Vol 11.5 – Volume 11.5
Capítulo 4: Os Tipos de Pessoa que Eles Não Suportam
Amane tinha Mahiru como namorada, mas isso não significava que ele passava todos os momentos que estava acordado com ela. Mahiru tinha suas próprias paixões e, claro, seu próprio círculo de amizade. O mesmo valia para Amane.
Eles costumavam voltar da escola juntos nos dias em que Amane não tinha trabalho, mas nem sempre. Hoje era um daqueles dias em que ele não estava trabalhando, mas em vez de ir direto para casa, tinha planos de sair com Itsuki e Yuuta depois da escola.
Eles não podiam ir a nenhum lugar muito caro e, para começar, tinham pouco tempo depois das aulas para sair. Era por isso que geralmente acabavam no karaokê. Era um espaço privado e confortável, onde ninguém os incomodaria, além de bebidas a um preço razoável.
Mesmo que chamassem de sessão de karaokê, o canto não era o principal atrativo. Depois de algumas músicas, a coisa toda geralmente se transformava em uma sessão descontraída de atualizações. Não que eles tivessem muito o que colocar em dia, já que todos estavam na mesma turma. Todos já sabiam das grandes novidades. Como resultado, eles passaram a conversar sobre assuntos triviais, como o que estavam curtindo ultimamente ou coisas aleatórias de que gostavam. Apenas conversas casuais entre amigos.
“Então, eu estava saindo com o Yuuta outro dia, e ele foi paquerado do nada. Eu fiquei tipo ‘Nossa, o Yuuta é popular mesmo’,” comentou Itsuki, quase em êxtase.
Parecia que o assunto de hoje começaria com aquele passeio. Itsuki cruzou os braços, assentindo e acrescentando: “Cara, aquilo foi sensacional.”
Yuuta não tinha defeitos aparentes: boa aparência, um físico incrível, uma voz agradável e, além disso, era inteligente, gentil e sincero. Amane achava natural que Yuuta atraísse a atenção das mulheres.
No entanto, o próprio homem não parecia muito feliz com isso.
“Sinceramente, ser popular não me deixa nada feliz.”
“Se outro cara ouvisse você dizer isso, ele te sacudiria pelos ombros até você chorar sangue.”
[Moon: A ânsia de ter, o tédio de possuir… Mas com popularidade, sinceramente, não entendo quem gosta. Sou totalmente Yuuta nessa! Deve ser desconfortável, sabe? Toda hora alguém em cima de você •>•]
Era um problema do qual só os afortunados podiam reclamar. Se garotos ainda presos na solidão ouvissem, Yuuta não só seria deixado de lado, como também seria odiado. Ele só ousava compartilhar tais reclamações ali, em uma sala privada, longe de olhos e ouvidos curiosos. O efeito que aquelas palavras poderiam ter não era motivo para brincadeira.
“Tipo, quando os caras dizem que querem ser populares, o que na verdade querem dizer é que querem que as garotas fiquem loucas por eles e talvez — se tiverem sorte — façam sexo com eles, certo? Eu simplesmente não me sinto assim, então é meio...” Yuuta parou de falar.
“É, isso é meio estranho por si só,” murmurou Amane.
“Você é a última pessoa de quem eu quero ouvir isso,” retrucou Yuuta.
“Concordo,” disse Itsuki.
“Ei, não se juntem contra mim.” Amane olhou feio para os dois por se voltarem contra ele de repente, mas não foi muito eficaz. “Qual é, Fujimiya — você não tem a mesma mentalidade que eu? Você não quer ser popular com várias garotas, você só quer namorar aquela de quem realmente gosta.”
“...Sim, e é tudo o que eu preciso.”
“Certo, como se eu estivesse não tentando atrair uma multidão aqui. Honestamente, popularidade não é tudo o que dizem. Não são só garotas que você atrai — você também se envolve em todo tipo de drama confuso. Francamente, é mais problema do que vale a pena.”
O olhar distante de Yuuta deixou claro que ele havia passado por dificuldades que Amane nem conseguia imaginar. Não havia nada que Amane pudesse dizer sobre isso. Ele só pôde lhe oferecer um olhar de compaixão enquanto silenciosamente reconhecia o quanto devia ter suportado.
“Eu nem entendo. Ser paquerado o tempo todo é realmente algo para se alegrar?”
“Qual você quer? O consenso geral ou a minha opinião pessoal?” perguntou Itsuki.
