Nisōiro Brasileira

Autor(a): Pedro Caetano


Volume IV – Arco 13

Capítulo 120: O Homem que Vale por Um Exército

Anos atrás, Capital Kagutsuchi.

Era uma tarde quente, o sol castigava as ruas, obstruindo a visão dos sentinelas no castelo real, lar do Rei Aka. Entre as ameias, eles viram uma caravana se aproximando, carregando as cores da Dinastia Kiiro.

Entre o grande portão que ligava o pátio à rua, havia um fosso de água escura. Parando na sua beirada, o visitante descia junto aos seus da carruagem.  da carruagem o cavaleiro da família:

Os Senshis se entreolharam, antes de dar ordens para quem estava atrás deles. Finalmente, o portão alto de madeira desceu sobre eles. O convidado que foi adiante estava coberto por uma capa de seda, ornado com sua coroa e anéis nos dedos. A guarda do Rei fazia um corredor com seus corpos, apontando o caminho para dentro do castelo. 

O corredor de Senshis continuou ainda dentro do prédio, conduzindo a visita por três lances de escada até o terraço.

Ali, Chaul sentava-se em uma mesa, uma perna sobre a outra. Sua coroa descansava em um pedestal ao alcance, e sua capa cobria o encosto da cadeira. Na mesa, o almoço estava servido. As taças de vinho estavam vazias.

— Eu teria ficado feliz em vê-lo… No ano passado, antes de toda aquela contenda nas vilas camponesas — abriu a garrafa de vidro e encheu as duas — Hoje, é um tanto insolente marcar um encontro depois de tudo o que aconteceu, Patriarca.

— Eu sei — Osiris revelava seu rosto  — assim como sei que não é do seu feitio se agarrar no passado, Rei Chaul. 

— A contragosto. Ao mesmo tempo, todos os líderes mandam intermediários até mim. Você veio pessoalmente, coberto até os dentes, trazendo somente uma dúzia de homens. Isso é vergonha? O que esconde de seu povo? 

— Por que está despido assim?

— Eu sou rei do povo Aka. Na minha casa, eu sou apenas Chaul, e estou recebendo uma visita.

— Prevejo que minha presença seja incômoda.

— Depende de você — estendeu a taça de vinho. 

Ao se sentar, ele tomou a taça de vinho e balançou o recipiente com as mãos. Chaul não deixou de notar os dedos trêmulos, mas manteve silêncio.

— Depois de tudo que cedi a vocês? Cada dia que passa, sou visto como um fraco.

— Renegociar o acordo está fora de cogitação — Chaul caiu para trás na sua cadeira — pensei ter sido claro que não haveria concessões. 

— Eu sei. Hábitos velhos de um homem velho — soltou um suspiro profundo, mudando de expressão e tirando a coroa da cabeça — Na verdade, não tem nada a ver com isso.

— O que há de errado então? — questionou, percebendo o gesto fora do comum. 

— Eu estou morrendo — depositou o ornamento na mesa e levou a mão ao peito — Meus curandeiros me deram no máximo três anos de vida, dependendo de como me cuidar. Como você bem sabe, o trabalho de um líder não é exatamente o retiro de um enfermo.

— Quando descobriu?

— Há cerca de dois anos atrás. 

— Como pôde ocultar tal informação!

— Eu não confiava em vocês o suficiente para demonstrar tal fraqueza — entornava a taça — todo esse turbilhão só resultou em uma resposta imediata da minha parte, uma demonstração de força ao mundo — limpava a boca. 

— Então o ataque à Vila da Procidência… — arregalou os olhos. 

— Sim, foi uma ação desesperada.  

— Pessoas morreram por causa disso, Osíris. Toda aquela confusão quase custou sua filha mais nova e uma guerra. Esperava isso vindo de Koji e seu império, não de você.

— De certa forma, compartilhamos os mesmos sentimentos. Você deveria ser o primeiro a me entender — sorria sarcasticamente — As pressões sociais e de meus antepassados sempre me atormentaram, mas a pressão de uma guerra… como Patriarca, nunca soube lidar com a impotência. Mas essa doença tem sido uma ótima professora. 

— A medicina Aka poderia fazer a diferença talvez. Somos os mais avançados na área, então…

— Acha que eu já não teria tentado? — conteve as risadas — bom, eu não sei se irei morrer dignamente ou não mas — se levantava —  A única certeza que tenho é que não estarei presente no próximo conflito.

— Como pode estar tão tranquilo? Espera vir até mim, dizer que vai morrer e ir embora? — repetiu o gesto — Qual é o intuito disso? 

— A minha visita não é em benefício próprio. Meus problemas serão solucionados por mim, sem envolver mais ninguém. Agora no momento que eu partir, ele passa a ser de outra pessoa — estendeu a mão — Eu vim fazer um pedido a você, não como Patriarca, mas sim como pai. 

A imagem do homem na sua frente ficou impressa permanentemente na cabeça de Chaul. De volta ao presente, ele estava sentado em seu trono, sua coroa no colo, ouvindo nada além do som da sua própria respiração naquela câmara vazia. As palavras do antigo patriarca ecoando na sua cabeça: 

Dê a Yasukasa a liberdade de ser a Matriarca que ela bem entender. Ela vai acertar, errar, duvidar de si mesma, faz parte. Mas se meus erros, principalmente esta guerra maldita, vierem aterrorizar minhas filhas e minha família, cuide de todos Chaul. Esteja lá por elas, está é minha última súplica. 

“Herdamos essa guerra por suas tolices, Osiris. Mas… no final você teve sua morte digna”, pensou Chaul lembrando-se do último aperto de mão. 

A porta de sua câmara foi escancarada de repente. Ecoando pelo piso de mármore a batida de uma bengala, ritmada com passos arrastados. Mesmo a luz do corredor e a distância do trono impedindo os olhos de Chaul de desenhar a figura do homem que entrara, o rei reconhecia aquela passada muito bem.

— Estava demorando para vocês saírem das sombras — colocou a coroa, ficando de pé.

— Estou aqui a serviço do Reino, irei aparecer sempre que vocês não forem o suficiente — dizia com uma voz rouca — o trabalho de um Senshi é passar por cima de qualquer coisa pelo povo, não importa a idade para isso. 

— O que você quer? 

Era um homem alto, pele clara, cabelos brancos e rosto enrugado, coberto por uma barba espessa de mesma cor: 

— Fiquei sabendo do fiasco no cânion

— Guarde o discurso para seus parceiros, anciãos. Ryoma, os Principais e até mesmo Imichi estão a caminho. Oásis está sob minha proteção agora.

— Precisou perder tanto para fazer o óbvio. Toleramos sua omissão em tempos de paz, porém nossa paciência é curta em tempos de guerra, Chaul — falou desdenhosamente, entre tosses — Assim que este conflito se encerrar, esperamos um representante em nossa câmara.

Na estrada para Oásis, pouco havia sobrado das vilas desérticas após a invasão dos gêmeos da liberdade, pouco mais de um ano atrás. Do cânion ao coração do deserto, salvo por fortalezas e acampamentos militares reconstruídos daquela época, o trajeto era uma verdadeira terra de ninguém. Porém eram a estrada estava com uma guarnição distribuída, prontos para impedir qualquer avanço inimigo.

Um pequeno grupo da Guarda Pacificadora liderados por Junichi, junto aos súditos, completavam um dia de viagem, saltando de portal em portal, acampamento em acampamento. A vila militar que se defrontavam agora, era a mais nova parada em sua excursão de morte. Eram dois acampamentos, enfiados entre três dunas. Aquela que dividia ambos no meio, tinha arqueiros posicionados. 

Do alto de outra duna, esta um pouco mais distante do trio onde o acampamento surgia, os súditos surgiram em contraste com o céu azul. Os arqueiros notaram sua presença de imediato, pareciam saber o que esperar. Mesmo distantes, eles percebiam os grãos da terra rastejando pelo chão. Junichi esfregava as mãos de ansiedade:

— Nossos reforços já devem estar a caminho. Seria pedir demais que chegassem neste momento? Seria um bom aquecimento.

— Eu pressenti uma morte perto das muralhas — Nobura rebatia — Talvez eles se atrasem com o inimigo que ressurgiu.

— Nem mesmo a pretensa Matriarca seria tão prepotente de desafiar um exército inteiro sozinha — complementou Seth — Ela voltou pela irmã?

— A princesa? — Junichi fez uma expressão de desprezo, balançando o colar nas suas mãos — Um desperdício de esforços, mas eles não chegarão a tempo disso aqui perder o efeito.

— Prontos? — Seth perguntou aos súditos, uma vez que a duna a frente já crescia de tamanho.

Mayuri e Suzaki concordaram com a cabeça. Dois portais abriram duna abaixo, um para cada. Saltando na direção deles, Nobura e Seth assistiram à distância seus acólitos como pontos minúsculos em um grande quadro. Suzaki, o ponto azul, surgiu no topo da onda de areia, cortando os arqueiros enfileirados, depois o que manipulava a onda de areia, que diminuiu de altura no momento que o último Kishi caiu morto sobre o acampamento abaixo dele.

O segundo ponto, Mayuri, se perdeu no primeiro acampamento. O que ficou claro depois foram as barracas, armas e baús orbitando o céu em uma tempestade de objetos com o centro em algum lugar da base militar. De repente, outra onda areia surgiu do acampamento ao lado. Suzaki brilhou em azul, mas Mayuri o interrompeu:

— Não! Deixa com eles.

Seth ouviu a voz da súdita, abrindo um portal para Suzaki e sua companheira recuar para seu lado. A onda encobriu o primeiro acampamento, seguindo ferozmente na direção do grupo para varrê-los da face do deserto. Nobura ergueu o punho cerrado e foi o bastante para uma segunda onda brotar debaixo deles, agindo como barreira para o ataque Kishi

Surgindo das costas dos líderes Kuro, centenas de cavaleiros de dinastia com suas auras e olhos escurecidos.

— Ei, ainda não acabou — Mayuri protestou — E esse tremor? Eles vão atacar de novo.

— Não é areia — Junichi abriu um largo sorriso.

— Está na hora — Seth se virou para o deserto atrás dele — de deixar as outras crianças se aquecerem.

À passos largos, os reforços da Guarda Pacificadora vinham na direção deles. Eram carruagens, cavalaria, arqueiros, algumas dezenas de milhares de homens. Alguns grupos carregavam artilharias maiores, puxada por cavalos. Com um portal, Seth trouxe a linha de frente para perto. Os Kishis remanescentes já se armavam para enfrentá-los.

— General Junichi — um dos reforços se prostrou diante dele — Respondemos o chamado na muralha. Encontramos seus homens mortos e os que habitavam o cânion estavam enterrados até o pescoço. Viemos o mais rápido que podíamos.

— E a responsável? — Nobura perguntou.

— Não encontramos ninguém. 

— Oásis está próximo — Junichi rebateu — Vamos acabar logo com isso e seguir em frente.

— Se é assim — o mascarado tomou a frente — Venham atrás de mim.

Seth sugeriu um portal, gesticulando com as mãos, mas Nobura fez sinal de espera. Ele e os guardas de Junichi avançaram a pé contra o inimigo de frente, enquanto a cavalaria vinha pelos lados. As luzes amarelas dos Kishis se apagavam a cada morte, quando não eram apenas possuídos por Nobura. Uma verdadeira infecção negra, que ao final, somou um terço das forças Kiiro às suas próprias.

Nobura arrancava sua foice de um Kishi, quando seus possuídos ergueram o acampamento de volta à superfície. Cabanas, baús e outros espólios eram rapidamente saqueados pelos homens de Junichi. 

Perambulando pelo que sobrou do campo de batalha, Suzaki se viu trocando olhares com o rosto sem vida de um Kishi semi-enterrado no chão. Um dos possuídos esbarrou nele, arrancando o corpo debaixo das areias.

— Já vai acabar, não vai? — Nubi perguntava inclinando a cabeça para baixo. 

Suzaki não respondeu, a garota segurou no braço do antigo príncipe, enquanto Mayuri parou o que fazia percebendo a distração dos seus companheiros para uma pilha de homens que formava uma espécie de uma quarta duna menor.

— Nunca acaba — respondeu Suzaki.

Bastou alguns segundos para que aquele morro de sombra acendesse em uma grande fogueira de carne e ossos. Nubi tapou os olhos, Suzaki nem moveu a cabeça para encarar a pira, quando Mayuri apareceu no meio dos dois: 

— Isso é a guerra. Melhor se acostumarem. 

Na calmaria após a batalha, Yasukasa tinha sua irmã em seus braços novamente desacordada. Nagajiyu enterrou o que restava de seu irmão, enquanto Kotaru e Mutaiyo se reuniam com as irmãs. Foi então que de repente ouviram um disparo alto a ponto de ensurdecer. Kotaru olhou ao redor e via um Kuro ensanguentado com a pistola de alarme apontada para o céu.

Hoshizora acordou em pânico, mas Yasukasa a conteve, ao passo que Kotaru disparou uma raio sólido que nocauteou de vez o guarda sob ordens de Nobura.

— Não… Isso vai atrair reforços — disse Nagajiyu, correndo para os cavalos — Temos que partir, agora! 

— Do que está falando? — Mutaiyo perguntou — estamos às portas de seu território, da sua gente. 

— Esse alarme é para chamar a verdadeira guarda pacificadora, o exército Kuro que viram era formado em sua maioria por indigentes e prisioneiros como eu! — berrou Nagajiyu. 

— Ele esteve certo até agora, não acho que está mentindo — comentou Kotaru — mas Oásis…

— Vamos sair daqui. Tomamos nossa decisão depois — voltou seus olhos a aluna — não é, Matriarca? 

Yasukasa acariciava o rosto e cabelos de sua irmã ao tempo que apenas balançou a cabeça positivamente, sem ao menos tirar os olhos da irmã. A pequena comitiva da Matriarca seguia com o que restou da montaria daqueles que raptaram a princesa. Cruzando o cânion uma última vez, eles se escondiam pelo deserto. 

Vigilantes, eles assistiram a saída das tropas da Guarda Pacificadora brotarem da fenda entre as duas encostas perto do anoitecer. Seguindo o mesmo caminho apenas horas depois, a Matriarca encontrou a primeira base da aliança arrasada.

Os muros de madeira estavam no chão. Junto a eles também estavam Kishis, embora fossem poucos. Menos ainda do que se havia designado para o local. Mutaiyo teve esperanças de que a informação da derrota tivesse chegado antes e portanto uma evacuação fora realizada. Yasukasa e Kotaru temeram pelo pior.

Seus temores se confirmaram na segunda base. Eles chegaram na pequena vila militar durante a madrugada. A fortaleza erguia-se no topo de uma duna, se espalhando por tudo abaixo. Havia torres em suas quatro pontas, além de um muro de pedra denso e intransponível. 

Os muros estavam rompidos de um lado e cobertos de areia do outro. Yasukasa surfou pela onda arenosa, encontrando o pátio desolado. Seus próprios homens mortos por lâminas muito familiares.

— Essas espadas — Yasukasa arrancou uma do peito de um Kishi — São Kishis.

— O número de homens aqui também parece menor que antes — Mutaiyo concluiu — O que você disse sobre o mascarado no acampamento, Kotaru?

— Ele tem a capacidade de possuir suas vítimas. Notou um padrão? — disse Kotaru, enchendo a mão de areia, sentindo um calor atípico para uma madrugada fria — Estão montando um exército com os nossos homens e descartando o resto.

— Nossos homens nunca tiveram chance. 

— Agora entendem? Estes são os expansionistas — Nagajiyu acrescentou — Um dia seus parceiros partiram para guardar o posto. No outro, o inimigo surge trazendo todos os seus amigos com sangue nos olhos. 

— Que poder é esse, quem é esse mascarado? — questionou Yasukasa. 

— Ele é o Alfa, ele nunca perde.

— Isso me parece um conto de fadas, qualquer pessoa tem fraquezas — Mutaiyo rebateu.

— Não ele. Nobura tem uma espécie de sexto sentido, capaz de detectar a presença do inimigo. Dizem que ele é capaz até de farejar seu medo, é assim que ele escolhe quem possuir, priorizando as determinações mais fracas. “Nobura está de olho em você”, é o dilema que assola todas as regiões do meu território. 

— Nossos Kishis são fortes — Kotaru questionou — Ele não possuiu um bando de covardes.

— Os isolacionistas diziam a mesma coisa uns dos outros, e eles terminaram da mesma forma — Nagajiyu tossiu — não fiz nada para impedir…

— Que eu saiba é só um escravo — comentou Mutaiyo — mesmo que tenha dominado todos de seu território, terá que lidar com exércitos aqui fora. 

— Eu já disse, ele é o Homem que vale por um exército, se continuarem entrando em seu caminho ele…

— Somente minha irmã podia ativar o Sol reluzente — interrompeu Yasukasa seguindo adiante — se esse "ser" consegue controlar as pessoas...

Ela seguia carregando a irmã, encontrando uma sala intocada pelo ataque de mais cedo. No interior da muralha oposta à entrada principal. Um estúdio para o chefe da fortaleza. Ali, o grupo fez a sua morada para a noite. Hoshizora foi repousada na única cama disponível. O restante se espalhou pelo chão, exceto por Yasukasa, que se apoiou numa das janelas.

— Se formos rápidos — Mutaiyo chamou por sua antiga aluna — Chegamos na capital no final do dia de amanhã. 

— A capital não será o meu destino.

— Como?

— Eu já resgatei minha irmã. Voltar a enfrentá-los, seria como devolvê-la ao inimigo.

— Não se dermos a volta por cima como planejado, você deve ser a primeira a voltar! 

— Nós já perdemos, Mutaiyo. A estrada para os Aka está um pouco mais a frente. Quando amanhecer, partirei junto com minha irmã.

Mutaiyo suspirou fundo.

— Eu sou a última pessoa que devia te falar isso, mas… Não pode dar as costas. Você é a Matriarca, as pessoas esperam por você.

— O cânion, as últimas fortalezas, foram isso que eles esperaram? — tirou do bolso o diário de Amon — o povo Kiiro merece alguém experiente e decisivo. Não uma jovem pretensiosa.

— Quando parti de Oásis pensava a mesma coisa — arregalou os olhos da aluna — Todo o meu tempo treinando você e servindo sua família, pensei que estivesse semeando minha posição como cavaleira pessoal de Osíris. 

— Foi embora porque meu pai escolheu Susumo — pegou nos ombros da professora — como pode ser tão arrogante?! Eu nunca quis acreditar que isso fosse verdade.

— Eu precisava de um tempo, mas algo aconteceu. Algo que precisava mais do que o tempo de retiro.

— Só que meu pai morreu, o tempo que tirou custou demais. Você optou por se atrasar, e agora quer cobrar de mim? Que patético.

— Eu estou exatamente onde devo estar. Osíris nunca me quis como cavaleira. Minha função era cuidar de você, porque era algo que só eu saberia fazer na hora certa. Só entendi isso depois, mas da mesma forma — Mutaiyo segurou as mãos de Yasukasa — Esse patriarca decisivo e experiente de quem fala não existe. A única opção de alguém assim aparecer é você mesma evoluir para este papel.

— Eu… Já perdi demais.

— Ainda tem a única coisa que importa: o voto de seu pai. E ele nunca vai mudar — encostou sua testa com a dela — diferente de mim ele te escolheria em todas as instâncias, então… você precisa aprender com os meus erros, não repeti-los.

Afastando de sua mestra, ela foi para a beirada da cama onde sua irmã dormia e acariciou seu cabelo:

— Está enganada. Ela é a única coisa que importa agora. Hoshi precisa estar em segurança.

— Eu não tenho direito de questionar suas opções como antes — levantou Mutaiyo, se retirando de próximo. 

— É por isso — Yasukasa a interrompeu, oferecendo uma espada  — que quero que proteja a Hoshi… enquanto luto pela minha capital. 

— Yasukasa, você… 

— No fim só estou atrasando as lutas — amarrava seu cabelo — prefiro morrer do que repetir os mesmos erros. Vamos — chamou apertando o laço. 

Mutaiyo sorria, porém mudava sua expressão quando notou os gemidos da princesa inconsciente levando as mãos involuntariamente as orelhas. 

O vento frio da noite soprava em Oásis, que recebia os derrotados da batalha do cânion. Os cavaleiros de Yasukasa e sua mãe foram rapidamente levados até a presença do Conselho onde foram cercados pelos homens da lei em seu salão oval de teto abobadado.

— Minhas filhas… não… não pode ser.

— Eu… sinto muito — Tsuruta abaixava a cabeça.

— Tudo aconteceu tão rápido — lamentou Riki.

O único conselheiro que estava de pé no centro da sala, era Kenkushi.

— Não fiquemos assim. Ainda não sabemos o que pode ter acontecido, né? 

— Chega de falsa esperança — outro conselheiro levantou a voz — a incompetência de Osíris perdurou até depois de sua morte! Se ao menos ele tivesse culhão demonstraria o poder do Sol reluzente antes. 

— Minha filhas não retornaram, Rael — Kasa levantou-se — E tudo que pensa é culpar meu marido que nem está mais conosco?

— Eu devia então trazê-la à realidade: vamos todos perecer se algo não for feito! — um segundo conselheiro bateu na mesa — O inimigo em breve estará às portas. 

— Iniciamos a evacuação dos cidadãos — Kenkushi respondeu.

— Estamos apenas adiando o inevitável — Rael cruzou os braços.

A porta da sala se abriu suavemente. Todos olharam para a entrada, de onde surgiu um homem de uniforme e colete vermelho.

— Permissão para entrar, Conselho — Ryoma percorreu a sala com os olhos, encontrando Kasa para se curvar — Senhora… 

— Então os Aka foram avisados — disse Rael.

— Minha presença é um gesto de garantia do Rei Chaul — fez um aceno para os cavaleiros, repousando as mãos sobre o ombro de Kasa — Vamos garantir a proteção de vocês e da capital do território Kiiro.

— Yasu… Hoshi, como isso pôde acontecer — voltava a chorar. 

— Não se preocupe Kasa. Pelo que conheço de suas filhas, receio que elas estão vivas.

— Que tipo de circo é este? — Kenkushi se colocou entre o Supremo e a viúva de Osíris — Supremo ou não, deveria estar impedido de adentrar neste lugar.

— Agradecemos a oferta de Chaul, porém duvido que sua oferta seja alguma novidade frente ao que já foi feito no cânion — acrescentou Rael.

— Eu avisei que seria um saco conversar com eles! — o berro ecoou do corredor, quando de repente a porta foi escancarada, revelando o líder dos principais — Quanta pompa, mas quem vai meter a cara a tapa para comandar as defesas do lugar? Alguém se voluntaria?

— Desconhecem a verdadeira força dos Aka. Gostaria de resolver isto num acordo — disse Ryoma, dando de ombros — Mas a situação não pede por discussões fúteis. 

— Essa invasão não faz parte do plano de recuperação! — apontou Kenkushi — é um golpe de estado! Façam alguma coisa, cavaleiros. 

— Sua hierarquia militar não existe mais — Oda ficou ao lado de Ryoma, se virando para os cavaleiros — A escolha é de vocês: lutar com o melhor exército deste continente ou ruminar com os velhotes.

Os três cavaleiros se entreolharam. Com o aceno positivo de Kasa, eles se juntaram ao Supremo e seu companheiro.

— Isto é um ultraje! — protestou Rael.

— Eu entro para resolver problemas. Mas tudo tem o seu preço: por enquanto, a Capital Oásis é minha. 


Ilustradora: Joy (Instagram).

Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.

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