Volume IV – Arco 13
Capítulo 123: Rei Solitário
No portão norte, a queda da torre central levantou uma nuvem de poeira, cujo vento do deserto soprou até as unidades médicas afastadas ali. Os mirins, que trabalhavam incessantemente na recuperação dos feridos de batalhas anteriores, fecharam as tendas. A guerra que se passava na cidade, era acessada somente por seus ouvidos e imaginação.
Masori deixou seu paciente sedado na cama para abrir levemente a entrada da sua cabana e espiar, enquanto Emi sentava à beira de um leito de um Senshi ferido com as mãos na cabeça.
— A gente vai morrer, depois de Katsuo e Etsuko… somos os próximos.
— Se os inimigos estão vindo não temos muito tempo — chutou o solo, Nakama — estamos ferrados.
— Fico pensando, porque não despacham a gente logo? — perguntou Effei.
— Porque os Senshis que recuperamos estão servindo de reforços. E outra, já viu quantas carruagens sobraram? A preferência era evacuar os civis. Estamos presos aqui.
Quando a poeira passou, Masori abriu a tenda para vagar pela base. Os outros mirins fizeram o mesmo. Do lado de fora encontraram Tomio na frente de outros Senshis, a maior parte coberto por faixas e curativos. Estavam todos vestidos com suas armaduras e portando suas espadas.
— Esse é o nosso trabalho — Usagi parou ao lado de Masori.
— Pois é — Kento se aproximava, arrancando as luvas sujas — A gente salva eles, só para morrerem de novo.
No momento que os Mirins se aproximaram, Tomio despistou para longe sem nem ao menos cumprimentar seus alunos que estranharam a atitude do professor.
No fronte oeste, Junichi se via pressionado pelas forças Aka e Kishi de um lado, enquanto os Midori vinham do outro. A Guarda Pacificadora focava em atacar os portões. Já os Kishis possuídos criavam barreiras para isolar os verdes e desviar a caravana até o exército inimigo. De uma delas brotaram raízes profundas que despedaçaram a muralha arenosa.
Os caules se enrolaram nos Kishis, impossibilitando o movimento deles. Os Midori abriam espaço, coordenados pelo homem que trazia consigo um saco de sementes, dando ordens sobre as dunas.
— Precisamos abrir caminho até o portão! Evitem os Kuro, concentrem-se nos outros.
— Dai — chamou Noriaki — a cavalaria está pronta. Com a queda da barreira, temos um caminho reto para levá-los para trás das nossas linhas.
— Mandem todos. Eu vou dar cobertura.
Saltando por cima da infantaria, os soldados com braçadeiras verdes galoparam em direção à caravana debaixo de flechas e ondas de areia. No meio deles, um garoto estalava as rédeas com uma mão enquanto retirava de uma bolsa amarrada um punhado de sementes para jogar no caminho.
— É melhor saber o que você tá fazendo, Dai — gritou Mitensai.
Em poucos segundos, uma árvore frondosa brotou do chão árido, obstruindo os tiros que desciam sobre eles. As raízes fincaram também rente a superfície suportando o impacto das areias comandadas pelos Kishis possuídos. Embora tenham protegido a pequena viagem, a geração do pequeno bosque durou pouco. A cavalaria se uniu à caravana debaixo de um ataque intenso.
Uma onda derrubou Mitensai do cavalo. Quando um Kishi se aproximou, um rapaz saltou na frente acertando o possuído com seu escudo.
— Raito — Mitensai segurava na mão dele para se levantar — você veio?
— Eu devia te fazer a mesma pergunta. Você nunca foi de lutar.
— Posso ajudar de outras formas — limpava suas vestes.
— Numa guerra? — balançou a cabeça negativamente — Você não existe.
— Espera — apontou para um portal verde surgindo — aquilo é…
O garoto de olhos verdes claros observava Imichi e Seth no topo da torre à direita. Entre portais abertos, tentáculos brotando de todos os lados, os lutadores começaram a luta em uma ponta e já haviam cruzado metade da passagem.
Um portal abria-se nas costas de Imichi, trazendo um tentáculo, que falhou em envolvê-lo. Depois a fenda se moveu para se unir a outra que estava entre o feiticeiro e o Shiro veloz. Imichi porém não esperou para ver o que sairia do portal sobreposto, atravessando como se nem estivesse lá. Do outro lado, Seth veio com golpe de seu tentáculo. A faca de um colidiu com o membro artificial do outro.
— Vejo que é incapaz de manter sua forma intangível por muito tempo — provocou Seth.
— Talvez, sim. Talvez, não. Nem eu mesmo sei os limites que posso atingir. Considere isso uma medida de segurança.
— Então temos algo em comum — sorria Seth — Você ainda desconhece a extensão de minhas habilidades. Permita-me fornecer um prólogo.
Os demais tentáculos recuperaram espadas abandonadas por homens caídos, as agrupando em uma massa amorfa de metal. Um portal se abriu primeiro aos pés de Imichi, que se apoiou no tentáculo com o qual disputava força para não cair. Contudo, o braço de energia aproveitou para arremessá-lo para longe, enquanto o feiticeiro Midori fazia daquela pepita de aço uma espada longuíssima, transmutada com suas próprias mãos.
— Agora… Onde estávamos?
Seth balançou seu espadão contra Imichi, que desviou para o lado. Um portal engoliu a ponta da arma, criando uma estocada lateral da qual o Shiro se viu obrigado a agachar. Depois um par de tentáculos vieram na direção de seus pés, como uma rasteira prestes a derrubá-lo. Vibrando a uma velocidade que seu corpo já não era mais físico, Imichi saltou sobre os obstáculos que o envolviam.
Recobrando a forma, ele viu Seth recuar sua espada para então fincá-la num portal aberto no chão. A saída daquela fenda estava acima da cabeça do Shiro, que precisou cruzar o portal novamente na sua forma incorpórea. Quando saiu do outro lado, estava ao lado de Seth. Ao recuperar sua forma física, ele bateu sua faca com a espada do súdito do caos.
— Quantos Midori vai deixar morrer antes de perceber que isto foi uma má ideia?
— O povo que você abandonou veio contribuir para o conflito salvando vidas. Eles serão protegidos de você, por mim, e dos Kuro, pela aliança. Agora a pergunta é: Quantos seu pequeno grupo acha que aguenta de uma vez só, quando todo seu exército sucumbir?
— Quanta prepotência…
Durante o embate dos dois, eles repararam em sementes sendo jogadas entre os tijolos, vindo debaixo. As germinaram em instantes, criando uma árvore cerejeira que envolveu metade da muralha e a torre onde Seth se refugiou. Alguns tijolos se moveram, mas a estrutura permaneceu intacta.
— Mais cuidado, Dai — Imichi recebeu o rapaz terminando de escalar a torre — Já chega nossos inimigos querendo destruir a muralha.
— Guarda a conversa de mestre pro Mitensai. Eu e você, temos uma dívida. Se bem que, este aí — apontou para Seth — eu enfrento de graça.
Seth estava apoiado nas paredes da torre graças aos seus tentáculos. Quando viu a dupla avançando contra ele, reparou nas raízes que cresciam. Com um dos tentáculos, o Midori mais velho entrou numas janelas, se esgueirando fugindo do alcance dos galhos e raízes que tentavam capturá-lo.
Sem saída pelo andar de cima do prédio, Seth se lançava do alto em queda livre, sumindo da vista dos oponentes em um piscar de olhos. Usando um portal no chão de onde seria seu impacto, como um trampolim para as costas de Dai. O choque entre os dois serem arremessados, até baterem com suas costas contra a parede.
— Acha que esqueci de sua presença na final? — usou um par de tentáculos, apontando a espada — estou a sua espreita, chefão.
A arma sumiu do tentáculo de Seth após um sopro passar por eles, repousando sob a mão do Shiro. Dai aproveitou a abertura chutando o súdito que ainda no ar foi surpreendido com Imichi em sua direção pronto para estocá-lo:
— Esqueceu de mim?
Seth estava prestes a ser atingido, quando de forma inusitada seus tentáculos se transformaram em asas. Desviando pelo alto, ele aproveitou do pouso forçado de Imichi, para espremer e carregar energia sob sua mão que irradiava da luz verde. Soprando entre as palmas um vórtice de vento que levou desequilibrou Imichi no chão.
Porém troncos surgiram ao redor do Shiro provenientes das sementes de Dai que o protegia, se aproximando logo depois que Seth recuou:
— Isso foi um Kazedamu?— Dai perguntou.
— Não, ele criou isso espontaneamente, e usou vento para eu não ter como escapar com minha velocidade — se levantava — A feitiçaria não obedece às regras do iro, por isso não tem muitos limites. Agora entendi o que ele quis dizer.
— Isso explica as asas, mas não como esse cara pode fazer isso sem custo algum?! — dizia engolindo seco.
Dai engoliu seco, mas Imichi soltou uma risada, continuando:
— Ei, relaxa. Eu não disse que vamos perder.
Do alto Seth olhou via o cenário, os números dos Kuro diminuíram muito em pouco tempo. Por alguns segundos analisou as perdas e a guarda pacificadora, antes de pousar próximo do general.
— Aí está você, bruxo — se apressou — vamos embora agora!
— Tem certeza disso? — se livrou de suas asas.
— Não questione, só me leve até o Alfa, imediatamente! — brigou Junichi.
Após a ordem de retirada, os Kuro seguiram o caminho contrário em direção a muralha principal, enquanto Seth e Junichi atravessavam um portal. Dai e Imichi correram a muralha de ponta a ponta, mas Seth não estava mais entre eles. Olhando pelas ameias, ele viu a Guarda Pacificadora retornando ao sul.
— Imichi — apontou para baixo — Eles estão recuando. Ele fugiu, de novo.
— Não — Imichi desacelerou, se virando para a cidade atrás deles — Estão reagrupando.
— Você disse que o alvo principal era a torre da cidade — Dai reparava em sons de batalha no meio da cidade — eu posso ir com você.
— Não, fique aqui com os seus. Deixa para fazer turismo em Oásis quando ela não estiver numa guerra — deu uma piscadela antes de correr.
Deixado a sós com o restante dos arqueiros nas ameias, Dai deu uma olhada na cidade. Os urros de vitória nas ruas indicavam uma recuada inimiga pelos portais. Virando para o lado externo, a caravana já havia cruzado a primeira linha de defesa Midori. Ele suspirou aliviado.
Na muralha sul, a batalha continua. O aríete da Guarda Pacificadora já dobrou o portão principal. Mais um golpe, e a aliança será envolvida dos dois lados do fronte. Naquela altura, os Kishis jogam tudo que podem no exército rival. Areia quente, óleo, o que sobrou das flechas até finalmente recorrerem ao ataque físico, descendo da muralha.
Em meio ao pandemônio, Mayuri, que começou sua batalha com o grupo especial composto por Senshis Principais e Riki na entrada do portão, se viu progressivamente afastada do centro da batalha pelos ataques adversários.
A próxima saraivada de flechas de minamoto foi atirada para o céu. Os projéteis explodiram acima da súdita, fazendo chover pequenos objetos pontiagudos de metal sobre seu campo atrator. Chiyome corria por baixo até ficar alinhada com o alvo. Foi então que flexionou os joelhos e deu um salto, com altura o bastante para alcançar Mayuri com sua espada.
— Como você… — desviava no meio do ar — Chega disso!
Ela expandiu seu campo para afastar todos ao redor, porém a Principal acertou um dos objetos de metal com sua espada, criando uma fagulha. Uma cadeia de faíscas estourou pelo caminho, sendo absorvida por Mayuri. Prestes a soltar a energia que acumulou, descendo sobre eles, Riki tomou a frente de Chiyome, recebendo o impacto todo para si.
— Por que não usam outra coisa sem ser fogo? — protestou Riki.
— Porque se ela revidar, temos você — explicou Chiyome apontando para frente — E será nesta janela que temos uma chance.
Mayuri recuperava seu fôlego, quando Minamoto se aproximou dela, empunhando seu arco. Os dois bateram armas, quando o atirador colocou uma mão em cada ponta. Estalando para fora por meio de um gatilho, o arco se dividiu em duas lâminas menores.
Com a primeira, o Principal defendeu o golpe de sua inimiga. Já com a segunda ele mirou na barriga para um corte, mas seu braço foi afastado por centímetros.
— Boa tentativa, mas eu não perdi o meu campo — Mayuri revidou com um golpe de espada — só reduzi por um tempo.
Junto com seu ataque, o campo foi expandido, lançando Minamoto no ar. Esperando por ele estava um paredão de areia que amorteceu o impacto. O edifício foi desfeito revelando Tsuruta abaixo dele.
— Oda disse que vocês dariam conta do recado — disse Takeda.
— Ele também disse para sair do posto só quando a situação estivesse sob controle — Minamoto ficou de pé.
— Eu sei — apontou para trás, com o aríete ardendo em chamas — Mas tive um tempinho de sobra depois que os reforços chegaram.
— Reforços?
Correndo na frente deles, Kotaru levantou sua lâmina cromada para o Sol, criando uma miríade de lâminas. Ao se tornarem sólidas, o campo de Mayuri as afastou, mas o cavaleiro pessoal de Yasukasa continuou circundando a área desferindo seus ataques contra a defesa intransponível.
Riki se desvencilhou de Chiyome para se unir ao cavaleiro perdido. Enquanto os dois mantinham Mayuri ocupada, Chiyome se reunia com os reforços.
— Temos que mudar nossos planos — olhou para Mayuri, percebendo os raios solares convergindo para ela em círculos ao redor do campo — Tsuruta, consegue cercá-la com a areia?
— Não vai durar muito sem ajuda de outros Kishis. Três minutos?
— Vamos precisar de cinco. Minamoto, fica perto dele. Takeda, fique sempre oposto a Minamoto, vamos atacá-la dos dois lados. Eu só preciso testar uma coisa — percebeu Nagajiyu, com um aspecto deteriorado — E você…
De repente, Kotaru foi lançado de volta a eles, acertando Takeda. Mayuri se atirou no meio dos Senshis, usando seu campo para afastá-los para enfim agarrar Nagajiyu.
— Um fracasso não foi o bastante pra você? — pegava ele pelo pescoço — Lembro bem de quando você e seu irmão se apresentaram diante de nós… é uma pena, com ele você parecia ter potencial, mas agora é completamente inútil! — dizia deixando Nagajiyu roxo de tão sufocado.
Um jato concentrado de chamas acertou o campo atrator, empurrando a súdita de cima do gêmeo. Tsuruta criou uma pequena balsa com areia de deserto, e surfou pelas dunas ao redor de Mayuri, erguendo paredes com uma altura média. Enquanto cercava a área, Minamoto estava ao seu lado acima do muro, com Takeda correndo para o lado oposto.
Ficando de pé, Kotaru correu para pular o muro até que Chiyome o chamou. Virando de costas, ele se segurou antes de ir para a batalha.
— O que quer de mim, Senshi?
— Riki me contou que ela absorve ataques. Pode absorver a energia do Sol também?
— Pelo o que ele me disse ela pode absorver qualquer coisa, mas dependendo do que for, será nocivo para ela.
— Eu pensei em uma abordagem mais de fora para dentro — posicionou a espada contra a luz do sol.
A luminosidade, mesmo que a Principal posicionasse a lâmina por outros ângulos, sempre convergia para o corpo flutuante de Mayuri, atraída pelo campo cujo centro era a própria súdita.
— Se ela absorve a luz e você consegue torná-la sólida…
— A partir do momento que meus construtos se tornam sólidos, eles sofrem efeito do campo como qualquer outro objeto no meio do caminho.
— Se ela não ver a luz sólida chegando, talvez não tenha tempo de absorver antes de ser atingida — os dois trocaram olhares.
Kotaru ficou pensativo, depois assentiu. Enquanto isso, Takeda atirou contra o campo de Mayuri, demandando a atenção da súdita. Aproveitando a oportunidade, o cavaleiro ficou contra o Sol e apontou sua espada. A luz refletida viajou para o abdômen da súdita até que na ponta do feixe se solidificou dentro do seu corpo.
Com um gemido silencioso, ela caiu do ar, com um tiro flamejante em sua direção. Todos convergiram para o local de queda de Mayuri. Kotaru procurou por Chiyome para agradecê-la com um breve aceno, porém a súdita se colocava de pé com sangue em sua boca, devolvendo o fogo que havia sido atirado por Takeda.
Além de um bloco de barro que acertou o cercado de areia feito por Tsuruta, vindo do lado de Mayuri. Kishis possuídos a cercaram com seus olhos negros.
— O que tá rolando, Alfa? Qual é da demora? — Mayuri se erguia, tossindo sangue e com a mão na cabeça.
Os Kishis possuídos permaneceram em silêncio, quando um portal verde surgiu detrás de Gama:
— Basta. Esta luta está encerrada.
— Beta, do que ele está falando?
— Mudanças. Vamos encontrar Alfa pessoalmente.
Com as mãos trêmulas, Mayuri olhou para seus oponentes uma última vez, antes de dar um passo para trás para dentro do portal.
Sobre o que restou da torre central e acima do conflito nas ruas entre a Guarda Pacificadora e os Senshis, Nobura e seus dois súditos se viram cercados pelos Senshis Principais, que acabaram de ter Ryoma adicionado às suas forças.
— Eles ainda vivem? — perguntou o príncipe renegado, segurando Nubi que desfalecia em seus braços — O que está havendo?
— Ela está chegando em seu limite — respondeu Nobura — Logo não será mais útil para nós nesta batalha.
Nubi afastou Suzaki, cuspindo sangue nas telhas.
— Vamos ficar só aqui? Assistindo eles acabarem com a gente? — insistiu Suzaki.
Nobura respondeu Zeta, desatando as correntes que prendiam o par de lâminas. Prendendo o cabo na cintura, sua nova arma era uma longa corrente amarrada no antebraço com as duas metades da foice em cada ponta.
Quando as correntes se soltaram, o Supremo apertando a bainha de sua espada. Suzaki tomou a iniciativa de saltar na frente do grupo. Seu campo magnético extinguiu parte das chamas vindas do saque de Ryoma, concedendo Nobura a chance de saltar para outro prédio com Nubi.
— Saiam!
Enquanto corriam, uma sombra se projetou em Nubi. Descendo sobre ela, um sujeito com um martelo gigante. Ela reuniu forças para agir, mas sua aura não brotava do corpo. Foi então que o Senshi se desequilibrou no ar, errando o alvo, mas acertando o chão. As rachaduras correram pelo chão, embora sem atrapalhar a fuga da dupla.
— Eu errei? — percebia Masaki tentando levantar seu martelo — mas o que…
Sua arma ganhou vida, puxando-o através da parte metálica para dentro de um prédio. Nobura entrou logo depois, usando suas correntes para imobilizá-lo, erguê-lo do chão e bater seu corpo contra as paredes.
Chegando até eles, Suzaki colocou Nubi nos ombros.
— Então… foi você? — ela perguntou.
— Eles estão vindo — Suzaki ergueu a vista.
Saindo de dentro do prédio, o mascarado era seguido por um líquido espesso e alaranjado que brotava das profundezas da terra, se colocando entre ele o Principal que havia acuado.
Rapidamente a substância esfriou, endurecendo ao ponto de fechar a parede, inclusive prendendo as correntes de Nobura, que precisou forçá-las de volta para si. Surgindo dos telhados do prédio com a aura reluzente, Oda acenou para Tomoe e Date, que vinham de esquinas opostas até os inimigos:
— Não é só vocês que tem suas especialidades.
De repente, saindo das costas de Oda, outro rapaz saltou sobre eles descendo o pé, cuja sandália tinha uma espada presa na sola. Nobura girou suas correntes, mantendo os dois inimigos laterais à distância, ao mesmo tempo que desviava para o lado do ataque descendente. Aterrissando, o Senshi fatiou a parede de lava com facilidade, dando espaço para Masaki se unir ao grupo para atacar.
Vendo-se rodeado pelos Senshis, Suzaki escolheu o de tapa-olho para atacar, ao passo que as correntes de Nobura agarraram os pés de Tomoe. Ele a ergueu do chão, atraindo aquele com a espada na sandália a socorrê-la. Masaki partiu para atacá-lo de frente, mas o mascarado puxou sua segunda lâmina para as mãos e bateu de frente.
A resistência de Suzaki para com Date, porém durou pouco. O Senshi de tapa olho saltou entre as paredes do beco, ricocheteando em alta velocidade para escapar do príncipe renegado como se ele nem estivesse ali. O alvo era mascardo, de costas e indefeso. Ele aprontou sua espada, quando Tomoe, resgatada pelo seu outro parceiro, saltou na frente dele a instantes do inimigo se virar com as mãos espalmadas.
Entrando num prédio pela janela, Date bateu no chão enfurecido:
— Ficou maluca, Tomoe?! Era nossa chance!
— Ele sabia — se erguia, vendo que Nobura entrou no prédio — tentou encostar em você, está nos atraindo.
Suzaki tentou acompanhá-los, mas a disputa na rua entre as tropas havia chegado no meio deles. Flechas voaram por cima, mas um alvo em especial distraiu Zeta. Cortando pelo chão como uma toupeira, Raijin brotou na frente dos dois súditos. Protegido pela lâmina de duas pontas, tudo que Suzaki podia fazer com Nubi em suas costas foi deixar-se levar pelo golpe que rasgou a fachada do prédio até arremessá-lo no telhado.
A queda separou os dois súditos. Raijin disparou, pegando Nubi pelo braço e descendo de volta para o chão. Um Senshi abriu o telhado de dentro, arremessado por Nobura que subia para o topo.
— Alfa — gritou — Aquele cavaleiro no cânion. Ele estava nas ruas.
Raijin abriu um buraco no chão e levou Nubi para dentro aos gritos. Nobura se voltou para os Senshis que o rodeavam, respondendo:
— Digama não vai durar muito tempo debaixo da terra.
— É por isso que precisamos…
— Você não entendeu. Abaixe-se.
Um terremoto atingiu o centro da capital, o chão onde Nubi havia sido arrastada foi escancarado, criando uma cratera enorme. Os prédios ruíram ao redor, casas se destruíram, estourando as vidraças que haviam por perto. Após o estouro no centro, todos estavam de pé nas ruas esburacadas. Não havia edifício que suportasse o peso de qualquer homem sem o risco de desmoronar a qualquer momento. Oda se levantava a alguns metros do alvo, acompanhado por seu grupo.
— Você está bem? — perguntou Ryoma.
— Como se isso fosse me derrubar.
— O inimigo está recuando nas ruas. Vão precisar de ajudar para finalizar esta parte, mas — se aproximou Raijin pelos becos — Eu perdi a criança de vista depois do tremor.
— Ela é inexperiente com a força que tem — explicou Ryoma — Confia completamente nas emoções, que por si só, são instáveis.
— Ainda vai tentar pegá-los com vida ou prefere destruir a outra metade da cidade — provocou Oda — devemos matá-los se tivermos a chance.
— As ordens são para capturar o irmão mais novo do Imperador Satoru — complementou Ryoma trocando olhares com Oda.
Uma nuvem enorme cercou o brilho do sol naquela manhã, tornando a capital acinzentada. Suzaki notava a mudança de clima elevando uma das mãos para testar seus poderes:
— Não estão carregadas. Esse estouro foi a Nubi? Vai encontrá-la?
A pergunta de Suzaki passou no vazio, enquanto Nobura tinha sua cabeça inclinada para o céu.
— Eu te fiz uma pergunta.
— Gama e Beta estão com problemas — se virou bruscamente — Digama está emergindo da cratera, agora. Pegue-a, vamos reagrupar.
O rompimento dos ladrilhos na rua, trouxe à tona a areia do deserto. Antes que Suzaki e seu líder pudessem se mover, seus pés foram engolidos pela areia.
Uma aura amarela reluzente surgiu no céu substituindo a luz do objeto celeste.
— Nobura! — gritou a Matriarca.
Yasukasa sobrevoava com um bloco de areia os dois súditos, quando viu os mesmos sendo puxados por Nubi, de pé no centro da cratera. De repente uma marcha se aproximava aos súditos, circundando o trio enfurnado na cratera. Dessa vez vieram todas as forças da aliança nas ruas, junto com algumas centenas de Kishis eufóricos com a visão da sua Matriarca de volta.
— Seu avanço — ela aparecia entre Ryoma e Oda — acaba aqui.
Um portal verde surgiu bem ao lado do trio, saindo dele mais três figuras. Yasukasa fez sinal para as tropas esperarem.
— Eu não me intimido por números — respondeu o mascarado, arrastando suas correntes — Em breve eles pertencerão a mim.
— Não foi essa a conversa que me falaram lá na entrada principal — Oda apontou para trás — Agora vai, tenta lutar com todo mundo junto. Posso fazer isso o dia todo.
— Moleque — sussurrou Junichi ao pé do ouvido do mascarado — eu sugiro que…
— A negociação foi um fracasso, como tudo que você faz.
— Pensa que um mero colar vai impedir este povo de lutar? O meu povo?! — respondeu Yasukasa, apontando sua espada — o seu único erro foi ter achado que havia resolvido tudo, sem antes ter passado por cima do meu cadáver!
— Me certificarei de passar desta vez — arrostou suas correntes — Esta batalha ainda não acabou.
— Não conseguimos avanços relevantes em nenhuma das zonas atacadas. As armadilhas levaram muitos dos nossos. Os Kishis sob seu comando foram reduzidos pela metade — tocou em seu ombro — eu assumo a responsabilidade do fracasso com a princesa, em troca sugiro uma recuada por minh… quer dizer, nossa segurança.
— Sabe que se eu quiser, posso ganhar esta cidade — virou-se Nobura, fazendo Junichi dar passos para trás engolindo seco — Sua vida é o que menos importa.
— Não podemos sacrificar um terço do nosso exército, só para sobrar vocês quatro — Junichi sussurrou para Nobura — O Cônsul não ficará satisfeito sem um exército para lutar suas guerras.
— Mesmo sem Oásis, esta campanha já excedeu as expectativas. Qual o motivo de tanta comemoração? Uma cidade salva, enquanto todo o deserto até aqui está sob nosso controle? — Seth tomou a palavra para o exército inimigo — Um Rei solitário ainda pode empatar a partida. O que me diz, Matriarca? Você fica com sua cidade, nós ficamos com o deserto.
O sol penetrava pelas nuvens. Nobura hesitou ao ouvir as palavras de Seth, quando um sopro passou por eles levantando a poeira. A figura que se somou aos líderes no topo da cratera derrubou o queixo de Junichi ao chão:
— Você de novo!
— Aliás, esqueci de mencionar — dizia Seth, sorrindo cinicamente — o garoto Shiro está aqui.
Nobura subiu a cratera íngreme, parando frente a frente com Imichi. Os guardas apontaram suas lanças e espadas sem mover um músculo.
“Esse Shiro. Só pode ser o irmão que Onochi tanto falava”, percebeu Suzaki, na retaguarda.
Um silêncio se instaurou entre o encontro dos dois. Nenhum guarda reagiu. Nenhum súdito se moveu. Nem nenhuma palavra ou gesto foi trocado entre o Kuro e o Shiro que se encaravam, até que o gelo foi quebrado pela breve risada rouca de Nobura:
— Tudo que fazem apenas atrasa, o destino que nunca vai mudar — virou de costas, descendo a cratera novamente.
A breve fala do líder dos súditos foi acompanhada de uma bolha de energia verde que encobriu os seis que ali estavam. Com um estouro, eles sumiram num piscar de olhos.
Ilustradora: Joy (Instagram).
Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.
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