“A primeira opção. Vocês dois já têm namoradas, então é claro que diriam que não importa para vocês.”
“Então o consenso geral é que... bem, varia de pessoa para pessoa, mas para a maioria dos caras, sim, é lisonjeiro. Caras que querem ser populares definitivamente encarariam isso como uma vitória. No mínimo, significa que chamaram a atenção de uma garota, o que lhes dá uma sensação de orgulho e confiança. E se isso realmente os levar a sair ou namorar, é como ganhar na loteria.”
“É, eu não sou bom com esse tipo de mentalidade casual...” Yuuta murmurou.
“Realmente, não posso dizer que já vi você gostar disso,” disse Itsuki, dando de ombros.
“Claro, fico grato quando alguém demonstra interesse em mim. Mas, eu meio que... bem, fico incomodado quando alguém se impõe demais. Tipo, eu já estou me divertindo de boa, então não se intrometa. Esse sentimento se sobrepõe a todo o resto. Acho que isso significa que não me sinto confortável lidando com esse tipo de imposição.”
“Você é realmente gentil,” comentou Amane. “Viu como você disse ‘não me sinto confortável’ em vez de ‘odeio’?”
Ninguém culparia Yuuta se ele simplesmente não gostasse de mulheres insistentes, considerando tudo o que ele já havia enfrentado até então. Mas a maneira como ele suavizou a situação para simplesmente se sentir “desconfortável” com elas era uma prova de sua natureza tranquila e bondosa.
“Eu não consigo imaginar você, Yuuta, desprezando alguém,” acrescentou Itsuki.
Amane teve que concordar. “De fato, eu também não.”
“Também não consigo imaginar você fazendo isso, na verdade.”
“Eu?”
Então eu sou o próximo alvo dele, né? Cauteloso, Amane estreitou os olhos, mas, por algum motivo, Itsuki o olhou exatamente da mesma forma.
“Você tem algum tipo de pessoa de quem não gosta, Amane?” Itsuki então perguntou.
“Em que sentido?”
“Em relacionamentos com pessoas, garotos ou garotas. Sabe como você raramente diz que odeia alguém? Eu estava me perguntando se há alguém de quem você não gosta, ou mesmo despreza. Duvido, porque você não parece tão preocupado com os outros.”
“Que tipo de pessoa você acha que eu sou...?”
Itsuki o fez parecer uma espécie de robô. Amane não era exatamente hiperemocional, mas tinha suas preferências e era perfeitamente capaz de sentir alegria, raiva, tristeza e prazer como qualquer outra pessoa. Ele só nem sempre as deixava transparecer.
“Ahh, mas eu entendi o que ele quis dizer,” disse Yuuta. “Você gosta de respeitar seus limites e não se mete em algo que não lhe interessa ou não tem nada a ver com você. Cuidando simplesmente da sua vida.”
“Quer dizer, a menos que alguém se meta na minha vida, por que eu me daria ao trabalho de ficar irritado?”
“Essa é uma boa questão, mas também é por isso que estou curioso. Existem pessoas a quem isso não se aplica? Pessoas de quem você não gosta tanto assim?”
Pessoas que Amane desprezava.
“...Pessoas incômodas?” murmurou ele.
“Mas acho que ninguém gosta deles. Existe alguém que goste?” perguntou Yuuta.
“Muitas pessoas por aí gostam de um bom encrenqueiro, sabe?” interrompeu Itsuki.
“É, mas elas só gostam daqueles que sabem se desculpar. Ninguém gosta de encrenqueiros que espalham o caos e destroem tudo à vista, mas não se sentem culpados por isso e, portanto, ignoram as consequências. A menos que tenham feito algo mais útil do que o problema que causaram, ou sejam um personagem fictício.”
Chitose podia ser uma encrenqueira, mas geralmente era de maneiras pequenas e inofensivas. E sempre que estragava as coisas, fazia questão de se desculpar direito e corria por aí tentando resolver as consequências. Sua sinceridade desajeitada era cativante e, com seu charme natural, era difícil ficar bravo com ela. Na pior das hipóteses, ela ganhava um leve tapa na testa antes que tudo fosse perdoado.
O que você faz depois de causar problemas é o que faz toda a diferença, pensou Amane enquanto imaginava Chitose.
“Quer dizer que você nunca pensou ‘Cara, eu odeio essa pessoa’ sobre alguém?” perguntou Itsuki, com a voz incrédula. Amane repetia a palavra ódio em sua cabeça.
A verdade era que ele raramente sentia qualquer repulsa ou rejeição intensa pelos outros. Se tivesse que nomear alguém, seria Toujou. Ele foi o motivo pelo qual Amane acabou se mudando para cá.
Mas não... não era como se eu o desprezasse nem nada.
Naquela época, ele se sentia frustrado, magoado e devastado. Um desespero esmagador, como se estivesse sendo engolido por uma névoa negra como breu, o dominava e o envolvia com medo. Ele se perguntava “Por quê?” repetidamente. Mesmo assim, o sentimento que Amane sentia por Toujou não era ódio, nem repulsa.
[Moon: Tanto que o próprio Amane agradeceu a ele depois, pois graças a tudo o que ele passou ele cresceu como pessoa e encontra a Mahiru…
“Neste ponto, eu meio que me sinto grato a você. (...) ” - Volume 5, capítulo 15.
Como a frase em si é parte de uns 2 parágrafos, paramos por aqui, mas começa nessa parte mesmo kk | | Kura: Esse sim aprendeu a encontrar a paz. Me perdi no comentário da Moon kkkk.]
“...Um cara me vem à mente, mas não era tanto o fato de eu o odiar, mas sim o fato de ele ter feito algo que eu não suportava. Eu me senti devastado, mas nada mais do que isso. Eu também nunca o desprezei.”
As coisas poderiam ter sido mais fáceis se Amane odiasse ou desprezasse Toujou de todo o coração. Mas tudo o que ele sentiu naquela época foi — por mais duro que parecesse — humilhação e, acima de tudo, total devastação.
Ele havia sido traído por um amigo de confiança... Usado... Zombado... A frustração, a tristeza, a dor de tudo aquilo o cortavam profundamente. E, no entanto, isso nunca fez Amane o odiar. Possivelmente, no fundo, ele considerava Toujou indigno de sua emoção.
“Hm. E o que você pensa dele agora?” Itsuki perguntou.
“Não me importo nem um pouco.”
“Nossa, isso foi direto.”
“Ah, uh, talvez colocar dessa forma pareça ruim. Ele simplesmente não tem mais nada a ver comigo. Nunca mais nos veremos, então não me importa se ele está feliz ou infeliz. Minha posição é apenas... que ele vá viver a sua vida. Contanto que ele não cause mais problemas para os outros, ele pode fazer o que quiser.”
Para Amane, ele já havia cortado relações com Toujou. Ele planejava estudar e trabalhar naquela região, então, a menos que voltasse para sua cidade natal, nunca mais encontraria Toujou. A única maneira de se reencontrarem seria se Toujou ainda não tivesse seguido em frente ou se tivesse algum negócio que o trouxesse para Tóquio, e Amane sabia que Toujou não se importava o suficiente com ele para isso.
[Del: Otonari é em Tóquio. | Moon: Você não sabia? | Kura: Estou tão surpreso quanto ele.]
Toujou não tinha mais lugar em sua vida. O que quer que acontecesse com ele, Amane realmente não se importava. Se eles se encontrassem novamente, talvez ele sentisse algo no momento — mas terminaria ali.
Eu não sinto mais nada quando penso nele. Ele não passa de um estranho para mim agora.
E Amane não estava bancando o durão. Ele realmente acreditava nisso.
Encontrar Toujou quando ele visitou os pais no verão foi um grande motivo para isso. Poder encará-lo e conversar diretamente com ele permitiu que Amane deixasse o passado para trás. Se não fosse por aquele momento, ele talvez nunca tivesse se recuperado de verdade da dor.
“E só para acrescentar, também sou grato a ele. Ele foi o gatilho que me fez vir para cá e, graças a isso, encontrei minha felicidade. Isso não significa que o perdoei e ainda tenho muitos pensamentos sobre o que ele fez, mas não me sinto mais mal por isso. Eu simplesmente... não me importo nem um pouco com ele.”
“...Espera aí, eu acabei de cutucar algo que não devia?” Itsuki perguntou.
“Itsuki, você é o pior cara...” comentou Yuuta.
“O quê? Por quê?!”
Amane riu baixinho, satisfeito com a escolha deliberada de brincar em vez de tornar as coisas mais sérias. Ele acenou com a mão como se estivesse afastando as preocupações deles.
“Não, está tudo bem. Eu realmente não sinto mais nada sobre isso. Estou satisfeito com o resultado e feliz por ter vindo para cá.”
“Porque você conheceu o amor da sua vida?”
