Noah Brasileira

Autor(a): Samuel Nohzi


Volume 1 - Arco 1

Capítulo 1: Vida simples, corações complexos

Um dia ensolarado havia dado início, cheio de vida e esperança para os moradores daquela pequena casa isolada na floresta. Na qual, a cortina balançava e o ar adentrava suavemente no segundo andar.

O vento batia e soprava o suor que escorria nas costas que se contraiam, enquanto o garoto repetia os movimentos, com as palmas no chão.

Essa sequência de exercícios se repetiu bem ao lado da cama, onde uma pequena bola de pelos dormia calmamente. A boca se abriu enquanto ainda se mantinha enrolado em si mesmo, expondo os dentes e língua com um som felino.

— Cinquenta e dois... Cinquenta e três... Cinquenta e quatro...

Noah assim repetiu enquanto fazia flexões, seu suor pingava na madeira, enquanto ele colocava ainda mais força nos braços.

Os olhos do felino branco e extenso se reviraram por trás das pálpebras, resmungando, e cobrindo as orelhas com as patas ronronando irritado.

O corpo que se encolhia em um redemoinho, tinha chifres como os de dragões no topo da cabeça, de cor azul. Os olhos que se abriam ligeiramente enquanto murmurava, tão lindos quanto o oceano.

— Tem como parar de atrapalhar meu sono?...

— Ah, Piyoyo! Estava te esperando para comer.

Os olhos dele se arregalaram quando o viu se levantar com uma garrafa em mãos. As palavras que saíram da sua boca, atiçaram seus instintos.

— Eu só vou tomar banho, e...

Antes mesmo que ele terminasse de falar, o gato que antes dormia sem qualquer preocupação, disparou para a porta. Quando decolou, o vento sobrou fortemente e bateu a porta que estava entreaberta.

Os olhos dele se arregalaram ao se virar, perplexo, ele soltou um suspiro baixo. As mãos que seguravam a garrafa, já não tremiam mais.

— Não... Posso preocupar Eleni com uma bobagem dessa.

Uma sensação estranha percorria seu corpo, mas ele não sabia dizer qual. Era uma mistura de inquietação e batidas aceleradas no peito, como se algo dentro dele estivesse tentando avisar que algo estava prestes a acontecer.

Dando alguns passos em direção ao banheiro, ele olhou para o espelho ao lado da cômoda. Seus olhos que antes pareciam cansados, haviam mudado de forma minuciosa.

Ele forçou um sorriso com os dedos indicadores, os dentes que lembravam os de um tubarão logo apareceram. Fazendo uma expressão que se torceu em ironia.

Após ele tomar banho e se secar, estava pronto em seu quarto. Vestindo um moletom branco com capuz vermelho, seus shorts escuros e sapatos gastos, se dirigiram ate a porta.

— Nossa, quase esqueci.

Antes de passar pela porta, ele lembrou de colocar um colar que estava pendurado ao lado da cama. Era uma pedra branca, com um cordão amarrado nela. Não tinha nada demais em sua aparência.

O anel que ele sempre carregava brilhou, um brilho que parecia chamá-lo. Ignorando isso com um olhar confuso, seguiu até o andar inferior.

— Descendoo!

Cruzou o pequeno corredor e pisou nas placas de madeira em espiral, formando uma escada. Seus olhos logo cruzaram com uma cozinha, onde o som de alguém cantarolando soava.

A mulher era de uma beleza hipnotizante. Os longos cabelos dourados caíam como fios de sol sobre a pele parda e quente, que reluzia sob a luz adentrando pela janela. Mas eram os olhos(azuis e intensos), que mais chamavam atenção, brilhando como duas borboletas roxas no céu limpo.

Ela de forma cuidadosa derramava água quente no bule de café, seus dedos finos seguravam com tanta delicadeza que pareciam que poderiam escorregar a qualquer momento. Mas não foi o que aconteceu.

As orelhas longas e graciosa como um cervo moviam-se lentamente. Assim percebendo sua chegada nem um pouco silenciosa.

Quando assim chamou sua atenção, ela se virou com um sorriso brilhante. As joias logo o fizeram corar com tanta beleza, enquanto colocava luvas.

— Eu fiz alguns pães. Piyoyo já está na mesa te esperando, querido.

— Ah, claro, ele está mesmo...

Ao girar o pescoço, ele ficou boquiaberto com o que via. O que mais parecia uma cobra depois de engolir várias pedras, não poderia chamar de gato doméstico — ou melhor, espírito.

Piyoyo estava dormindo ao lado de um prato vazio, o ronronar fez ele torcer o rosto incrédulo enquanto gaguejava ao falar.

Mas oque o fez despertar pela segunda vez, foi o aroma que se aproximou de repente. Sua boca se abriu rapidamente quando Eleni se aproximou, e em uma abocanhada só, comeu os pães que ela tinha preparado.

— Pelo menos mastiga, desgraça!

— Técnica ninja de sobrevivência.

— Técnica porca, isso sim. Vai morrer engasgado um dia desses. — Ele apontou o dedo indignado.

— Melhor do que morrer de fome.

Em um salto de fúria, Noah agarrou o gato que se debatia arranhando seu rosto. Assim que conseguiu segura-lo no pescoço, chacoalhou para os lados sem parar.

Como se quisesse pegar seu café da manhã de volta, ele puxou a língua do felino para fora, pronto para enfiar sua mão inteira em sua boca para resgatar os pães.

— Eu fiz mais uma remessa, fiquem calmos!

Instantaneamente os dois pararam de se enforcar e arranhar. Sentando como se fossem criancinhas comportadas, mas, ainda soltando faíscas por meio dos olhares laterais — enquanto Piyoyo estava na mesa, Noah sentou na cadeira.

Ao juntar os dedos e se virar, ela voltou mais uma vez com uma travessa. Os olhares gulosos de Piyoyo já cresceram, e Noah cutucava sua face com o cotovelo para que se afastasse.

— Vocês sempre comem bastante, então resolvi fazer mais do que costume.

Ela pousou os pães ainda quentes sobre a mesa, e o aroma indescritível se espalhou pelo ar como um convite irresistível. À sua frente, o pequeno felino ergueu as orelhas e abriu os olhos, enormes e brilhantes, como se tivesse acabado de ver um tesouro. As patinhas avançaram devagar sobre a madeira, e o focinho curioso farejou o ar, totalmente hipnotizado pelo banquete que acabava de surgir diante dele.

Quando Noah apanhou e mordiscou, pôde sentir o queijo suave e saboroso. A massa que de forma harmoniosa, derretia e dançava na língua.

Noah inflou as bochechas com tal sabor, antes que fosse interrompido no meio da refeição, pelo som de algo batendo na madeira da porta.

— Querido, atende pra mim. 

Eleni se concentrou em beber seu café ao se sentar, enquanto o garoto ia até a porta. Pisando no carpete e girando a maçaneta lentamente, até que seus olhos se deparassem com aquela garota.

— Por que tem um coelho morto do lado de fora da casa?

Aquela figura que torcia o rosto em desgosto, era uma linda garota de cabelos loiros e alaranjados. Vestia uma jaqueta vermelha, e uma calça larga com detalhes de vermelho e preto.

Os olhos âmbar com íris em formato de estrela se voltaram a ele, que torceu o rosto em sincronia. Inclinando-se para que pudesse ver também.

— Não pode ser...

— Cara, tá fedendo. Deixa-me entrar aí, ô!

— Mãe, o Piyoyo deixou um coelho morto na frente da porta!

— Da uma bronca nele. Entrando!

— Fala sério, como eu durmo com um gato seboso desses!?

A garota entrou após bater os sapatos algumas vezes, respondendo o garoto que ficou indignado ao ser ignorado pela mãe que dava pequenos goles no café.

— Já tomou café, Rowena?

— Ainda não.

Após fecharem a porta e irem em direção a mesa no centro, Noah sem tirar a atenção dos olhos âmbar, apontou para onde estavam indo.

— Tem pão de queijo.

— Certeza?

— ...

Era como seu corpo perdesse a cor, seus olhos não estavam crendo no que via. Enquanto sua mãe bebia o café de forma calma, o pequeno gato terminava de comer, limpando o prato.

Rowena fez uma expressão torta, sem graça. Abanou as mãos e disse que não precisava, seus olhos em formato de estrela cruzaram os azuis como o oceano.

Algo que parecia uma borboleta voando piscou para ela, tirando os lábios da caneca de porcelana, Eleni a cumprimentou com um sorriso meigo.

— Me desculpe, bom dia Rowena!

— A senhora tá lindona hoje!

— Bora sair, tô quase matando esse gato.

Noah se aproximou agarrando o braço de sua amiga que olhou confusa, porém, logo soltou com cara feia. 

Uma pontada atingiu sua língua, algo como um “Bler” saiu de sua boca. Uma pequena queimação, como se tivesse queimado a língua com café quente.

— Tia, o café! — Avisou Rowena para Eleni.

Instantaneamente Eleni se desculpou tirando a xicara da boca, assim tapando-a. Mencionou se levantar, mas Noah estendeu a mão com a palma aberta.

— Não precisa. — Ele disse chacoalhando a língua igual um cachorro.

— Tá doendo ainda?

— Só tá dormente...

Noah também tapou sua boca, e sua testa se enrugou com a queimação. Finalmente colocando a língua para dentro, ele se aproximou de sua mãe dando um beijo em sua bochecha.

Seus olhos se fecharam no contato, e sua alma irradiava observando-a, iluminada pelo sol que entrava pela janela atrás dela.

— Vou indo. Vê se não fica queimando a língua, eu não vou estar aqui para me queimar por você.

— Sendo sincera, você sabe que eu provavelmente vou. — Ela riu.

Endireitou a postura e coçou a cabeça, seus olhos que pairavam o chão, se cerraram com a visão de Piyoyo deitando no colo da mulher a sua frente.

— Sem vergonha, até ronrona.

— Piyoyo é bem fofo né? — Rowena aproximou, inclinando-se.

— Ele é bem vagabundo, isso sim.

Quando eles se viraram de costas, um sorriso se desenhou nos lábios finos de Eleni. Desejando boa sorte, com uma expressão digna de um anjo.

***

A parte exterior da casa era cercadas por árvores, uma floresta com diferentes tipos de frutos e lagoas por perto. Um ar puro entrou nos pulmões no garoto ao sair. 

Os olhares se cruzaram quando, Rowena se virou para ele, ainda parado na entrada. Caminhando logo depois do olhar ansioso.

— Você parece meio estressado.

— Um pouco... 

— Foi o Piyoyo?

Enquanto a caminhada na floresta se iniciava, a garota direcionou uma pergunta com os olhos curiosos. De forma desanimada e suspirando no final da frase, Noah evitou contato visual com ela.

— Para ser sincero, ele sempre foi assim. Então não me incomoda tanto.

— Então quando vai parar de ser otário?

— Como é? 

Seus olhos se voltaram a ela, que saltou na sua frente, Noah com uma expressão desgostosa parou de caminhar.

— Tô com saudades do Noah legal, devolve ele aí vai.

— Acho que não é assim que funciona...

— Desencana!

Com o braço estendido, ela agarrou o garoto pelos ombros e começou a balança-lo para frente e para trás. Emitindo pequenos murmúrios de fala desconexos, ao ser balançado.

Seu ânimo não voltou, mesmo com ela parando de sacudi-lo. Os olhos pareciam murchar, e o corpo queria se esparramar ali mesmo.

— Como você é chata...

— Bora, bora! Já sei, uma corrida. Se eu ganhar, vou contar tudo pro Will!

Seu corpo parou de balançar, e a voz que perturba seu juízo parou de o incomodar. Quando se deu conta, ela já estava no meio da floresta correndo.

Como se do completo nada recobrasse a consciência, ele percebeu o que havia acontecido e partiu em disparada atrás dela. O vento soprava os cabelos ruivos, cada vez mais rápido.

Ainda sim, não conseguia alcança-la. Seu corpo parecia algum tipo de automóvel de tão rápido, as pernas longas se esticaram ao limite, e o corpo assumia uma postura mais baixa.

Aquela corrida de resistência era impossível de ser vencida

 por ele, de certa forma era até injusta. Contudo, ele a seguiu até uma grande entrada muito movimentada.

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