Volume IV – Arco 13
Capítulo 121: Vanguarda Vermelha
Na saída da torre central, os conselheiros encontraram Oásis recheada de filas. Moradores eram agrupados em carruagens e despachados para os extremos da cidade por Senshis impacientes. Os Kishis por outro lado, vociferando para liberarem o caminho, traziam carroças cobertas por lonas, com braços e pernas penduradas para fora.
— Ordenaram evacuação? Não acabamos de deliberar sobre isso?! — gritou Kenkushi colocando as mãos na cabeça.
— Desde antes da batalha, a Matriarca desenhou este plano em caso de derrota no cânion — Ryoma tirou um papel dobrado do bolso — Os cavaleiros pessoais tinham conhecimento do plano.
— E nós não?! Aquele cara, foi ele quem batalhou contra Osíris no ataque à vila — Rael esperneou, apontando para Oda — Está confiando nosso povo, legado e história a alguém tão escandaloso?
— Como dissemos na câmara… — cruzou os braços Ryoma — Com os Kuro a caminho, sua única alternativa é confiar Oásis a nós. Temos um cronograma a seguir antes que cheguem e se desobedecerem, não haverá história Kiiro para se lembrar.
Oda apareceu do lado de fora às pressas, acompanhado por um grupo de seis pessoas. Ao notar sua presença, os conselheiros se afastaram amedrontados. Um par de carruagens largas e decoradas estacionaram a frente do terreno. Os Kishis que a conduziam, fizeram sinal para Riki e Tsuruta.
— Senhor Rael, venha conosco — Riki puxou o conselheiro gentilmente pelo braço — Temos que levá-lo ao portão norte.
— Não são os cavaleiros da Matriarca? — batia suas vestes — Deveriam estar lutando!
— E nós vamos! — respondeu Tsuruta.
— Só podemos dar o nosso máximo a partir do momento que ninguém corre mais riscos — concordou Raijin, enquanto guiava outros conselheiros para dentro — Este lugar se tornará uma zona de guerra.
Sentando no outro transporte, Riki aproveitou para dar uma boa olhada na cidade lotada:
— Então nossa derrota resultou nisso?
— Nada é tão ruim que não possa piorar, garoto — Oda dizia, se apoiando na carruagem — eu vou explicar só uma vez o plano, então prestem atenção.
Os conselheiros entraram na carruagem com seus protestos entalados na garganta. Oda prosseguiu:
— Eu botei três dos meus Principais na muralha principal para fazer o comitê de boas vindas. Preciso que vocês façam parte disso também.
— Se está falando sobre armadilhas — Kenkushi colocou a cabeça para fora da carruagem — reforçamos o lugar desde as últimas invasões. Basta ter o mapa das suas localizações. Os sentinelas saberão fornecê-lo, só duvido que vão dividir com estrangeiros…
— Então eu e Riki vamos para a entrada — Tsuruta bateu no ombro do amigo — Poupar os Senshis de qualquer atrito.
— Mas e os súditos? — comentou Riki — Eles podem simplesmente entrar sem nem passar pela entrada.
— Eu sei — riu Oda, apontou para a torre acima deles — eles vão mirar o mais bem precioso de vocês.
— Como pode ter certeza disso? — perguntou Raijin.
— Acabaram de vencer uma batalha que durou dias e dias. Mesmo conquistando boa parte do deserto, estão marchando para conquistar a capital. Conheço ganância quando vejo, vamos dar a eles o que querem.
— Entendi — Raijin olhava ao redor — estão evacuando as ruas entre a entrada e a torre para antecipar os portais. Mas para onde vão?
— Os feridos estão na muralha norte, oposto à entrada. Precisamos recuperar alguns para lutar no conflito — explicou Ryoma — Os moradores que não vão para o norte serão divididos. Uma parte vai para Midori e outra para nosso território.
— Os Midori não tem estrutura nem para eles mesmos — Rael foi quem protestou desta vez — Por que uma nação de criminosos se importaria com o nosso bem-estar?
— Espero que goste de surpresas, conselheiro — um cavalo chegou para Oda, que subiu na sela — vocês cavaleiros, venham comigo, quero saber o que vocês tem a dizer sobre a batalha e esses Súditos.