“Exatamente.”
No fim das contas, foi graças a todo aquele incidente com Toujou que ele conheceu Mahiru e formou um vínculo com ela. Talvez ele devesse organizar um festival de Ação de Graças dedicado a Toujou. Amane jamais lhe contaria isso se se encontrassem novamente, porque ele explodiria, mas, no fundo, não conseguia deixar de se sentir grato. Apesar disso, Amane ainda não lhe devia nada.
“...A maneira como você confirma isso imediatamente mostra o quão descaradamente direto você se tornou,” comentou Itsuki.
“Eu acho que ele é sempre direto,” respondeu Yuuta, “exceto quando você o provoca.”
“Acho que sim, mas ele vai continuar falando da Shiina-san se eu não fizer isso.”
“...Isso pode até ser verdade,” admitiu Yuuta.
“Não é nem remotamente verdade. Quem você pensa que eu sou?” Amane retrucou.
Mas não importava o quanto ele protestasse, Itsuki e Yuuta apenas desviavam o olhar de forma exagerada. Com um suspiro pesado, Amane desistiu e tomou um gole de refrigerante de melão para molhar a garganta.
“Então, você realmente não tem um tipo de pessoa que odeia?”
“Na verdade, não. Embora possa ser que não haja ninguém perto de mim que eu possa odiar. Estou cercado de ótimas pessoas.”
“Ah, caramba, um elogio para mim? Você me faz corar!”
“Sai daqui.”
“Nossa, que maldade.”
Itsuki se contorceu como nunca havia se contorcido antes, pressionando as bochechas com as duas mãos enquanto fingia estar envergonhado.
Amane o encarou sem expressão, depois pensou novamente na pergunta.
Geralmente, Amane não se importava com pessoas de quem não era próximo. Ainda assim, havia pessoas que só de vê-las o faziam não gostar delas. Ele pensou um pouco e, além de criminosos, esse era provavelmente o único tipo de pessoa que Amane podia dizer honestamente que não gostava.
“Bem, não há ninguém assim perto de mim, mas, na verdade, há um tipo de pessoa que eu simplesmente não suporto.”
“Oh-ho? Qual?”
“Pessoas que fazem da missão de suas vidas destruir os relacionamentos dos outros e roubá-los.”
“Ahh, certo...”
Ele já havia dito algo parecido a Mahiru antes. Amane odiava pessoas que deliberadamente perseguiam alguém que já estava em um relacionamento com a intenção de roubá-lo.
“Não os suporto em termos de bom senso ou moralidade básica. Não os quero nem perto de mim. E se alguém assim se aproximasse exibindo as presas, sei que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que nunca mais aparecesse na minha frente.”
[Del: Rapaz, esse menino é realmente filho do Shuuto.]
Amane sabia que tinha uma tendência a ser intransigente, quase intolerante, com esse tipo de comportamento. Mas, mesmo assim, isso não mudava o profundo desgosto que sentia por pessoas que viviam assim.
Na cidade natal de Amane, um caso extraconjugal causado por tal tipo de pessoa havia separado um casal. Ele estava apenas no ensino fundamental na época, mas mesmo assim, quando as consequências desagradáveis chegaram aos seus ouvidos, ele se lembrava de ter pensado: ‘Caramba…’ e recuado de desgosto.
No final, o marido infiel deixou a cidade. A amante que o havia atraído rapidamente perdeu o interesse e o descartou, deixando apenas um lar desfeito e vidas destruídas para trás.
Claro, indenização e pensão alimentícia foram exigidas, mas mesmo assim, criar uma criança pequena sozinha representava um fardo pesado para a mãe. Amane se lembrava claramente de como sua própria mãe, Shihoko, e os outros vizinhos intervieram para ajudar no que pudessem. Quanto àquela criança, que agora também estava no ensino fundamental, Shihoko costumava dizer que parecia alegre e próspera, mesmo sem o pai por perto.
Talvez fosse porque ele havia testemunhado um incidente horrível de perto, ou porque havia crescido observando o casamento amoroso de seus pais e presumido que isso fosse a norma, ou porque seu senso de pureza adolescente era forte. Seja qual for o motivo, Amane passou a sentir um profundo desgosto por pessoas que agiam com tanta desonestidade.
“É, com certeza você gostaria de isolá-lo antes que causasse algum dano... embora eu não ache que a Shiina-san se deixaria seduzir.”
“Ela não faria isso de jeito nenhum, então não estou preocupado com isso. Mas ainda assim não quero que nenhum de nós tenha que passar por algo tão desagradável, então, se eu puder remover a causa, farei isso. Afinal, não quero perder tempo ou energia à toa. Tenho certeza de que a Mahiru nunca olhará para ninguém.”
Isso não era apenas algo em que Amane acreditava; era algo que ele tinha certeza.
Mas, mesmo assim, se alguma personificação de tamanha insinceridade chegasse perto, seria estressante e irritante além da conta. Melhor expulsar da vista dele antes que isso acontecesse.
“Uau, o mano tá se gabando.”
“Não pode ser ostentação se for verdade. E eu me esforço para manter assim.”
“Só você poderia dizer isso sem ser mentira ou soar arrogante,” ressaltou Yuuta.
Amane nunca menosprezou o amor de Mahiru, nem deixou que isso o tornasse preguiçoso ou convencido. Era um fato, mas ele o tratava com cuidado. Ele nunca deixou de se esforçar para garantir que ela quisesse continuar a amá-lo, demonstrando sua gratidão e tratando-a com a consideração que ela merecia, tanto em palavras quanto em ações. Ele a estimava, e o trabalho que era necessário para tornar o tempo deles juntos confortável nunca pareceu fardo algum.
Isso era algo que ele podia declarar sem vergonha. E enquanto Amane continuava falando com confiança, Itsuki e Yuuta trocaram um olhar e deram de ombros.
“E você? Você é educado com todo mundo,” Amane retribuiu o comentário de Yuuta. “Pelo que eu vi, não consigo imaginar você odiando alguém de verdade, correto?”
“Eu? Claro que tenho tipos de pessoas de quem não gosto.”
“Espera aí, você tem? Surpreendente, não vou mentir.” Até Itsuki, que era próximo dele desde o ensino fundamental, não conseguiu esconder o choque. Seus olhos se arregalaram em descrença.
“O que vocês acham que eu sou...? Eu também sou humano, sabia? Claro que tenho gostos e desgostos.”
“Sim, mas nunca vi você mostrar. Então tem que ser alguém que eu não conheço, certo?”
“...Uhh... não, não exatamente.”
“Hum? O que te fez hesitar?”
“...Não posso dizer que você não os conhece, Itsuki. Se eu tivesse que dizer, então sim, tem alguém de quem eu não gostava — ou talvez eu devesse dizer que costumava não gostar. Mas, uh, não é realmente algo sobre o qual eu queira falar.”
“Não me diga... sou eu!?”
[Kura: Minha reação: Boquiaberto kkkkk.]
“Sim, claro. Se fosse você, eu não estaria saindo e conversando com você o tempo todo.”
“Ooh, eu consigo sentir seu amor, Yuuta. Nossa, estou todo vermelho de novo!”
Por um instante, Yuuta franziu a testa de irritação, mas logo se suavizou em um sorriso constrangedor enquanto mexia o café com uma colher. A maneira como ele agiu deixou claro que estava se segurando para não dizer mais nada, mas não parecia que ele estava com medo de fazê-lo. Na verdade, parecia que ele estava sendo atencioso com Itsuki.
“Mas não, não é. Bem, sabe... aquela senpai do ensino fundamental.”
“...Ahh. É, entendi.”
[Moon: Opa… Será que finalmente a lore vem aí?]
Amane não tinha ideia de a quem “aquela senpai do ensino fundamental” se referia, mas Itsuki entendeu imediatamente, e seu rosto instantaneamente se contorceu em uma careta.
“Você e Shirakawa-san são meus amigos preciosos. Então, é claro que o que aconteceu naquela ocasião não me pareceu certo. E como corredora, o que ela fez foi imperdoável. De jeito nenhum eu poderia perdoá-la. Ela passou dos limites, tanto como pessoa quanto como atleta. Seria bom para ela recomeçar e aprender o que significa ter decência básica.”
“É... você tem razão sobre isso,” concordou Itsuki, com pesar.
“Uh, eu deveria mesmo estar ouvindo isso? O Itsuki mencionou isso para mim de passagem antes, mas mesmo assim...”
Amane sabia a essência daquilo, mas o caráter daquela senpai e o que as pessoas diretamente envolvidas sentiram eram coisas que só eles podiam realmente entender. Como alguém marginalizado do contexto, ele não tinha certeza se era certo ouvir tais queixas pessoais.
