Volume 1 - Arco 1
Capítulo 3: Alice

Por mais barulhento que fosse, aquele ambiente acalmava sua mente e trazia um forte sentimento de aconchego. O som dos pássaros chegava aos seus ouvidos como um canto encantador. Enquanto espalhava as folhas sobre o chão de pedra, o vento leve soprava em seu rosto.
O centro de Taygeta era muito populoso; crianças corriam e brincavam para lá e para cá, fazendo suas mães se preocuparem. Comerciantes discutiam e negociavam com os trabalhadores locais, parecendo muito empolgados.
Aquele que limpava a máquina de sucos também era uma dessas pessoas, que acordava cedo para trabalhar todo santo dia. Por mais que não fosse devidamente pago, era algo que gostava de fazer ao lado de sua família.
Em uma pequena cabana de cor azul bebê no centro da praça, os olhares de todos os cantos deixavam a garota diante nervosa, enquanto dava pequenas olhadelas para trás.
Kaiser amarrou o avental em sua cintura e colocou um boné preto, assim acenando para ela que se virou para Noah.
O garoto ao colocar um amontoado de canas ao lado do moedor, acenou com a cabeça, avisando que os preparativos estavam finalmente prontos.
A praça em questão tinha um formato circular rodeado por casas, no centro havia uma grande fonte com águas cristalinas ao lado da cabana de Rowena.
Ela suspirou fundo, preparando um grande grito que chamasse a atenção dos moradores. Seus cabelos loiros balançaram com o vento, e sua sobrancelha se levantou confiante.
— Caninha do Bem aqui, minha gente! Sem álcool, mas vicia do mesmo jeito! Dois goles e você já tá perdoando até quem te deve!
Era quase um berro de liberdade, que vinha dos lábios finos que de repente se abriram. Expondo toda sua felicidade, e claro, os rosto rosados de seus companheiros.
— Por que do bem?
— Por que a do mal a gente guarda para depois.
Ela voltou-se a Noah com uma expressão maliciosa, e foi respondida pela expressão de paisagem do garoto. Que apenas subiu o polegar para ela.
— Seres humanos...
— Ah, essa foi boa, eu sei!
— Realmente foi. — disse o ruivo inflando um pouco as bochechas, segurando a risada por dentro.
As pessoas ao redor que escutaram, logo se aproximaram. Crianças, adultos e até mesmo idosos com um sorriso no rosto.
Aqueles que entenderam a piada riram quando ela contou novamente, outros apenas ficaram assim como Noah. Ou talvez eram novos demais para entender.
Kaiser deslizou a caneta no bloco de papel com rapidez e seriedade, a cada cliente que se aproximava no balcão. Logo dizendo os pedidos em voz alta para Noah, que despejava líquido vindo das canas moídas.
— Três copos, com limão.
— Belê.
— Seis zeris, senhor.
Kaiser novamente disse ao folhear a caderneta. Seus ombros se levantaram e um suspiro cansado saiu de seus lábios, quase entediado.
Vendo essa expressão, ela golpeou suas costelas fazendo ele se virar com uma veia saltada em sua testa. A garota que golpeou, sorriu de volta.
Um som de risada contida chamou a atenção de Kaiser que arqueou as sobrancelhas, virando em câmera lenta com um olhar sanguinário para Noah.
A ilusão de ter dezenas de sombras ao redor do garoto o fez suar frio, levantando as mãos trêmulas ele acenou com uma risada frouxa.
— Moço, ei moço.
Uma voz chamou sua atenção para frente do balcão, o fazendo girar o corpo de volta e avistar os fios calmos de cor rosada. Seu rosto gentil e sereno, assim como os olhos castanhos.
Eles pareciam pequenas nozes de cor clara, brilhando no sol. Uma beleza rara dada a uma criança com características invejáveis.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu… e que…
A criança ficou envergonhada com o garoto a olhando tão fixamente, e gaguejou quando tentou dizer algo. Apertou a mão contra o peito, com um frio na barriga.
— Por que parou?
— Tem uma garotinha aqui.
Rowena perguntou o por que da fila ter parado, pois ainda restavam alguns poucos clientes a serem atendidos. Se aproximou do balcão, e se deparou com a bela garotinha.
— O que aconteceu!?... Hã?
Noah tomou a frente do balcão, quase derrubando Kaiser no processo que segurou-se nele. Seus olhos curiosos logo se encontraram com o brilho castanho.
Como esperado, a garota deu um passo para trás assustada. Sua boca se abriu e ela deu um pequeno grito contigo ao cair sentada.
— Me desculpa, foi sem querer…
— Aqui.
Dedos finos foram estendidos a ela, eram de mãos delicadas vindas de uma garota cujos cabelos lembravam o brilho do sol. As íris com aro dourado se voltaram a ela, que estendeu sua mão em resposta.
— Obrigada...
— Pode falar comigo, o que aconteceu?
Ajoelhando para que fizesse contato visual com ela, Rowena continuou a segurar sua mão ao perguntar com um sorriso meigo.
Ela apertou as mãos contra o colo e fitou o chão com olhos marejados. Suas bochechas de tom rosado, se intensificaram quando percebeu o olhar de todos.
— Eu me perdi da minha vovó...
— Que chato... Tem uma ideia de onde ela pode estar?
— Acho que sim... Na praia, vovó disse que ia levar Alice na praia.
Ela passou as mãos nos cabelos rosa.
— Podemos levá-la, Alice.
Um sorriso puro brotou quando os olhos castanhos brilharam em lágrimas, não de tristeza, mas pelo alívio de encontrar ajuda.
Os garotos se olharam e deram de ombros. Noah percebeu as olhadelas da garotinha por vezes, isso o deixou confuso.
Duas novas mãos se juntavam no topo da cabeça de Alice, o dono de uma delas sorria como um tubarão — já o outro escondia o sorriso.
— Vai ficar tudo bem Alice, vamos encontrar sua avó.
Alice sorriu de forma larga, suas lágrimas de crocodilo pararam de cair. O rosto se ergueu vendo os três que estavam sorrindo para ela, ela devolveu com seu próprio.
— Só espera um pouco, tem mais alguns clientes. Assim que terminamos, a gente corre até ela!
Rowena ergueu o dedo mindinho para a garota, que fez uma breve expressão de surpresa, respondendo com o seu próprio enlarguecendo ainda mais o sorriso.
— Noah, fica com ela por enquanto. Dá pra eu me virar com o Will.
— Mais trabalho pra mim…
— Cala boca.
Rowena deu um tapa na nuca de Kaiser.
— Certo.
Rowena apertou a jaqueta, amarrada na cintura e se virou para Noah que assentiu sem mais nem menos. Kaiser, no entanto, resmungou no lugar e acabou tendo sua orelha puxada pela garota.
Alice cobriu a boca e riu baixinho, não percebendo o olhar de Noah a observando, sorrindo como um tubarão.
— Vamo lá.
***
Já fazia alguns minutos que todos haviam se despedido, se dispersando da cabana. O fim da tarde se aproximava, o sol começava a despencar no céu que perdia seu brilho.
Com a chegada deste ápice, o sorriso do garoto se abriu. Ele amava aquele momento, por vezes, esperando ansiosamente essa sensação aconchegante.
O garoto estava sentado ao lado da criança que parecia inquieta, balançando as pernas como que brincando. Seus olhos seguiam com certa curiosidade.
— Você tem muitos amigos, Alice?
— Hmm, eu tenho. Mas eles não são tão legais.
Ela jogou a cabeça para trás e olhou para o céu, pensando. E soltou um suspiro melancólico após terminar de falar, ainda com as pernas inquietas.
— Eles dizem que eu sou muito irritante, mas eu só quero me divertir. Não tenho culpa se não consigo parar de falar…
— Bom, você não parece ser tão falante assim.
Ele sorriu para ela, sem resposta. Apenas um olhar pensativo.
— É…
Ela abaixou os olhos perdendo a cor, seu cabelo caiu sobre o rosto e escondeu as lindas nozes. Noah apertando o tecido do short, se arrastou para mais perto dela.
— Olha, eu também não tinha muitos amigos. Na verdade eu fiquei boa parte da minha vida cercado por pessoas que não gostavam de mim.
Ele começou a falar, afinando o olhar. A cada frase a garotinha parecia mais interessada. Como se no fundo se conectassem.
Alice não sabia sobre suas dores, experiências ou detalhes de como foi essa fase de sua vida. Mas se sentiu muito ligada a isso, talvez sabendo como ele se sentia e agia pudesse ajudar a seguir dali pra frente.
— Sério?...
Ele assentiu, lembrando perfeitamente da época. Era como um filme antigo em sua mente, mas repleto de sensações de todo tipo.
Costumava ser alguém que gritava e que queria a atenção de todos, já que não possuía amigos que realmente o entendiam, passava mais tempo com seu pequeno parceiro felino.
Nem mesmo ele se lembrava do por que fazia isso. Talvez ele quisesse saber a sensação de ter amigos, e acabava por se empolgar demais quando falava de seus gostos.
Mas na época, as crianças de Taygeta encaravam esse comportamento com desprezo. E acabavam por deixá-lo sozinho.
Muita das vezes, brincando sozinho no campo de futebol. Balançando-se sozinho, ou montando castelinhos de areia que Piyoyo logo vinha e destruía.
— Só que… depois de um tempo, eu encontrei aqueles dois ali.
Ao levantar os ombros largados endireitar as costas curvadas, voltou seu olhar para a cabana, onde Kaiser e Rowena conversavam de forma muito empolgada.
Eles gargalhavam sem parar. Rowena devia ter contado uma piada, provavelmente. Era a cara dela.
Noah esbanjou um sorriso sem perceber. Era tão genuíno que até mesmo afetou a garotinha ao seu lado, ele se virou para ela novamente.
— Ai que eu percebi que, em algum lugar no mundo tem alguém que vai gostar muito de você. Querer rir e brincar com você, ter as mesmas experiências e decepções.
E lá estava ele, falando palavras que uma criança não entenderia, mesmo assim ela não desviou o olhar. Parecendo brilhar como um céu estrelado, de tanta admiração pelo garoto.
— Ah, desculpa. Você não deve ter entendido muita coisa né.
Ele riu de si mesmo, de como acabou de empolgando e possivelmente fazendo papel de idiota. Mas Alice não achou isso, ela estava parada com as bochechas rosadas de admiração.
Era como se ele tivesse plantado uma pequena semente de esperança, ela cresceria e se tornaria forte até brotar frutos desta árvore.
Som de passos chegaram aos seus ouvidos, com a chegada de duas figuras conhecidas. Rowena apontou para o próprio nariz e mostrou a língua, e o garoto ao seu lado fez uma expressão envergonhada.
— Prontinho!
— Que vergonha alheia…
A recepção veio acompanhada de sorrisos cheios de energia. E isso se manteve até o momento em que a praça ficou totalmente vazia.
Após se aprontarem partiram até a praia, uma longa estrada estava à sua frente, passando por dentro da floresta até os confins da natureza.
***
Rowena segurava a mão da garotinha que seguia saltitando. Noah e Kaiser atrás delas conversavam sobre algo que não importava para as garotas.
— Impossível, o Kagal é muito mais forte que o Hajin!
— Para de ser burro, no episódio duzentos e quatro ele destruiu um planeta com um suspiro, literalmente.
Kaiser berrou indignado enquanto Noah cuspia em seu rosto. O assunto em questão era um anime que passava na televisão, na qual os dois eram fãs.
Ele abriu os braços e berrou novamente, fazendo Kaiser franzir a testa irritado. Enquanto escutava tal absurdo sem base alguma, sua paciência chegou ao limite.
— Isso foi, LITERALMENTE, o motivo dele ser mais forte. Ele sobreviveu a isso, Hajin é superior aceita!
— Ih rapaz, é memo...
Após aquela afirmação inquestionável ele curvou a cabeça pensativo, segurando o cotovelo e disperso da raiva de seu irmão que bufava ao seu lado.
— Mas... o Kajimo sola.
— Kajimo não é de Dragão do destino, seu burro.
Aquela informação foi tão chocante para Noah que ele respondeu com “Sério!” embasbacado. Seu rosto se virou para Kaiser que novamente tinha que segurar a vontade de socar seu irmão.
— Bicho burro que só a porra.
— Eu só esqueci cara...
Kaiser riu com seu comentário. Fechando os olhos de repente, pois a luz do crepúsculo chegou a seu rosto. Os pés tocaram na areia após dar alguns passos à frente.
Enquanto observava a vista, o garoto se calou totalmente. Como se quisesse aproveitar esse momento ao máximo.
O som da correnteza alcançou os ouvidos, assim como a brisa que batia em seus rostos, o sol que fracamente esquentava o corpo.
Um cheiro molhado
de areia e aquele ar de liberdade. O som abafado das crianças brincando a distância, logo abaixo dos pássaros no céu.
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