Noah Brasileira

Autor(a): Samuel Nohzi


Volume 1 - Arco 1

Capítulo 4: Risadas abaixo do crepúsculo

Assim que chegou aquela praia, sua alma foi iluminada pela luz do crepúsculo. Depois de tudo o que aconteceu, aquela luz parecia um abraço, como se pudesse finalmente respirar ar limpo. 

Uma luz que Noah adorava olhar, independente se fosse a distância ou não.

Aquele calor penetrava sua pele pálida, uma sensação confortável soprava os cabelos brevemente. Pairando sobre a areia da praia, encarou os horizontes.

Era como se o crepúsculo nascesse e pintasse o mundo com um vermelho e laranja belo. Impossível de desviar o olhar, ou dizer uma única palavra.

Ele inspirou aquele ar, ele expirou. Seus olhos se perderam e tiveram sua cor tomada por aquela luz vindo do além.

Ao fechar os olhos deslizou um sorriso largo e se virou, seus grandes olhos agora se focavam em acompanhar as garotas que andavam pela praia.

Mais ao fundo, algumas crianças brincavam com suas bolas de praia. Outras mais antissociais, com castelos de areia.

Em sua grande parte pareciam felizes, e não pôde deixar de se identificar com as que brincavam sozinhas.

— Vovó!

Rowena seguia Alice que de repente começou a correr. O alvo dessa ação súbita foi uma senhora de idade avançada que estava em uma cadeira de praia, seus cabelos grisalhos balançaram ao se virar para ela.

— Querida, onde esteve? Estava preocupada, mas não podia deixar os outros sozinhos!

Ela a recebeu com os braços abertos e cheirou seus cabelos, uma aroma de cereja tão doce quanto ela. Tocou seu rosto com delicadeza.

A senhora que vestia um vestido florido abraçou-a, envolvendo com seus braços lentamente. Sua face se ergueu pra os três jovens a sua frente, que cumprimentaram ela.

— Eles ajudaram Alice, não são adultos maus... — Ela apontou para atrás de si ao torcer o quadril, fazendo sua avó seguir com os olhos.

A mulher deu um sorriso enrugado, mas repleto de gentileza. Com as mãos esqueléticas sobre o cenho de Alice, ela curvou sua cabeça para o grupo.

— Muito obrigada, Alice deve ter dado muito trabalho.

— Que nada, ela é uma gracinha. — A garota puxou as próprias bochechas — da vontade de apertar!

— O clima tá bem bonito, né?

Kaiser se virou para Noah que se escondia por trás do capuz, os olhos ocultos piscaram enquanto assentia lentamente.

— Que rapazinho curioso... Não precisa ficar com vergonha.

— Ele é calvo senhora, acredita? Dezoito anos e já precisa usar capuz…

A senhora soltou uma risada frouxa vendo o rosto por trás do capuz ficar avermelhado. Ao seu lado, o garoto de cabelos pretos também ria, quase cuspindo.

— É mentira — resmungou, ainda sem encará-la. — Eu só gosto do capuz.

— Gosta porque cobre a vergonha — retrucou Rowena, lançando um sorriso vitorioso. — Mas não se preocupe, dona. O coração dele ainda tem cabelo.

— Noah, parecendo o cara lá da vila!

O som ensurdecedor das risadas o fez franzir o cenho, mas, no fundo, ele também sorria.

Esses momentos eram mais preciosos que as mais raras pedras do mundo, valendo mais do que toda fortuna existente.

Ele queria permanecer assim para sempre, mesmo que, às vezes, sentisse uma vergonha genuína por trás das brincadeiras.

No fim das contas, esse tratamento era muito melhor do que tudo que já havia recebido no passado.

Noah foi surpreendido quando a garota que abraçava a avó se soltou, balançando os cabelos curtos até encostar em sua mão. Que foi agarrada por ela e levada a sua cabeça, fazendo ele soltar um suspiro confuso.

— O que foi!?...

— O cabelo da Alice é macio.

Entrelaçou os dedos nos cabelos cor de rosa.

— Sim, realmente é.

Não conseguia deixar de pensar o quão bonito era aquele sorriso inocente. Queria que ele nunca se deformesse ou desmanchasse. 

Sua vó observou essa ação com um sorriso, assim como todos ali. Tiveram seus corpos iluminados pelo sol se pondo.

Quando a senhora fez a menção de se levantar, Kaiser a ajudou a firmar os pés na areia. Ela o agradeceu com um sorriso largo, e se voltou para a pequena Alice.

— Querida, temos que ir. Está ficando tarde...

— Tchau tios! Tchau moça dos sucos!

Ao correr até sua vó, e as outras crianças em completa alegria, girou e acenou para a garota de cabelos loiros. Que suspirou quando ela virou as costas.

— Caramba, ela vai lembrar de mim como a moça do suco!? Não como uma heroína incrível!?... Que decepção, cadê o lobo para me devorar agora…

— A culpa e toda sua.

— E eu achando que você iria me consolar...

Ela se virou fazendo bico para Kaiser que coçou a cabeça confuso. Noah enquanto olhava para o horizonte, voltou-se para eles com um sorriso amigável.

— Bora dar um tibum?

***

Após se trocarem, ele foi até a luz que iluminava o horizonte. Seus olhos brilhavam com o encontro daquele pequeno sol que tremia ao encostar os pés na água gelada.

Usando um biquíni amarelo assim como os shorts acima do joelho, a garota soltou um gemido ao encostar no líquido frio.

Kaiser que já estava dentro da água — usando um short preto, de peito nu, riu de forma exagerada fazendo a garota corar inflando as bochechas.

— Para de rir!

— Não dá, você tá se tremendo toda! — Continuou a gargalhar.

Com muita hesitação ela entrou na água, seu corpo ficou totalmente parado por um momento. Já que não se acostumou com o frio ainda tremia, e esse corpo trêmulo foi vítima de risada para os dois garotos.

Eles preencheram o final daquela tarde com muitas risadas, após muito jogarem água em si mesmos e disputarem quem afundava o outro, despencaram na areia exaustos.

— Tô morrido...

Noah de longe foi o que mais sofreu nequela praia, pois minutos atrás os dois se juntaram contra ele para derruba-lo, — isso sempre acontecia.

— Cara, vocês são Cruéis...

— Chamo isso de força conjunta, afinal você é mais forte que a Rowena então seria mais justo assim.

— Nesse caso, teríamos que ir eu e ela contra você.

— Nhã...

— Cara de pau.

Quando se aproximaram, ambos sentaram ao seu lado com o luz do sol fraca batendo em seus rostos. Quase se pondo totalmente.

— Não seria uma má ideia ficar agarrada no Kaiser…— sussurrou Rowena, olhando para o céu e se balançando.

— Cê para.

— Se quiserem eu eu posso sair daqui.

— Não sai, tá me protegendo.

Noah ameaçou levantar, mas Kaiser colocou a mão no seu peito para impedi-lo. Enquanto olhava para a expressão maliciosa de Rowena.

— Não temas...

Ela cerrou os olhos pra o sorriso largo e cheio de segundas intenções. Os olhos vermelhos âmbar brilhavam com a luz que se esvair do pôr do Sol.

— Eu nunca perguntei isso, mas...

Um tom sério e melancólico se formou quando palavras saíram dos lábios do ruivo. Fazendo os dois se virarem para ele de olhos e ouvidos atentos a cada palavra.

— Tem algo que vocês queiram fazer?... Bom eu sei que a Rowena tá juntando dinheiro com as vendas, mas ela não disse o porquê.

Encostando as costas na areia novamente, ele refletiu em voz alta enquanto olhava o céu que aos poucos escurecia.

Aquele dia que, assim como os outros, fora repleto de risadas estava prestes a terminar.

— É para entrar daquela Universidade, lembra? Quando éramos mais novos.

— Aquela da capital? 

— Essa mesmo.

A Universidade mágica de Astrea era onde os magos de elite do reino de formavam. Por ser de alto prestígio, a inscrição, além de difícil era de custo muito alto.

Ele pensou que com o passar do ano esse sonho dela sumisse, assim como os dele, que eram sonhos de uma criança. Então ficou surpreso com a resposta dela.

— Isso é bem maneiro, Rô.

— E você Will?

— Ah, sei lá. Onde vocês estiverem eu vou estar junto.

Ela ficou sem reação pela falta de ambição dele, mas no fundo já esperava baseado em sua personalidade. Noah riu com o nariz.

— Certeza que quer ser um guerreiro.

— Eu já sou. Um dos fodões ainda.

— Não vou discordar.

Kaiser e Rowena riram de si mesmos, as gargalhadas que pareciam contagiar até mesmo Noah, preenchiam todo silêncio da praia deserta.

O vento era sutil e com temperatura neutra, às vezes ventos mais gelados faziam Noah se arrepiar, por isso ele colocou a camiseta que sempre utilizava.

Uma luz incomum tomou o céu, roubando toda cor do ambiente. Banhando o mundo de vermelho. Um vermelho tão obscuro e fervente que parecia sua chegada ao inferno.

Noah arregalou os olhos com espanto, seu peito quase pulou para fora. Não conseguiu desviar o olhar, seu pescoço estava duro e seu corpo congelou.

Os olhos travaram, sentiu que poderia desmaiar com essa pressão tão forte no coração.

— O que é isso?

— Ficou vermelho... 

O mundo novamente foi pintado de vermelho, assim como em seus sonhos. Porém, desta vez algo não humano o observava nessa vermelhidão.

Ele tinha a sensação que iria se engasgar com a própria saliva. Queria correr o mais rápido possível, sair daquele transe. Quando seus companheiros perceberam, quase tiveram os olhos saltados de suas órbitas.

— Aquilo, tá olhando de volta...

Algo olhava para ele, e agora para todos eles. Kaiser engoliu seco quando viu o grande olho que rachava o céu de sangue.

Um rancher, quase insuportável ecoou em suas mentes. Era como romper o crânio na metade, fazendo ambos taparem os ouvidos como se juntando os pedaços.

A abominação de pupilas vermelhas, derramo

u sangue sobre aquela terra maculada com o pecado dos mortais. Era o olho de um Deus da morte.

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