Volume 1 - Arco 1
Capítulo 2: Laços

Desde quando podia se lembrar ele morava naquela mesma casa na floresta, junto com sua mãe adotiva e um gato pé no saco. Na sua visão, não poderia ficar mais feliz que isso.
Alguém tão insignificante não poderia ser mais grandioso que isso. Só de ter essas coisas, já bastava para Noah.
Tinha amigos a quem contar, falar sobre seus sentimentos e revelar segredos profundos e feridas que não entendia do por quê arderem. Uma família de se orgulhar.
Vez ou outra, ele se lembrava do momento em que tudo mudou. Quando morava na floresta, se alimentando de frutos e sem vestes feito um animal. Eleni o tirou dessa situação deplorável, onde seu corpo maculado jamais viu tanta gentileza ao tratar de seus machucados.
Ele não sabia seu nome. Sons que pareciam sussurros começaram a fazer sentido depois de um ano convivendo com ela, e ele finalmente conseguiu compreender o que aquela mulher de cabelos longos falava.
Mesmos os sussurros em sua mente antes indecifráveis, agora diziam seu nome. O que ele mesmo tinha esquecido. Por várias vezes, ele repetiu para não se voltar a esquecer.
Eleni o ensinou tudo, a como comer, ler, estudar e falar. Sempre com um largos sorriso no rosto. Depois de dois anos juntos, ele percebeu o quão devia ter sido um incomodo.
Além desse incômodo que pôde ter sido a ela, outra coisa o fazia remoer as memórias estilhaçadas. Era o fato de ter sido jogado na floresta, sem saber seu nome ou de onde veio com apenas sete anos de idade.
A única pista de tudo era um anel, que se ajustava perfeitamente no seu dedo anelar. Era a única coisa que não havia mexido desdá época, talvez, se sentisse completo usando ele.
Esse mesmo presente brilhava até o presente momento, sempre que olhava para sua mão direita sentia uma nostalgia enorme, como se explodisse seu peito.
Ele encarou os sapatos já gastos, com o suor pingando e escorrendo até o chão de pedra. Seus cadarços desamarrados, repletos com poeira, eram encarados como cansaço.
Seus dedos se moveram para entrelaçar e amarrar os cadarços, quando terminou deu tapinhas para tirar a poeira.
— Chegou perto desta vez, hein!?
Quando levantou o rosto ensopado para a garota, ela estendeu a mão para ele. Com suor escorrendo pelas costas, respondeu com sua própria e um suspiro exausto.
— Realmente, eu devo estar melhorando.
Ele agarrou a mãos dela e com puxão da garota, se colocou de pé. O sol bateu forte em sua face, o fazendo se proteger com uma das mãos, fechou um dos olhos.
— Seu humor melhorou.
— ...
Um som de confusão veio dos lábios do ruivo, que franziu levemente o cenho. O suor que encharcava seu rosto, parou de escorrer quando a densidade do sol baixou.
— Sua cara tá bem melhor agora, né? — Ela riu dando um peteleco no ar — não vou precisar contar pro Will.
Ele piscou com aquele ar convencido de sempre, ergueu as mãos em formato de pistolas. E quando abriu os lábios palavras confiantes saíram dele.
— Eu sei que sentiram minha falta. — disse, com um sorriso maroto.
Ela deu uma risada divertida quando viu sua expressão, abanando o rosto em seguida, pelo calor que derretia seu rosto.
— Hum, o que foi?
— Tá muito calor.
Ele reagiu confuso ao vê-la retirar a jaqueta depressa, amarrando-a na cintura abaixo do cropped preto. Voltando seu olhar lateral para ele que limpou o suor da testa.
— Tá bem quente mesmo...
— Porran, você está me deixando louca com esse moletom.
— Cuidado com as palavras, uso ele tanto que até virou parte da minha pele!
— Depois dessa informação, tenho até medo do cheiro...
Eles começaram a caminhar após Rowena tapar o nariz e se afastar, Noah a seguiu. Passando pelas diversas casas feitas de tijolos, novos e velhos. Algumas mais altas e outras mais simples, tinha bastante variedade e você saberia se visse quem ali tinha dinheiro ou não.
Os habitantes saiam de suas casas, os mais novos para brincar e reencontrar seus amigos mais um dia — os mais velhos para se reunir em praças e trabalhar.
— Eu tomo banho, tá?
— Cheio dos queijinhos por baixo dessa roupa aí.
— Cara, que nojo!
Ele fez uma expressão enjoada e cuspiu palavras para a garota que riu descontroladamente. Sua testa se enrugou, apertando os olhos ele bufou profundamente.
— Oh, bom dia moça!
Uma voz chegou aos ouvidos e chamou a atenção tanto dos olhos âmbar, quanto dos olhos bicolores. Um homem adulto acenava para eles enquanto carregava uma caixa grande.
Parecia pesada. Rowena se aproximou enquanto acenava de volta, assim como Noah que se ofereceu para ajudar a carregar a caixa.
O homem acabou aceitando, e eles seguiram.
Se dirigindo para a estrada que começava a ficar movimentada, a garota jogava conversa fora com o homem que ria de forma espontânea.
Seus olhos não desgrudavam dela, e isso deixou Noah de lado mesmo que tenha ajudado com a carga.
Era algo bem comum, então não levou pro lado pessoal. Rowena era bem mais comunicativa com as pessoas do que ele, mais reservado assim como seu irmão.
Fazia piadas e tirava risada de todos, algo que Noah também tinha o hábito quanto estavam somente os três. Quanto se tratava desse seu lado, preferia mostrar suas individualidades somente a eles.
Já aquela garota que cumprimentou a todos ao passar, não tinha medo ou insegurança de mostrar suas habilidades sociais, quase invejáveis na visão do ruivo.
— Valeu garoto, vou te dar um trocado.
— Não. Não precisa, eu tô bem.
Ao colocar o caixote no chão, ele se voltou para o homem de aparência jovial, tocando os bolsos. Porém recusou o saco de moedas que ele estendeu, como que os afastando com a mão.
— Ei, espera!
O homem gritou após Noah pedir que Rowena esperasse ele, assim deixando-o para trás. Com passos apressados ele entrou no meio da multidão mais a diante.
Por se tratar de uma área comercial, aquela rua em específico era lotadas de lojas em toda parte. Pessoas berravam anunciando seus produtos e carroças ameaçavam atropelar as pessoas que não prestavam atenção na rua estreita.
— Fala sério, aqui não é lugar de ficar dirigindo essas porcarias.
Enquanto era espremido pelas pessoas que não lhe permitiram avançar, teve a atenção chamada pelos longos fios dourados. Que, saltitando, se aproximava de um bar mais a frente.
Ela pareceu distraída enquanto trocava comprimentos, não olhando para os lados. Noah sentiu um pequeno arrepio na nuca.
Com muito esforço ele foi expulso do meio daquelas pessoas, assim, voltando-se a ela. Que se virou após ter seu nome mencionado por ele.
Confusa, parou de frente para aquele bar, onde uma baderna se alastrava. O som de copos ou garrafas de vidro estourando na parede soaram, e um homem cambaleou para fora.
Ele continuou a tropeçar em si mesmo, arrastando o cheiro forte de álcool por onde ia. Até colidir com uma pessoa que caiu pro lado.
A garota soltou um grito baixo, como que reclamando e voltou o olhar âmbar para o homem desnorteado.
— Ei, prestar atenção!
Ela gritou com o homem após cair sentada. Vendo ele se recompor, e derramar o restante da bebida nas roupas maltrapilhas que usava.
Quando o carpanzil se endireitou, ele urrou mostrando os dentes tortos e amarelos. Ao direcionar os olhos negros para a garota, franziu a testa.
O vendo de perto, algo na aparência do homem o fez querer rir muito. Um detalhe que não poderia sair batido, no topo da sua cabeça a falta de cabelos na região a fez gargalhar no lugar, mesmo que segurasse.
— Tá rindo do quê, sua fedelha!
Sua voz era áspera e estranhamente irritante pros ouvidos. Rowena teve a sensação de que poderia sentir dores se ouvisse ele dizer por alguns minutos.
Vendo como ele balançava a garrafa, jogando gotículas de álcool para os lados, era certo que estava com intenções hostis. Mesmo que se mantivesse de pé por pura sorte.
— Ei, faz o favor e para de cuspir enquanto fala. É nojento.
Ela respondeu ele sem preocupação, enquanto se levantava, se assustou com a aura do homem prestes a atingi-la no rosto com a garrafa.
Porém, algo parou o braço do homem e impediu que avançasse mais. E soltou rapidamente, se desculpando.
— Senhor! Nós desculpe, ela não fez por mal!
— Por que tá fazendo isso?
Ele ignorou os dizeres da garota e abaixou o tom para o homem, que enrugou a testa mais ainda.
O corpanzil se endireitou, com um murmúrio baixo confuso. Como se o significado das palavras escapassem de sua compreensão, ou ele nem mesmo tentou escutar.
Quando Noah levantou o rosto, sentiu ser socado com força. O punho cerrado atingiu a face do garoto que caiu para o lado, ele soltou um gemido contigo.
Sentiu um pequeno cachoalho na mente, mas se recuperou ao se levantar, com a visão do corpanzil crescendo diante dele.
— Ninguém chamou você aqui, seu viadinho de merda.
O corpanzil com um físico nada saudável crescia com a intensão de agredi-lo ainda mais. Estalando a língua, e desgastando os dentes os raspando uns nos outros, causando um som incômodo similar a arranhar uma lousa.
Naquela distância, Noah poderia simplesmente chutar seu joelho. Assim ele possivelmente cairia e se machucaria o dando a chance de fugir, mas esse pensamento não pode se concluir, pois alguém interrompeu.
— Você tá maluco!? Seu imbecil, nojento.
O bêbado reagiu se virando para a garota que agora estava de pé, seu olhar o alfinetando. Quando estendeu o braço e apontou para seu grande nariz, disse palavras que desmancharam a expressão dele instantaneamente.
— Tá me ouvindo? Nojento!
— Hã!?
Seu rosto ficou vermelho raiva, sua face em completa irá se franziu. Se contorceu, e quando tudo explodiu, ele bateu a garrafa contra a madeira que sustentava uma cabana espalhando estilhaços pelo chão.
— Vadias como você, como ela, putas sem coração que só sabem humilhar nós homem. Mesmo fazendo de tudo, por vocês, ainda nos abandonam, deixando tudo pior!
O corpanzil chacoalhou a garrafa enquanto tropeçava em tristeza, seus olhos lacrimejaram por um momento e bebida escorria dos lábios.
A expressão da garota mudou para desgosto. Quando percebeu o olhar em suas costas, sorriu confiante. Abrindo os lábios que se alargaram.
— Talvez, se parasse de beber e ficar tão puto, tivesse uma aparência melhor. Mulheres ligam para isso sabia!? Você parece um daqueles familiares que abandonam os filhos.
— ...
Ele apenas rangeu os dentes, segurando a garrafa com força. Seu rosto conteve ainda mais tristeza e lágrimas de crocodilo.
Noah que assim como todas as pessoas ao redor, estavam perplexos. Seus rostos suavizaram com o andamento da conversa, como se pudessem se entender sem mais violência.
Um som de palmas soou chamando a atenção de todos ali presentes. Era um garoto de voz jovem e rosto confiante, que provocou um silêncio e começou a falar.
Ele vestia um moletom com detalhes em verde e preto, uma meia preta cobria suas canelas até o shorts da mesma cor.
Rowena assistiu sua chegada com um brilho nos olhos âmbar. A pele negra que reluzia ao contato do sol, e os cabelos rebeldes que se moviam por conta do vento incomum.
— Desculpa, eu demorei.
— Kaiser, que demora cara.
— Bom dia!! — O sorriso dela era contagiante.
Com uma mochila em mãos ele direcionou os olhos verdes esmeralda para ambos, que tiveram sua atenção tomada.
Rowena acabou até esquecendo do homem que se contorcia em uma espécie de luto atrás dela, assim o enfurecendo e fazendo ataca-la sem pensar.
Porém, seu corpo se moveu para o lado, desviando da garrafa que a perfuraria. E com um golpe cruel, chutou os testículos do homem que desmoronou na sua frente.
Rolando para lá e para cá no chão maculado, fazendo alguns homens contorcerem a face de dor e mulheres cobrirem a boca.
— Fez até uns barulhinhos... — sussurrou Kaiser.
O som que se assemelhou a sinos de uma igreja soaram na mente dos garotos que já se aproximaram. Kaiser soltou uma pequena risada e Noah fez o mesmo.
Mas, como se finalmente se tocasse de tudo que tinha acontecido, se virou para a garota com o rosto torcido.
— Precisava disso?...
— Er... Sim? Ele te deu um soco.
Rowena respondeu como se fosse obvio, então ele apenas aceitou fechando os olhos bicolores. Sentiu um toque nos ombros, os abriu novamente.
— Merecia mais um, eu dou desta vez.
— Você vai acabar estourando as bolas dele Kaiser...
O garoto riu, sabendo que ele estava totalmente certo. Com pequenos tapinhas em suas costas, empurrou ambos que abraçava.
— Vamos deixar ele ai?
— Quer levar ele para jantar?
— Eu não...
— Chamamos os guardas, podem ir.
Uma mulher de meia idade interrompeu os garotos que conversavam em tom cômico, avisando do ocorrido. Ambos acenaram para ela, e então partiram para a direção oposta.
Desvinculado do corpo jogado no meio da estrada, Noah massageou as bochechas não evitando os olhos verdes que logo o interrogaram.
— Isso tá doendo?
— Ele tinha uma mãozinha pesada até.
— Quer que eu cure?
— Não. Obrigado Rowena.
Eles seguiram a trilha até ultrapassada a diversas casas, adentrando um novo local. Onde pessoas conversavam e crianças corriam para lá e para cá.
Antes de entrarem naquela luz
encantadora da manhã, seus olhos brilharam ao contato dela. E então o garoto ruivo sorriu puxando o canto dos lábios.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios