Noah Brasileira

Autor(a): Samuel Nohzi


Volume 1 - Arco 1

Prólogo: O dia em que eu morri

O cheiro forte de sangue tomava conta do campo de batalha, quase impossível de respirar. Os olhos de um garoto se moviam inquietos, tentando entender o caos ao redor enquanto ele cobria a boca para não vomitar. O som dos estalos e esse odor metálico eram tudo o que restava naquela floresta tingida de vermelho. 

Só havia morte por toda parte. O ar pesado o fazia ofegar, e o mundo parecia se resumir ao céu escuro, ao sangue pingando no chão e aos gritos que ecoavam entre as árvores em chamas.

O rapaz era um garotinho que tinha olhos com um contraste impossível, um amarelo que queimava como o sol, e um azul tão profundo quanto o mar, que de alguma forma foi colocado em meio a esse conflito, obrigado a ver pessoas morrerem, mesmo tão jovem.

Tudo o que ele via parecia inimigo. Não apenas a pessoa que o perseguia, mas as chamas, as poças de sangue e até o vento que soprava as brasas ardentes.

O garoto corria o mais rápido que podia, mas acabou tropeçando e caindo de joelhos. Uma tora gigante no meio do caminho o derrubou e aquela voz assustadora atrás dele fez seu coração gelar.

Ele estava apavorado, tremendo da cabeça aos pés. As calças se molharam, os cabelos ruivos arrepiaram, e a boca se abriu num grito desesperado que mal conseguiu sair.

Eu não quero morrer...

Algo o perseguiu enquanto ele corria de forma desengonçada, algo que ameaçava sua existência. O garoto vislumbrou os olhos por trás do capuz, olhos que mesmo distantes, fizeram sua alma congelar.

Aquela figura misteriosa o perseguia incansavelmente, os olhos brilhavam com a sede de sangue, como se fossem lâminas o perfurando.

Na realidade, pensou ser a sensação de encarar a morte. Quando percebeu, um som metálico soou como se abrisse um zíper.

As mãos que o tocavam o abdômen se ergueram para que pudesse ver, banhadas em sangue. O mesmo que escorria e pintava o gramado.

Sabia que sua barriga estava aberta, e enfrentou essa dor, tentando juntas suas partes pelo chão enquanto se contorcia com aquela queimação sem fim.

— De onde veio, onde!? — Quando a procurou, não encontrou mais aquela figura.

Era como se fogo líquido escorresse em suas veias, derramando no cálice da morte. Seus olhos se reviraram, enquanto ele se perdia naquela sensação densa e ardente.

Algo quente e pegajoso escorria pelo seu ventre. Ele não queria olhar, mas sabia: estava se abrindo por dentro. Como se cada pedaço dele quisesse escapar.

Tá doendo, dói. Isso dói. Essa dor... Eu tô morrendo. Eu não quero morrer agora que...

Cada parte dele gritava em direções diferentes, como se o corpo tivesse se tornado um coral de vozes pedindo para parar.

Ele não se lembrava de nada, nem do motivo de estar ali ou da pessoa que entrou nas chamas. Pensar em seus pais, amigos ou tutores do passado só lhe causava um formigamento estranho na mente.

Antes de seu corpo ser sugado pela luz que o iluminou, teve um raio. Memórias que não reconhecia, passaram por sua mente em um instante como fotos antigas.

O tempo se quebrou, já não existia mais “tempo”. Apenas escuridão, e fragmentos daquele que ele foi algum dia. Então...

                                                                    ***

O suspiro de vida o fez despertar, essa ação foi tão repentina que ele se sentou na cama encarando o lençol bagunçado.

O suor escorreu nas costas nuas e pingou no tecido, por todo corpo, ele teve um arrepio molhado. Os olhos arregalaram, enquanto observava suas mãos trêmulas e encharcadas.

— Quem... quem era aquela pessoa?... Que pesadelo horrível...

Ele suspirou baixinho, abraçando as pernas enquanto o corpo todo cedia ao medo, o medo da dor, pavor de sentir a sensação de se abrir novamente.

A brisa bateu na cortina, fazendo o jovem ficar arrepiado. Enquanto respirava com selvageria os olhos bicolores pareciam perdidos.

Era como se a mudança de espaço o fizesse ser esmagado, como se tudo se encolhesse ao mesmo tempo. O teto, sua cama ou até mesmo comprimindo o próprio ar.

O cômodo se contorcendo era obviamente uma coisa que sua própria mente havia inventado, mas não pode evitar de se sufocar com aquilo.

Nesse momento ele disparou da cama tapando a boca em direção ao banheiro em sua frente. Chegando lá, bateu os joelhos contra o chão e agarrou as laterais da privada ao lado do espelho.

Um som áspero saiu pela garganta antes de seu estomago se voltar contra ele como se uma torneira fosse aberta. O gosto azedo o fez torcer o rosto, enquanto se afogava em vômito.

— Ahhh... Que droga... 

Ao puxar a descarga, ele movimentou o corpo mole até a pia, onde pôde ver seu próprio reflexo no espelho. Um garoto de cabelos vermelhos e olhos com cores dispares, de cor azul e amarelo, como se cada um abrigasse um mundo diferente.

Sua expressão estava horrível, assim ele pensou vendo o rosto de exaustão. As marcas pretas abaixo dos olhos, murchos e cabisbaixos, fizeram ele se autodepreciar ainda mais.

— Quem é você?...

Foi uma pergunta direta, para si mesmo. Mesmo que sua voz mal saísse, ele a fez. Fez essa pergunta para uma pessoa que não reconheceu no espelho, essa era a sensação de reviver memórias de alguém que foi arrancado de si no passado.

Meu nome, é Noah.

Como se fosse um pensamento óbvio, assim como “eu sou você”, ele mesmo respondeu à pergunta que fizera há alguns segundos atrás.

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