Volume IV – Arco 13
Capítulo 124: Um Mundo para Proteger
A bolha verde de Seth estourou do lado de fora do muro ao Sul do Oásis, trazendo consigo o general e o restante dos súditos. As tropas recuaram da batalha no portão principal e do portão oeste com pressa. Junichi tomou a frente fazendo sinal para as tropas, enquanto Nobura abaixou a cabeça.
Os Kishis possuídos por ele um a um sacaram suas espadas e abriram suas próprias gargantas. Quando todos morreram, o mascarado ergueu a vista para o muro distante. A Matriarca e seus homens estavam vigiando sua retirada. Os urros de vitória vindos da cidade podiam ser ouvidos mesmo daquela longa distância.
— Vamos na frente — Nobura disse a Junichi — Quero comunicar pessoalmente o Cônsul sobre o sucesso da expedição no deserto, mesmo que tenha sido parcial.
Perseguindo as tropas do Oeste, os Midori ameaçaram uma investida contra as tropas reagrupadas da Guarda Pacificadora, mas se detiveram ao notar que os Kishis haviam parado também. Rapidamente, até mesmo as tropas sob o comando de Dai se juntaram à celebração da vitória. A caravana que protegiam já estava fora de vista do inimigo.
Nobura sentiu inquietude vindo de Seth, que desviou o olhar da milícia verde.
— Você é o que menos esperava ver frustração com este pequeno atraso, Beta.
— Recaídas vêm com a idade, Alfa — conjurava outro portal com os punhos cerrados — Reconheço que o roteiro pede por paciência.
Os súditos e Junichi se transportavam para a outra ponta da formação. Cavalos foram designados por pares entre eles. Com algumas ordens, Junichi delegou funções aos seus homens antes de partir.
Suzaki tomava as rédeas de seu cavalo, com Mayuri logo atrás.
— Já me acostumei com o fato de você ser bem caladão, Zeta — Mayuri encostava o dedo em seu peito, apontando logo depois para seu rosto — mas essa cara, eu conheço ela de longe.
— Eu não preciso de um retalho para manter minhas tripas dentro do corpo — olhava de relance para o tronco enfaixado da súdita.
— Deixa a competição pros guardas, até porque — apontou para Nubi, na retaguarda da montaria de Seth, completamente desacordada — a gente com certeza levou a menos pior das surras.
— Então chama isso de vitória?
— Nas ruas, se você volta para casa com mais do que o que você tinha, é vitória. Isso aqui era só o bônus. A gente ainda vai voltar aqui para pegar tudo.
Suzaki olhou para o céu por um momento, depois para trás. Yasukasa agora estava acompanhada dos líderes Aka, assim como Dai e Imichi no topo da muralha.
“Diferente do Koji, estes dão as caras para luta em vez de se esconderem atrás de seus lacaios. Não importa”, refletia enquanto se virava para a muralha. “Já vi vocês sangrarem. Sei que no fundo são tão pequenos quanto aqueles que desprezam daí de cima. Eu só preciso de mais poder, e então as coisas nunca mais serão como antes”
Assim que os inimigos sumiram entre as dunas e os gritos de vitória foram ganhando volume. Os alarmes de sino anunciavam a vitória pela cidade. Na carruagem que acabara de partir, Mutaiyo suspirava aliviada, na medida em que o portão levadiço se fechara atrás dela.
— Senhora Mutaiyo, entendo que isto faça parte de um plano maior, mas nós vencemos — sugeriu o transportador — não seria melhor que a princesa ficasse?
— Kasa está nos Aka. Ela deve ficar com a família dela, de imediato — passava a mão sob o rosto da garota.
Desde a saída da Guarda Pacificadora dos arredores de Oásis, se passou pouco mais de um dia completo. A imponente capital Kiiro, lar da dinastia de mesmo nome, estava em ruínas. Sem civis para popular suas ruas e visitar suas lojas. Sem casas para abrigar ninguém, todas estavam destruídas ou queimadas pelo cerco. Até mesmo sua silhueta no horizonte havia sido perdida com a queda da torre central.
No leito de morte da sua casa, quando os escombros foram recolhidos das ruas e o Sol da manhã penetrou na abertura para o Índice, Yasukasa perambulou pelos seus corredores na companhia do Supremo e do Líder dos Principais.
— Nenhum sinal Kuro mil acres para todos os lados — dizia Ryoma — Nossos homens se revezaram em rondas sucessivas nas últimas doze horas. Sua mãe e irmã já estão a caminho de nosso território como combinado.
— Eu irei em breve — respondeu Yasukasa, jogando os escombros para o lado com ajuda das areias — Seguiram o plano com o Conselho?
— Estão na Grande Mão, conforme solicitado. Enviamos eles antes mesmo da batalha começar.
Uma parede estava escancarada no corredor. A Matriarca deu uma olhada para dentro do corredor, olhando as estruturas rachadas e as prateleiras. Nada parecia fora do lugar. Ela entrou na câmara.
— O mascarado pegou alguma coisa durante o conflito?
— Nunca passou pela cabeça dele visitar este lugar — respondeu Oda, sem entrar na câmara — Nós o trouxemos para cá. Tínhamos que reduzir o espaço e colocar pressão sobre eles. Prefere preservar alguns papéis ou salvar o seu território? Você passou todo mapa da cidade e planta deste prédio para Kusonoki. Sabíamos o que estava fazendo.
— Eu não contei tudo — puxou um dos livros da prateleira, abriu-o, puxando uma chave — E você, Senshi, não quebrou nada.
Yasukasa saiu da câmara e seguiu pelo corredor, onde estava um cofre de ferro escuro com uma fenda de mesmo formato que a chave que estava segurando. Ela enfiou e rodou a chave, destrancando todos os mecanismos na fresta. A areia manipulada fez o resto, abrindo a porta.
— O que está procurando? — perguntou Ryoma.
— Eu perdi tudo — respondeu Yasukasa, tirando um caderno pendurado na cintura — O que obtivemos foi um alívio, não uma vitória. Eles voltarão. Eu preciso estar pronta.
O que se abriu para eles foi um armário com cinco livros enfileirados, com capas de couro e lombadas com bordas douradas. O caderno na mão de Yasukasa tinha os mesmos detalhes. Ela pegou os cinco e guardou na bolsa que carregava nos ombros.
— São livros dos seus antepassados — concluiu Ryoma.
— É uma tradição seguir estes ensinamentos, principalmente quando lhe faltam respostas.
— Tradição é só um experimento que deu certo. Este inimigo precisa de ideias novas.
— Nada é tão novo, quando temos centenas de anos de história — Yasukasa fechou o cofre — Eu parto para a Grande Mão imediatamente. Levarei o prisioneiro Kuro comigo.
— Deseja alguma companhia indo para o Norte? — perguntou Ryoma.
— Meus cavaleiros virão comigo, obrigada. Quanto a esta cidade — ela suspirou — Vocês honraram sua parte do acordo, pois não temos forças para afastar o inimigo. Ela é sua.
Reunindo as areias, Yasukasa criou uma plataforma que elevou os três para o nível da superfície. Tanto Senshis quanto Kishis trabalhavam juntos para a reconstrução. Uma carruagem já esperava pela jovem Matriarca, que encontrou dentro do carro Nagajiyu amarrado. Antes de subir para o assento do condutor junto com Kotaru, ela se voltou para Ryoma e Oda.
— Tem certeza que não quer deixá-lo comigo? — provocou Oda — Eu costumo ser muito convincente com prisioneiros.
— O acesso às informações do inimigo será compartilhado entre nós, isso inclui o Conselho. E além do mais, ele ficar em Oásis é um risco. Seremos invadidos e atacados até ganharmos território.
— Juntos, enfim. Essa é a parceria Aka e Kiiro — respondeu Oda, cruzando os braços. — Acho que nós dois somos uma decepção para os nossos pais.
— Eu imaginei uma cooperação em um cenário mais pacífico — lamentou Ryoma — Reconheço que as circunstâncias não são perfeitas, mas…
— O que restou para nós da dinastia é essa aliança — interrompeu fechando a porta — Portanto, as coisas estão melhores do que já foram entre nossas nações.
— Era o que eu iria dizer — Ryoma sorriu — nos encontramos em Kagutsuchi — acenava o Supremo.
Ao norte, Yasukasa viajou acompanhada por dois de seus cavaleiros em busca de um pequeno vale no deserto. A areia dourada sob a luz do Sol escaldante, dava lugar para uma outra substância cinza esbranquiçada.
Às margens de uma pequena aldeia, o vale tinha pequenos montes da substância espalhados pela sua extensão. Os trabalhadores locais colhiam com os instrumentos ao seu dispor para levar às extremidades ou de volta para a cidade. Eram cinco rotas do centro do vale até a saída. Do alto, era possível ver que o centro e suas cinco rotas desenhavam uma enorme mão com seus cinco dedos.
Yasukasa parou um instante para analisar a mineração. As filas estavam maiores. Mais disputa pelos instrumentos. Uma outra porção fazia fila para entrar na cidade. Felizmente, isso não era problema para a Matriarca, recebida de braços abertos no instante em que mostrou seu rosto aos sentinelas.
A aldeia era tão movida pela substância quanto a mina a céu aberto por onde passou. Vendedores, revendedores, médicos e até cozinheiros. O lugar borbulhava com o fluxo de pessoas fugindo de uma guerra física para uma econômica, pela sobrevivência. A exceção era um pequeno grupo alojado em cabanas rodeadas por paliçadas e Kishis.
Descendo da carruagem, Kotaru abriu a porta. Tsuruta saiu com Nagajiyu, enquanto Yasukasa se apresentava aos Kishis. Seus cavaleiros logo encontraram um poste para amarrar o Kuro, onde ficariam de guarda até a Matriarca sair da cabana que acabara de entrar.
O Conselho fora reduzido a uma mesa redonda de madeira, papéis jogados e senhores inquietos dentro de uma cabana abafada pelo calor. Kenkushi era o único de pé, abanando-se com as folhas, andando de um lado para o outro. Mas quando viu quem entrou em seus aposentos, o ar da sala foi completamente sugado.
— M-Matriarca? — Kenkushi se curvou apressadamente — É um milagre.
— Eu presumo que Oásis esteja segura e sob nosso controle desta vez — Rael se levantou da cadeira.
— A Capital está segura, assim como minha irmã. Meus inimigos me subestimaram, e irão pagar c
— Então a dinastia vive para lutar mais um dia. É esperar muito que as baixas do cânion também tenham sido superestimadas?
— Negativo. Eu, minha irmã e Kotaru somos os únicos sobreviventes depois daqueles que chegaram à capital. Mesmo as forças que protegiam a estrada até Oásis caíram para nossos inimigos. Nosso contingente foi reduzido drasticamente e nosso território cortado pela metade. Por isso que Oásis seguirá sob ocupação Senshi.
— Isso é — Rael escrevia nas folhas — decepcionante, nunca antes estivemos tão à mercê deles. Que outra decisão tomou sem nos consultar, Matriarca?
— Nunca antes estivemos tão perto de perder nosso território, graças aos reforços isso não aconteceu — levantou a voz — Precisamos cooperar de maneira mais próxima com as lideranças da aliança, e expandi-la. É por isso que parto ainda hoje para o Reino Aka e estou transmitindo o governo de Kiiro para vocês por enquanto.
Os conselheiros trocaram olhares, suspirando aliviados simultaneamente, ao tempo que a líder continuou:
— Trago um prisioneiro inimigo. É um desertor, que traiu o exército inimigo para nos ajudar no cânion.
— E você acredita nas intenções deste homem? — Kenkushi perguntou, sentando-se à mesa.
— O exército que enfrentamos no cânion era composto por prisioneiros forçados ao combate, inimigos do regime atual — explicou Kotaru — Este prisioneiro, é um deles.
— Mande-o para as minas de natrão — um outro conselheiro sugeriu — Assim poderá nos compensar pelo abrigo e comida que teremos que fornecê-lo até que deixe de ser útil.
— Com Oásis nas mãos dos Senshis e esta transferência repentina de liderança, mesmo que interina, eu presumo um plano vindo de você, Matriarca — Kenkushi se debruçou sobre a mesa — Se não se importa, compartilhe-o conosco.
— A Grande Mão e sua aldeia serão a nova capital Kiiro. Vamos reunir nossas forças, recrutar e treinar novos homens com um único objetivo: recuperar o deserto inteiro o quanto antes.
Um silêncio se instaurou brevemente entre todos os presentes, até que Rael se levantou batendo palmas lentamente. Aos poucos, os conselheiros seguiram seu exemplo aplaudindo Yasukasa com olhares conformados com a posição da rainha.
Após a salma de palmas e a despedida de seu conselho, Yasukasa deixava a cabana sozinha enquanto seus cavaleiros lidavam com a transferência do prisioneiro. A caminho de sua partida, foi abordada rapidamente por Kishis:
— Senhorita, você tem uma visita.
— Estou de saída.
— Ela chegou horas antes da vossa alteza. Decidiu esperar seu encontro com o conselho para convidá-la para o portão externo. Disse que gostaria de conversar antes da sua partida para os Aka.
— Minha partida será em alguns minutos e eu não tenho tempo para…
De repente a visita se apresentou de trás dos homens de armadura, Yasukasa engolia suas palavras ao encarar o rosto de sua mestre Mutaiyo segurando um bebê em seu colo enquanto outra criança surgia de suas costas.
Já haviam se passado dias desde a ocupação total dos Aka em Oásis. Uma substituição de contingente estava em andamento, de modo que somente os Titulares seriam permitidos entrada e serviço na zona de guerra que o deserto havia se tornado. Portanto, era chegada a hora dos mirins retornarem.
Entre os territórios Kiiro e Aka, o deserto encontrava uma natureza exuberante, acompanhada de rios que circundam as estradas que se tornaram de terra úmida. Em uma pequena cidade de comércio, as carruagens estacionaram para descansar em uma pousada.
Era fim de tarde. O lugar contava com uma pequena recepção a céu aberto ornado por flores carmesim e uma fonte no centro, onde os mirins decidiram ficar.
— Ufa — Effei respirava fundo, desabando sobre um banco — nada como ar fresco novamente. Aquele clima estava me matando, como conseguem viver tanto tempo naquele deserto?
— É tudo uma questão de adaptação — explicou Kento, sentando-se ao lado — Tenho certeza que a umidade daqui deve ser desconfortável para eles também.
— Falando em sobreviver — Nakama mexia nas folhas de uma planta — algum de vocês entendeu toda aquela comemoração ontem?! Tem o que comemorar?
— Do que está falando? — indagou Effei — estamos indo pra casa graças a vitória na capital Oásis, sem isso nós…
— Esqueceu de, sei lá, dos primeiros três ou quatro dias? — interrompeu Nakama, se apoiando numa das colunas do prédio — o deserto é todo deles agora. Daqui a pouco é na nossa porta que eles vão bater.
— Ai que papo cansado — Emi passou pelo mirim, estapeando a sua cabeça — Tá todo mundo mal, cara, mas não dá para olhar um pouco do lado bom da coisa? A gente saiu desta! Você quer o que? Receber a medalha do mirim que mais choramingou no campo de batalha?
— Medalhas não significam nada — ergueu as mãos — frente ao meu Deus, que pela sua glória me livrou.
— Mas nem todos se livraram — uma voz veio da parte coberta pela sombra — Um pouco de respeito faz bem — dizia Masori com a cabeça apoiada numa parede.
Um gelo se instaurou entre os companheiros, logo quebrado por Effei que se levantava olhando ao redor:
— Se ninguém vai fazer a pergunta, eu faço: o que vamos dizer quando chegarmos sem eles?
— Nossos companheiros não são uma vergonha que devemos esconder — levantou a voz Usagi — Etsuko e Katsuo morreram com orgulho, servindo até o fim. É como o professor disse, daqui para frente temos que carregar a memória deles conosco. A luta deles, não será em vão!
— Falando nisso, alguém viu o professor? — percebeu Nakama, deslizando pela pilastra até cair no chão — desde que ele deu a notícia, não o vimos.
— Vamos encontrar todo mundo em breve — avisou Masori — Yukirama e todo o pessoal de Nokyokai devem estar esperando por nós.
— Espero que seja todo mundo mesmo — completou Effei levano uma mão a cabeça.
Masori inclinou seus olhos ao solo, Nakama se desarmou arrastando suas costas até sentar no chão enquanto segurava uma pulseira, enquanto Usagi se retirou de próximo de seus companheiros, onde o clima gélido era restaurado a partir da preocupação deles.
Uma caravana que contava com três veículos, dois menores em cada ponta, protegendo o maior transporte no centro, a caminho de Kagutsuchi, a capital Aka. Mais na dianteira, montados cada um em um cavalo, um Senshi e Riki compartilhavam a função de varredura, abrindo caminho.
No banco traseiro do carro central, Yasukasa folheava páginas de um livro até que o brilho alaranjado do sol se pondo invadiu as janelas. A despedida do objeto celeste chamou atenção da mulher por um breve segundo, fazendo-a tirar um pingente em formato de coração com uma estrela no centro.
Ela havia recebido isso horas antes. Na saída do acampamento onde os conselheiros fizeram sua morada. Onde havia reencontrado sua mestra, rodeada por duas crianças:
— Imaginei que iria embora sem se despedir.
— Mutaiyo, você... — reparava nas crianças — eu não sabia que…
— Não tinha como você saber — tirava o garotinho de suas costas, colocando em sua frente — Eu vim porque não queria perder a oportunidade de apresentar meus filhos — o menino aproveitou do empurrão da mãe para estender seu braço.
— Então aqui foi onde você ficou durante todos esses anos — concluiu Yasukasa.
— Isso… isso é pra você — o garotinho mostrava um pingente em formato de coração — minha mãe vive falando de você, me contou que você protege a gente como matraca.
— Matriarca — Mutaiyo corrigiu.
Yasukasa recebeu um pingente em formato de coração, com uma estrela no centro.
— Só que eu não entendi essa coisa de matra… Matriaaarca. Porque se ela protege a gente, quem é que protege ela? — o garotinho prosseguiu — Daí ela falou para eu te entregar isso e…
— Diga a verdade, Getsu — Mutaiyo puxou a orelha dele.
— Ah, tá, tá. Eu quis te entregar pro Deus sol te dar sorte. Assim você pode continuar protegendo, mamãe, papai, minha irmãzinha, o mundo todo sem se preocupar — olhou para cima como se estivesse esquecendo alguma coisa até que voltou a si — ah, e eu tamb…
— Obrigada, Getsu.
Ela repousou a mão sob o cabelo liso do menininho que se escondeu atrás da mãe. Com os braços, Mutaiyo exibiu a segunda criança, um bebê, para Yasukasa:
— E essa é Ísis.
— Ela é linda — reparou nos olhos amarelos brilhantes da neném, antes de se fecharem um choro de protesto — Talvez um pouco apegada…
— Talvez ainda tenha uma ou outra coisa para qual tenho que te treinar no futuro — sorria Mutaiyo pegando a filha de volta.
— Mestra, por que não me contou?
— Este lugar colhe natrão para embalsamar os patriarcas mortos para colocá-los naquela pirâmide medonha. Uma constante preparação para morte. Um trabalhador daqui me ajudou a enterrar meu antigo sonho.
— Você veio para cá depois que meu pai escolheu Susumo. Depois de me abandonar.
— Eu estava confusa — balançava a neném que parava de chorar — pensei que te treinar era para mostrar minha lealdade para Osíris, mas foi tudo pra saciar meu próprio orgulho. Exibir o que eu podia fazer para ele, através de você.
— E quando perdeu a seleção, me treinar parou de fazer sentido.
— Eu não consegui entender qual falta seu pai enxergava em mim — olhou para Getsu — Depois desses dois, tudo ficou mais claro. Faltava propósito, algo para proteger. Isso eu não podia te ensinar porque não entendia. Você precisava sair da minha sombra.
— Meu caminho apenas começou. Estou longe de estar pronta.
— Eu voltei porque precisava ver com meus próprios olhos, se Osíris tinha passado para você essa lição que não pude ensinar — apoiou uma das mão no ombro de Yasukasa — E eu entendo hoje porque ele partiu sem remorso. Você, Yasukasa, já tem tudo isso que precisa esperando por você nos Aka.
Naquele fim de tarde, voltando a si, a Matriarca fechava sua cortina bloqueando a luz laranja. As palavras de sua antiga professora ecoaram em sua mente:
— Você luta por amor e não por poder. Tive certeza que você me superou, quando percebi que não move um dedo sequer sem pensar naqueles que dependem de você. Isso era exatamente o que seu pai queria. Então, nunca se esqueça: Independente do que aconteceu ou venha acontecer, ele terá orgulho de você.
A rainha usou o pingente para marcar a página de sua leitura que iria retomar mais tarde.
“Foi por isso que não me deixou ir com você naquele dia”, encarou o teto por um momento. “Me enganou… me fazendo pensar que estava protegendo a todos, porque sabia que eu iria até a última instância por você.”
De repente a carruagem parou. Os cavalos foram amarrados, os Senshis desceram primeiro. Riki abriu sua porta para descê-la, quando parou para absorver a cidade que havia chegado. A rua estava cheias, comerciantes e curiosos cercaram o desembarque aos cochichos:
— Os boatos são reais. São autoridades Kiiro, nós realmente perdemos!
— Não fale alto, quer admitir fraqueza na frente de uma nação estrangeira?
— Mesmo assim, esses amarelos são uma pedra no sapato. Ouvi dizer que parte de nossos impostos estão sendo gastos com eles!
Os Senshis abriram caminho entre a multidão nas ruas, bloqueando o contato físico com a Matriarca e seu pessoal. Eles estavam perto de uma ponte, por onde passava um largo rio abaixo, até que pararam em uma das casas na beirada. A fachada era simples, poucas janelas em cima, sem sacada. No primeiro andar as janelas estavam fechadas por cortinas. Os Senshis fizeram um gesto para se retirarem, deixando apenas Riki com ela.
— Eles me pediram para te entregar isto — o cavaleiro lhe entregou a chave da casa — Posso entrar com você se quiser.
— Você é bem-vindo aqui, sempre que quiser nos ver, Riki. Mas desta vez, eu preciso encontrá-las sozinha.
Riki acenou com a cabeça e foi se juntar aos Senshis. Agora era apenas Yasukasa e a porta. Quando suspendeu suas mãos ao redor da maçaneta, uma lembrança tomou novamente sua mente:
— Quantas vezes vou precisar falar pra você bater na porta antes de entrar na sala do Patriarca? — indagou Osíris.
— Acho que eu consideraria mais se essa sala não fosse ser minha no futuro — respondeu uma Yasukasa mais nova.
— Enquanto eu for o patriarca, gostaria que pelo menos minha filha não viesse aqui para me humilhar — disse, voltando sua atenção aos papéis que tinha no colo — Já tenho gente demais para isso nos últimos dias.
A mão trêmula de Yasukasa sobre a maçaneta se fechou para bater na porta, mas o movimento atingiu o vazio. Ela se abriu pelo lado de dentro, revelando Kasa com os olhos cheios de lágrimas.
— Desculpa, mã…
Antes que pudesse concluir a frase, Yasukasa foi abraçada pela sua mãe que chorava em seu ombro.
— Eu sabia que você ainda estava por aí. Te vi chegando pela janela... só faltava você aqui.
— Onde ela está? — retribuiu o abraço, enquanto tentava olhar dentro da casa.
— Lá em cima — Kasa se recompunha — Ela não abre os olhos desde que chegou.
Subindo as escadas, elas entraram no primeiro quarto no corredor. Hoshizora estava adormecida, coberta por lençóis brancos exceto pelos braços e as mãos espalmadas em uma cama larga só para ela.
Yasukasa caminhou vagarosamente até Hoshizora, tirou do bolso o colar que a pertencia e o colocou numa das mãos de de sua irmã, fechando seus dedos.
— Ninguém vai tocá-la — Yasukasa sussurrou ao lado dela — nunca mais.
— Você vai ficar? — Kasa se colocou atrás da filha — Depois de tudo o que aconteceu, podem ver isso como humilhação…
— Nossos inimigos nos mostraram que agora não é o momento para brigas infantis — virou-se revelando as lágrimas em seu rosto — Deixem pensar o que quiserem. Vou dispor do que tenho e o que não tenho para proteger à todos.
— Filha, você…
— Eu juro, mãe — interrompeu ela com um abraço — juro que vou fazer de tudo para as coisas voltarem a ser como eram!
As duas ficaram no quarto ao pé da cama de Hoshizora por um tempo. Kasa foi a primeira a sair, quando a noite caiu. Ela caminhou para a ponte, onde podia ver as estrelas, que chamavam por um dia ensolarado posteriormente. E foi ali que ela alcançava seu falecido marido:
“Nossa menina se tornou ainda mais forte do que você esperava, querido. Mesmo que as coisas não tenham ido como esperávamos em primeiro momento... ainda estamos juntas nós três, carregando o seu legado, Osíris".
Ilustradora: Joy (Instagram).
Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.
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