— Então esse é o plano, deixar eles invadirem e fazer de nossas ruas um campo de batalha?! — questionou Kenkushi.
— Ryoma, mande-os embora. Não quero mais olhar na cara deles — disse Oda.
Os cavaleiros de Yasukasa tomaram suas montarias, junto com os Senshis. Prontamente, todos saíram pelas ruas. Prestes a partir, os conselheiros receberam um último aviso de Ryoma.
— Como líderes interinos após o desaparecimento da Matriarca e sua princesa, o plano sugere levá-los para norte — disse Ryoma — Alocamos Kishis para a caravana. Temos um pessoal na cidade mais próxima para recebê-los também.
— Supremo, uma última coisa — Rael o chamou para perto — eu reconheço a sua competência, ouso admitir que tenho um pouco de fé em você, mas esse Oda é um inconsequente! Como pode confiar nele?
— Oda tem métodos questionáveis, mas resultados comprovados — dizia com os olhos fixos na cavalaria que partiu — Por experiência própria: não o subestime por sua arrogância.
Ao se despedirem, os conselheiros foram levados por seus Kishis rumo ao portão norte. Só pelo cheiro já era possível perceber que haviam chegado. Alguns fecharam a janela das carruagens com cortinas para evitar enxergar os feridos sendo tratados por perto.
Esse incômodo, porém, durou pouco. Em menos de uma hora, os portões abriram para eles. O restante passou madrugada coordenando a evacuação. O sol estava longe de raiar, mas as ruas entre a torre e a entrada sul pareciam uma cidade fantasma. Os ventos gélidos do deserto apagavam as lamparinas das ruas, escurecendo os bairros.
Assim que o primeiro fio de sol brotou no horizonte, sua luz tocou primeiro na torre central. Sentado de pernas cruzadas no topo, afiando sua lâmina, estava Ryoma. O cinto com a bainha e um saco de líquido estranho amarrado nela ao lado e a cidade aos seus pés. Foi quando sentiu os pelos na nuca eriçarem. Imediatamente, ele recolheu suas coisas e ficou de pé.
“Está na hora”, olhou de canto para o sino alarme no pátio abaixo dele.
No norte, um mirim emergiu de dentro de uma carruagem, coçando os olhos mal acostumados com a luz e estalando as costas. O jovem notava os roncos de seus outros companheiros antes de se encaminhar para fora do abrigo.
— Ei, Masori, já acordou? — encarou Masori, sentada nos estábulos desperta.
— Não podemos baixar a guarda depois do que aconteceu, Effei — apontou para os Kishis no portão — aqueles caras permitiram uma pequena caravana furar a fila dos refugiados. Pelas roupas, devem ser autoridades.
— E daí? Você por acaso… dormiu hoje a noite?! — espiou os feridos numa tenda por perto — Já não basta Yato estar daquele jeito.
— Isso é culpa deles! Os Kiiro começaram com isso tudo que nem o ataque à vila.
Uma mão alcançou o ombro dos dois mirins, ao se virarem notaram os olhos profundos com olheiras de Usagi:
— Nakama e Emi estão dormindo. Falem mais baixo.
— Você também? — sussurrou Effei.
— Depois do que houve, não consigo dormir — levou uma mão à cabeça — fico pensando em como o professor Tomio deve estar se sentindo.
— Não tenho visto ele desde que partimos daquela base no deserto.
— Fico pensando no que eu poderia ter feito. O professor tomou a decisão para seguirmos em frente e confiarmos que Katsuo e Etsuko sairiam daquele rio. E eu aderi a isso, mesmo não estando confiante…
— Você não foi o único, mas o comandante tomou a atitude que nos livrou dali — Effei rebateu — ninguém escapou depois de nós.
— Ninguém poderia prever — cerrou os punhos Masori — mas os Kiiro, eles…
Sinos ressoaram pelas ruas vazias. Senshis brotaram de suas tendas, Kishis mudaram o curso de seus afazeres, todos correram para o sul. O muro da entrada principal exibia arqueiros enfileirados junto com homens de armadura. Apesar da urgência, os Kishis do lado de fora não encontraram nada no horizonte.
— Achei que os sinos tocariam quando os inimigos estivessem próximos.
— O que esses Aka pensam que estão fazendo com os sinos? — Questionou um Kishi — Tocando música?
Uma risada soou de trás dos Kishis no portão. Surgindo no meio deles, um sujeito com cabelo escuro e bagunçado, mascando chiclete se aproximou:
— Vocês são hilários. Se não tem a menor ideia de quem está te ajudando, que dirá de quem está enfrentando.
— Isso é uma piada pra você?
— Ei vocês aí, cavaleiros né? Explica pros homens de vocês a situação e manda eles calarem a boca.
— Acho melhor você calar a sua, Takeda — outro sujeito de vestes longas mirou o arco na direção dele, de cima do muro — Oda foi bem claro: sem confusões.
— O caldo já entornou, Minamoto — apontou o dedo indicador com o polegar levantado para ele — se eu fosse você apontava sua amiguinha pra onde deve. Quem brinca com fogo acaba se queimando.
— Vocês dois, podem parar! — a voz da mulher reverberou sobre os muros — sem gracinhas. A situação é crítica!
Minamoto abaixou seu arco ao ver Chiyome chegando por trás dele, trazendo Riki e Tsuruta juntos.
— Devem ser os comandantes Aka que Oda citou — Riki lia uma mapa nas mãos — as armadilhas estão prontas, elas serão acionadas pela minha manipulação de calor.
— Comandantes uma ova — protestou Takeda, terminando de subir a escada para o topo da muralha.
— Somos Senshis Principais — Chiyome se apresentou — Na hierarquia, respondemos apenas ao Supremo, fora o nosso líder. Ryoma tem um sentido muito aguçado. Conheço bem ele, certamente previu a aproximação de nosso inimigo.
De repente, um tremor sacudiu as estruturas onde estavam. Os outros Kishis agora notaram a aproximação vindo do deserto em algumas centenas de metros.
— Então por isso o sino mais cedo — percebeu Tsuruta — como ele previu?
— Eu tô vendo direto? — levantou a voz Riki, segurando uma luneta — a linha de frente deles tem Kishis.
Tsuruta tomou a luneta das mãos de seu parceiro para ver.
— São poucos comparado ao exército de preto, mas algo nas auras e nos olhos deles — disse Minamoto colocando uma mão acima dos olhos — está diferente.
— Espera um pouco — Tsuruta abaixou a luneta — Como você enxerga de tão…
— Deixa a recepção comigo — interrompeu Takeda — Gosto de conhecer pessoas novas mesmo. E outra… você disse que as armadilhas precisam de calor, né? — levantou a mão brilhosa com óleo.
O Sol já estava no céu, quando toda a Guarda Pacificadora se fez visível dos muros altos de Oásis. Os homens cercaram uma duna de ponta a ponta, além de mais algumas dezenas de milhares abaixo dela, caminhando na direção do portão principal.
A linha de Kishis parou assim que o mascarado que os comandava bateu com o cabo de sua arma no chão.
— No cânion nossos homens eram escravos, aqui nem todos — se apresentou Junichi, com a mão no bolso — Deixe-me negociar primeiro.
O homem mascarado se agachou no solo, impondo a mão sobre a areia.
— Todas as fortalezas até agora foram abaixo da resistência esperada. A capital está diferente. Eles estão prontos para nós.
— Armadilhas — concluiu Seth, se virando para Junichi — Você não pode ir sozinho.
— Não me dê ordens, mestiço. Vamos providenciar um mensageiro — gesticulou Junichi para os homens ao redor — De preferência, um bem descartável.
Um dos sobreviventes do cânion foi escolhido para acompanhar Seth e Junichi. Quando cruzaram o cinturão de Kishis montado por Nobura, um escorpião rastejou para fora de sua túnica andando na direção de Oásis. O feiticeiro tapou um dos olhos, e ali ele parou com o general no meio do caminho.
Somente o mensageiro alugado prosseguiu até os enormes portões. A silhueta do muro era imponente, mais ainda com os vigias empoleirados. Foi então que abriram-se os portões.
Saindo por ele, estava Takeda, mascando sua goma:
— Espera aí, você é o que?
— Vim trazer uma mensagem do general Junichi da Guarda Pacificadora — Tomava fôlego limpando suor da testa — S-se entreguem ou então…
— Amigo, você tá com cara de que precisa de comida, não de gritar exigências — cruzava os braços — faz o seguinte, eu deixo, volta lá e pede para ele vir negociar pessoalmente.
De repente um portal verde surgiu de trás do falso mensageiro, Seth e Junichi se apresentaram diante de Takeda. O general exibiu o colar amarrado no antebraço na frente do Senshi Principal.
— Essa é a única proposta que vocês terão.
Riki cresceu os olhos com a imagem do objeto de valor. Seus braços se apoiaram nos merlões da muralha para saltar, mas foi impedido por Tsuruta.
— Deixa, ele está no controle — Chiyome tentou acalmá-lo.
— O colar… ele pertencia à princesa — Tsuruta explicava.
— Se aquele porco sem perna encostou um dedo na Hoshi eu…
Chiyome fez sinal de silêncio ao ouvir a resposta de Takeda.
— Obrigado, mas não gosto de cordões. Eles coçam o pescoço.
— Tenho certeza que a nação que protege daria tudo por isso aqui. Diga a Matriarca, ou quem quer que comande esta pocilga, que a sua princesa vai morrer da pior forma possível, se não se render imediatamente.
— Muito bem, muito bem. A capital, por um colar bonito, entendi. Então pode falar para seus amiguinhos chegarem mais perto, vou avisar aos outros que agora tudo é de vocês — fez uma bola de ar com a goma em sua boca.
— Você perdeu a noção do perigo?! — tirou sua espada da bainha — saia da minha frente!
— Pera lá, eu estou desarmado, cara — colocou as mãos pro alto — Só uma coisa. Antes de eu ir, deixe-me dar o meu presente de boas vindas.
Num piscar de olhos, Takeda ergueu o braço com os dois dedos da mão e o polegar levantados. As pontas dos dedos cuspiram um jato de fogo concentrado que tinha como destino os três homens na sua frente. Seth saltou empurrando o general para o lado, queimando os fios de seu cabelo. O tiro atingiu os dois de raspão, o cabelo de Junichi pegava fogo, ao tempo que Seth usava suas vestes para apagar.
— De onde ele tirou isso?! — se perguntou Junichi, vendo o mensageiro pulverizado.
— Essa foi por pouco — soprou seu dedo avermelhado — na real eu errei de propósito — apontou para o solo.
Uma bolha verde foi formada ao redor dos dois, assim que o disparo de Takeda estourou tudo ao redor, cobrindo a entrada com uma densa nuvem negra de fumaça.
Quando ela se dissipou, nem Takeda, muito menos o general e seu feiticeiro estavam por ali. A dupla se transportou para trás das linhas dos Kishis possuídos. Junichi era ajudado a se levantar por seus homens enquanto, Seth dava seu relato retirando sua túnica negra queimada:
— Uma distração infeliz, porém inútil. Devem haver mais armadilhas, Alfa.
— Divida as forças. Eu quero metade comigo dentro da cidade.
— Como queira.
— Isso vai ser bom — Mayuri deu um passo à frente.
— Você e Beta ficam — Nobura fez sinal para ela parar, na medida que Suzaki e Nubi se juntavam a ele — Sem apoio, Junichi não vai conseguir entrar na cidade pelo portão. Precisamos encurralá-los.
— Nossa missão aguarda, Gama — Seth estendeu a mão para a súdita.
Três portais se abriram descendo a duna onde os súditos assistiam a batalha. A primeira saltaram centenas de homens da Guarda Pacificadora. Todos aterrissaram nas ruas de Oásis, algumas ruas à frente da muralha principal, deixando-os em linha reta para a torre no coração da cidade. Seth e Mayuri foram para a terceira fenda, onde desceram ao lado de Junichi no campo de batalha externo. A segunda, por fim, levava ao pátio de entrada da torre. Nobura saltou sozinho, seguido por Suzaki e Nubi, que se entreolharam antes de acompanhar o mascarado.
A porta para a casa da dinastia estava aberta. Lá dentro não havia som algum exceto pelos passos pesados dos invasores. Para Nobura, no entanto, havia mais uma coisa no ar. Uma energia forte, no topo da torre.
Subindo as escadas, abrindo cada quarto, câmara e sala, não havia sinais de pessoas ou armadilhas. Foi então que chegaram no último andar. No topo um escritório com móveis empoeirados e uma vidraça com vista para cidade abaixo.
— As ruas estão vazias? — Nubi olhou para baixo
— Duvido que só tenham tropas inimigas nas entradas — Suzaki encarou Nobura.
— Não. Estamos exatamente onde eles nos querem — disse se virando para porta que se fechava — Estou correto?
A porta bateu na parede, fechada por dentro pelo Senshi confiado do Rei Chaul. Suzaki ameaçou avançar, mas as mãos de Ryoma na guarda de sua lâmina obrigaram Nobura segurar seu pupilo.
— É um prazer vê-lo com meus próprios olhos. As histórias que chegaram até aqui sobre você… Imagino que não queira me ouvir.
— Sei quem você é, e também sei o que irá pedir, Senshi Supremo — apontou seu dedo em sua direção — cessar este conflito não vai impedir a marcha inevitável do tempo.
Explosões acenderam os prédios na rua, iluminando parcialmente a sala com um laranja intenso. Dentro dos prédios o fogo ganhava vida, na medida em que os Senshis brotavam das vielas para enfrentar a Guarda Pacificadora.
— O que fez no cânion não foi inevitável — inclinou seu corpo em posição de ataque — mas se preciso, darei o primeiro passo nessa marcha que nos foi prometida: aquela que vai trazer a cooperação deste continente!
— Que assim seja — Nobura sacou sua foice.
No mesmo instante, Ryoma puxou sua espada. A lâmina riscou na bainha como um fósforo, tão intenso que iluminou a sala de branco. As vidraças cuspiram fogo, atirando os súditos para fora. Nubi os segurou da queda, fixando-os nas paredes externas da torre.
Apesar do golpe de Ryoma, foi Oda que surgiu, do telhado da torre, com um sorriso desdenhoso. Seis de seus Senshis Principais o acompanhavam.
— Gostou do que fiz com o lugar? — perguntou Oda, estendendo os braços e olhando em volta — Ouvi dizer que você gosta de incinerar as coisas.
— Quem é você?
A expressão no rosto do líder dos Principais mudou. Com a face séria e uma voz seca, ele ordenou:
— Tirem este lixo da minha torre.
Os Principais choveram sobre o trio invasor. Nubi arrancou pedaços do prédio para proteger os súditos.
— Sinto a presença de um grupo isolado no norte — Nobura olhou para Suzaki — Sabe o que fazer, Zeta.
Suzaki fincou sua espada no chão, impulsionando um salto, quando uma das janelas cuspiu fogo contra ele.
— Suzaki! — gritou Nubi.
O príncipe renegado caiu sobre os telhados. Pulando da janela para encontrá-lo estava Ryoma. A distração permitiu que um Principal destruísse uma das paredes com sua marreta, abrindo espaço para os outros Senshis investirem contra eles. Todos caíram aos poucos, amortecendo sua queda, até baterem no pátio.
Uma mulher e um homem de tapa olho investiram contra Nobura. Desenhando um semicírculo no ar com sua foice, ele acertou ambos com o mero impacto de defender seu ataque. Contudo, Nubi era envolvida por quatro homens. Após um grito de dor da menina, o maior deles foi acertado por um bloco de terra que o levou prédio adentro, sacudindo a torre.
Nobura deu outro corte largo afastando seus agressores, enquanto correu até Nubi, tomando sua súdita pelos braços:
— Vamos resolver isso.
Logo o corpo de Nubi ficou flácido. Cada pedaço da cerca dos estábulos na entrada, assim como as telas que formavam sua cobertura, foram desmantelados em uma tempestade de destroços que varreu os seis Principais para dentro da torre. Um rombo tomou o lugar de onde havia a porta de entrada.
Suzaki cuspia sangue sentindo sua garganta arder. O prédio balançava com o rugido da batalha abaixo tanto quanto com as chamas crepitando. Sem ao menos conseguir engolir sua saliva, observava a câmara mais alta da torre ardendo em chamas pelas mãos do oponente, lembrou-se:
“Mesmo nos Aka, tem gente capaz de incendiar uma fortaleza inteira com um único corte de espada.”
— Ryoma… Shiranui — se erguia com apoio da espada.
— Vindo de onde veio, imaginei que pudesse conhecer minha reputação.
— Eu não guardo qualquer remorso pelas vidas que tirou na Guerra do Sangue. Para falar a verdade, até finalizei o que você começou.
— Se não carrega remorso, saiba que não carrego orgulho de minhas ações.
— Que comovente. Tomara que os mortos pelo projeto de poder de seu Reino possam estar escutando isso — apontou a lâmina — será que estão orgulhosos de suas palavras?
— Ser filho do imperador não deve ter sido fácil — colocava a mão novamente na empunhadura.
— Não fale como se me conhecesse!
— Não preciso conhecer — continuou sua fala, retirando a espada — sua mera existência se tornou um símbolo que divide não só Aka e Ao — a espada acendia conforme saía da bainha — mas todo o mundo.
“Essa espada de fogo, não poderia ser de fulgur… está controlando o elemento ao redor da lâmina.”, Percebia a bainha da arma gotejando óleo.
Os raios saltaram do fulgur na espada do súdito, criando uma corrente elétrica que terminou de destruir o chão em que pisavam. O fogo consumiu o resto do prédio, crescendo para cima de Ryoma, faminto pelo líquido inflamável que carregava.
Ambos saltaram para outro edifício. As labaredas que perseguiram o rastro de óleo, se extinguiram. O calor do novo prédio tomado parecia tangenciar Ryoma, que balançou sua espada com graça, lançando uma onda flamejante com sua espada.
Sequer houve tempo para Suzaki desviar. Seu campo magnético manteve as chamas longe de sua pele. Nas suas costas o fogo se extinguia, porém o fluxo não parava. Só havia um caminho: para frente.
Ryoma viu a espada de duas pontas saltar do véu de fogo que criara, rodopiando na sua direção pelas costas. De repente, saindo das chamas como se atraído pela própria arma brotou Suzaki. Lâmina atrás, o súdito na frente, atraídos como pólos de um ímã.
Levantando sua guarda, Ryoma absorveu o impacto da lâmina, girando o corpo para desviá-la da sua direção. Em poucos segundos, seu oponente chegou, mas foi recebido com um chute no estômago. Ele logo se viu atraído pelo fulgur, indo parar em outro prédio, sendo seguido pelo Supremo de bem perto.
Sem tempo para descansar, Suzaki teve de se defender. A cada toque entre as espadas, as labaredas pulavam em seu rosto, o obrigando a mover a cabeça.
“Como ele consegue controlar um elemento tão instável com tanta perfeição? Preciso sair da defensiva, se eu continuar usando meu campo de força para me proteger, minha energia vai…”
Girando com um enorme impulso ele preparou um ataque frontal que fez Suzaki encolher-se atrás de sua espada e seu campo protetor, mas nada fez contato. Eram só chamas dançando na sua frente. De repente, rasgando o véu de fogo, um punho viajou direto até a face de Zeta, ainda distraído.
Agarrado pelo colarinho, o jovem foi arremessado para janela adentro para uma casa. Tudo pegava fogo. De todos os lugares, até o ar queimava nos pulmões de Suzaki, que na iminência do ataque, uniu as mãos.
— Já chega!
O sopro do kazedamu apagou o fogo daquele andar e iniciou o processo de demolição do edifício. Contudo, antes que pudesse fazer sua fuga, Suzaki se viu exposto e sem energia para seu campo habitual. Ryoma investiu sobre ele em meio a destruição. Os dois caíram do prédio, com o corpo do súdito amortecendo a queda do Supremo, que o chutou para longe no chão.
Suzaki erguia-se novamente, com as mãos em seu braço ensanguentado. Já não conseguia puxar o ar como antes, dando passos para trás ao tempo que Ryoma estendia sua espada novamente. O antigo Heishi celestial batia com suas costas numa parede do beco, sem saída.
“Nada que tentei funcionou e eu não posso usar as tempestades aqui. Esse cara… ele é mais forte que…”
Sua reflexão foi cortada por uma outra memória:
“E não é assim que sempre funcionou? Neste mundo quem decide são os poderosos.”
“Eu não…”, imediatamente Suzaki bateu com sua arma no chão se irradiando em uma aura elétrica. “Não posso morrer aqui!”
Ilustradora: Joy (Instagram).
Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios