se concentrar inteiramente nos estudos, o que significava que seus planos coincidiam com os de Mahiru.
Sendo realistas, o mais cedo que poderiam se encontrar para uma apresentação adequada seria depois do fim das provas.
[Moon: Volume 12 bem que poderia… | Kura: Talvez venha, mas acho que o foco é outro.]
“Ah, não estou preocupada com vocês dois. Só de ouvir como vocês conversam me diz que estão realizados e felizes agora. É apenas um desejo egoísta meu, de vislumbrar como vocês vivem a vida. Estou tão longe que não consigo evitar a curiosidade.”
Cada palavra deixava claro o quanto Koyuki realmente se importava com ela. Era como se uma mão gentil tivesse roçado a bochecha de Mahiru, deixando um calor terno e delicado em seu peito.
Olhando para trás, ela percebeu que sua eu mais jovem nunca fora capaz de compreender completamente a compaixão de Koyuki. Ela sabia que ela se importava com ela, que Koyuki a tratava como se fosse sua própria filha. Mas ficar mais velha a ensinou que existem tipos de amor que só se entende depois de amadurecer.
“Claro, se você ou o Fujimiya-san não desejam me enviar uma, então, por favor, considerem meu pedido não dito. É apenas uma esperança egoísta minha.” Koyuki interpretou o silêncio de Mahiru como uma recusa.
Afobada, Mahiru se recuperou da sensação de calor e cócegas em sua mente e balançou a cabeça apressadamente.
“Não, de jeito nenhum! Não é que eu não goste da ideia nem nada! Acho que o Amane-kun também não se importaria, mas... não é algo que eu possa decidir sozinha. Vou perguntar a ele quando ele voltar para casa.”
“Sim, por favor... Mas sabe—”
“Sim?”
“Você disse: ‘Assim que ele voltar para casa.’“
Ao ouvir isso, Mahiru imediatamente percebeu que havia dito algo que era natural para ela, mas surpreendente para qualquer outra pessoa. Ela balançou as mãos de um lado para o outro em pânico.
“...I-isso é porque...! É, eu estou ligando da casa do Amane-kun agora mesmo! Mas juro que não está acontecendo nada de impróprio!”
“Eu nunca duvidei disso. O Fujimiya-san me parece o tipo sincero. Não consigo imaginá-lo tentando se impor a alguém. Ele pediria diretamente o seu consentimento, não é?”
“Sim...”
Koyuki o interpretava com tanta precisão que deixou Mahiru mais chocada do que envergonhada.
Amane nunca agiria por impulso ou forçaria Mahiru a fazer o que quisesse. Ele era menos ativo e mais atencioso. Sempre parava para perguntar se algo estava realmente certo antes de levar as coisas adiante.
Ultimamente, havia raros momentos em que ele a beijava sem pedir primeiro. Mas isso só acontecia quando ele sentia, pelo humor, que ela aceitaria. Qualquer coisa além disso, ele nunca faria sem permissão.
Quando queria tocá-la, sempre perguntava algo como: “Quero tocar em você. Posso?” E Mahiru aceitava, embora suas bochechas queimassem de vergonha.
Uma vez, depois de tocá-la, ela disse que ele já deveria saber a resposta sem precisar perguntar. A resposta dele foi: “Mas se você não quisesse de verdade, isso me tornaria um cara horrível. Não quero nunca te deixar desconfortável.” Foi uma resposta tão cavalheiresca que ela só conseguia atribuir à natureza dele.
Mas eu adoro como ele é gentil e atencioso! pensou Mahiru. Mesmo assim, uma parte dela desejava que ele se lembrasse de como era perturbador ser questionada tão diretamente todas às vezes.
Cada vez que ela dizia sim aos seus avanços, parecia que estava confessando abertamente que adorava quando ele a tocava. O constrangimento era avassalador. Às vezes, ela até se pegava desejando que ele fosse um pouco mais enfático... antes de banir apressadamente um pensamento tão descarado da cabeça.
[Kura: Nossa… kkkk]
Será que Koyuki percebeu a onda de emoções que percorreu a mente de Mahiru naquele instante? Seja qual for a resposta, ela não insistiu no assunto. Simplesmente olhou para Mahiru calmamente.
“O que eu quis dizer antes é que estou feliz por você ter encontrado um lugar ao qual pertence. A maneira como você fala deixou claro. Você vê a casa dele como seu lar, não é?”
“Sim.” O lugar de Mahiru era onde quer que Amane estivesse.
Olhando para trás, fazia mais de um ano desde que ela começara a passar tempo no apartamento dele. De alguma forma, ela não conseguia acreditar o quanto havia se acostumado a estar ali.
Ele lhe dera uma chave reserva logo no começo da relação. Na época, ela se perguntou se realmente estava tudo bem em tê-la, mas era uma prova da profunda confiança dele com ela, e esse pensamento sempre a deixava um pouco perturbada.
Um ano compartilhando aquele espaço fez com que sua presença ali parecesse normal. Antes que percebesse, Mahiru passou a ver seu apartamento, ou mais precisamente, o lugar ao lado de Amane, como seu próprio lugar de pertencimento.
Era o precioso lar deles, de uma vida que os dois construíram juntos.
“Estou realmente feliz que você tenha encontrado um lugar onde possa se sentir genuinamente em casa.”
“...Sim.”
“Você precisa ter certeza de não perdê-lo. E para evitar que isso aconteça, você deveria—”
“Eu já agarrei a barriga dele.”
“Hehe, muito bom.”
[Del: Cinema. | Moon: Cinema.✋🤚| Kura: Finalmente kakakakaka.]
Mahiru pressentiu o que Koyuki estava prestes a dizer, então se adiantou.
Koyuki riu calorosamente, sem dúvida se lembrando de suas próprias palavras de muito tempo atrás: “Certifique-se de agarrar pela barriga aquele que te faz feliz.”
Foi em parte graças a esse ensinamento que Mahiru encontrou aquele a quem desejava dedicar sua vida. Quando se tratava de Koyuki, ela jamais poderia esperar competir.
“Meu conselho não estava errado, afinal,” disse Koyuki com uma risada, e Mahiru se viu sorrindo junto. A solidão que ela carregava antigamente pareceu se dissipar, substituída pelo calor de imaginar o amado namorado, que não estava presente naquele momento.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
“Então, tudo bem se eu enviar uma foto sua para Koyuki-san, Amane-kun?”
Quando Amane voltou do seu trabalho de meio período, Mahiru explicou brevemente durante o jantar o que haviam conversado e o pedido que Koyuki fizera. Como ela esperava, ele não teve problema algum e assentiu.
“Claro, não me importo nem um pouco. Mas... qual você planeja enviar?” perguntou Amane em resposta.
Mahiru não havia pensado tão longe. A pergunta dele a fez pensar em qual tipo de foto seria a melhor.
“Uma que mostre o quão bonito você é,” respondeu ela.
“Qualquer coisa, menos isso. Por favor.”
“Eu estava só brincando. Mas o que há de tão errado nisso?”
“Porque é constrangedor, obviamente! Vamos enviar uma foto normal, okay? Uma normal.”
“O que exatamente conta como ‘normal’?”
“Veja bem, a Kujikawa-san quer ver como você é no dia a dia. Não uma versão ideal, modelo, mas apenas você sendo você mesma.”
“Eu entendo. Mas...”
O que Koyuki realmente pedia era uma foto dela e de Amane juntos. Mahiru refletiu sobre que tipo de foto deveria ser. Ela sabia muito bem que, sempre que estava ao lado dele, seu rosto geralmente se iluminava de felicidade. Se Koyuki visse isso, certamente a tranquilizaria.
“...O problema é que eu não tenho muitas fotos nossas no meu celular,” disse Amane.
“Eu não tiro muitas fotos, e se quisermos uma com nós dois juntos, é melhor que outra pessoa tire para nós.”
Fazia sentido que Amane tivesse poucas fotos. Ele raramente mexia no celular e quase nunca tirava fotos comemorativas.
“Só tenho fotos suas dormindo, de pijama ou com um bigode de leite,” admitiu.
“Por que você, logo você, guardaria essas!?”
“A foto de pijama não fui eu, e eu pedi sua permissão para a do bigode de leite.”
Aquela foto de pijama devia ser da pernoite em que Chitose tirou uma foto e enviou para ele. E o bigode de leite devia ser do encontro deles no café de gatos. Ela de fato havia dado permissão, mas nunca imaginou que ele guardaria aquilo por todo esse tempo. Sua expressão presunçosa lhe rendeu um olhar penetrante.
“E aquela em que eu estou dormindo?” perguntou Mahiru.
“Essa foi minha culpa. Você estava tão fofa, minhas mãos se moveram por conta própria... Mas olha quem está falando. Você está em posição de criticar, Mahiru?”
Amane disse isso com um sorriso tão brilhante que Mahiru não conseguiu negar.
Ela costumava tirar fotos para se lembrar de eventos ou pequenos momentos. A galeria do seu smartphone estava lotada delas. Mas a resposta para a pergunta se alguma delas poderia ser enviada para Koyuki seria não.
Ela havia reunido uma grande variedade de fotos. De vezes ela achava Amane legal, a vezes ele parecia adorável, e até algumas dele dormindo. Claro, ela às vezes pedia permissão antes de tirar fotos, mas Amane não tinha ideia de quantas ela poderia ter tirado em segredo.
Mahiru grunhiu: “U-ugh... É uma pena que eu não tenha muitas fotos suas para mostrar a Koyuki-san. Não quer dizer que não sejam todas maravilhosas, é claro.”
“...Essa sua coleção não está crescendo nas minhas costas, está?”
“...Você está imaginando coisas.”
“Quer dizer, não é como se eu me importasse, contanto que seja você quem as tire, Mahiru. Repito, contanto que seja você quem as tire.”
Amane basicamente insinuou: “Itsuki e Chitose [+Shihoko] contrabandearam algumas fotos minhas para você, não é?” ao que Mahiru apertou os lábios e desviou o olhar.
[Kura: Olha, não quero entregar, mas é um mercado de milhares por trás das suas costas Amane.]
Amane interpretou isso como um sinal de admissão.
“Seu silêncio diz tudo. De qualquer forma, não pretendo desenterrar seus segredos. Se quiser manter algo escondido, não vou obrigar você a me contar ou mostrar.”
“...Obrigada.”
“Então você quer manter em segredo.”
[Moon: No pulo do gato!]
“N-não, não é exatamente um segredo, só que... hum, bem...”
“Não se preocupe, eu entendo. Não precisa entrar em pânico... Você me ama tanto que quer capturar todos os meus diferentes lados, certo?”
“...B-bem, sim, eu te amo, muito.”
“Então sim, eu não me importo.”
Amane deixou passar tão facilmente que Mahiru se perguntou se ele estava sendo muito mole com ela, mas isso não era novidade.
Amane era extraordinariamente doce com ela. Por experiência própria, ela sabia que, se pedisse algo a ele, ele concederia com um sorriso. Ela entendia de corpo e alma o quanto ele a amava. E, no entanto, como alvo de seu mimo, Mahiru não conseguia deixar de questionar se era realmente para o seu bem.
“Então isso significa que não temos nenhuma foto boa de nós dois juntos para enviar. Mas acho que a Kujikawa-san realmente apreciaria ter uma com nós dois. Talvez devêssemos tirar uma nova?” propôs Amane.
“Uma nova?”
“É. A gente podia pedir para a Chitose. Ela gosta de tirar fotos, e de qualquer forma, ela está sempre tirando fotos suas. Ela tiraria uma boa foto para a gente.”
“Às vezes, ela tira só para me provocar, dizendo que vai te mandar.”
“Mas ela quase nunca tira, sabia? Eu disse a ela para não tirar, a menos que você dissesse que ela podia.”
[Del: Lembrei agora que a Mahiru tem uma foto do Amane em roupas femininas e maquiado. Meu momento de provocá-los a entrar no Server do discord para ter acesso à um link de um capítulo exclusivo de 14 minutos em áudio. | Moon: Isso é convite! É o que eu vivo falando, entra no server leitorada… Vocês não sabem o que estão perdendo! | Kura: Rapaz, quase fui atrás do link do server, mas lembrei que já estou nele kkkkk.]
Amane era muito consciencioso. A menos que Mahiru desse seu consentimento, ele não aceitava fotos de mais ninguém. Isso fazia Mahiru se sentir ainda mais culpada por tirar fotos de Amane. E Chitose, plenamente ciente disso, parecia estar brincando com ela de propósito.
Sempre que Chitose a provocava dizendo: “Talvez eu mande isso para ele!” Mahiru sempre se sentia forçada a confrontar sua incapacidade descarada de resistir aos seus desejos, o que a deixava inquieta o tempo todo.
“Por enquanto, por que não perguntamos à Chitose ou ao Itsuki? Eles não vão recusar, e estão acostumados a manusear câmeras, então provavelmente tirariam algumas boas.”
“...Isso parece melhor. Vou perguntar a eles na escola amanhã.”
“Certo, fazemos isto então... Mas é melhor eu lembrá-los de não tirarem mais do que o necessário.”
“Você realmente acredita que eles levarão suas palavras a sério?”
“Eu vou verificar as fotos no final, então qualquer coisa estranha será eliminada.”
“Eu acho que eles ficarão ainda mais animados se souberem que você fará isso.”
“Você realmente tem conseguido entender esses dois ultimamente, não é?”
Fazia mais de um ano que Mahiru começara se relacionar com Chitose e Itsuki, e agora ela conseguia mais ou menos prever o que eles estavam pensando e como agiriam.
Se pedissem ajuda com as fotos, ela tinha certeza de que os dois concordariam na hora. Eles certamente capturariam os momentos cotidianos que Amane desejava, mas, com a mesma probabilidade, adicionariam cenas divertidas ou animadas de sua própria escolha. Mahiru não achava que isso seria algo ruim. Realmente não achava, mas a ideia de ser flagrada pela câmera em um momento de descuido fazia suas bochechas queimarem.
Ela sabia muito bem que às vezes se esquecia de que estava em público e interagia com Amane com muita paixão. Chitose frequentemente a provocava por estar perdidamente apaixonada, e o próprio Amane tinha o hábito de lhe mostrar um sorriso doce e comovente quando outras pessoas estavam por perto. Ter alguém vendo isso era algo que nem mesmo Mahiru suportava bem.
Este sorriso é só para mim.
Era o tipo de olhar que a fazia sentir como se ela pudesse se fundir à ele. Não precisava de palavras.
“Pelo menos vou pedir que mantenham as coisas razoáveis,” disse Mahiru.
“Espero que realmente ouçam.”
“De fato.”
Mahiru sabia muito bem que eles provavelmente fariam o contrário e tirariam todo tipo de fotos sob o pretexto de fazer isso por ela. Ainda assim, não havia outra escolha a não ser deixar a situação nas mãos deles.
Amane e Mahiru se entreolharam e trocaram sorrisos preocupados.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Na tarde seguinte, ela se encontrou com Chitose e Itsuki em um parque próximo, dizendo que tinha algo para discutir. Como planejado no dia anterior, ela pediu a eles o favor que haviam combinado. Amane estava ocupado com o trabalho, mas confiar isso aos dois sem a presença dele não era problema.
“Hã, fotos? Claro, mas do que se trata?” perguntou Chitose.
Como esperado, eles concordaram prontamente, mas ambos a olharam com curiosidade, como se dissessem: ‘Você não gosta de tirar fotos. O que causou isso?’
Nem Amane, nem Mahiru odiavam tirar fotos, mas nenhuma deles tinha o hábito de fazer isso. Por causa disso, ambos ficaram se perguntando o que havia motivado o pedido repentino.
“Hum, bem... como eu explico isso...? Tenho alguém que é como uma figura materna para mim, e eu queria enviar algumas fotos para ela como uma espécie de relatório. Ela disse que gostaria de ver fotos minhas com o Amane-kun,” respondeu Mahiru.
“Ahh, entendi, entendi. Espera... essa é uma responsabilidade e tanto, não é!?”
“N-não, não é tão sério assim! Não precisam ser fotos com tanto capricho. Ela só disse que gostaria de nos ver como sempre somos!”
Como Chitose parecia pronta para fazer um grande acontecimento, Mahiru balançou a cabeça rapidamente, insistindo que não era o caso. Claro, ser solicitado a tirar fotos para os pais de outra pessoa parecia algo muito importante, e Mahiru havia ignorado o quanto isso os pressionaria. Ela precisava deixar claro que tudo o que queria eram algumas fotos comuns. Caso contrário, quem estivesse segurando a câmera se sentiria tão pressionado que não conseguiria tirar fotos direito.
“Não estou tentando tirar retratos de estúdio nem nada parecido com aquelas fotos chamativas e impecáveis. Ela só quer ver momentos comuns, por exemplo, como somos quando estamos juntos ou como vivemos o nosso dia a dia.”
“Entendi, mas... você tem certeza de que só momentos normais servem? Sério?”
“Sim, tenho certeza. Sabe, hum, eu a preocupava porque não tinha amigos próximos no ensino elementar ou fundamental. Acho que ela só quer ver que tipo de vida estou vivendo agora.”
Isso foi da época em que Mahiru lutava inutilmente contra si mesma. Naquela época, ela queria desesperadamente que seus pais biológicos a reconhecessem, então se comportava como a criança modelo que os adultos usariam como exemplo para outras crianças.
Ela não podia negar que ainda era uma espécie de “criança modelo,”, mas, no ensino elementar e fundamental, vivia como uma versão exagerada de uma. Olhando para trás agora, ela só conseguia balançar a cabeça ao pensar em quanto tempo havia agido daquela forma.
As pessoas a provocavam por ser uma pessoa que só queria agradar os outros, e ela nunca negava. Eles estavam certos. Ela tratava todos com gentileza, mas sempre desenhava um círculo ao seu redor que nunca deixava ninguém cruzar, o que significava que ela nunca teve amigas próximas como Chitose ou Ayaka.
Além disso, a atenção indesejada dos meninos gerava ressentimento em outras meninas, e muitas se aproximavam dela apenas porque viam alguma utilidade nela. Com tudo isso, ela nunca encontrou ninguém com quem pudesse abrir seu coração.
Por causa daqueles anos, não era de se admirar que Koyuki não conseguisse deixar de sentir curiosidade sobre o ambiente ideal e feliz em que Mahiru vivia agora.
“Ahh, entendi. Você quer dizer quando estava no Modo Anjo Perfeito?” Chitose murmurou.
“O que exatamente é esse ‘modo’ obscuro e constrangedor?,” Mahiru retrucou.
Itsuki olhou Chitose nos olhos. “Esse é o pior apelido de todos.”
“Ikkun, fique quieto. É claro que me refiro à época em que Mahirun atuava como o Anjo. Quando ela não tinha exatamente algum amigo.”
“Ugh... M-mas agora eu tenho você, Chitose-san, e a Kido-san também...”
Agora, Mahiru tinha proximidade com Chitose e Ayaka, então ela não estava mais sozinha. A solidão aguda que antes a rodeava ainda mais por estar cercada de pessoas naquela época havia desaparecido.
“Sim, Sim! Nós, amigas! Melhores, companheiras!”
[Moon: Mais que amigas, Friends! | Kura: Quando li seu comentário, pensei em um brilho passando por ele na parte grifada.]
“Por que você está falando um inglês tão ruim de repente!?”
“Só estou brincando. Não faça esse beicinho. Você é minha melhor amiga número um, Mahirun!”
Chitose deu alguns tapinhas amigáveis no ombro de Mahiru. Sua personalidade lhe permitia fazer mais amigos do que se poderia contar, mas ainda assim ela colocava Mahiru no topo.
“Então, sim, hum, eu só quero tranquilizar ela... Para mostrar a ela que encontrei um lugar para pertencer e que existem pessoas que realmente me entendem.”
“Entendo, entendo. Você realmente se importa com ela, hein?”
“...Sim, mesmo ela não sendo minha mãe biológica.”
Teria sido maravilhoso se Koyuki fosse sua verdadeira mãe. Mahiru chegou a sonhar, apenas uma vez, que talvez Koyuki realmente fosse. Mas a realidade lhe deu apenas pais distantes, cujo interesse por ela era tão tênue que ela nem conseguia ter certeza de que realmente existia para eles. Ela já havia se conformado com esse fato há muito tempo e não queria mais correr atrás deles. Eles não passavam de parentes consanguíneos que pareciam estranhos.
Mahiru engoliu a amargura crescente e forçou um sorriso.
Chitose a encarou em silêncio.
“Isso não importa, importa? Eu não acho que o sangue seja tudo. Quer dizer, se você pensar bem, maridos e esposas também não são parentes consanguíneos,” disse Chitose, tão casualmente quanto qualquer outra coisa. “Na verdade, é ainda mais maravilhoso como você constrói um vínculo tão profundo sem ser parente, não acha? É algo de que você deveria se orgulhar.”
Mahiru era tão abençoada por ter amigos com essa mentalidade, que podiam dizer isso e realmente acreditar.
Ela queria compartilhar essa bênção com Koyuki também, para que ela soubesse o quanto era grata por ter amigos tão maravilhosos. O sorriso radiante de Chitose a fez sentir-se assim, e Mahiru a abraçou com força.
“...Eu realmente gosto de você, Chitose-san,” disse Mahiru.
“Heh heh. Você tem se tornado muito mais expressiva ultimamente,” respondeu Chitose.
“É graças a todos vocês. É por isso que quero mostrar a ela como minha vida mudou para melhor.”
“Bem, quem não gostaria de ver o quão adorável você se tornou?”
“Agora não é o momento perfeito para uma foto?”
“Ah, é verdade! Ikkun, tire uma, tire uma!”
“Deixe comigo.”
Em vez de reclamar sobre Mahiru se agarrar à namorada, Itsuki a encorajou dando-lhe um empurrãozinho. Mahiru o contava entre seus amigos maravilhosos.
Mahiru sentiu uma onda de constrangimento tomar conta dela enquanto Itsuki tirava fotos rapidamente com o celular. Chitose, no entanto, apenas a abraçou com mais força, impossibilitando que ela se afastasse. Para esconder o constrangimento que crescia dentro dela, Mahiru enterrou o rosto no ombro de Chitose.
Seu eu do passado jamais imaginaria que um dia abraçaria uma amiga com tanta força quanto agora, muito menos depois de tomar a iniciativa. Uma mistura de emoções felizes e ternas, como constrangimento, alegria e alívio, se fundiu e borbulhou calorosamente em seu peito, como se quisesse embrulhar a solidão que um dia se enraizaram profundamente dentro de si.

[Moon: Eu conheço esse parquinho aí atrás… | Kura: Reparou? Minha atenção foi toda na fofura.]
Chitose a segurou por mais um tempo e, parecendo satisfeita, deu um tapinha gentil em suas costas antes de soltá-la lentamente. “De qualquer forma, deixe com a gente! Só precisamos tirar algumas fotos suas sendo amorosa com o Amane, certo? Ou talvez com a gente também?”
“Foto amorosas seriam um pouco demais...” Mahiru gaguejou, afobada.
“É? Então não podemos tirar fotos suas sendo carinhosa com a gente?”
“Seria legal, mas...”
“Então temos que tirar algumas, não é!?”
“...Você não está falando com o Amane-kun, está?”
“Eu não tenho a mínima ideia do que você está falando.”
“Meu Deus.”
Chitose fingiu inocência, mas Mahiru sabia que ela jamais aceitaria nada perturbador ou desagradável. Esse pensamento a fez sorrir de alívio.
Eu me pergunto como eu sou para os meus queridos amigos, pensou Mahiru com uma ponta de expectativa, decidindo deixar a tarefa para eles.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
“Então, é, provavelmente tiraremos algumas fotos nos próximos dias, mas não se incomodem!” No dia seguinte, na escola, Chitose reuniu seu grupo habitual de amigos e, de repente, fez o anúncio.
Amane não ficou surpreso. Mahiru já havia lhe contado que Chitose e Itsuki haviam concordado com o pedido. Ayaka e Yuuta, por outro lado, piscaram confusos ao ouvir a declaração repentina de Chitose.
“Então, só para esclarecer, ela vai tirar fotos de vocês fazendo coisas normais do dia a dia?” perguntou Ayaka.
“Sim, este é o plano,” respondeu Mahiru. “Mas não precisa ser só eu. Pode ser que todos nós passemos um tempo juntos, ou o Amane-kun fazendo alguma coisa. O que importa agora é captar como é meu dia a dia.”
“Okay, querida, entendi. Estou um pouco nervosa que alguém veja isso.”
“Ah, claro, se alguma vez você não quiser aparecer na foto, é só avisar.”
“Não, não é que eu não queira! Só que pode ser estranho se eu aparecer nas suas fotos românticas. Como se eu estivesse me intrometendo ou algo assim.”
Isso deixou Amane completamente perplexo. “Do que você está falando...?” perguntou ele.
Mahiru, por outro lado, pareceu se identificar com o que Ayaka disse. Ela também ficaria hesitante em aparecer em uma foto de, digamos, Chitose e Itsuki se aconchegando.
Como Ayaka já havia dito que não se importava de ser fotografada, Mahiru decidiu não deixá-la se sentir constrangida com isso. Ela sorriu ao ver Amane, que ainda não conseguia entender direito o ponto, mas continuou assim mesmo.
“Agradeço a todos que estejam dispostos a ajudar, já que também estou pedindo,” disse Amane. “No entanto...”
“O quê foi?”
Amane olhou incisivamente para Chitose e o namorado como um aviso. “É melhor vocês dois não tirarem fotos estranhas. Não se esqueçam que eu vou dar uma olhada depois.”
Ele estava claramente preocupado com esse ponto, dado o jeito como olhava para o casal de pombinhos. Mahiru não pôde deixar de dar um sorriso irônico.
Ele não precisa ser tão desconfiado... pensou ela.
“Que rigoroso. Não se preocupe, sabemos para quem são essas fotos. Não vamos brincar,” garantiu Chitose.
“Vou acreditar na sua palavra então...”
“Claro, você não ficaria tirando fotos por aí, mas consigo imaginar você tirando algumas de nós em nosso passa tempo,” disse Yuuta.
“Relaxe, vocês estão em boas mãos.”
“Pelo menos negue primeiro,” brincou Amane.
Embora Amane fosse bastante cauteloso com Chitose e Itsuki, Mahiru pediu ao casal que registrasse seu cotidiano e seus momentos de alegria. Ela não os impediria, a menos que fossem longe demais.
“Vocês vão dar uma olhada de qualquer jeito, então apaguem as que não gostarem,” acrescentou Chitose. “Além disso, pensei que a moça que vai ver essas fotos quisesse fotos espontâneas? Ou será que vocês querem mostrar a ela uma versão fabricada de si mesmos?”
“Urk...”
“E isso, meus amigos, é a minha vitória!”
“Que tipo de competição foi essa...?”
[Moon: Resultado da batalha de hoje… Vitória da… Chitose?! | Kura: Contra fatos não existem argumentos kkk.]
Amane pareceu levemente descontente por ter sido “derrotado” por uma lógica tão questionável, mas até ele teve que admitir que Chitose tinha razão. No final, Amane só lhe pediu uma coisa.
“Tudo bem, só não exagere.”
“Bem, seria ideal se não ficássemos muito enrolados nas fotos. E em vez de deixar a Chi tirando todas as fotos, seria muito melhor se todos nós revezassemos. Assim, ninguém fica de fora. Não se preocupe, nada vai vazar,” murmurou Itsuki.
“Assim que vazar, eu termino de ajudar você e a Chitose a estudar,” avisou Amane.
“Nenhuma vai, eu prometo!”
Mahiru e Amane trocaram um olhar e caíram na gargalhada com a resposta rápida de Itsuki. A risada deles se mostrou contagiante, e logo todos ao redor estavam rindo também. Um calor suave floresceu no peitoral de Mahiru.
“Bem, vocês dois, relaxem e ajam normalmente, okay? Vamos garantir que sejam fotografados exatamente como são.”
Itsuki até deu uma piscadela brincalhona para mostrar que não havia nada com que se preocupar. Mahiru não tinha dúvidas sobre ele. Ele podia brincar bastante e provocar Amane sempre que tivesse chance, mas sabia perfeitamente onde estabelecer limites. Era leal, atencioso e sempre disposto a ajudar os amigos.
“Ainda estou um pouco preocupado, mas conto com vocês,” disse Amane.
“Um pouco preocupado? Ei, isso é severo,” protestou Itsuki.
“Você não tem exatamente a ficha limpa quando se trata de tirar fotos escondidas.”
“...Bem, deve ficar tudo bem desta vez?”
“Você parece inseguro, o que significa que deve saber exatamente por que estou preocupado.”
“Não tenho a menor ideia do que você quer dizer.”
Ele desviou o olhar deliberadamente, e todos sabiam que ele estava apenas tentando brincar com Amane. Ele também entendeu e deu de ombros, dizendo: “Meu Deus...” antes de cair na gargalhada divertida.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Eles decidiram tirar fotos, mas isso não significava que algo importante tivesse mudado.
As aulas ainda ocupavam a maior parte do dia letivo, então ninguém estava tirando fotos. Na melhor das hipóteses, tiravam algumas fotos em grupo durante os intervalos ou na hora do almoço, quando todos se reuniam.
Amane havia feito o almoço dele e de Mahiru hoje, e quando Mahiru elogiou, Yuuta e os outros rapidamente entraram em ação. Eles tiraram uma foto de um Amane perturbado desviando o olhar e fazendo todos rirem. Por algum motivo, Chitose até começou a tirar fotos da improvisada “Avaliação do Almoço Caseiro de Amane” que aconteceu depois.
“Nossa, vocês podem comer claro... Bem, eu fiz hoje, então não me importo.”
Como a conversa havia mudado para o quanto as habilidades culinárias de Amane haviam melhorado, o que começou como apenas degustação se transformou em uma sessão completa de troca e avaliação. Amane apenas observou, exasperado.
“Você ficaria com tudo para si se a Mahirun fizesse, mas como você cozinhou desta vez, estamos apenas trocando nossos acompanhamentos pelos seus. Não vamos tentar roubar nada da Mahirun, sabe?”
“Então a Mahiru tem passe livre?”
“Tenho certeza de que ela quer ficar com a parte dela da sua comida só para ela, então é. Não somos cruéis o suficiente para roubar as porções dela.”
“Mas não é cruel roubar as minhas...?”
Enquanto Amane e Chitose giravam essa mesma conversa, todos vasculhavam a lancheira de Amane, dizendo coisas como: “Está uma delícia, pode me contar a receita?” “Não acredito que você está comendo suas verduras” e “O Sou-chan ia adorar isso.”
[Kura: Ala, furto qualificado kkkkk.]
Todos ali já sabiam que Amane tinha começado a cozinhar, mas raramente tinham a chance de realmente provar, então foi uma experiência nova e emocionante para eles. No final, a maioria dos acompanhamentos dele tinha sido trocada por outros, e Amane parecia estar gostando tanto quanto provar os sabores da comida de todos.
“Esta é a última vez que faço isso,” resmungou Amane.
É o que ele diz, mas acho que ele ainda trocaria os acompanhamentos se alguém pedisse, pensou Mahiru, notando a expressão no rosto dele. Ele realmente não é muito honesto consigo mesmo, ela riu.
Só para constar, o vencedor unânime do concurso de “alimento mais saboroso de Amane” acabou sendo o tsukune recheado com ovos de codorna.
[Moon: Tinha que ter um ovo no meio… Lá ele. | Del: Pior que isso parece mó bom.]
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Depois de almoçarem juntos e terminarem as aulas, eles decidiram que poderiam tirar algumas fotos juntos do lado de fora.
Amane não estava trabalhando hoje, então, após alguma discussão, o grupo decidiu ir junto, todos os seis, para um complexo de lazer coberto um pouco mais distante.
[Kura: Uma gangue de fotógrafos.]
E Ayaka era a mais animada de lá.
“Uau, Kadowaki-kun. Agora que te vejo de perto, posso dizer que sua parte superior também é bem definida. Sua postura é perfeita e sua força central é incrível,” comentou ela enquanto observava.
Mesmo que o atletismo fosse sua especialidade, Yuuta encarava praticamente qualquer esporte como se não fosse nada. Contra ele, Amane e Itsuki não tinham chance sem algum tipo de desvantagem, e não importava o jogo que jogassem, Yuuta vencia de forma limpa.
Ayaka o elogiou com um sorriso brilhante e inocente, e não havia nada além de pura admiração por trás de suas palavras. Claro, ninguém mais confundiu isso com qualquer outra coisa.
No entanto, Yuuta deu um sorriso preocupado, seus ombros se contraindo levemente. Ele conhecia bem os gostos de Ayaka, mas parecia ser a primeira vez que ela fazia uma observação tão direta sobre ele. Ele parecia completamente perplexo — talvez até um pouco incomodado.
Ainda assim, Yuuta rapidamente amenizou a situação respondendo com um educado “Obrigado”. Só isso já demonstrava o quão bem-composto ele realmente era.
“Akazawa-kun, hum, é, você precisa se esforçar um pouco mais,” disse Ayaka.
“Eu sou tão ruim assim?” respondeu Itsuki.
“Não se trata de bom ou ruim. Você é só, uhm, meio magro.”
“Não estou exatamente tentando corresponder aos seus gostos aqui.”
“Mesmo que estivesse, isso seria um problema para mim. Afinal, eu já tenho o Sou-chan. Desculpe, Akazawa-kun...”
“E eu tenho a Chi, sabia!?”
“Ah, não, você está me traindo, Ikkun?”
“Como você acha que eu estou te traindo!? Você ouviu o que eu acabei de dizer!”
Mahiru soltou um suspiro suave e divertido enquanto observava a brincadeira divertida deles, do tipo que só amigos próximos podiam compartilhar. Nesse momento, Amane silenciosamente se aproximou dela e se inclinou perto de seu ouvido.
“...E eu? Você me dá nota de aprovação?”
Ele deve ter ficado curioso depois de ouvir Itsuki ser chamado de magro.
Amane ainda era magro, mas desde a primavera vinha se exercitando e correndo para ganhar massa. Graças a isso, seu corpo, antes ossudo, havia se desenvolvido de forma saudável. Nada transparecia através da camisa ainda, mas Mahiru sabia muito bem que por baixo dela estavam os resultados de seu constante esforço.
“Eu te daria nota de aprovação de qualquer maneira, Amane-kun... mas, honestamente, acho você maravilhoso. Você é magro, mas parece que tudo está bem adequado,” respondeu ela.
“Bem, isso é um alívio. Não que eu me importe, mas não consigo deixar de pensar que a Kido te influenciou—”
“O que tem eu?” Ayaka de repente se intrometeu na conversa, tendo se afastado dos outros, e Mahiru e Amane se sobressaltaram de surpresa.
“Eu só estava dizendo que você corrompeu a Mahiru com seus fetiches.”
“Mas eu não a levei a isso, sabe? Apenas a ajudei a reconhecer o charme nisso.”
“Então sim, corrompeu.”
“N-Não é culpa da Kido-san! Eu só... gosto de olhar e tocar seu corpo.”
[Del: Bem, isto é verdade, desde o volume 2 ela tinha uma tendência, mesmo que não maliciosa. | Moon: Mahiru, Mahiru… | Kura: Moon, respira kakakakaka. É normal gostar de um músculo definido não? | Del: Kura?? | Yoru: Rapaizzz]
“Mahiru, isso saiu errado, então vamos parar por aqui.”
O que ela queria dizer era que gostava de rastrear os resultados do trabalho duro de Amane com os olhos e as pontas dos dedos. Mas Amane pareceu interpretar de outra forma e, em pânico, pressionou a mão sobre a boca dela para silenciá-la.
“Mmph,” protestou ela, abafada. Mahiru olhou para ele, com um olhar quase acusatório, apenas para ver o rosto de Amane levemente corado novamente, mesmo que ele já tivesse se acalmado do exercício. Seu olhar carregava uma súplica silenciosa, como se tentasse argumentar com ela.
[Kura: Cadê as fotos meu povo? Quero muito ver essa cena em mangá ou anime algum dia…]
“Ufff, as coisas estão esquentando.”
“Kido...”
“Desculpe, desculpe. Mas, se quer saber, acho que a Shiina-san só disse isso porque é looouuuca por você.” Ayaka riu e acrescentou: “Ela não teria dito uma coisa tão ousada por outro lado.”
...Ousada. Mahiru repetiu a palavra mentalmente, repetindo-a para si mesma.
Só então percebeu que, dependendo de como se ouvia, o que ela havia dito antes soava terrivelmente impróprio. Assim como Amane, suas bochechas ficaram vermelhas.
“N-não foi isso que eu quis dizer,” Mahiru deixou escapar.
“Eu sei, eu sei. Você só olha para aquele corpo esculpido dele e se perde nele, depois o toca e fica nisso de novo e de novo, certo?” Ayaka chutou.
“N-não, não é nem de longe tão extremo!”
Amane ergueu uma sobrancelha. “Ooh, sério...?”
“Você também não, Amane-kun!”
Mahiru tentou insistir que não estava nem de longe tão obcecada quanto Ayaka fazia parecer, mas os olhos de Amane não negavam exatamente. Quanto a Ayaka, ela exibia um sorriso presunçoso e satisfeito que só aumentava.

“No que me diz respeito, você deveria aproveitar o corpo dele o quanto quiser. Você tem esse privilégio como namorada dele.”
“V-você pode estar certa, mas eu...”
“Não tente a Mahiru desse jeito.”
“Aww.”
“Não me venha com esse ‘aww’.”
“Do que diabos vocês estão falando...?”
Itsuki se aproximou, aparentemente curioso por Amane, Mahiru e Ayaka terem se afastado um pouco do grupo. Chitose e Yuuta o seguiram.
“Sobre como a Shiina-san ama muito o Fujimiya-kun,” respondeu Ayaka.
“O quê, vocês dois de exibição de novo?” Itsuki olhou para Amane e Mahiru, incrédulo.
“Não, mas claro, vamos direto ao ponto.” Amane não estava com vontade de explicar o que realmente tinha acontecido e, por isso, ignorou.
Mahiru ficou grata por isso. Por experiência própria, ela sabia que, se a conversa anterior se repetisse, Chitose sem dúvida sorriria e a provocaria, dizendo algo como: “Mahirun, você é tão ousada!” Graças ao desvio de Amane, ela foi poupada desse constrangimento.
“Bem, eu não me importo que vocês dois flertem, mas se não conseguimos tirar fotos das estrelas do show se divertindo de verdade, então por que estamos aqui?! Vamos, Mahirun, vamos brincar também!” Chitose falou animadamente.
“Huh? Espera, eu não estou exatamente vestida para muita movimentação...”
“Eles têm dardos, arco e flecha e bilhar ali. Eles também têm um fliperama, então podemos ir aos jogos de guindaste, jogos de medalhas ou até jogos de ritmo! Viemos até aqui, então seria um desperdício não nos divertirmos!”
“Deixem as fotos comigo. Vão brincar todos,” disse Amane.
[Kura: Amane típico conservado e observador.]
“Exatamente! Agora, bora, bora!” Com aquela explosão de entusiasmo, Chitose agarrou a mão de Mahiru.
Ayaka a imitou, segurando a outra mão dela e dando-lhe um leve empurrãozinho brincalhão. “Viu? Se você vem a um lugar como este, precisa aproveitar ao máximo. Venha, vamos nos divertir!”
Sabendo que Mahiru raramente tinha a oportunidade de visitar lugares como este, as duas garotas a puxaram com sorrisos brilhantes.
O que devo fazer...? Mahiru olhou para Amane, apenas para encontrá-lo sorrindo suavemente. Seus olhos brilhavam com o mesmo olhar de admiração que Ayaka havia usado antes.
“Elas convidaram você, então você definitivamente deveria ir. Divirta-se.”
Seu sorriso gentil foi como um cutucão nas costas dela. Após um breve momento de hesitação, Mahiru agradeceu às duas garotas por terem estendido a mão para ela e se adiantou por vontade própria para se juntar a elas.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Quando Chitose decidia fazer algo, ela sempre levava até o fim. Acabava tirando fotos com muito mais frequência do que Mahiru esperava.
Começando com o teste de sabor do bento de Amane outro dia, ela também capturou fotos do tempo que passaram no complexo de lazer, momentos no restaurante da família, sessões de estudo na sala de aula e até cenas deles pegando lanches na rua. Com a ajuda de Itsuki, Ayaka e Yuuta, as fotos mostravam Mahiru conversando, rindo e brincando com todas essas pessoas.
É claro que Mahiru se sentia mal por obrigar todo mundo a concordar dia após dia, então, em certo momento, ela insistiu que já tinham o suficiente. Mas então, sob o pretexto de que ainda havia um último tipo de foto que ela queria tirar, Chitose veio até Mahiru com um pedido especial.
“Já que vou passar a noite na casa da Mahirun, sou oficialmente a fotógrafa dela depois da escola!”
Originalmente, o plano era começar a selecionar quais fotos finalmente enviar para Koyuki. Mas a insistência de Chitose rendeu ao projeto uma extensão de um dia.
Naquela manhã, Amane sugeriu casualmente que dessem uma olhada nas fotos juntos depois de chegarem em casa. Naturalmente, ele não tinha ouvido falar dessa mudança, então, enquanto arrumava suas coisas para o dia, olhou para Mahiru, incapaz de esconder sua confusão.
“Ela vai?” perguntou.
“É a primeira vez que ouço falar disso,” respondeu Mahiru.
“Mahirun!?”
Mahiru riu baixinho: “Brincadeira. Estou muito grata. Obrigada.”
“...Nossa, você está começando a ficar uma verdadeira brincalhona.”
“Você me prega peças sempre que pode, então...”
Amane pegou a bolsa de Mahiru casualmente quando ela estava pronta, apoiando-a em sua piadinha. “É. Na verdade, ela faz isso com muita frequência, então continue assim.”
“Buu! Buu!” Chitose resmungou sua insatisfação, mas não pareceu se importar.
Vendo isso, Mahiru soltou uma risada suave, pegou a mão de Chitose e os três saíram juntos da sala de aula.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
“Já que a Chitose-san está aqui hoje, isso dá três porções.”
Com Chitose hospedada, o jantar naturalmente teria que ser para três.
Amane não estava trabalhando naquela noite, então o plano era passar no supermercado juntos e decidir o cardápio. A geladeira deles estava vazia depois de vários dias comendo fora e saindo com os amigos, o que tornava as compras de hoje inevitáveis. Com Chitose se juntando de última hora, porém, tudo deu certo.
Os três conversaram sobre o que fazer para o jantar enquanto se dirigiam ao supermercado mais próximo.
Amane olhou para Chitose. “Uma porção é suficiente para você?”
“Por que você fala como se eu comesse uma tonelada...? Bem, acho que estamos falando da preciosa comida caseira da Mahirun. Então, o que terá no cardápio?”
“Vamos ver... O que você gostaria?” perguntou Mahiru.
Chitose sorriu radiante. “Algo apimentado!”
Como esperado. Sem surpresas.
Amane franziu as sobrancelhas ao ouvir o pedido animado de Chitose.
“Parece que você acabou de engolir um limão,” disse ela.
“Não, você é nossa convidada. Temos que priorizar seus desejos,” afirmou Amane.
“Você parece tão relutante.”
“Só porque seu padrão de picante ultrapassa em muito o meu.”
(Mahiru) “Ah, você vai ficar bem. Depois de um certo ponto, todos os níveis de picante parecem iguais.”
“...Mahiru.”
“Hehe, não se preocupe. Vou preparar porções separadas.”
Mahiru já sabia muito bem o quão alta era a tolerância de Chitose a temperos e suas exigências. No momento em que ouviu o pedido, decidiu que prepararia versões diferentes para eles. Para ela, isso não era problema algum.
Então, perguntou: “A propósito, você tem algo específico em mente?”
“Hmm, não é como se eu quisesse que você se esforçasse ao máximo e fizesse algo super complicado... Deixa eu pensar. Que tal algo simples, como tofu mapo? Tofu é saudável e dá para comer toneladas dele.”
Mahiru se sentiu aliviada — isso não daria muito trabalho. Com tofu mapo, ela poderia simplesmente ajustar o tempero depois com pimenta-de-Sichuan, óleo de pimenta ou flocos de pimenta, então não havia necessidade de preparar pratos completamente separados.
Ao seu lado, porém, ela ouviu o murmúrio duvidoso de Amane: “Saudável...?”
Bem, não posso dizer que o que vou fazer seja especialmente bom para você.
Mahiru não planejava usar um pacote de molho comprado pronto, mas sua própria mistura de temperos, repleta de bastante carne moída. Adicione o óleo de pimenta para ajustar o tempero, e não havia como ela honestamente chamar de saudável... Mas apontar isso para Chitose teria sido cruel, então ela ficou quieta.
O tofu era saudável, pelo menos comparado à carne. Então, tecnicamente, Chitose não estava errada.
Percebendo a decisão de Mahiru de não responder, Amane assumiu uma expressão que quase dizia ‘Ah, tudo bem.’ Ele claramente não tinha intenção de estragar o deleite inocente de Chitose.
“E os acompanhamentos?” perguntou Mahiru.
“Algo que não seja apimentado,” disse Amane sem hesitar.
“Vocês acham mesmo que vou exigir que tudo seja bem apimentado...? Não tenho outros pedidos, então vocês dois podem escolher o que quiserem.”
Como Chitose não parecia exigente, desde que a comida fosse saborosa, Mahiru decidiu por algo leve e saudável para equilibrar a refeição. Ela transmitiu a ideia a Amane com um olhar sutil, anotando silenciosamente a lista de compras da noite em sua cabeça.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
A ida ao supermercado não demorou muito.
Como já haviam decidido o cardápio, não havia necessidade das idas e vindas habituais para comprar o suficiente para vários dias. Com uma convidada em casa, eles só pegaram o necessário para aquela noite — além de uma caixa extra de ovos e um pouco de leite.
[Del: Os OVOS não pode faltar. | Moon: Até porque, como já dito pelo próprio Amane, os melhores ovos são os da Mahiru! Lá ele parte 2 | Kura: Vocês gostam de um ovo não é kakakaka.]
Não era muito em termos de volume, mas ainda assim dava para duas sacolas.
“Hum, eu consigo carregar um pouco disso,” Mahiru ofereceu, olhando para o que Amane estava carregando.
No momento, Amane carregava a mochila escolar de Mahiru e as compras do supermercado nos braços, com a sua própria mochila pendurada no ombro por cima. Suas mãos estavam completamente ocupadas, e a carga parecia um fardo considerável.
“Não é tão pesado, então não se preocupe,” disse ele.
“Mas não posso te obrigar a carregar tudo...”
“Eu disse que está tudo bem. Não é pesado mesmo.”
“Mas meus livros didáticos estão aí...”
“Eu tenho me exercitado e, de qualquer forma, carrego coisas pesadas no trabalho. Isso não é grande coisa.”
Mahiru sentiu-se terrivelmente culpada, já que era a bolsa dela que ele carregava — algo que ela mesma deveria estar segurando. Mas Amane não demonstrou nenhum sinal de ceder.
“Mm-hmm, que cavalheiro.” Chitose sorriu ao ver aquilo, divertida ao extremo.
Mas Amane ainda se recusava a entregar qualquer coisa.
“Não tire sarro de mim.”
Mahiru desejava poder pelo menos carregar a própria bolsa, mas não importava o quanto tentasse convencê-lo, ele não cedia. Enquanto ela refletia sobre o assunto, Chitose se aproximou.
“Mahirun, Mahirun — aqui é quando você diz: ‘Mas eu queria segurar sua mão...’ Aí ele te entrega uma bolsa.”
[Kura: O conceito de estratégia kkkk]
“Ah, entendi!”
“Não vá ensinar bobagens a ela.”
“Ahh? Então dar as mãos conta como bobagem agora?”
“Não era isso que eu queria dizer!”
Amane balançou a cabeça freneticamente para negar. Sentindo que sua insistência estava começando a ruir, Mahiru se aproximou dele e, timidamente, ergueu o olhar para encontrar o dele.
Chitose lhe dissera certa vez que, em momentos como aquele, quem seguisse em frente sairia vitorioso.
“...Seria tão errado se fôssemos para casa de mãos dadas?”
“Guh...”
“Não quero deixar tudo em seus ombros, Amane-kun. Prefiro dividir o fardo com você... Você não gosta disso?”
Mahiru o encarou com olhos preocupados enquanto continuavam caminhando.
[Moon: Mahiru usa o ataque “O OLHAR + fofurahiru. É extremamente efetivo. | Del: Amane leva dano crítico. | Kura: Morte instantânea kakakakaka, que combo!]
“...Aqui, você pode segurar este então.”
Sob seu olhar firme, Amane finalmente suspirou em derrota e entregou algo — o culpado amarrando a mão.
Era um saquinho pequeno, que continha apenas os ovos e alguns temperos que estariam faltando.
“Hum, este é o mais leve...”
Mahiru lançou a Amane um olhar penetrante que dizia: ‘Este não!’ e sua insatisfação estava estampada em seu rosto. Mas ele apenas fingiu inocência.
“Estamos dividindo o fardo e agora podemos dar as mãos. Cumpri minha promessa. Não menti.”
Depois de entregar a pequena sacola a Mahiru, ele passou a mochila dela para a mesma mão que carregava as outras sacolas de compras, o que liberou a mão mais próxima de Mahiru.
Tecnicamente, ele havia atendido ao desejo dela de segurar a mão dele, enquanto ajudava a carregar as sacolas, mas não era bem isso que ela queria dizer.
“Parece que o Amane estava um passo à sua frente desta vez, né?,” observou Chitose. “Mesmo assim, vocês dois se dão tão adoravelmente bem. Nada de errado com isso.”
Com a mão agora livre, Amane apertou firmemente a de Mahiru, dando-lhe um aperto suave para acalmar seus protestos. A própria culpada que a havia instigado — Chitose — riu alegremente da cena.
Amane exibia o mesmo sorriso largo ao lado dela.
“Vamos lá, sem birras. Eu cumpri minha promessa, não é?”
“B-birras... Nossa, você é terrível!”
Que atrevido da parte dele.
Mahiru lançou-lhe um olhar longo e reprovador, mas ele não se mexeu. Apenas suavizou o sorriso de uma forma que a acalmou mais do que a repreendeu. Com o olha penetrante, Mahiru imaginou como Amane devia ter se sentido antes, quando resmungou, e se viu soltando um pequeno “Grr...” frustrado.
De trás, veio o som da risada divertida de Chitose. Mahiru cedeu e caminhou ao lado de Amane, como dissera que queria.
A mão dele agarrou a dela com firmeza, seus dedos entrelaçados com tanta força que era como se ele não a deixasse escapar. Sentindo o calor e a força áspera da mão dele, a pequena centelha de raiva dentro dela se dissipou lentamente, sendo rapidamente substituída por uma frustração inquieta e delicada.
“...Da próxima vez, dividiremos meio a meio.”
“Okay, okay.”
“E me refiro ao peso, não ao número de malas.”
Quando Amane não respondeu, Mahiru apertou sua mão repetidamente em protesto, mas sua palma firme não se moveu. Momentos como esse a faziam ter plena consciência de sua força juvenil. Ela apertou os lábios, sentindo-se envergonhada e irritada ao mesmo tempo.
Amane apenas riu baixinho e retribuiu o aperto de mão.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
“Então, sim, se vocês dois pudessem agir normalmente como se eu não estivesse aqui, seria ótimo.”
“Você está pedindo o impossível.”
Chitose fez esse pedido no momento em que entraram no apartamento de Amane, e Amane imediatamente negou sua plausibilidade.
Passar um tempo como sempre fazia com Mahiru era uma coisa, mas Chitose estava no apartamento com eles.
Ela era uma amiga próxima, alguém com quem podiam relaxar, e até mesmo uma benfeitora que os ajudou a se aproximarem até começarem a namorar. Mas deixá-la ver o quão intimamente eles costumavam interagir? O constrangimento superava em muito qualquer conforto.
“Ah, por favor, não se incomodem comigo.”
“Como ‘não se incomodem’?”
“Porque vocês são livres para serem tão carinhosos quanto quiserem?”
“Você tem a desculpa perfeita para tirar fotos, então eu sei que vai tirar uma quantidade absurda delas.”
“Bingo.”
Com certeza, esse era o objetivo de Chitose. Ela deu um sorriso maroto enquanto acenava levemente com o celular, fazendo a veia na têmpora de Amane se contrair.
Chitose não percebeu a irritação estampada no rosto de Amane.
Com seu sorriso despreocupado de sempre, ela disse animadamente: “Kyaa, estou com tanto medo. Hora de uma foto rápida,” e ergueu o celular como se nada estivesse errado.
“...Mas que irritante,” murmurou Amane baixinho, em voz baixa.
Mahiru percebeu que ele não estava realmente irritado ou bravo, mas apenas um pouco exasperado.
“Ara...” Ela se aproximou para acalmá-lo antes que sua carranca se aprofundasse ainda mais, indo até a cozinha preparar seu chá com leite favorito.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Depois de acalmar o humor de Amane e conversar um pouco, decidiram começar cedo os preparativos do jantar. Então, Mahiru e Amane se encontraram juntos na cozinha.
“Não se preocupe, vou capturar tudo perfeitamente,” declarou Chitose, erguendo o celular presunçosamente do outro lado do balcão.
Mahiru realmente havia pedido que ela tirasse fotos do dia a dia deles. Mas com Chitose tão ousadamente posicionada para fotografar, era difícil não se sentir constrangida ou um pouco tensa sob a lente.
“Por que você parece estar se divertindo tanto com isso?” perguntou Mahiru.
“Hã? Bem, obviamente, é divertido ver vocês dois se aproveitando. E talvez eu aprenda algumas dicas de culinária. Adoraria poder fazer seus pratos super saborosos e levemente apimentados eu mesma.”
“Levemente apimentados...?” retrucou Amane.
Chitose se virou para Amane. “É isso que te incomoda? Deixa pra lá. Enfim, vamos lá. Esta é a chance de você mostrar o quão capaz você é, sabe?”
“Como se eu fosse fazer algo tão falso.”
Amane nem se deu ao trabalho de esconder sua descrença com a escolha de palavras de Chitose, e Mahiru, por sua vez, também não via nada ali que valesse a pena se exibir.
Koyuki já sabia que Mahiru e Amane costumavam cozinhar juntos. Não era nada incomum, apenas parte da rotina diária deles. Capturar isso em fotos fazia sentido, mas enquadrar como algo que valesse a pena “exibir” não lhe caía bem.
Amane parecia sentir o mesmo. “Baka...,” murmurou ele, ignorando o comentário dela enquanto amarrava o avental.
Vê-lo assim pareceu raro para Chitose, e ela imediatamente começou a tirar fotos. Mahiru a deixou em paz, concentrando-se em tirar os ingredientes para o jantar da geladeira.
“Vamos começar com os acompanhamentos. Eles vão precisar de tempo para esfriar,” disse ela.
“É, além disso, o tofu mapo fica melhor quando está bem quente,” acrescentou Amane.
Para o jantar daquela noite, eles planejaram repolho chinês agridoce, abóbora kabocha cozida e uma sopa de ovo e tomate. Como faltavam muitas verduras, Mahiru decidiu adicionar vagens temperadas com gergelim que havia preparado antes para equilibrar.
Eles escolheram começar com o repolho e a kabocha, dividindo o trabalho entre si.
Quando começaram a cozinhar juntos, Amane muitas vezes apenas ajudava Mahiru. Mas agora, ele cuidava das coisas sozinho, movendo-se com consciência suficiente para não bloquear o fluxo dela. Ele conseguia até antecipar o próximo passo dela a partir do que ela estava fazendo e se ajustar de acordo.
Com Amane ao lado dela fazendo o seu trabalho, a comida de Mahiru correu ainda mais tranquilamente.
“Mahiru, você está usando pimentas secas para o mapo tofu?”
“Não, desta vez não. Vou adicionar pimenta em pó.”
“Se importa se eu colocar um pouco? Só temos um pouco mesmo.”
“Pode. Temos mais, então, se acabar, posso pegar um novo pacote.”
“Não vamos precisar dele.”
“Isso foi rápido.”
Mahiru não conseguiu conter o riso diante da firme recusa de Amane em sofrer com o tempero. Sua expressão se contraiu ao ouvi-la, e ele murmurou com um tom irritado: “Só um pouquinho de pimenta já está bom. Não precisa deixar muito picante.”
Ele fica adorável quando fica assim, pensou Mahiru com carinho enquanto colocava a abóbora kabocha fatiada no caldo fervente. Então, notou algo pelo canto do olho. Uma lente de câmera estava cuidadosamente apontada em sua direção.
“Chitose-san?”
“Sim?”
“Você está... tirando fotos?”
A maneira como ela mexia o celular não parecia que ela estivesse tirando uma foto.
Atraído pela voz de Mahiru, Amane também pausou seu trabalho, levantou a cabeça e olhou para Chitose com os olhos semicerrados.
“Ei... você está gravando um vídeo?”
“Nossa, que olhos afiados.”
“Uh, o que isso quer dizer?”
Parecia que ela realmente tinha tirado fotos antes, mas agora, por algum motivo, Chitose havia mudado para o modo de vídeo. Ela apenas riu da resposta de Amane, sem fazer nenhum movimento para apertar o botão de parar.
“Esta não é para enviar para as pessoas. Tem a minha voz e o Amane sendo maldoso comigo,” disse Chitose então.
“Só que você está agindo de uma forma que merece uma bronca,” retrucou Amane.
“Calma, calma,” Mahiru interrompeu. “Tenho certeza de que a Chitose-san sabe onde traçar o limite.”
“Vou enviar para vocês dois mais tarde. Heh heh heh.”
“Que sorriso estranho é esse?”
“Ah, nada mesmo!”
Sua risada alegre não poderia ser mais suspeita, mas com o fogão aceso, nem Mahiru nem Amane conseguiram se afastar para pressioná-la. Então, sem descobrir o verdadeiro significado por trás de seu sorriso eufórico, eles continuaram cozinhando.

✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Depois de pronto o jantar, eles colocaram os pratos na mesa baixa. Não havia como a mesa de jantar habitual acomodar três porções completas.
Chitose observava com admiração enquanto a refeição era servida, prato após prato, diante de seus olhos.
Não era nada extravagante, apenas uma variedade de pratos caseiros padrão. Eles haviam atendido ao seu pedido, mas, fora isso, era apenas um cardápio comum, colorido o suficiente para parecer agradável, com a nutrição decentemente balanceada.
Não era nada que valesse a pena se impressionar tanto, mas para Chitose, tudo parecia novo. Seus olhos se demoraram no jantar completo com puro fascínio.
“...Você come assim todos os dias, Amane?” perguntou ela.
Amane ergueu os olhos. “Depende do que você quer dizer com ‘assim’, mas é, mais ou menos. Um prato principal, dois ou três acompanhamentos e uma tigela de sopa. Quanto à comida apimentada que vocês duas têm aí na frente? Certamente não.”
“Se eu servisse isso para ele, o Amane-kun ficaria chateado,” acrescentou Mahiru.
Para atender ao pedido de Chitose, eles dividiram o mapo tofu em duas versões. A porção de Amane foi preparada como de costume, com temperos suaves, apenas o suficiente para dar um leve toque picante. A de Mahiru e Chitose, por outro lado, era uma versão mais apimentada e colorida da mesma receita básica. Pimenta em pó era misturada na metade do tempo de cozimento e, depois de ser servida, era finalizada com pimenta-de-Sichuan moída na hora e óleo de pimenta.
Era picante o suficiente para fazer suar, mas não era só isso. Também dava um sabor profundo e entorpecente que formigava na língua. Só a fragrância já era suficiente para atiçar o apetite de qualquer um.
“Eu jamais conseguiria lidar com o seu nível de picância,” admitiu Amane.
“Mas a Mahirun não come?” retrucou Chitose.
“Eu comecei a gostar um pouco ultimamente... Então, por favor, não atormente o Amane-kun com isso,” murmurou Mahiru.
“Na verdade, ele está sendo atormentado pelas suas incríveis habilidades culinárias, não por mim.”
“Foi por isso que eu fiz porções separadas, para que ele ainda pudesse comer um pouco.”
“E eu sou muito grato por isso,” agradeceu Amane. “Eu cuido dos pratos depois, então tudo bem se você adicionar mais. Eu me sinto mal por fazer você se dar ao trabalho de fazer duas fornadas de mapo tofu, mas já que Chitose veio até aqui, eu entendo querer servir algo que ela goste.”
Mahiru não considerou isso um problema. Mas, do ponto de vista de Amane, fazê-la se esforçar para preparar um prato “especial” para alguém parecia uma imposição. Sua expressão dizia tudo... Ele estava feliz em receber Chitose, apenas simplesmente não conseguia aceitar comida feita de acordo com os padrões dela, então esse acordo era a única opção restante.
“Hum, veja, isso mostra o quão gentis e compreensivos vocês são. Sou grata por receber comida personalizada para o meu gosto, e isso me deixa super feliz. Mas tem certeza de que não quer se desafiar de vez em quando, Amane?”
“É, não obrigado.”
Sua recusa categórica não deixou espaço para negociação. Mahiru e Chitose trocaram um sorriso diante de sua teimosia antes de finalmente se voltarem para a refeição, ainda quente.
Elas se deliciaram com o tofu mapo fumegante. A primeira coisa que atingiu a língua de Mahiru foi a fragrância vibrante, cítrica, quase floral, da pimenta de Sichuan. Então veio o ataque de calor em sua língua.
Mas não era apenas picante. O rico aroma de carne de porco moída bem selada, infundido no molho, que se agarrava ao tofu em uma cobertura saborosa. O tofu em si foi levemente pré-cozido para remover o excesso de umidade, deixando-o sedoso e elástico, o que combinou perfeitamente com o molho substancioso, inundando a boca com um rico umami.
E assim que o tempero começou a desaparecer, o formigamento entorpecente da pimenta surgiu para aprofundar ainda mais o sabor. Para aqueles que aguentavam o ardor, era divino.
O rosto de Chitose se iluminou enquanto ela colocava arroz na panela. “Delicioso! O que você fez para ficar tão bom?” Se sua expressão radiante servia de indicação, ficou claramente do seu gosto.
“Ah, não é nada complicado. Cozinhei o tofu direitinho, cozinhei a carne moída por completo, não misturei demais e moí a pimenta-de-Sichuan logo antes de adicioná-la. Só isso.”
Era um prato relativamente simples, considerando tudo, já que não envolvia fritura. A maioria das outras receitas apimentadas de Mahiru exigia fritura ou começava com a mistura de temperos semelhantes ao curry. Comparado a essas, o mapo tofu era uma maneira fácil de equilibrar o picante e o sabor, simples o suficiente para que ela às vezes o preparasse para si mesma nas noites em que Amane não estava em casa.
Amane observou o sorriso radiante de Chitose enquanto devorava alegremente sua comida, depois olhou para a porção de mapo tofu de Mahiru ao lado dele. Ele devia estar se perguntando se o sabor era realmente tão bom.
“…Então, quão picante estamos falando?” perguntou ele a Mahiru.
“Hmm… não é tão ruim assim sinceramente. Gostaria de experimentar?”
Se pudesse compartilhar um pouco com ele, Mahiru queria que Amane experimentasse. Principalmente porque ele próprio havia demonstrado interesse.
“Eu não vou morrer, né?”
“Você vai ficar bem… eu acho.”
“Você acha?”
“Bem, pimenta chili e Sichuan são dois tipos diferentes de pimenta, sabe… E como usei uma quantidade razoável dessa vez, ficou bem forte.”
Para as porções dela e de Chitose, ela adicionou pimenta em pó na metade do tempo e finalizou com pimenta-do-reino moída na hora e azeite de pimenta. Não era o suficiente para fazer Amane soltar fogo, mas ela conseguia imaginá-lo se contorcendo de desconforto por um tempo.
“Mas se você está curioso, então...” Mahiru pegou uma colherada e estendeu para ele, com o cabo virado para ele.
Amane apenas a encarou, sem fazer menção de pegá-la.
“Nossa, você está mesmo ficando com medo,” comentou Chitose.
“Depois do que ela acabou de me contar, quem não ficaria?” retrucou Amane.
“Eu. Isso é moleza para mim.”
“Não espere que eu tenha a sua tolerância à temperos.” Mesmo enquanto ele repreendia Chitose, os olhos de Amane permaneceram fixos no tofu mapo.
Ele provavelmente vai comer, decidiu Mahiru, levantando-se. Ela foi até a cozinha buscar algo para ele beber. Ela, prevendo essa mesma situação, comprou uma garrafa de iogurte. Enquanto o servia, olhou para a sala de estar. De fato, Amane se recompôs e deu uma mordida cautelosa em sua porção.
No momento seguinte, sua mão voou para a boca.
Mesmo da cozinha, Mahiru podia ver a confusão estampada em seu rosto. Não era nojo, então ele não achou ruim, mas os tremores agudos que percorriam seu corpo gritavam de puro calor. Ele não estava se contorcendo de agonia, então não era insuportável... mas era quase.
“Sinto que vou chorar...”
Amane de alguma forma conseguiu engolir e resmungou as palavras com uma voz frágil.
Chitose aproveitou a oportunidade para zombar dele. “Notícia de última hora! Primeira vez que vi o Amane chorando!? Esta foto chocante diz tudo!”
“Não ouse arriscar.”
“Sem chance, é?”
“Obviamente que não, e não, eu também não estou chorando.”
“Quando você não está acostumado com comida apimentada, o calor e a sensação de dormência praticamente abafam tudo até que tudo o que você sente é sal.” Mahiru voltou da cozinha e lhe entregou o copo. “Aqui, Amane-kun, beba este iogurte. Mas não tenho certeza se vai ajudar com a dormência.”
“Salva-vidas...” Ele não hesitou por um segundo e virou tudo de uma vez.
É realmente tão ruim para ele...? pensou Mahiru, mais perplexa do que desanimada como a cozinheira.
“Fwaaah.” Amane esvaziou o copo inteiro e finalmente soltou um longo suspiro, como se sua alma tivesse retornado a ele. O suor escorria por sua testa, prova de que mesmo uma única mordida havia deixado seu corpo em plena atividade.
“Agora eu tenho certeza de que não consigo lidar com isso,” disse ele.
“Eu disse,” respondeu Chitose.
“Se você sabia, por que tentou me fazer comer?”
“Porque eu queria compartilhar algo delicioso com você.”
“Não é como se eu fosse magicamente capaz de lidar com isso... Mesmo assim, é uma pena que eu não consiga apreciar o quão bom seja.”
[Kura: Tolerância a pimenta nível 0 kkkk.]
Os ombros de Amane caíram em decepção. Mahiru não pôde deixar de achar a visão um pouco adorável, embora tivesse certeza de que ele ficaria irritado se ela dissesse isso em voz alta.
Em vez disso, ela simplesmente lhe ofereceu um sorriso gentil. “Todo mundo tem coisas com as quais não consegue lidar, então não adianta ficar remoendo isso. Você gostou do mapo tofu normal, não é?”
“Claro.”
“Então é isso que importa.”
Mahiru não achava que eles tinham que ser iguais. Cada um deles poderia simplesmente escolher o que melhor lhe convinha, e se algo não desse certo, tudo bem. Isso significava apenas que seus gostos eram diferentes. O que importava era respeitar as preferências de cada um, não forçar um a mudar para se adequar ao outro.
“Certo, vamos comer antes que esfrie. Tenho certeza de que até o mapo tofu quer ser apreciado enquanto ainda está quente. Comida gostosa deve ser comida enquanto está mais gostosa.”
Ela deu um tapinha de leve nas costas de Amane e, embora tenha sido apenas um toque, ele se sobressaltou como se tivesse sido empurrado para a frente, respondendo com uma voz muito mais leve: “É, você tem razão.”
Sorrindo para ele mais uma vez, Mahiru pegou seus hashis e voltou para sua refeição.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Embora Mahiru tivesse servido uma porção generosa, Chitose limpou sua tigela sem esforço e agora estava recostada com um sorriso profundamente satisfeito.
“Ufa, estou satisfeita. Obrigada pela refeição,” disse ela enquanto esfregava a barriga.
“Que bom que você gostou. Minha comida sendo finalizada é a maior recompensa que eu poderia pedir como cozinheira.”
Chitose dificilmente tinha desgostos quando se tratava de comida, e comia com entusiasmo e delicadeza, sem deixar um único pedaço para trás. Para a chef, isso era gratificante e uma alegria de ver.
“Porque é tão bom! Quero comer isso todos os dias!” exclamou Chitose.
“Este é meu privilégio pessoal, então não.” retrucou Amane.
“Nossa! Você ouviu isso, querida esposa?” provocou Chitose com um sorriso malicioso, fazendo os ombros de Mahiru se encolherem de vergonha.
Amane provavelmente não quis dizer nada com isso, mas o que ele disse a lembrou de sua conversa com Koyuki, deixando-a sem escolha a não ser ficar quieta e tentar disfarçar sua agitação.
Independentemente de ter notado sua luta silenciosa ou não, Amane empilhou os pratos de todos ordenadamente em uma bandeja e se levantou. “Bem, então, nossa convidada deveria ter uma boa conversa com a chef. Eu cuido da limpeza.”
“Huh? Mas eu também deveria...” começou Mahiru.
“Não, você não vai. Não tire minha parte do trabalho de mim.”
“Exatamente, Mahirun. Você nunca se dá a chance de relaxar, e é assim que se esgota. Se o Amane diz que vai cuidar disso, você deveria deixá-lo.”
Curiosamente, Chitose pediu a Mahiru que demonstrasse um pouco de moderação desta vez.
Ela se esparramou confortavelmente no sofá e acenou para Mahiru se aproximar com um alegre: “Vem cá!”
“Mas...” Mahiru hesitou, apenas para Amane acrescentar: “Muito bem, Chitose. Segure-a aí para mim,” praticamente incitando-a a continuar. Ele não tinha intenção de deixar Mahiru levantar um dedo.
Naquele momento, Mahiru sabia que se ela o seguisse até a cozinha, ele apenas a expulsaria. “Môu...” Ela expressou sua única queixa com um pequeno suspiro antes de se acomodar ao lado de Chitose.
Amane olhou para elas, satisfeito, e então levou os pratos para a pia.
“Ele realmente se tornou tão confiável, não é?” Chitose observou como Amane agia e deixou escapar o pensamento com um toque de nostalgia.
“Hehe, ele está completamente diferente de como costumava ser, não é?” Mahiru concordou.
“Ouvi do Ikkun que o apartamento dele costumava ser um desastre total.”
“Bem, sim... era.”
[Moon: “Isso dói só de olhar… (...) Como alguém consegue viver aqui dentro?!” - Mahiru]
O som de água corrente vinha da cozinha, trazendo à tona memórias de mais de um ano atrás.
Quando se conheceram, o espaço de Amane era tão bagunçado que não havia como dar um toque educado à situação.
Roupas recém-lavadas estavam espalhadas pelo chão da sala. Revistas estavam empilhadas aleatoriamente ou jogadas de um lado para o outro como confete. A mesa estava cheia de hashis e colheres descartáveis sem uso, enquanto folhetos escolares estavam enfiados em uma caixa de forma tão descuidada que era improvável que ele tivesse sequer olhado para eles.
Se havia uma coisa boa, era que ele pelo menos conseguia lidar com o desperdício de comida de forma adequada. Aparentemente, seu bom senso havia entrado em ação o suficiente para perceber que deixar o lixo se acumular atrairia baratas. Não havia mosquitos ou pragas à vista. Ele era apenas um exemplo clássico de alguém totalmente incapaz de arrumar.
“Era um chiqueiro?” Chitose chutou.
“Chiqueiro... chiqueiro... Bem, eu diria que mal contava como ‘não limpo’, talvez...?”
“Então, basicamente, uma bagunça total.”
“O único elogio que posso fazer é que ele não deixou o desperdício de comida se acumular.”
“Ufa, ótimo. Só um pouco tolerável, então.”
“Só para vocês saberem, eu consigo ouvir cada palavra. Mas não vou negar, porque tudo isso é verdade.” Amane lançou-lhes um olhar fulminante, com a esponja e o prato ainda na mão.
Aparentemente, suas vozes foram facilmente levadas para a cozinha.
Mahiru encarou o olhar dele de frente. “Estávamos apenas falando sobre o seu crescimento. Não estávamos falando mal de você. Se você levou isso como um insulto, então talvez tire um momento para refletir sobre seus hábitos passados.”
“Urk... eu sei, mas mesmo assim...”
Os lábios de Amane se fecharam após aquele golpe, deixando-o incapaz de argumentar.
Chitose caiu na gargalhada. “E no entanto, olhe para você agora.”
“Em cerca de meio ano, você agora consegue lidar com quase tudo com facilidade,” acrescentou Mahiru. “E sua culinária melhorou rapidamente depois que você se acostumou.”
Ninguém entendia melhor do que Mahiru como Amane era o tipo de pessoa que se dedicava quando fazia as coisas.
No início, ele não conseguia cozinhar nem limpar, e Mahiru sinceramente se perguntava como alguém assim conseguia viver sozinho. Mas, assim que começou a ensiná-lo com afinco, Amane aprendeu com a mesma dedicação. Aos poucos, as coisas que ele não conseguia fazer antes se tornaram coisas que ele conseguia lidar com confiança.
O apartamento que antes era uma zona de desastre, ele agora mantinha arrumado sem a orientação dela. Sua culinária havia chegado ao ponto em que, com uma receita, ele conseguia fazer quase tudo. Sua atenção natural só havia se aguçado, permitindo que ele cuidasse não apenas da condição dela, mas também da sua.
Além disso, em algum momento do caminho, ele havia despertado para o autoaperfeiçoamento. Concentrou seus esforços nos estudos, na malhação e até mesmo na higiene pessoal. Amane agora estava muito longe do garoto que conhecera, mas continuava gentil e sincero.
“Vamos ser sinceros. Se eu tivesse passado meio ano sob sua supervisão e não tivesse melhorado nada, isso significaria que eu não tinha capacidade de aprendizado,” afirmou Amane.
“Você cresceu muito mais do que eu esperava... em mais de um sentido,” acrescentou Mahiru.
“Como os músculos dele?” interrompeu Chitose.
“Agora até você está me provocando com isso, Chitose-san...”
“Eeehhh, afinal, você tem um fetiche muito forte pelo Amane.”
Amane ouviu o que Chitose disse e respondeu: “É menos um fetiche e mais o fato de ela estar perdidamente apaixonada por mim.”
“Oho? Alguém está terrivelmente confiante.”
“O que posso dizer? É verdade que ela me ama.”
Amane disse isso tão casualmente como se estivesse tomando chá, o que deixou Mahiru queimando de vergonha.
Ela estava feliz por ele reconhecer seus sentimentos, por todas as vezes que ela lhe disse isso terem assimilado. Mas ouvir aquilo dito ali mesmo, na sua frente, ainda a fazia se sentir mais tímida do que encantada.
“Você realmente cresceu, sabe? Perdeu aquele lado fofo que você costumava ter,” continuou Chitose da sala de estar.
“Eu nunca tive um ‘lado fofo’ para começo de conversa. E, falando sério, foi você quem me chutou e ajudou nisso, para ser mais honesto. Então por que tirar sarro de mim agora que finalmente tenho?”
“Por que eu amo fazer isso.”
“Esse seu amor é bem distorcido se quer saber. Eu poderia viver sem ele,” murmurou Amane amargamente, ainda concentrado na louça.
Chitose apenas riu. “Bem, o único amor que você deseja é o da Mahirun, certo?”
Mahiru não conseguiu dizer nada. Seu corpo apenas se encolheu, um calor percorrendo-a de uma forma que nem mesmo o jantar apimentado havia causado.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
Como Chitose passaria a noite na casa dela, Mahiru e Chitose saíram da casa de Amane um pouco mais cedo do que o habitual e foram para o apartamento de Mahiru que ficava ao lado, onde se prepararam com calma e tomaram um banho relaxante.
Elas tinham aula no dia seguinte, então ficar acordadas até tarde não era uma opção. Por isso, começaram a se preparar cedo. Mas, como tomaram banho separadamente, ainda demorou um bom tempo. Quando terminaram de arrumar tudo, era apenas um pouco mais cedo do que o horário habitual de dormir.
Chitose costumava passar a noite na casa de Mahiru, então já estava acostumada à rotina. Vestida com a roupa de dormir combinando que haviam comprado antes, sentou-se ao lado de Mahiru na cama, fazendo alguns alongamentos leves casualmente.
“Faz um tempo desde a última vez que fiquei na sua casa, Mahirun. Parece que faz uma eternidade. Sua cama é tão macia e confortável — eu adoro.”
“Acredito que roupas de cama de qualidade valem o investimento. Afinal, o corpo é um dos nossos bens mais preciosos.”
“Você se importa muito com esse tipo de coisa, não é?”
“Eu me importo. Me ensinaram que, depois que você danifica o corpo, não é tão fácil se recuperar.”
Essa sabedoria em particular veio de Koyuki. Ela sempre enfatizava que tudo que tocasse ou entrasse no seu corpo deveria ser de boa qualidade. O impacto pode não ser óbvio de imediato, mas se manifestaria com o tempo. Quando se é jovem, pode-se fazer mais, mas à medida que se envelhece, a diferença se torna clara. Mahiru se viu concordando com a cabeça naquela época, genuinamente impressionada.
Então, embora não chegasse ao ponto de procurar itens de luxo de primeira linha, ela se certificava de escolher coisas que lhe caíssem bem e fossem confortáveis de usar. Sua cama, por exemplo, era grande o suficiente para se esticar e projetada para distribuir a pressão uniformemente, tornando-a confortável e aconchegante. O mesmo cuidado foi dedicado à escolha do travesseiro.
Mahiru estava confiante em suas decisões quando se tratava de conforto, e Chitose lhe deu um aceno de aprovação e um sorriso caloroso.
“Esta pessoa que te ensinou deve ter se importado muito com você.”
“Eu gosto de acreditar que sim.”
“Você deveria ter mais confiança nisso! ...Ei, tudo bem se eu perguntar sobre a pessoa que te criou?”
“Claro.”
Pensando bem, Mahiru nunca havia contado muito a Chitose sobre Koyuki.
Ela mencionou que Koyuki era sua guardiã substituta que cuidava dela, mas nunca entrou em detalhes sobre que tipo de pessoa ela era ou como cuidava de Mahiru. Houve um tempo em que só tocar no assunto dos pais deixava Mahiru desconfortável, graças a tudo que acontecia com relação aos seus pais biológicos. E Chitose, sendo atenciosa à sua maneira, nunca havia perguntado a Mahiru sobre seu passado. Naturalmente, isso significava que ela nunca tivera muitos motivos para mencionar Koyuki.
Mas agora, lá estavam elas. Chitose a estava ajudando a preparar uma foto para enviar a Koyuki, reservando um tempo para estar com ela e seus amigos para criar boas memórias juntas.
E então, Mahiru nem considerou a ideia de guardar tudo para si. Não quando se tratava de Chitose.
“Que tipo de pessoa ela é?”
“Vejamos... Ela é o tipo de pessoa que poderia fazer absolutamente qualquer coisa. Honestamente, acho que nunca a vi fracassar em algo antes.”
Para Mahiru, Koyuki era a imagem ideal de uma mulher adulta. Ela era tão gentil, serena e profundamente atenciosa. Ela lidava com todas as tarefas que se poderia esperar de uma tutora com perfeição, sempre prestando atenção genuína às necessidades e sentimentos de Mahiru.
[Del: Tal mãe, tal filha. | Kura: Filho de peixe, peixinho é.]
Talvez ajudasse o fato de Koyuki ter experiência em criar filhos mais velhos que Mahiru, mas mesmo assim, seu nível de competência era quase sobrenatural. Ela podia fazer qualquer coisa, ensinar qualquer coisa e parecia saber tudo o que alguém precisa para sobreviver neste mundo. Era difícil não se perguntar quem ela realmente era.
Mahiru sabia que fora sua mãe biológica quem providenciara os cuidados de Koyuki e que seus antecedentes e credenciais deviam ter sido cuidadosamente examinados para evitar maiores complicações. Mahiru nunca duvidou dela. Nem de seu caráter, nem de seu passado.
“Então, basicamente, ela é como uma versão totalmente atualizada de você?” perguntou-se Chitose.
“No mínimo, ela é algo como um modelo com especificações mais altas, sim.”
“Por que você está se menosprezando? Não faça isso. Poxa.”
“Foi você quem disse primeiro, Chitose-san.”
“Okay, okay, me desculpe.”
Chitose a abraçou com força, e Mahiru a deixou fazer o que quisesse. Seus pensamentos voltaram para uma época em que ela havia experimentado uma felicidade equivalente à solidão que um dia conhecera.
Naquela época, Mahiru estava desesperada para ganhar o amor dos pais, para ser notada por eles. Ela havia se esforçado tanto para ganhar o afeto deles. No final, esse desejo nunca se realizou. Mas, mesmo assim, ela não acreditava que aqueles dias tivessem sido completamente sem sentido.
No mínimo, ela havia sido amada por Koyuki. Por meio dela, Mahiru aprendeu como uma pessoa deve viver — e o que realmente significa amar e ser amado.
“Ela é... uma pessoa verdadeiramente maravilhosa que me ensinou tantas coisas.”
“Ela te ensinou a cozinhar?”
“Sim. Ela me ensinou a cozinhar todos os tipos de pratos. Mas não só isso. Ela também me ensinou boas maneiras básicas, bom senso cotidiano, como estudar e até como me comportar. Aprendi muito com ela.”
“Então, de certa forma, a versão de você que todos conhecemos hoje não existiria sem ela.”
“Isso mesmo. Sem ela, eu não teria me tornado a pessoa que sou agora. E, honestamente... se ela não estivesse lá, eu poderia até ter tirado a minha própria vida. Ela me apoiou muito.”
[Del: Faz um bom tempo que eu tenho esse pensamento. E a novel finalmente confirmou isso… | Moon: Bem que ela mesmo disse “Eu já tinha desistido de tudo quando fui parar naquele balanço”, mas só de pensar nisso… Aaaa eu quero abraçar a Mahiru (e matar um certo alguém). | Kura: Esse foi realmente forte…]
Mas e se…? E se a tutora designada para Mahiru não fosse Koyuki, mas outra pessoa? Alguém que simplesmente fizesse o seu trabalho e fosse embora, sem nunca entrar em contato com Mahiru? Essa poderia ter sido a abordagem correta do ponto de vista profissional, mas não teria feito nada para salvar Mahiru.
Deixada sem uma professora confiável, ignorante até mesmo das boas maneiras básicas, sem saber nada sobre o amor, Mahiru teria crescido sozinha, sem nem mesmo saber o que significava viver ao lado de outra pessoa. E, eventualmente, ela poderia ter desistido da vida de vez.
Era o pior final possível, um que ela nem conseguia imaginar. Um final que agora, naquele momento, jamais poderia acontecer. A única razão pela qual esse futuro nunca aconteceu foi porque Koyuki esteve lá. Por isso, Mahiru nunca poderia agradecê-la o suficiente.
“Então ela cuidou muito bem de você, e você a ama muito por isso.”
“Claro... Ela é como uma mãe para mim. Eu quero retribuir isso um dia, mas, ao mesmo tempo, não sou filha dela de verdade. Não acho certo me envolver demais na vida privada dela.”
Agora ela morava com o filho e seu cônjuge, o que dificultava as visitas de Mahiru, especialmente com a distância entre elas. Mahiru nem sabia o que os filhos de Koyuki sentiam por ela. Pelo que sabia, eles poderiam considerá-la apenas um incômodo. Esse pensamento a deixou sem escolha a não ser manter distância.
Chitose ouviu isso e disse: “Você se preocupa demais com o que os outros pensam,” e então deu um sorriso sem graça para Mahiru. “Hmm... mas, sinceramente, você não vai ter certeza a menos que pergunte a ela, né? Não é algo que você ou eu possamos simplesmente presumir.”
“...Você tem razão.”
Claro que ela tinha razão. Ninguém jamais poderia saber o que outra pessoa estava pensando. A menos que você pudesse, de alguma forma, espiar o coração dela ou que ela mesma decidisse te contar, qualquer palpite permaneceria apenas isso — meros palpites. As pessoas não conseguiam entender completamente os sentimentos de outra pessoa. Por mais simples que parecesse, era a verdade.
“Bem, se você realmente quer retribuir, por que não esperar até ser adulta para pensar em como?”
“Uma adulta...”
“Porque, sejamos realistas, ainda somos apenas crianças de certa forma. Crianças tentam fazer um monte de coisas, mas os pais provavelmente só querem que elas se concentrem em si mesmas primeiro. Estamos naquela fase da vida em que mal conseguimos nos manter à tona só de cuidar das nossas próprias coisas. Quando chegarmos ao terceiro ano, estaremos fazendo preparação para o vestibular, não é? É bom querer retribuir, mas também há dinheiro, circunstâncias... tudo isso para se pensar. Se você ainda não consegue cuidar de si mesma, então não faz sentido tentar ajudar outra pessoa.”
[Del: A Chitose está… pensando. | Moon: Medo… | Kura: Hoje a Chitose deu exemplo…]
Mahiru ficou sem palavras com o raciocínio direto e objetivo de Chitose. Então, Chitose piscou para ela, brincando.
O que ela dissera estava certo. Se Mahiru tentasse fazer algo por Koyuki agora, Koyuki quase certamente recusaria. Na verdade, ela provavelmente a repreenderia gentilmente e diria: “Cuide de você primeiro.”
“Vejo que você se tornou bem realista agora, Chitose-san.”
“Nossa, você age como se eu sempre tivesse a cabeça nas nuvens. Malvada!”
“Desculpe, não foi isso que eu quis dizer.”
“Eu sei, eu sei... Mas é, no seu caso, Mahirun, acho que você não terá muito com o que se preocupar no futuro. Afinal, você tem o Amane com você. Vocês serão uma família com duas fontes de renda, o que deve ser mais do que suficiente para sobreviver.”
Chitose disse isso tão casualmente, tão naturalmente, que Mahiru congelou na hora.
O que Chitose queria dizer com “família com duas fontes de renda” era bastante claro — era a expressão usada para descrever uma família com ambos os parceiros trabalhando.
E o fato de ela ter mencionado Amane ao lado dela significava apenas uma coisa: mesmo aos olhos de Chitose, os dois já pareciam estar caminhando para um futuro de casamento juntos.
O futuro com que sonho...
[Del: :) | Moon: :) | Kura: :)]
Um futuro onde o amor deles ganharia forma tangível. Onde o vínculo deles fosse oficializado, onde compartilhassem o mesmo nome e caminhassem juntos pela vida. Era um sonho que ela havia desejado mais vezes do que conseguia contar.
Suas bochechas queimaram só de pensar, e seu coração batia com tanta força que ela podia sentir o sangue correndo para todos os cantos do corpo.
“Oh ho?”
Chitose notou Mahiru agindo de forma estranha, olhou para ela novamente e abriu um sorriso largo e travesso.
“Nyeh heh heh, você acabou de imaginar, não é? Queee fofinha!”
Chitose levantou o celular sorrateiramente, e Mahiru deu um leve tapa em sua coxa.
“...Por favor, não tire fotos,” alertou ela.
“Essa é só pra mim~!”
“Isso piora ainda mais!”
[Kura: Momentos kkkkk.]
Chitose então virou a tela para si com um sorriso. Estava completamente escuro. Nem a tela de bloqueio estava aparecendo, o que provava que tudo tinha sido uma brincadeira.
“De qualquer forma, não se preocupe tanto com isso, Mahirun. Só mandar uma mensagem simples como ‘Estou muito feliz agora’ já seria mais do que suficiente como agradecimento.”
“...Estou tentando fazer exatamente isso pedindo para você tirar fotos para mim.”
“Ah, sim. Ops, erro meu.”
Chitose riu, divertida, e Mahiru soltou um suspiro suave.
“Môu.”
Seu rosto, no entanto, permaneceu relaxado, seu sorriso persistindo enquanto ela gentilmente provocava Chitose em troca. Então, ela a abraçou, impressionada com a sorte que tinha de ter uma amiga assim tão maravilhosa.
✧ ₊ ✦ ₊ ✧
“Cara, eles tiraram toneladas de fotos.”
No dia seguinte de folga, Amane e Mahiru correram para casa depois da escola para rever todas as fotos que haviam sido tiradas. Os dois se sentaram na sala de estar e se aconchegaram em frente a um único smartphone.
Ao longo de uma semana, Chitose e seus outros amigos tiraram inúmeras fotos. E agora, vendo todas reunidas em um só lugar, o número era impressionante. Eram tantas que a barra de rolagem havia encolhido até virar um pontinho minúsculo.
A julgar pelas miniaturas, eles tiraram todos os tipos de fotos. Havia algumas de Mahiru e Amane juntos, algumas com apenas um deles, e até algumas fotos em grupo de todos juntos.
Lado a lado, os dois folheavam os trabalhos arduamente conquistados por Chitose e os demais, cada foto despertando memórias de tudo o que haviam vivenciado durante aquela semana.
“Caramba, isso ocupa muito espaço... Quantas fotos eles tiraram?” perguntou Amane, espantado.
“Eles estavam muito entusiasmados, afinal. Esta sua aqui é adorável.”
Na tela, havia uma foto de Mahiru dando um crepe para Amane, com o rosto vermelho de vergonha. No momento em que a viu, a lembrança voltou à tona, e ele imediatamente fez uma careta.
[Del: Óh, é uma das capas! | Kura: Onde vejo?]
“Uh, eu realmente não consigo aceitar ‘adorável’ como um elogio.”
“Por que não?”
“...Bem, eu consigo. Mas só se for de você.”
“Você é realmente um doce comigo, Amane-kun.”
“Demorou bastante para você perceber.”
Era um pouco estranho para Mahiru admitir isso — já que era ela quem estava sendo mimada — mas Amane era genuína e especialmente indulgente com ela. Ele quase nunca ficava bravo, a menos que algo realmente sério acontecesse, e era tão tolerante que ela às vezes se perguntava se era realmente certo ele deixá-la fazer as coisas do seu jeito.
Ainda assim, ela sabia que aquela ternura era simplesmente uma prova do quanto ele a amava. Longe de se sentir culpada, ela só conseguia se sentir querida. E como Amane era alguém que traçava uma linha firme e dizia não quando realmente importava, ela não tinha motivo para se sentir desconfortável por ser tão amada.
A maneira como ele consegue fazer essa distinção é uma das coisas que eu amo nele, pensou Mahiru com carinho.
Ela se encostou ao lado dele, e os dois lentamente relembraram a semana anterior, sentados juntos. “Ah, essa foi quando...” “Depois disso, nós...”
Eles haviam capturado todos os tipos de momentos: todos se deliciando juntos com o almoço caseiro de Amane; Amane parecendo presunçoso depois de perder todos os jogos de bola para Yuuta, mas conquistando facilmente o primeiro lugar no dardo; Mahiru se atrapalhando repetidamente no jogo de garra; o grupo que se reuniu fervorosamente em torno de uma mesa para estudar; até mesmo Amane, a pedido de Ayaka, pegando Mahiru nos braços como uma princesa depois que Itsuki se gabou de ter se certificado de que Amane estava em forma.
[Del: Eu ia falar que queria essa foto de princesa, mas já temos uma imagem dessa lá no volume 2, quando ela ficou doente. | Kura: Precisamos fazer um albúm com essas obras de arte.]
Quanto mais Mahiru olhava, mais impressionada ficava com a forma como Chitose e Itsuki pareciam nunca perder uma foto perfeita. Enquanto rolava lentamente pela galeria, uma foto datada recentemente chamou sua atenção.
Era uma foto dela e de Amane com o sol se pondo à frente deles.
Seus rostos não estavam claramente visíveis, já que a foto havia sido tirada de costas. Apenas seus perfis estavam levemente delineados pelo brilho do sol poente. Mesmo assim, suas expressões eram visíveis. Seus olhares eram tão serenos, tão cheios de alegria, e Mahiru se pegou pensando: Quando foi que eu fiz essa cara?
Suas mãos estavam entrelaçadas, como sempre, e suas sombras se aproximavam como se estivessem se abraçando. A imagem carregava um toque de nostalgia, mas retratava apenas um momento comum de suas vidas. Para Mahiru, capturava nada menos do que sua própria felicidade comum e insubstituível.

“Quando foi que ela conseguiu tirar essa?” murmurou Amane, perplexo.
Mahiru se lembrou de que Chitose havia se esgueirado para trás deles depois de terem dado as mãos, então ela deve ter tirado a foto naquele momento. A composição era tão perfeita que, por um segundo, quase pareceu o trabalho de um profissional.
[Moon: Fala dela… Fala da Chitose agora! Minha goat!!!]
Mahiru se viu olhando para a foto, sua beleza a impressionando de imediato e deixando uma impressão duradoura. E enquanto a observava, Amane silenciosamente estendeu a mão e segurou a mão dela na sua.
“Você sabe o endereço da Koyuki-san, certo?”
“Por que está perguntando assim de repente? Claro — eu me certifiquei de anotar. Se ela tivesse se mudado, teria me contatado, então acredito que ela ainda esteja lá.”
“Ótimo. Eu só pensei que, sabe... enviar as fotos como estão parece um desperdício quando temos tantas boas.”
Os olhos de Amane também se demoraram na foto. Ele também foi cativado pelo seu charme.
“Eu estava pensando que seria melhor imprimir e montar um álbum. Claro, enviar digitalmente funciona, mas parece um pouco impessoal. Se adicionarmos decorações ou bilhetinhos aqui e ali, ficaria mais colorido e muito mais divertido de folhear.”
O conceito de “álbum” não era muito familiar para Mahiru.
Seus pais nunca a haviam olhado para ela, muito menos tirado fotos. Ela não tinha momentos, nem lembranças, nem memórias capturadas em fotos. Para ela, álbuns sempre pertenceram a um mundo distante.
Mas agora, ela faria um com Amane.
“Ah, claro, se você não se sentir confortável com isso, podemos simplesmente enviar a ela as versões digitais.”
Amane acenou com as mãos rapidamente, afobado. Ele deve ter percebido a breve sombra que cruzou o rosto de Mahiru e pensou que ela não gostou da ideia. Mas não era nada disso. Para ter certeza de que ele havia entendido, Mahiru encontrou seu olhar e lhe deu um sorriso gentil.
“Ah, não... É que eu nunca fiz ou tive um álbum em casa antes. Então... eu gostaria de tentar.”
“Entendi. Então vamos fazer dois: um para enviar e outro para guardar conosco de recordação.”
“Okay.”
Sem ser autoritário ou desconsiderado, Amane continuou a falar com sua voz terna de sempre, tão suave quanto a brisa da noite de primavera. E enquanto Mahiru ouvia, sentiu mais uma vez o quanto amava o jeito como ele fazia isso, e seu sorriso se aprofundou ainda mais.
“Então, vamos envolver todo mundo para ajudar e montar algo legal,” sugeriu Amane.
“Algo legal? O que isso quer dizer?” Mahiru deu uma risadinha.
“Não espere que eu tenha tato para essas coisas... Vamos apenas juntar as melhores ideias de todos e fazer algo que dure tanto como um lugar para guardar quanto como lembrança.”
“Okay.”
Meu próprio álbum... Que doce e sedutor soavam aquelas palavras.
Este seria o primeiro álbum de Mahiru. E certamente não seria o último. Seria apenas um de muitos outros que viriam.
Só de pensar nisso, um calor abençoado percorreu seu peito e a encheu de uma alegria tão doce que quase a arrebatou. Ela tentou se conter, mas não conseguiu, e um sorriso surgiu em seu rosto enquanto se aconchegava no braço de Amane. Amane respondeu com o mesmo sorriso sereno e gentil, e assentiu levemente.
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