Nisōiro Brasileira

Autor(a): Pedro Caetano


Volume V – Arco 14

Capítulo 128: Mensagem

A lua brilhava apenas pela metade naquela noite, quando aluno e mestre desceram às portas de um casarão. Yanaho reconhecia o hospital que outrora abrigou Aiuchu, numa colina acima de um grande lago nos arredores de Kagutsuchi. Os dois foram recebidos por uma enfermeira. 

— Com licença — Onochi fez uma mesura — Viemos visitá-la. Ela está bem?

— Com o rapazinho, como sempre — a mulher riu, antes de perguntar — ele está com você? — apontou para Yanaho. 

— Está sim — respondeu Onochi, trazendo o mirim para perto — é o meu aluno. 

A mulher pediu para segui-la pela casa. Eles subiram as escadas do salão principal, atravessando uma série de quartos vazios. Até que chegaram a um quarto bem iluminado no segundo andar. 

Ele estava revestido por paredes bege. As cortinas estavam jogadas para o lado, deixando a luz do luar incidir sobre o berço vazio. A criança estava nas mãos de Aiuchu, andando de um lado para o outro na beirada da cama, cantarolando uma música. 

Outro doutor de vestes longas estava sentado na poltrona da parede oposta. O médico fazia anotações fervorosas, quando a enfermeira abriu a porta. Ele nem ao menos prestou atenção aos convidados até que Onochi o reconheceu. 

— Doutor Uka? O que faz aqui a essa hora? 

— Mestre Onochi — se curvou — Que surpresa agradável — correu para a porta — Por favor, não vamos atrapalhar a…

— Na verdade, era com ela que queríamos falar. Assim, não eu mas… — o Shiro apontava para Yanaho com a cabeça. 

— Trouxe um garoto para cá? Ele não… 

— Ele já sabe — interviu Onochi, tranquilizando Uka. 

— Eu sou… — indagou o mirim.

— Yanaho? Há quanto tempo — Aiuchu repousava Yusuke adormecido no berço.

Os dois homens mudaram sua complexão, encarando um ao outro com os olhos esbugalhados, até que os dois voltaram a olhar para o garoto:

— Não sabia que se conheciam. 

— É… — coçou a cabeça — é uma longa história. Eu preciso falar com Aiuchu. 

— Yanaho… Sem segredos entre nós, lembra? — cruzou os braços Onochi. 

— Está tudo bem, Onochi, tenho coisas a tratar com você em particular. O garoto pode se explicar depois — colocou a mão em seu ombro — se a paciente confia nele não tem com o que nos preocuparmos. Aliás, sou Uka, é um prazer — sorria para o jovem, que só assentiu.

Os dois se retiravam, no quarto restou os dois jovens onde Aiuchu sentou-se na beirada de um lado da cama. Yanaho espiou o berço, onde Yusuke adormecia.

— Cuidado para não acordá-lo — advertiu a mãe.

— Você já se parece com o que imagino de uma mãe mesmo. 

— As enfermeiras ajudaram. Na floresta eu mal conseguia cuidar de mim mesmo, muito menos de outra pessoa — colocou a mão na beirada do berço — espera, você disse que imagina? Não teve mãe? 

— Não vim aqui pra falarmos sobre mim — se virou para ela — Aiuchu eu… eu encontrei o…

— Então ele… — a garota arregalou os olhos ameaçando se levantar — não, isso não tem mais nada a ver comigo — se conteve abaixando a cabeça. 

— Não, você entendeu mal. É sobre o que você não sabe dele.

— Eu sei o bastante.

— Suzaki — Yanaho sentou ao lado dela — ajudou a matar muitas pessoas. Meu professor e meu amigo foram uma delas.

— Por que está me dizendo isso?

— O que Suzaki queria com você? O Suzaki que conheci era muito diferente do que vi. Queria saber, qual Suzaki você conheceu? 

— Acha que Suzaki estava fingindo? — Aiuchu se espantou, Yanaho abaixou a cabeça — Deixa eu te contar, quando nos encontramos eu era a pessoa levada. 

— Quer saber, você não entendeu nada do que eu falei — revirou os olhos. 

— Da primeira vez que o vi, eu fui atacada — Yanaho voltou a prestar atenção — O homem que apareceu estava à beira da morte. Eu queria matá-lo, como qualquer outro animal que me atrapalhasse naquela floresta. Ele decidiu ficar ao lado daquele homem, até o último suspiro dele.

Yanaho continuou encarando Aiuchu confuso. Ela terminou, enquanto balançava o berço:

— Mesmo assim, ele ficou. E voltou, continuou voltando. O que ele teria a ganhar fazendo isso?

— Eu pensei que você saberia. Desculpa, eu devia saber que você também era uma vítima dele, tanto quanto eu fui.

— Ele quebrou a promessa que fez, né? — perguntou Aiuchu. 

— Ele te contou?

— Um pouco. Suzaki nunca me prometeu nada, nunca quis se comprometer comigo. No final, a decepção foi só minha até que o Yusuke nasceu.

— Eu acho que…Odeio ele. Senti isso quando vi aquele olhar indiferente — cerrou os punhos — da próxima vez que encontrá-lo, não sei se vou me conter.

— É uma dor muito grande, querer, mas não poder — o bebê ameaçou a acordar, Aiuchu pegava ele no colo fazendo-o se acalmar.

— Depois de tudo o que ele fez, você também deve odiá-lo.

Os dois estavam na beirada da janela, a noite sem nuvens, com a lua crescente sob o céu, mas havia uma segunda luz. Yanaho coçou os olhos para ter certeza, mas era uma aura branca, saindo do corpo da mãe, que minguava na medida em que o filho em seus braços silenciava.

— Por que vou odiá-lo, se eu tenho meu filho para amar? — respondia Aiuchu, oferecendo a criança — Tenta.

Yanaho a segurou nos braços, porém ela voltou a chorar em poucos segundos. Sem pedir permissão, Aiuchu tomou seu filho de volta nos braços e o mirim não protestou. Onochi abriu a porta logo em seguida.

— É melhor eu ir — Yanaho deu as costas.

— Se precisar conversar pode vir nos ver — acenou para o rapaz e seu mestre na porta, sorrindo. 

O mirim devolvia o sorriso, encarando os olhos do bebê que o abria tranquilamente mostrando a cor roxa de suas pupilas.

Ainda em Kagutsuchi, dias depois do funeral, Tomio retornava à lápide seu companheiro de ensino. Na colina sobre o cemitério, Jin e Tsuneo vigiavam o professor deles.

— Ali é ele — apontou Tsuneo — Não queria abordar ele assim.

— Vamos logo! Daqui a pouco os Senshis vão dar falta da gente — Jin puxava Tsuneo pelo braço.

Eles driblaram as lápides, se esgueirando pelas costas de Tomio. Sentindo a aproximação, o professor sem se virar disse:

— Seu amigo foi culpa minha, Tsuneo. E Jin, como está o seu pai?

—  Ele tá vivo — respondeu Jin — É até sobre ele que eu queria falar.

— E por que trouxe Tsuneo com você? — perguntou Tomio ainda de costas.

— É que isso tem a ver com o Arata também — Tsuneo abaixou a cabeça — Com os dois. A morte dele não foi normal.

Tomio se virou para os dois mirins.

— Vocês são novos. É a primeira guerra de vocês, quem me dera fossem mais velhos para entender, mas é mais normal do que parece. 

— Não, senhor — Jin deu um passo à frente — Iori me pediu para transferir uma mensagem. Disse para não confiar nos Heishis.

— Antes do professor Arata subir o monte Nokyokai pela última vez — Tsuneo hesitou de falar por um instante — Eu contei a ele sobre uma conversa que ouvi dos Heishis com os mensageiros locais.

— Vocês sabem no que estão metendo? Tem ideia da gravidade desta acusação?

— Se a gente não agir, as coisas podem piorar! — gritou Tsuneo, apontando  — Aiko, Yukirama e Umi estão nas montanhas. Não podemos deixar mais alguém ir embora sem fazer nada.

— Estamos prestes a sermos invadidos pelo inimigo. Eu não vou perturbar o Supremo com achismos de mirins. Sinto muito.

— Professor Tomio, não pedimos que fale isso com o Supremo até termos certeza.  Por isso Iori nos deu um nome: Masaki.

Os olhos de Tomio saltaram da face.

— Eu entendo que não queira se comprometer com acusações tão vagas, professor — disse Tsuneo — Esse também não é o melhor momento. Eu tentei avisar Arata sobre isso, mas parece que ele já suspeitava de algo. Não pode ter sido coincidência que dentre tantos que voltaram com vida daquela montanha ele tenha ficado.

— Se você não quiser se envolver, pode deixar conosco — completou Jin — Umi ainda está lá, e temos que ajudá-los mesmo que longe. Então me diga: Onde está Masaki?

Tomio olhou de relance para trás, depois para frente, como se procurasse alguém espionando.

— É impossível um mundo onde vocês continuem com essa investigação clandestina sem mim.

Os dois mirins abriram um sorriso discreto.

— Masaki ainda está no deserto, supervisionando a proteção da capital com os outros. Quando ele voltar, irei adicioná-los — virou-se de costa — por enquanto é isso. 

— Quem é esse tal de Masaki afinal? Por que ele ficaria no deserto? — cruzou os braços Tsuneo.

— Ele é um Senshi Principal e vocês estão dispensados. 

Os dois arregalaram os olhos com a notícia, batendo continência e agradecendo o professor, os alunos o deixaram sozinho no túmulo. Deixado à sós novamente com seu antigo parceiro, Tomio não pode se conter de rir diante da lápide:

— Pelo visto você me deu uma nova oportunidade de cumprir com a minha parte da promessa, Arata. Talvez eu chegue aí mais cedo do que pensava.

A mansão do Supremo, no coração de Kagutsuchi, é mais do que a casa de Ryoma. Todos os dias pessoas entram e saem de lá com tarefas a delegar e fazer, entre elas entregas de correspondências. Os Senshis corriam para entregar correspondências que chegaram dos pombos correio, como também entregavam pilhas de arquivos e rolos em selo pessoalmente para cocheiros partirem dali com urgência.

Aqueles que desejam enviar uma carta aguardam em uma fila, com seus envelopes fechados e o selo correspondente ao seu destino. No final dela, uma urna, guardada por Titulares que revistam cada um dos envelopes antes de guardá-lo dentro dela. Masori esperava no extremo oposto, segurando um envelope com selo azul. Ela estava acompanhada por um casal, diante de uma pequena multidão fazendo fila pelo longo corredor.

— Vamos sentir sua falta, filha — disse a mulher — Só queria que tivéssemos um lugar melhor para nos despedir.

— É o último dia para mandarmos correspondência, e preciso enviar uma mensagem a um amigo cabeça dura — mostrou o envelope — Preciso avisá-lo que isso vai custar a vida dele se ele continuar assim.

— Minha menininha atrás de um garoto tão cedo? — o homem levantou a voz — Eu bem que gostaria de escrever algumas coisas para esse moleque.

— Não é nada disso! — Masori ficou com as bochechas rosadas — Depois do que vi no deserto, pra mim tudo pode acontecer a qualquer momento. Melhor aproveitar a chance que eu tenho de intervir, antes que seja tarde. 

— E você acha que ele faria o mesmo por você? — o pai cruzou os braços.

— Yukirama é meio na dele — olhou para a carta nas mãos depois direto nos olhos do pai — Mas sei que ele se preocupa, ele faria até mais que isso caso eu estivesse em perigo. 

— Nada vai acontecer com você, querida — a mãe acariciou o seu rosto — Estamos sempre com você. 

Masori abraçou os pais por um momento antes deles deixarem o lugar. Quando voltou para a fila, um companheiro se somou à longa linha de remetentes atrás dela.

— Você também? — disse Usagi, exibindo sua carta com um selo azul.

— A Aiko vai gostar de saber que você lembrou dela.

— Estou fazendo isso não por mim, mas pra que ela se lembre que também tem pessoas esperando por ela. Ela tem problemas com a família, praticamente foi abandonada. 

— Eu não sabia disso — inclinou a cabeça para ler o nome no envelope — então por isso ela sempre evita falar disso. 

— Mas e você? — Usagi perguntou — Yukirama, certo? 

— Nem sei se isso aqui vai chegar até ele — olhou para a longa fila desanimada — E se chegar, acho que ele não vai gostar, sabendo o que eu vou falar para ele.

— Depois dos últimos dias, o óbvio pode valer a pena. Se Aiko ficou é porque quer ajudar. Isso nunca acontece, por isso uma palavra de apoio é importante.

— E qual apoio seria esse?

— De que eu vou estar esperando por ela — Masori saíu da fila — Ei, para onde você vai?

Sem sair da fila, Usagi acompanhou Masori com os olhos. Ela se aproximou de uma balcão próximo, rompeu o selo, abriu o envelope e pediu uma pena emprestada para um dos escrivães que ali trabalhavam. Após depositarem se cartas, naquele mesmo fim de noite a urna foi levada em uma grande carruagem.

Um trio de comerciantes recebeu uma bela quantia de ouro das mãos do Titular encarregado antes de iniciar sua viagem. Galopando para longe do Reino Aka, contornando Oásis pelo norte e cruzando estradas nos Midori com destino certo: as montanhas.

O toldo protegia a carga das chuvas, mas não eles. Dias a fio, no máximo uma pousada para passar a noite, até que enfim chegaram ao seu destino. Um posto de correspondência, numa pequena cidade nas montanhas. Kumokai, arredores de Nokyokai, perto do fim do mundo, se perguntarem a eles. Os Senshis esperavam por eles. 

Abrindo a urna eles chamaram cada um pelo nome. Um deles, um jovem rapaz. Estava surpreso ao ouvir seu nome. Ele rompeu o selo e pôs-se a ler.

“Caro Yukirama,

Retornei do deserto com o restante das tropas Senshis faz algumas semanas agora. Não vou mentir, foi frustrante descobrir que você ficou por aí, em Nokyokai. Apesar disso, você não foi a maior tristeza desta vez. Quero que você saiba que, enquanto está aí, bancando o durão, se isolando da gente, nem todos nós voltamos do deserto. Katsuo e Etsuko morreram sem nem termos o que enterrar deles. A nossa derrota foi grande o suficiente para os Kuro terem todo o controle do deserto agora. 

Fiquei sabendo que nas montanhas não foi muito diferente. Soube do professor Arata também. Eu acho que de algum jeito, mesmo tão longe, você deve entender pelo que a gente tá passando. E eu espero que dessa forma, também entenda o quão egoísta você foi ao ter ficado aí. Por que está fugindo da gente? O que está querendo provar? Eu já te desculpei pelo exame final, o que mais preciso fazer? Já sei o que você vai dizer: “Isso não tem nada a ver com você, Masori”. Continua falando isso para si mesmo, porque quando você voltar para cá num caixão, aí sim vai ser problema meu.

Olha, me desculpa. Eu precisava dizer. O que quer que você sinta que precisa fazer aí, faz logo. Depois que nossos amigos se foram, todos estamos inseguros. Então, só volta para cá vivo, Yuki, por favor.

Sua amiga,

Masori”

O papel aberto nas mãos de Yukirama, junto com o envelope rasgado e o abridor de cartas tudo entre os dedos, isolava o som ao redor do rapaz. O transe do pequeno mirim, porém, foi cortado assim que a voz do comandante Senshi cresceu. 

— Oh recruta. Vai me fazer esperar o dia todo? 

Ele parou um instante para lembrar onde estava. O posto tinha dois andares, com um pombal no terraço para os Heishis.

O acampamento estava perto, nos arredores da cidade. Os Heishis desciam do terraço mais apressados que o normal. Suas botas pisoteando os degraus e reverberando pelo lugar eram o único som entre os Senshis até que Yukirama quebrou o gelo.

— Comandante Takuma, perdemos o deserto.

Os Senshis confrontaram Yukirama com o olhar. Umi e Aiko chegaram por trás dele. O garoto virava reparando em suas companheiras, como uma delas com outro envelope na mão. 

— O deserto? Então nós… — ameaçou Umi. 

— Entrem nas carruagens de bico fechado. Isso não diz respeito a vocês, e mesmo se fosse, aqui não é lugar para discutir estratégia, você sabe disso.

— Desculpa, senhor.

Quando entraram em um dos carros, Yukirama espiou a entrada do posto pela fresta das cortinas do transporte. Umi olhava por cima do seu ombro, Aiko se escorou no canto oposto do transporte, com um papel numa mão e um envelope rasgado na outra. 

Entre a torrente de Heishis pegando seus cavalos, Umi reconheceu um homem largo, túnica azul cobalto, chapéu combinando e uma camisa branca por baixo.

— É ele! — ela deu um sobressalto.

— Quem era aquele? — sussurrou, gesticulando para fazerem o mesmo.

— Eu não sei o nome. Mas ele tava lá nas montanhas. 

— Eu falei que a gente devia ter vindo — respondeu Yukirama — Dia da correspondência era a chance de encontrar algo. Acha que ele sabe de alguma coisa?

— Tsuneo tava de olho nele — se jogou no estofo da carruagem — Foi embora um dia antes de tudo acontecer. Ele deve ficar na cidade por alguns dias.

— Não temos alguns dias — Yukirama cerrou os punhos — Você sabe disso.

— Eu não quero ter essa conversa agora. Me deixa pensar.

— Aiko? — chamou Yukirama. 

A garota estava calada, virada de canto lendo sua carta. Os grunhidos surgiram, lágrimas desciam do seu rosto. 

— O que houve, amiga? 

— Katsuo e Etsuko… eles morreram? — chorava encarando Yukirama. 

— Parece que sim. 

— Você sabia? O que dizia sua carta?! Por que não nos contou?! — afrontou Umi. 

— Estamos longe de lá — respondeu Yukirama — não sabemos o que está havendo. O que eu sei é que precisamos agir logo. 

— Essa é a pior hora para bancar o insensível — Umi trazia Aiko para perto. 

— Deixa, ele tá certo — Aiko limpava as lágrimas, afastando Umi — estamos em missão. Eu… preciso ser forte.

Umi respeitou o gesto da companheira. Enquanto partiam, os mirins assistiram os guardas da cidade convergirem para um grande prédio, destacado dentre os outros pelas diversas lâmpadas e alta vigilância.

Eles saíram da cidade, cruzando a ponte para uma pequena base militar na beirada do precipício. Dessa vez, a maioria da propriedade era ocupada por Senshis, mesmo em pequeno número. As carruagens estacionaram nos estábulos aos fundos, onde todos desembarcaram.

O novo comandante das tropas logo foi recebido pelos Heishis. Isso não passou despercebido de Yukirama, com um olho na bagagem que trazia consigo e outro na conversa, até cruzar os olhares com Takuma.

Quando se recolheram para um quarto nos estábulos, onde usavam esteiras e palha para fazer de cama, seu comandante apareceu na entrada. A noite permitia que eles enxergassem apenas sua silhueta na entrada:

— Ei, vocês três. 

— Comandante? — Aiko se espantou. 

— Preciso que mantenham o foco, independente do que leram em suas cartas — Takuma entrou nos estábulos no meio deles — a situação lá pode pedir urgência, mas a nossa pede paciência. Não quero episódios de desconfiança se repetindo — se virou para Yukirama. 

— Essa não era minha intenção, senhor. Só gostaria de saber os próximos passos — inclinou a cabeça. 

— Quando eu quiser te falar eu virei até você. Espero que tenha entendido, recruta — entregou papéis a cada um deles, antes de se retirar — não são os únicos que perderam amigos, então não devem ser os únicos a desanimarem!

Umi leu os papéis. Tarefas do dia seguinte. Os mirins suspiraram em perfeita sincronia.

— Esse cara é um saco mesmo — Umi deixou o papel de lado. 

— Antes você não gostava do comandante porque era seu pai — brincou Aiko, colocando suas mãos para o lado de fora da cabana — qual o motivo agora? 

— Era bem diferente, mas no fundo os adultos são todos iguais. Falando nisso, eu fico me perguntando… Se o professor Tomio estava lá com eles, como que aqueles dois não… 

— Chega desse papo — cortou Yukirama se levantando. 

Umi observava Aiko tirando suas mãos molhadas, conseguindo manter o líquido sem escorrer das mãos, como se a água estivesse colada em sua pele. Uma leve trovoada perturbou a concentração da garota que suspirou fundo lamentando. Ao notar a garota a observando, Aiko chacoalhou a água de sua mão. 

— Está ficando boa nisso. 

— A umidade do ambiente tem ajudado. 

— Ela pode nos ajudar em outra coisa também — disse Yukirama colocando suas vestes e botas.

— O que pensa que está fazendo?! — afrontou Umi. 

— Pensei em aproveitarmos da chuva e do toque de recolher para investigarmos a cidade nós mesmos — apertava seu cinto — Essa é a nossa primeira chance e não gosto de ficar neste lugar imundo sem fazer nada. 

— Yukirama, você acabou de levar uma chamada do comandante — se colocou à frente dele — se toca! Se formos pegos, morrer nem será o pior dos casos. Imagina se isso prejudica a aliança entre Aka e os Ao?

— Não há aliança, é justamente você quem desconfiou deles primeiro — colocou uma espada na bainha — Esquece o Takuma. Ele é um substituto, não um comandante. Não pode fazer nada que os azuis não queiram. Afinal, não foi você quem disse que os adultos são iguais?

— Ora seu… — rangeu os dentes. 

— Umi, ele tem razão — mostrou as mãos trêmulas — eu fico assim só de pensar em sair nessa tempestade, mas já faz algumas semanas da batalha e não achamos nada. Vai deixar passar a chance logo agora que viu aquele cara de Nokyokai? — insistiu Aiko — temos que arriscar. 

— Já que quer ficar, boa sorte explicando pro Takuma para onde a gente foi — se virou de frente para a porta — depois que terminar seus afazeres, aproveita e pode ficar com a minha lista e da Aiko.

— Ai, vamos logo! — cedeu Umi. 


Ilustradora: Joy (Instagram).

Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.

 

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