Devo sair? Ele olhou para eles, mas Itsuki e Yuuta balançaram a cabeça.
“Não adianta esconder agora. Mas, pensando bem, acho que foi um escândalo e tanto.”
“E essa tal senpai não estuda na nossa escola?”
“Não, não. Eu me certifiquei disso quando me matriculei. Também descobri que ela teve dificuldades para se manter na região, então foi para outra prefeitura. E, para ser sincero, mesmo que ela tivesse tentado se candidatar aqui, não teria passado na entrevista. Esta escola tem padrões, e considerando o que ela fez, e que aconteceu no oitavo ano, não tem jeito.”
“Foi tão ruim assim...?”
Amane tinha ouvido falar do drama quando Itsuki e Chitose começaram a namorar, mas Itsuki nunca lhe contou os detalhes. Ele ainda conseguia perceber que devia ser uma situação séria. Pelo jeito que Itsuki falava, era sério o suficiente para afetar as provas — só isso já dizia a Amane o quão ruim devia ter sido.
(Itsuki) “Uhh... como posso dizer?”
(Amane) “…Para ser franco... violência?”
“Sim. Ruim o suficiente para que, com um único erro, pudesse ter sido fatal.”
“Isso é loucura. Você está me dizendo que foi tão sério assim?” Amane deixou escapar, reflexivamente. Ele não imaginava que fosse tão grave. O rosto de Itsuki, no entanto, não mudou.
“Nem a Chi nem eu ficamos com ferimentos permanentes, então não há motivo para preocupação.”
“Claro que vou me preocupar! Você não me disse que não era nada sério?!”
“Não foi. Só tive uma pequena fratura óssea. A Chi saiu ilesa.”
“É um ferimento sério, seu completo idiota!”
Quanto mais Amane ouvia, mais óbvio ficava que o incidente tinha sido muito mais perigoso do que Itsuki havia deixado transparecer inicialmente. E, no entanto, Itsuki ignorou o ocorrido com tanta naturalidade que Amane não conseguiu evitar a indignação. No mínimo, pensou ele, Itsuki tinha todo o direito de ficar bravo com algo que havia causado danos físicos e emocionais tanto a ele quanto a Chitose.
“Isso é loucura, sabe. Só porque você está com ciúmes, acha que é okay machucar alguém? Inacreditável. Mesmo que ninguém tenha se ferido, o fato de ela ter recorrido à violência torna isso inaceitável.”
Nem mesmo Toujou havia sido baixo o suficiente para causar danos físicos. Amane sabia que até ele tinha limites que não cruzaria.
Mas está senpai havia ultrapassado esse limite sem pestanejar — e não apenas contra uma pessoa, mas contra Itsuki e Chitose. Não é de se admirar que tenha se transformado em um escândalo tão grande. Itsuki agiu com indiferença, mas será que ele realmente não sentia raiva alguma por isso?
“Tem certeza de que não há danos permanentes causados pelo ferimento?”
“Sim, nenhum. Olha só para mim — estou em plena forma. Você me vê correndo na aula de educação física, não é? Aliás, isso já faz três anos.”
“...Três anos atrás ou não, esta é a primeira vez que ouço falar de você se machucando desse jeito. Claro que vou me preocupar.”
O sorriso fácil e o tom despreocupado de Itsuki impediram Amane de pressionar mais, mas só de ouvir o que tinha acontecido já era o suficiente para deixá-lo ansioso. E como Itsuki e Chitose estavam envolvidos, ele ficara ainda mais preocupado.
A maneira como Itsuki agiu de forma tão indiferente e tentou deliberadamente esconder seu ferimento irritou Amane um pouco. Parecia infantil da parte dele ficar de mau humor por ter sido deixado no escuro, então guardou esse pensamento para si.
Mesmo assim, Itsuki pareceu entender, porque caiu na gargalhada que ecoou pela sala.
“É isso que é ótimo em você, Amane,” disse ele.
“Né?” Yuuta concordou.
“Não tentem mudar de assunto,” afirmou Amane, lançando um olhar mortal para ambos. Ele percebeu a tentativa deles de levar a conversa adiante, mas percebeu que, como de costume, nenhum dos dois parecia disposto a discutir mais a fundo.
Amane não se importaria se eles simplesmente dissessem que não queriam falar sobre o assunto, mas foram as evasivas super óbvias que o deixaram desconfiado. Itsuki, no entanto... ou não percebeu isso, ou pior, sabia exatamente o que estava fazendo e fez mesmo assim.
“De qualquer forma, embora eu não suporte aquela senpai, aquele incidente foi um ponto de virada para a Chi e eu mudarmos, mais ou menos como o que você passou, Amane. Não que não tenha doído pra caramba, e eu definitivamente passei a dever um favor ao meu velho depois daquilo.”
“...Então você não guarda rancor?”
“Na verdade, sim, mesmo que seja só pelo fato da Chi ter desistido por causa dela. Essa é a única coisa que jamais perdoarei. Mas ela já teve o que merecia, e prefiro atribuir o resto a um erro da juventude. Não adianta ficar reclamando para sempre. Além disso, não é como se eu fosse vê-la novamente.”
Quando Itsuki terminou com uma piscadela e um provocador “Igual a você,” Amane não conseguiu mais argumentar. Ele apertou os lábios, murmurando baixinho por um momento, antes de finalmente soltar um longo suspiro.
“Só estou dizendo que tudo bem se você quiser guardar algumas coisas para si, mas se algo estiver realmente te incomodando ou ficar pesado demais, conte-nos o mais rápido possível. Não se esqueça do que aconteceu no Ano Novo.”
“Acredite, eu levei aquilo a sério. Obrigado mais uma vez pela ajuda naquele momento.”
“Espera, o que aconteceu?” perguntou Yuuta.
“Você nem contou para o Kadowaki...?” murmurou Amane.
“Bem, não é como se eu tivesse tido a chance.” Itsuki se virou para Yuuta. “Foi só uma briga com meu pai.”
“Isso não é novidade, mas, a julgar pela forma como o Fujimiya está falando, parece mais do que isso. Deixe-me adivinhar: ou você reprimiu suas frustrações até explodir, ou manteve isso em segredo até mesmo da Shirakawa-san até que ela finalmente explodisse com você, certo?”
“Okay, assustador... Como você conseguiu acertar tão perfeitamente...?”
Parecia que Yuuta conhecia Itsuki de cabo a rabo, e suas palavras eram certeiras. E, a julgar pelo jeito como ele suspirou resignado, “Parece que seu pai não mudou nada,” ele parecia conhecer o pai de Itsuki, Daiki, tão bem quanto ele.
“Então, agora é só você que sobrou, Itsuki. Tem um tipo de pessoa que você não suporta?”
Aparentemente decidindo não se aprofundar mais em assuntos familiares, Yuuta mudou de assunto suavemente. Mas, naquele momento, a resposta era óbvia.
“Meu velho.”
Como esperado. Sem surpresas.
“Isso nem é um tipo, é um cara.”
“Não transforme isso em piada!”
“Coitado do Daiki-san.”
“Não, coitado de mim! Nenhum de vocês está do meu lado! E ei, o Yuuta não disse uma pessoa também!?”
“Não. Eu disse especificamente que era uma pessoa de quem eu não gostava, não um tipo.”
As bebidas deles chocalharam quando Itsuki bateu a palma da mão na mesa, o conteúdo espirrando lá dentro. Amane e Yuuta o repreenderam brincando, dizendo: “Não seja tão rude”, “Pare com isso,” enquanto rapidamente tiravam suas próprias bebidas do caminho do perigo.
“Meu pai e eu somos como água e óleo. Eu já te disse isso antes, mas estou com muita inveja dos seus pais, Amane. Se importa se a gente trocar?”
“Não vai acontecer. Mas, sim... eu entendo o que você quer dizer. Meus pais são bem não intrometidos.”
Tanto Mahiru quanto Itsuki costumavam dizer o mesmo. Para pessoas presas a pais completamente indiferentes ou sufocantemente autoritários, a distância perfeita de Shihoko e Shuuto devia parecer um sonho realizado.
Na visão de Amane, seus pais o deixavam viver como ele queria, mas ainda se preocupavam com ele e ocasionalmente lançavam indícios de “preste atenção na gente”. Eles entendiam que cada um tinha sua própria vida e respeitavam isso. Provavelmente era por causa desse equilíbrio que Itsuki ficava pedindo para trocar, meio brincando.
“Em vez de não intrometidos, eu os chamaria de pais incríveis que realmente respeitam as escolhas dos filhos. Observando eles, eu sinceramente penso: ‘Nossa, queria ter tido isso.’ Quando eles vão me adotar?”
“Não diga isso nem de brincadeira, seu idiota.”
“Quer dizer, eu sei que isso nunca vai acontecer. Porque esse lugar obviamente já pertence à Shiina-san.”
“Sério...”
Não acho que a ideia de “adoção” de Itsuki esteja totalmente correta... pensou Amane. Mas se ele apontasse isso agora, só daria a Itsuki mais uma desculpa para provocá-lo, então ele engoliu a resposta.
“Mesmo pelo pouco que conversei com eles, pude perceber que seus pais são pessoas calmas e gentis que realmente te amam, Fujimiya,” mencionou Yuuta. “Claro que o Itsuki está com ciúmes.”
(Amane) “...Por que isso me deixa ridiculamente constrangido?”
“Mas você não está negando, está?”
“Bem, não. Eu amo meus pais e os respeito tanto como família quanto como pessoas, então ouvir eles sendo elogiados me deixa feliz como filho deles. É que ouvir isso na minha cara assim me deixa com um certo constrangimento.”
Ele não costumava dizer isso em voz alta, mas Amane respeitava muito seus pais, tanto como filho quanto como pessoa.
Desde pequeno, Amane se lembrava de ser coberto de carinho. Mesmo com ambos os pais sendo ocupados com o trabalho, eles lhe deram o máximo de tempo, dinheiro e amor possível. Quando ele fazia algo errado, eles o repreendiam com razão; quando fazia algo certo, eles o elogiavam e o apoiavam calorosamente. Eles nunca o trataram como um fantoche, mas como sua própria pessoa. Alguém a ser estimado e respeitado.
Esse tipo de relacionamento entre pais e filhos podia parecer comum, mas não era. Ver as circunstâncias familiares das pessoas que ele conhecera ao longo dos anos o fez perceber essa verdade. Ele havia sido abençoado com seu ambiente.
Como filho deles, Amane sentia profundamente que seus pais o amavam e entendia o quanto isso o fazia sortudo. Sabendo disso, não havia como virar as costas para eles.
“Sua franqueza deve ser graças à criação dos seus pais e à sua própria natureza.”
“Acha que poderia empacotar um pouco disso e mandar para mim?”
“Eu já disse, isso não vai acontecer.”
“Tch. De qualquer forma, não é como se eu esperasse que a personalidade do meu velho mudasse tão cedo. Mas ainda assim... Eu só queria que ele relaxasse um pouco. Ele me ataca antes mesmo de entender o que eu digo. Eu sei que ele culpa meu comportamento habitual, mas mesmo assim...”
Desde o incidente do Ano Novo, Itsuki começou a lidar com Daiki um pouco melhor, mas ele ainda estava bastante frustrado. Ele soltou um suspiro pesado. Mesmo assim, não parecia transbordar de ódio. Parecia que ele havia superado suas próprias dificuldades e conseguido resolver as coisas mantendo certa distância do pai.
“É muito mais fácil mudar a si mesmo do que tentar mudar outra pessoa.”
“Palavras de sabedoria. É exatamente por isso que estou me esforçando ao máximo para mudar.”
“Eu consigo ver isso por mim mesmo.”
“É? Então observe com atenção, porque eu vou te mostrar o que eu posso fazer.”
“Bem, okay, okay, eu te observarei.”
Amane não precisava que ninguém lhe dissesse. Ele já podia ver que Itsuki estava tentando mudar e achava o esforço admirável. No fundo, ele só esperava que seu amigo não se pressionasse demais. Itsuki era, no fundo, muito mais sincero do que o próprio Amane. Então, ele deixou o assunto de lado com uma resposta indiferente.
Yuuta observou os dois e sorriu.
“Vocês são muito próximos.”
“Fo-ho-ho! E não se esqueça, meu rapaz, você também faz parte deste círculo.”
“Que diabos isso deveria significar?”
“Combina tão mal com você que é engraçado.”
“Vocês são horríveis! Retiro o que disse! Não somos nada próximos!”
“Ugh, tão malvados... Estou bem magoado. Sniff sniff.”
“Itsuki, você é o pior...”
“Eu sou a maior vítima aqui! E nós literalmente fizemos isso antes! Vamos fazer um repeteco agora?!”
Seria essa a sua maneira de manter o clima alegre ou apenas a sua verdadeira identidade? Seja qual for, Itsuki expressou sua indignação, aproveitando ao máximo a privacidade da cabine de karaokê. Amane ignorou suas palhaçadas, mantendo a cara séria enquanto se inclinava para Yuuta, percorrendo o catálogo de músicas juntos para decidir o que cantar em seguida.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios