Volume V – Arco 14
Capítulo 129: Brinquedos
O alvo dos três mirins era o prédio mais alto em Kumokai. Cinco andares, dezenas de sacadas e centenas de Heishis, principalmente naquela noite. Abaixo do lugar havia túneis, um complexo sistema de saneamento. Um homem jogava um tonel de esgoto na água, quando foi chamado por alguém no final do túnel.
Pelo caminho, uma pedra foi jogada entre suas pernas, vinda de uma fresta na parede. O serviçal tropeçou no chão e caiu.
— Olha só para você — gritou o chefe — Não pode servir os convidados todo sujo. Anda, vá se trocar.
Saindo da fresta, estavam os três mirins. Eles o seguiram por uma escadaria estreita com uma porta de madeira entreaberta. O interior do prédio tinha pisos e paredes reluzindo, candelabros de ouro e móveis envernizados.
O serviçal se dirigiu a uma sala pequena com armários e cabideiros repletos com os uniformes. Os três invadiram o recinto, caindo sobre o funcionário. Pegaram as chaves da sala, vestiram o uniforme por cima dos seus e trancaram o lugar.
— Estamos procurando por informações — dizia Yukirama, arregaçando as mangas longas — Tentem servir os convidados, alguma coisa eles devem saber.
Saindo para o salão principal do primeiro andar, Yukirama viu bandejas prateadas com taças cheias esperando para distribuir e foi logo pegá-las. Uma em cada mão. Um Heishi de armadura e sem capacete passou por ele, tomando o conteúdo da travessa.
Na medida em que perambulava pelo salão, ele circulava pelas mesas lentamente Um olho nas bandejas que colocavam na mesa para distribuição, outro nos alvos. Nas idas e vindas, o assunto era sempre o mesmo:
— Foram interceptados pelos Kuro de novo?
— Semana passada eles estavam no máximo nas estradas de terra. Se chegaram na principal…
— As tempestades não poderiam ter chegado mais cedo. Vamos ter um descanso.
— Não é isso que o general Uchida pensa. E eu até concordo. Esses caras vão vir com tudo para cima da gente para fugir de Nokyokai.
Subindo as escadas para os andares superiores, Aiko foi interceptada por um par de serviçais.
— Você deve ser a novata, ainda bem que te encontrei, menina — a mulher a puxou pelo braço — Temos quartos para preparar, anda logo.
— Ai, sem machucar — protestou Aiko — O que fazem todos esses Heishis aqui vindo de tão longe?
— A exigência faz parte. Agora, nunca teve tantos assim mesmo. E vai piorar, porque já já têm a reunião.
— Reunião?
As duas mulheres lançaram um olhar devastador para Aiko.
— Você andou dormindo no serviço? Esqueceu qual o seu trabalho?
— E-Eu ajudo no que puder…
— Então vamos ou estaremos todas na rua! — gritou, puxando Aiko pelo braço de novo.
As duas subiram mais dois lances de escada a caminho da sala de reuniões. Umi ainda estava no térreo, levando caixotes para os estábulos nos fundos, onde uma carruagem se preparava para partir. Ao jogar o toldo por cima da carga, a filha de Iori perguntou a um serviçal que ajudava:
— Para que tanta coisa? Eles não acabaram de chegar?
— Ninguém fala nada aqui. Melhor não fazer muitas perguntas e o dinheiro entra no bolso.
— Tá bom, não está mais aqui quem falou — deu de ombros — Pode voltar e confirmar se falta mais alguma coisa?
O homem voltou para dentro do prédio. Sozinha, Umi mergulhou na carruagem, espiando a carga. Eram cabos de espadas, escudos, algumas armaduras, mesmo incompletas e faltando placas. O detalhe mais importante, contudo, era um mapa no assento do motorista.
Aiko foi arrastada para a sala de guerra no terceiro andar. As mesas estavam nuas, os pratos ainda não haviam sido posicionados. As mulheres correram para completar o trabalho atrasado, até que a porta foi aberta. A mirim estava de costas para os convidados, quando uma voz congelou ela.
— Ainda estão aqui? — vociferou Uchida — Eu avisei que…
— A culpa foi minha — a serviçal deu um passo à frente — Por favor, podem se acomodar. Finja que não estamos aqui.
Cada um tomou seu assento de uma mesa redonda no centro. Vendo que os copos precisavam ser servidos, Aiko correu para assumir o trabalho de forrar as outras mesas ainda vazias, permanecendo nas costas do general de Nokyokai.
— O imperador quer mesmo nos deixar para apodrecer aqui — um Heishi suspirou, puxando seu assento.
— Ao meu ver, quanto mais o imperador estiver distraído, Torigami — respondeu Uchida — melhor.
— O que pode ser mais importante do que apoio agora, general? As cartas foram muito claras: os Kuro estarão na nossa porta até o final da semana. Precisamos de seus reforços.
— Guarde sua bajulação para quando estiver na presença do Imperador, Torui — rebateu o general.
— Não pode contar com os Senshis para morrerem por nós outra vez — insistiu Torigami — Kurome e os Tsuki não estão mais na região. A menos que tenha um plano alternativo…
— Vocês sabem que eu tenho. Um que não desejo dividir com um garoto mimado, que se acha imperador.
— Está falando do garoto naquele mausoléu congelado? — um quarto Heishi virou o copo e depois o bateu na mesa — Achei que o fiasco do Heishi Celestial tivesse sido prova o bastante de que não devemos confiar em crianças.
— Crianças são úteis, desde que tenham rédea curta. Vamos para o assunto mais importante. A Forja recebeu tudo que escavamos nas montanhas há três dias atrás. O carregamento está pronto?
— Está tudo nos estábulos, nos fundos — respondeu Torui, revirando os papéis nas mãos — Devo avisar que essa viagem não é recomendada.
— Somos experientes em cavalgar pelas tempestades — Uchida se levantou.
— Não me referia às tempestades, general.
— Somos Chisei — Uchida escancarou as portas — Do que vamos temer? Eu levarei a carga pessoalmente. E depois levaremos esta batalha até o inimigo.
Assim que todos se retiraram, Aiko se certificou de que a serva não teria mais trabalho a ser feito e desceu rapidamente as escadas. Yukirama escondia um pedaço do bolo de mel e canela da bandeja sorrateiramente nos bolsos, quando a viu de longe. Outra voz também chamou por ele vindo dos fundos. Era Umi.
Os três reunidos ligaram os pontos das informações. Em pouco tempo todos estavam de volta no salão, se recolhendo entre os corredores e a caminho da carruagem nos estábulos. Eles se enfiaram entre as cargas, pegaram os toldos jogados, se cobriram e esperaram.
— Tem certeza disso? — sussurrou Yukirama — Os guardas não param de falar que a estrada tá perigosa.
— É algo grande. Tá no mapa — Umi apontou para o papel dobrado no assento do motorista.
— É a Forja — completou Aiko — Eles escavaram alguma coisa para…
Aiko tampou sua boca e respiração a partir do momento que alguém entrava nos estábulos.
Um pequeno comboio de três transportes vagou numa tempestade furiosa madrugada adentro. Pelo caminho, uma luz diferente dos relâmpagos e das lâmpadas invadiu o interior da carroça.
Aiko ousou tirar o toldo da cabeça para ver melhor por entre as tábuas de madeira. Eles passavam por um desfiladeiro, às margens de um deslizamento de terra. Incrustado no terreno, estavam pequenas lascas de um minério brilhante.
Apesar daquela visão estranhamente bonita, uma ameaça se desenhou no horizonte. Cavalarias vindo de encontro com o comboio na estrada. Homens em armaduras negras. Os mirins ouviram gritos de ordem, relinchar dos cavalos, mas rapidamente, a carruagem deles tombou. Um coral de vozes saudaram os Heishis.
— Um continente! Um reino! Um povo! Um destino!
Eles caíram do desfiladeiro até baterem numa árvore. Yukirama se rastejou primeiro para fora.
— O que você está fazendo? — gritou Umi.
— Se eles morrerem, nós morremos — se livrou do uniforme de serviçal, revelando por baixo as roupas de mirim — Anda logo, ou nós vamos ser os próximos.
Aiko passou por cima de Umi, acompanhando Yukirama na investida. A terceira mirim não tinha o que fazer exceto ceder à influência de seus pares. O primeiro Kuro à vista foi atingido em cheiro pelas faíscas provocadas pela espada de Yukirama, pareado com uma faca. As brasas se apagaram rapidamente com a chuva, mas seus gritos atraíram os outros homens para os três mirins.
Na estrada, Uchida e seus Heishis viram as chamas.
— O que esses Akas fazem aqui general? — questionou Torigami.
— Espiões — grunhiu.
Os cavaleiros batiam com suas lanças contra os escudos altos dos Heishis, circundando a defesa circular dos homens de Uchida. O restante que se atraiu por Yukirama, se viram perseguindo os mirins entre as árvores.
— Não olhem para trás, um olhar deles e… — gritou Umi até perceber Yukirama desacelerando — Onde você pensa que vai?
Com outra faísca, Yukirama mirou nas pedras pelo caminho. O jato de fogo condensado em iro energizou o fulgur, que escureceu aquele trecho da floresta com uma pequena explosão. Jogadas no chão, Umi e Aiko se refugiaram em árvores, quando alguém puxou seus pés.
— Sem poder ocular, agora — disse Yukirama, fazendo sinal de silêncio — Vocês já sabem o que fazer.
Acenando positivamente com a cabeça, elas se espalharam pela pequena área obscurecida. Eram três homens da Guarda Pacificadora, guiados agora pelo som das passadas dos jovens e pelos raros relâmpagos no céu que pintavam a floresta de branco. Já os Aka, usavam a localização um do outro como guia, ligados pelo sangue.
Eles cercaram o primeiro. Umi cortou atrás de seu joelho. Yukirama entrelaçou o braço em seu pescoço. Aiko tentou empurrar a espada contra seu peito, mas suas mãos fortes disputaram com ela. Com o que sobrou de ar, ele gritou pelos seus comparsas.
Aiko foi jogada ao chão. Umi prensada contra uma árvore. Yukirama arremessado das costas do guarda. De repente, uma nova chama surgiu da estrada. Os mirins sentiram pelo seu elo sanguíneo a quem pertenciam às carruagens.
— Bem na hora — Umi sorriu em alívio.
Os Senshis invadiram o ponto cego da mata, embebidos da energia Shiro de um dos seus núcleos e em maior vantagem numérica. Uma flecha viajou no pescoço de cada um dos homens que se impunham sobre Umi e Aiko. Depois, uma espada atravessou o peito do que partia na direção de Yukirama.
Eles foram levados de volta para a estrada, onde os outros responsáveis pela emboscada jaziam mortos no chão. Os mirins foram logo recebidos pela reprovação de Takuma e Uchida.
— Estão presos — esbravejou Uchida — Todos vocês. Espionagem depois do acordo que fizemos? Há quanto tempo estão numa das carruagens? Quanto tempo violaram o toque de recolher?
— General, com todo respeito — Takuma tomou a palavra — temos a permissão de circular fora da cidade. Meus Senshis apenas anteciparam uma ameaça na estrada, que aconteceu de vocês estarem próximos. Apenas isto.
— E o que explica estas pestes? Elas não estavam com você.
— Estavam — encarou os mirins — Apenas se adiantaram. Vocês não viram qualquer testemunha capaz de identificá-los na cidade? Ou alguém aqui os reconhece?
— Não preciso — apontou para as calças de Umi e Aiko — Elas estão se vestindo como nossos serviçais. Posso levar toda a carga em um transporte, mesmo que atrase. Vocês, levem esse lixo de volta para Komukai.
— Sugiro que isto não seja justo, general. Eu posso disciplinar os meus…
— Eu espero encontrar você lá, comandante — olhou Takuma de cima para baixo — Porque você será responsabilizado por esta bagunça.
— Nós salvamos a vida dos seus homens — Takuma bateu o pé — Seu Imperador vai gostar de saber que está manchando a trégua tão lutada entre nossas nações?
— Vou dobrar a aposta — olhou para ele com desdém — e irei informá-lo sobre o imprevisto — sorria de canto.
Os mirins olhavam um para o outro e depois percebiam o general embarcando em sua carruagem. Seus homens já abasteceram ela com a carga caída das outras. Os demais Heishis amarram as mãos dos mirins e os levaram na direção contrária.
A chuva cessou quando retornaram à Komukai. Já era de manhã quando desembarcaram às portas de um edifício abandonado, todos algemados. A rua estava deserta, mas o trio foi empurrado para dentro antes que pudesse olhar mais em volta. Yukirama particularmente era guiado pelo pescoço particularmente por Torigami.
O primeiro corredor que cruzaram, as jaulas arrepiaram a espinha de Aiko, que logo se viu recuando das garras que brotavam das celas. Umi se colocou na frente dela, assim que um deles arranhou seu ombro com as unhas podres.
O destino dos três na verdade estava na virada de um corredor, descendo a escada para o subsolo. Um calabouço escuro iluminado por uma passagem de ar que dava para rua. O teto e as paredes davam sinais de infiltração, somado a um forte cheiro de mofo.
Uma cela foi aberta. Aiko prendeu a respiração. Os três foram jogados ali dentro. Suas amarras cortadas e substituídas por correntes presas na parede. O trio foi suspenso pelos guardas, apoiados contra a parede. Torigami entrou na cela.
— O que vocês querem? — provocou Umi.
— Eu sou Torigami Chisei, tenente às ordens do General Uchida — levou as mãos à cintura — sabe qual é a minha ordem hoje?
— Não é o que estavam pensando, nós só…
— E o que estávamos pensando, garotinha? — se aproximou de Aiko interrompendo — Eu nem disse nada e parece que a carapuça serviu.
— Não toca nela — Yukirama se debateu nas correntes.
— Que vocês estão errados nós já sabemos — Torigami recuou — por isso estão presos aqui. O general só quer um esclarecimento. Falem a verdade e estarão limpando o mijo do comandante de vocês até amanhã de manhã.
— Tá certo — indagou Umi — o que aconteceu é que fomos buscar as correspondências mais cedo, só que uma delas atrasou. Esperamos por mais tempo, nos perdemos do comandante, estávamos procurando um abrigo da tempestade. Aquela carruagem nos estábulos do lado de fora acabou sendo o lugar.
— Esse era o tal adiantamento que o comandante de vocês se referia? Vadiar na propriedade dos outros?.
— É-é que — gaguejou Aiko — de certa forma nos adiantamos, entendeu? Isso que ele quis dizer, foi só um desvio de rota bobo.
— Exato, temos medo das tempestades — completou a amiga — mas, acabou que estávamos no lugar certo na hora certa.
— Vocês tiveram muito trabalho para encontrar aquela carroça só por acaso — guiou o olhar dos mirins para os sapatos e calças das meninas, antes de abrir a cela para ir a um armário ao lado — o amigo de vocês está muito quieto para meu gosto.
De dentro do largo armário o Heishi tirava um ferro para atiçar chamas. A ponta estava achatada, enferrujada, porém reluzindo com a fina luz que vinha da saída no topo. Torigami admirava o instrumento, enquanto concluia:
— Preciso dar um incentivo? Acho que já tiveram tempo pra entender que isso não é brincadeira.
Apontou a vara para o mirim que permaneceu frio sem reagir.
— Acabamos de lutar ao lado de vocês. Que incentivo a gente teria de fazer algo que prejudicaria nossa parceria? Como vão explicar o que vão fazer com a gente? — Umi levantou a voz.
— Eu? — Torigami apontou para si mesmo com a haste de ferro — Foram os Kuro naquela invasão terrível. Eles bateram muito em vocês. Estava de noite, difícil enxergar. Tiveram sorte de estarem vivos. Se bem que, um pelo visto não vai retornar da batalha.
— Tudo bem — a voz de Yukirama reverberou — eu falo a verdade.
As meninas olharam para Yukirama. Torigami apenas ergueu a arma nas mãos e a apoiou em seu ombro.
— Nos meus dois bolsos da calça tem as provas — concluiu Yukirama.
Os guardas invadiram a cela. Enfiando as mãos nos bolsos, tudo que conseguiram tirar foram farelos. Com os dedos melados e o cheiro subindo, Torigami voltou a empunhar a arma, dizendo:
— Isso é mel?
— É. Tava tarde, nós ficamos com fome… Quando entramos eu vi, estamos há anos sem comer qualquer doce. Eu tinha que provar então convenci as duas a me acompanharem — respondeu Yukirama olhando fixamente para Torigami.
— Pensamos que era só entrar de fininho disfarçados — complementou Umi, acenando para Aiko — A gente não queria problema.
— Nos perdoem por favor — concluiu Aiko.
Os lábios de Torigami foram contorcidos por seu desgosto. Dentre os guardas de saída da cela, um deles parou para falar-lhe ao ouvido:
— Francamente, senhor, esses garotos são só pestinhas. Passar a noite aqui já deve ensinar uma lição.
O tenente chegou perto dos três. Aiko virava o rosto esperando o pior. Umi abaixou a cabeça e Yukirama olhava para ele fixamente. Com o bastão que pegou do armário, ele desceu uma tela suspensa sobre a saída de ar, escurecendo completamente a cela. E então se retirou.
— Ei, você disse que se a gente contasse a verdade ia liberar a gente — protestou Yukirama — Não pode nos deixar aqui.
Torigami seguiu sem sequer responder as súplicas dos jovens. Na medida em que os passos do interrogador sumiam aos ouvidos do trio, Umi soltou um suspiro de alívio.
— Aquilo foi ridículo — Yukirama sussurrou a si mesmo.
— Obrigada, Yuki — agradeceu Aiko — Você pensou tão rápido. Eu pensei que…
— Só estamos aqui por ideia sua — interrompeu Umi.
— Não tem de quê — respondeu Yukirama.
— Gente, como vamos dormir assim? — Aiko falava entre batidas do queixo com o frio — Quando vão soltar a gente?
— A qualquer momento. Eles claramente não podem fazer nada a mais que isso — disse Yukirama — Tentaram arrancar a história de nós, nos assustando.
— Claro, passar o dia todo acorrentada, presa nesse mofo sem comer ou dormir eram exatamente os meus planos para ficar nas montanhas. Sem falar o esporro que vamos levar quando voltarmos! — tentava se soltar Umi — Me fala, Yukirama, o que a gente conseguiu com tudo isso?
Uma nova tempestade estava se formando naquele dia. Já no entardecer, uma forte chuva castigou as montanhas, exceto pelo imponente palácio imperial. Apesar de ser a única coisa colorindo o céu além dos relâmpagos, seu principal residente se refugiava nas catacumbas. Satoru marchou sozinho para a única cela de seu interesse.
Já com o estalar e bater forte da porta de ferro, Aotaka sabia o que lhe aguardava. Desta vez não havia mais correntes em suas mãos. Apenas uma bola de ferro nas pernas. O antigo marquês estava sentado no chão, riscando as paredes com uma pedra.
— A incompetência me espanta — gritou Satoru — Não basta serem derrotados. Tinham que perder o deserto inteiro de uma só vez. E com as minhas armas!
— Sugiro gastar suas energias no que pode controlar, minha alteza.
— Suzaki estava lá — andava de um lado para o outro — Qualquer sucesso dele, é um insulto à minha família! Um deboche direto à minha pessoa.
— As vitórias são dos Kuro, não dele — balançava a cabeça negativamente — Capturar o príncipe renegado nunca foi minha especialidade. Para você ter vindo aqui, deve ter outras prioridades em mente.
— A única coisa mais importante que meu ele é o mestiço — levou a única mão à testa — Os Aka sabem de algo e não falam. Fingindo que estão me ajudando por caridade e não para compensar o que a pulsação fez conosco. Estão brincando comigo.
— Receio que precise entrar na brincadeira — jogava a pedra para cima — afinal, você ainda tem seus brinquedos.
— Há competição pelos meus brinquedos — voltava a sorrir — Uchida está se isolando nas montanhas, criando distrações para desviar minha atenção. Certamente, está planejando como vai tomar o garoto do gelo de mim.
— Um homem da sua estatura não deve se intimidar por insubordinação. Deixe que a ralé cuide de si mesma.
— Doku está articulando meios para vencer esta disputa. Quando tiver este brinquedo, querido antigo Marquês, só então vou entrar na brincadeira — deu uma gargalhada.
— Seu pai sabia como mediar esses conflitos, alteza — dizia Aotaka tentando se levantar — apertar as mãos primeiro e um aperto da forca depois.
— Foi bom conversar com você, para variar. Quando me sentir generoso, te ofereço um banho de Sol, no entanto — dizia se retirando — lave a sua boca para falar de meu pai!
Aotaka foi devolvido à solitude. Tudo que restou a ele foi desmanchar o sorriso que havia ensaiado e descontar a frustração nas roupas e depois na parede, arremessando contra ela uma pedra.
O elevador trouxe Satoru de volta ao pátio de entrada do palácio. Aguardando por ele, escorado na porta do salão interior, estava Doku. Nas suas mãos uma carta.
— Eu podia ter recebido atualizações dos mensageiros, como sempre.
— Sinto muito por isso, meu senhor — Doku se ajoelhou — As notícias recentes me fizeram considerar que devia ser melhor comunicar pessoalmente. Houve desdobramentos inesperados nas montanhas.
Lendo a correspondência ali mesmo, o conteúdo da carta abriu um sorriso largo na boca de Satoru.
— Os ataques nas montanhas aumentaram, senhor. Estão perto de Komukai — ficou de pé.
— Uchida e seu circo. Ele quer me distrair com problemas menores — ergueu o dedo indicador — mal sabe ele que não há um homem mais focado do que eu neste mundo.
— Quais são as ordens? — os dois caminhavam lado a lado.
— Se ele faz tanta questão de que nós mesmos tratemos a questão destes garotos do exército Aka, o que você acha de botá-los para bom uso? Da última vez que nos falamos, disse que o prodígio era uma causa perdida por conta do gelo, certo? — levou a mão ao queixo.
— Nem mesmo Uchida conseguiu chegar perto dele. Há mercenários Midori ainda dispostos a trabalhar pelo preço certo. Tem certeza que pedir algo desta magnitude aos Aka?
— Não vou pedir. Vou obrigá-los. Vá para Komukai e recolha estes tais "mirins" para nós. Se Uchida criou um inimigo, nós acabamos de ganhar um aliado.
Com uma sutil reverência, Doku virava para partir, quando Satoru o chamou uma última vez:
— Leve Kyoko com você.
— Ela vai recusar se souber do que se trata — avisou Doku.
— Se recusar, coloque em cheque a situação da irmãnzinha dela. Diga a ela que essa é a minha condição.
— Como quiser, senhor imperador — assentiu novamente, partindo.
Ilustradora: Joy (Instagram).
Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.
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