Volume IV – Arco 13
Capítulo 119: Feridas Abertas
Era meio-dia quando a névoa amarelada se dispersou completamente do cânion. Para além de armas derretidas e armaduras queimadas, os Kuro encontraram o rio que encheram durante o primeiro dia de conflito completamente seco.
Espalhados por cada faixa do terreno através de portais abertos por Seth, os súditos vasculharam a região em busca de sobreviventes. Suzaki foi deixado no nível do rio, onde havia sobrado pouco além das silhuetas de cinzas marcadas no paredão como pinturas em uma tela de rocha, pouco a pouco erodido pelos ventos que castigavam a região. O súdito então fez sinal para suas duas companheiras logo acima:
— Nenhum sobrevivente. Dos dois lados.
— Desgraçados — Mayuri praguejava.
Suzaki subiu às pressas, encontrando a súdita encarando um buraco aberto direto na rocha, seguido por outros maiores:
— Eles sobreviveram e aproveitaram da névoa para dar no pé. Digama, avise o Alfa, rápido!
— Do jeito que os outros estão, duvido que tenham ido longe — ponderou Suzaki, passou por corpos desmembrados.
— Por isso temos que nos apressar — virou de costas — melhor nós matarmos eles do que torcer para que isso aconteça.
Na medida que Nubi levitava um pedaço de rocha que arrancou da encosta para erguê-los ao topo, Suzaki e Mayuri subiam na plataforma. Nobura estava sentado na beirada, ao lado de Junichi e Seth de pé.
— E então? — o general cruzava os braços.
— Alguns sobreviveram cavando buracos nas encostas. Só pode ter sido aquele cavaleiro.
— Mais daquele grupo com certeza sobreviveram — Nubi se encolhia nos braços.
— Então eles fugiram? — Junichi ria — Impossível terem sobrevivido àquilo.
— Kiiro são imunes aos efeitos da energia solar produzida pelo Sol Reluzente — Seth explicava — Certamente, isso foi uma estratégia para se protegerem das explosões do fulgur.
— E daí? Um punhado de Kishi tá andando por aí? — provocou o general — Não faz diferença. Vocês deixaram a Matriarca longe também, não foi? Ela é mais perigosa que essa ralé.
— Matriarca não tem a quem recorrer — Seth rebateu — Por mais que retorne a Oásis, terá que passar por nós novamente.
— A carruagem já partiu para a muralha central, levando a princesa e o aprimorado — Nobura se levantou — Quando nossos reforços chegarem, quero ter aberto caminho pelo deserto.
— Ambicioso — sorriu Junichi — Vai compensar os esforços da viagem com os números. E quando chegarem a tempo de cercar Oásis, Itoshi terá o primeiro território de seu sonho aos seus pés em alguns dias.
— Como prometido — olhou para trás, vendo o restante dos guardas em formação conduzidos por outros com os olhos tomados em preto — Não precisamos deles para combate. Eles vão servir para guiar os reforços até nós. Já é hora de partir.
Seth conjurou portais, por onde os três súditos cruzaram primeiro, depois Seth. No final, restou apenas Nobura e o general:
— Todo esse avanço, liderando um bando de desgarrados desnutridos. Parece que ainda é o garoto que torna possível o impossível — completou Junichi olhando para o colar de Hoshizora nas mãos — Mas vamos ver se consegue operar este segundo milagre.
Cruzando o portal, o grupo foi para a saída do rio seco do deserto, no sentido Kiiro. Uma quietude caiu sobre a região após três dias de conflito intenso. A brisa atingia as paredes das encostas, onde duas formações estavam coladas à estrutura como um casulo de barro. Era por dentro de duas pequenas aberturas que a luz adentrava.
Quando as lideranças Kuro partiram, as formações de areia se desprenderam das encostas, se fragmentando em uma plataforma flutuante de areia, onde sua projetora pisava.
Com a partida dela, sua acompanhante seguiu o mesmo percurso. A rainha estava acima até mesmo da fortaleza. Não havia rastros de sua irmã. Apenas a ausência de um par de carruagens. Ela surfou pela sua plataforma de areia na medida em que descia sobre os inimigos abaixo.
Quando desceu no chão, cada passo de Yasukasa espalhava sua aura pelo solo, gerando ondas que escureceram quanto mais próximos ficavam nos inimigos, os puxando para baixo da terra pelos calcanhares.
— Menina — Mutaiyo desceu logo atrás dela — eu disse para não agir sem pensar.
— E eu que não temos tempo para pensar — respondeu levando as mãos ao solo — Aquele brilho verde foram os portais de Seth. Eles se moveram.
Os guardas esquecidos por Nobura afundavam até sua cintura. Um deles foi arrastado pela areia em direção ao centro, onde Yasukasa ergueu apenas sua cabeça para fora da superfície, para que pudesse questioná-lo:
— Só vou perguntar uma única vez: onde estão as carruagens e a princesa?
O homem feito de refém não respondeu. Ele encarou Yasukasa sem expressão. A areia se infiltrou nos seus ouvidos, enquanto se aproximava dos seus olhos.
— Me fala! Ou então colocarei areia no seu cérebro!
O refém tinha sua boca preenchida de areia, os olhos espremidos entre os grãos, escorrendo sangue pelas bochechas. Mutaiyo desviou o olhar, quando reparou num sinal de luz no céu:
— Yasu, veja! Isso é…
A direção onde a professora apontava para o feixe vindo de um lugar próximo, do mesmo lado da encosta.
— Kotaru! — o grito da Matriarca reverberou.
As duas abandonaram os homens de preto, pegando dois cavalos do acampamento para irem na direção do sinal. De longe mesmo com a visão turva pelo calor, já podiam ver no topo de uma duna o cavaleiro correndo na mesma direção das duas, com Nagajiyu em suas costas.
Mesmo perto um do outro, Yasukasa não desacelerou o cavalo, obrigando Kotaru a desviar no último minuto. Antes mesmo de ameaçar levantar, uma espada estava apontada em sua direção:
— Onde é que você estava?!
— Veja o rosto dele — Mutaiyo emparelhou seu cavalo — os dois estão feridos.
— De longe pude ver a fortaleza dominada pelos Kuro. Quando vi as ondas de areia, tive a esperança de que a princesa estivesse com você — Kotaru curvou a cabeça — eu fracassei.
— Não respondeu minha pergunta — desceu do cavalo.
— Foi tudo muito rápido. Invadiram a fortaleza, Seth e aquele mascarado, Nobura — colocou a mão em seu rosto inchado — ele possuía nossos homens, enegrecendo suas auras. Eles pareciam bonecos sem vida.
— Como aqueles guardas — Mutaiyo lembrou.
— E fez o mesmo comigo. Matou meus homens e depois veio até mim. Não tive a menor chance contra ele, depois tudo ficou escuro de repente — Kotaru continuou — Eu entregaria minha vida por Hoshizora, porém este Kuro usou um portal daqueles. Quando percebi estava na outra ponta do cânion e ele quase uma década mais velho. Desde então não acorda.
— Você… Nem sabe o que fizeram com ela?! — as mãos de Yasukasa tremiam no punhal da espada.
— Aceito qualquer punição — pousava Nagajiyu na areia ao lado, se ajoelhando perante a matriarca — no entanto, deve saber que uma carruagem partiu em direção ao território inimigo. Estava vindo para essa direção.
— Não havia rastros de Hoshi na fortaleza, muito menos no cânion — Mutaiyo levava a mão ao queixo — O mascarado foi embora apenas com seus súditos.
— Você viu quem estava lá dentro?!
— Não… Passou muito rápido. Eu esperava encontrá-la aqui, viva ou...
— Levante-se, cavaleiro — gritou a Matriarca — A morte é uma saída fácil para pagar sua dívida… E a minha.
No momento que Kotaru ergueu a cabeça, no lugar da espada estava a mão estendida de Yasukasa, que concluía:
— Suba comigo. Mutaiyo, pegue o Kuro. Ele é útil aos meus olhos.
— Você mencionou a partida do inimigo — entregou Nagajiyu para o cavalo de Mutaiyo — se eles avançaram vão parar em Oásis. E os outros cavaleiros? Não vamos nem…
— Hoshizora é inegociável para mim — Yasukasa gritou, subindo no cavalo — Eu sei… Perdemos tudo. Ela ainda pode ter uma chance.
— As fortalezas no caminho tem planos em caso de derrota — Mutaiyo estalou as rédeas — As perdas humanas serão minimizadas, principalmente na capital.
— Não estou em posição de falar, mas as perdas territoriais… — Kotaru refletia — Como será esta guerra sem o deserto?
— Deixe o futuro para depois, vamos focar no agora! — respondeu Yasukasa tomando a dianteira.
Os dois cavalos partiram em alta velocidade pela encosta. O destino eram as muralhas na Depressão Kuro.
A noite caiu no deserto. Horas se passaram e a guarnição da primeira fortaleza após o cânion não encontrou um remanescente da batalha. Foi então que avistando por sua luneta, um Kishi encontrou um pequeno grupo perambulando as areias frias.
— Conselheiro Kenkushi, mais dos nossos. Agora parece um grupo bem menor. Chegarão em minutos.
— Abram os portões e preparem as mesas — ergueu suas mãos junto ao tom de voz — vamos brindar com os vitoriosos deste conflito!
Seu grito foi acompanhado de exaltação por parte dos outros Kishis. Os berros de glória alcançaram os fundos daquele acampamento, despertando os mirins que estavam em repouso. Tomio era o primeiro a surgir dos quartos, embora sua expressão não se alinhasse ao entusiasmo do restante.
— Preparem-se — disse, deixando os mirins para esperarem.
Quando os portões se abriram, Kenkushi abriu os os braços para os Kishis liderados pelos cavalheiros:
— Saudações, heróis da dinastia. É um enorme prazer ser o conselheiro que…
— Sai da frente — Riki o empurrou.
— Temos que partir, agora! — anunciou Tsuruta carregando um corpo até a mesa mais próxima.
— Ora, acabaram de chegar. Por que não celebramos?! — exigiu Kenkushi.
— Espera, onde estão o restante dos nossos? — perguntou um Senshi.
— Devem estar a caminho — o conselheiro apaziguou os ânimos — não é, cavaleiros?
Os Kishis recém chegados não responderam. O homem na mesa descobria seu rosto enfaixado com sua aura vermelha acesa, cobrindo suas queimaduras que se estendiam até seu torso. Os Senshis rapidamente reconheceram o homem.
— Comandante Yato — Tomio passava pelo aglomerado para alcançar a mesa — O que estão esperando? Ajudem-no!
Os Senshis correram ao redor da mesa para doar suas energias ao comandante.
— Procuramos durante toda nossa fuga do cânion — respondeu Tsuruta — Ele foi o único sobrevivente Aka.
— Como isso… — se espantou Kenkushi dando passos para trás — espera está me dizendo que fomos derrotados?
— Derrota seria apenas uma perda de território — Raijin recebia uma muleta dos Kishis da fortaleza — Eles massacraram tudo, até eles mesmos. Não sobrou nada.
— Muita calma nessa hora — apontou com os olhos arregalados — eu vi, eu vi a glória do sol reluzente. Seu brilho tremendo pode ser visto até mesmo daqui… como o sol na terra.
— A posição da princesa foi comprometida — socou a parede Riki — não sabemos o paradeiro nem dela e nem da Matriarca.
— Impossível — Kenkushi negava com a cabeça — Isso não pode ser verdade. Como eu vou… Como o Conselho vai receber tamanha catástrofe?
— Isso é o menos importante — respondeu Raijin — Temos um plano a seguir: Vamos retornar à capital o quanto antes.
— Ele está certo — levantou Yato, segurado pelos Senshis — o Rei Chaul precisa saber o que aconteceu. Pelo menos um grupo deve partir às pressas para transmitir a mensagem.
— Chega de papo furado e vamos agir! Temos um plano a seguir — ergueu a voz Riki — movam-se!
Da euforia à tensão, as forças aliadas se dispersaram pela fortaleza a fim de preparar a partida. Os mirins que assistiram sem ouvir o que se passava, recuaram para os cantos deixando os Senshis os atropelarem.
— Não tô gostando disso.
— Acalme-se, Effei — disse Usagi — essa correria deve ser por conta dos feridos.
— Não, tem algo a mais — cogitou Masori — Chegaram poucas pessoas. Não acha que…
— Professor Tomio — Emi se enfiou entre a debandada de Senshis — esqueceu da gente?
Alguns minutos passaram até que Tomio foi puxado por sua aluna:
— Agora não é o melhor momento. Deviam estar ajudando seus superiores.
— O que tá havendo? — Masori perguntou.
— Katsuo e Etsuko não chegaram ainda? — Nakama aumentou a voz.
— Eu… — Tomio cerrava os punhos curvando a cabeça — sinto muito. Os que acabaram de chegar foram os únicos.
— Não — se ajoelhou Effei — não pode ser.
Emi e Nakama engoliram as lágrimas. Usagi levava uma mão no rosto. Kento desceu para a altura de Effei para consolá-lo.
— Os Kiiro ativaram o Sol Reluzente em nós… sem mais nem menos? — Masori trincava os dentes.
— Tudo será explicado. No momento temos…
— O que vamos dizer para os outros na volta? — Usagi insistiu.
— Se quiserem culpar alguém, saibam que eu sou o responsável por isso — Tomio virou-se de costa — Mas neste momento, a situação é mais grave do que se pode imaginar. Carreguem os últimos momentos de Katsuo e Etsuko em suas memórias. Se não seguirmos em frente, aí sim tudo terá sido em vão.
— Como se isso adiantasse… — limpou as lágrimas Emi — aqueles dois idiotas.
— Eu sei que não adianta — os alunos percebiam os ombros trêmulos do professor — se aprontem mirins, são as ordens — concluiu com a voz vacilante.
Em menos de uma hora, a primeira caravana de Senshis partiu pela estrada que levava ao Reino Aka. Pouco depois, uma ainda maior seguiu caminho no sentido de Oásis. A fortaleza passou a noite completamente vazia.
O cânion estava no horizonte. As muralhas cresciam de tamanho, na medida em que as duas carruagens faziam suas viagens de volta à terra natal dos Kuro. Em um dos transportes, uma garota e um homem estavam deitados no chão da carroceria. Ela foi enrolada em uma lona, enquanto ele foi amarrado da cabeça aos pés por cordas e tiras de couro.
Aproximando-se dos campos de Ibu, o condutor estendeu a mão para os guardas sentados:
— Entreguem o sinalizador.
— Deixa eu ver… — um guarda vasculhava entre as pernas — Aqui. Vai disparar de tão longe?
— Eles já conseguem ouvir o som — segurava um cano de metal longo e oco, com um gatilho para as mãos — Assim chegamos na muralha com o portão aberto.
— Mas daí os reforços saem. O que vai ser da gente?
— Eu não sei. Só sei que — olhou para alguns dos guardas embarcados, com os rostos inexpressivos como robôs — Nobura nos quer andando na linha…
— Espera, olha só… A menina tá acordando.
Hoshizora balançava a cabeça com os solavancos da carruagem. Seus olhos estavam cerrados com força, na medida em que lutava para se desgarrar da lona em volta de seu corpo:
— Para… Quem é você? Sai de perto de mim…
— Segura ela — o condutor pediu.
No instante em que o guarda colocou a mão na princesa, seus olhos se abriram. Hoshizora arrancou seus braços da lona e saltou contra o homem em cima dela. Os possuídos à bordo a tiraram de cima, porém ela esperneava, gritando cada vez mais alto, até que um ameaçou usar uma faca.
— Seus imbecis — o homem atacado dizia, puxando a menina das mãos da dupla de possuídos — precisamos dela viva!
Durante a passada da refém, suas pernas acertaram a cabeça do experimento inconsciente. Ela gritava cada vez mais alto, arranhando seus captores com as unhas.
— Não dá para apagar ela de vez? — o condutor perguntou.
Rosnados cortaram a discussão dos dois. O guarda tapou sua boca para olhar o que se passava. O Aprimorado estava despertando.
— Acelera, senão vai todo mundo morrer…
Quando os olhos da fera se abriram, os outros possuídos sacaram suas espadas e o espetaram várias vezes. Contudo, o homem continuava a forçar suas cordas. O chão da carruagem já havia sido tomado pelo seu sangue, quando as amarras romperam.
O primeiro possuído foi arremessado para fora da carruagem.
— Atira essa droga de alarme — gritou o guarda, vendo o Aprimorado partir o pescoço de outro.
— A gente tem que chegar. Aguenta mais um pouco.
O homem enfurecido então pisoteou a carruagem. Foi o suficiente para tombar o transporte. Na tentativa de desviar, o condutor passou por uma pedra elevada na estrada, terminando de capotar o veículo no meio dos campos floridos.
A segunda carruagem mais a frente tinha se distanciado, mas os possuídos ameaçaram o condutor com suas espadas para voltar. Eles estacionaram nas margens do acidente, desembarcando os homens sob o comando de Nobura.
Debaixo da carruagem estava o condutor, com os olhos já sem vida. Sob os escombros, o único guarda sobrevivente esticava seus braços até a pistola de alarme, pouco além de seu alcance.
Hoshizora rastejou para fora, soluçando e chorando, com sangue em sua testa. De pé somente o homem cujas memórias pertenciam a Hirojiyu, atraído pelo pânico da refém:
— Para de chorar…
Os guardas da segunda carruagem aproveitaram a distração para atacá-lo. Um perfurou seu estômago, mas foi cabeceado para o chão. Arrancando a lâmina do abdômen, ele a usou contra os outros. Golpeando usando os dois braços em sua espada, ele rachou as duas lâminas, abrindo a guarda dele para agarrar seu pescoço e parti-lo.
— Os campos de Ibu… A escória expansionista não vai destruir este lugar!
Hoshizora permanecia completamente encolhida, abraçando as pernas, alheia ao que estava ao redor, quando a segunda carruagem voou por cima dela.
Ela engatinhou para perto do transporte destruído, desviando o olhar da carnificina que tomava parte, e se escondeu ali. Apesar disso, seus ouvidos ouviam os gritos, cortes, suspiros e rugidos da batalha. Cada um deles, aumentando a frequência com a qual o coração martelava seu peito.
De repente, a terra estremeceu, como se estivesse sendo puxada para uma direção. Virando a cabeça relutantemente, ela viu a terra abaixo das flores subir pelos pés do Aprimorado, que erguia suas canelas para pisotear a armadilha enlamaçada.
O rubro luar, penetrava entre as folhas. A princesa percebeu um feixe em especial, mudar sua trajetória, viajando como um aríete maciço e forte contra o peito do Aprimorado, o derrubando no chão. Ela escutou passos, um grupo se aproximava, o qual ela não podia ver, mas uma voz arrancou um sorriso do seu rosto:
— O que fizeram com minha irmã?!
Espiando o campo, ela viu Yasukasa acompanhada de Mutaiyo e Kotaru, além de um rapaz desmaiado na montaria de um dos cavalos. O experimento se ergueu do último golpe recebido, recuperando sua lâmina lascada do chão. Seu corpo estava com os furos e cortes causados por seus captores piscando em negro.
— Vocês de novo… — uma dor aguda na cabeça o colocou de joelhos, observando a aura amarela — Por que isso nunca acaba?
— Seu animal — Yasukasa partiu para atacar — responde a minha pergunta!
A terra abriu-se para engolir o homem mais uma vez, mas ele saltou no meio dos três. Yasukasa atacou primeiro. Com apenas um balanço de sua espada, o aprimorado a arremessou para longe, embora o contato com o fulgur da matriarca tenha lascado sua espada.
Com as mãos ele se protegeu dos feixes de Kotaru, apenas para agarrá-lo pela cabeça e batê-lo contra o chão. A terra absorveu o cavaleiro de Yasukasa, antes de brotar paredes que fecharam o inimigo em uma caixa. Kotaru surgia ao lado de Mutaiyo, que controlava a prisão.
— Temos que contê-lo, por enquanto — avisou a professora — As cicatrizes ainda brilham.
— Uma luta extensa como a última vai nos matar…
As paredes racharam com a força exercida de dentro. Yasukasa retornava para luta, subindo em cima da caixa de terra, assim que o experimento rompia suas paredes, para pular em cima dele. Sua espada, envolvida agora por terra, se tornava um chicote que se entrelaçou em seu pescoço.
O inimigo andou para trás, tentando encontrar uma das paredes da cela de terra para esmagá-la, porém Mutaiyo desfez a construção. Por isso, ele pegou a própria espada e perfurou o peito acertando Yasukasa no ombro. A Matriarca caiu no chão, segurando a ferida. Seu oponente também apoiou-se em um joelho só, sucumbindo à dor.
Kotaru então preparou uma estocada, que terminou nas mãos do aprimorado, afastando a ponta de seu peito. Os dois disputaram força, enquanto Mutaiyo atendia Yasukasa no chão:
— Olha só para você. O que estava pensando?
— Ele sabe que queremos sufocá-lo.
— Se jogarmos a terra toda deste lugar nele vencemos, nós três juntos podemos ter energia para…
— Estamos em território inimigo, ficar sem energia aqui é um risco muito grande. Hoshizora deve estar perto, então não podemos destruir tudo — Yasukasa reparou na ponta da espada brotando as costas do inimigo — Nossa melhor chance é um ataque fatal quando ele perder as forças.
— Você não vai fazer isso sozinha — Mutaiyo a impediu de se levantar — Qual é o plano?
— Sua capacidade de cura é limitada apenas ao que ele consegue absorver — olhou para as carruagens destruídas — Então se machucarmos o lugar certo…
— Eu cuido disso — Mutaiyo ficou de pé — Não se mova.
— Não pode me impedir disso. Vai, eu estou logo atrás.
Kotaru tinha sua lâmina afastada pouco a pouco. Quando o aprimorado se sentiu confortável em pressioná-lo com apenas um dos braços, ele usou o segundo para puxar a espada cravada em seu peito para atacá-lo. O contra-ataque, obrigou o cavaleiro a recuar.
— Mutaiyo, o que está fazendo? Como está a Matriarca?
— Yasukasa vai ficar bem — ela respondia, se aproximando de uma das carroças destruídas — Vamos acabar com isso.
Com sua espada, Mutaiyo arrancou uma roda e com membros de terra atirou o objeto contra o inimigo. Com sua espada, ele dividiu o objeto em duas metades de aro, as quais Yasukasa usou da terra para fincar as partes no chão, aprisionando-lhe os pés.
Kotaru então usou luz para cegá-lo. Imóvel e sem visão, tudo que pôde fazer era balançar sua espada de um lado para o outro.
A mesma luz despertou o sujeito na montaria do cavalo amarrado em uma árvore. Nagajiyu deitado em cima do animal, sentia a brisa do local o reconhecendo, ao tempo que percebia a luta acirrada ocorrendo, com o sujeito ensaguentado cercado pelas auras amarelas.
“De novo não… aqui de novo, como naquele dia…”, pensou, tentando descer do cavalo, caindo no chão com fraqueza nos pés. “Eu colocarei um ponto final nisso.”
O aprimorado cego, tentava alcançar seus inimigos que o cercavam em formação até que a Rainha se aproximou, exibindo sua arma:
— Kotaru, espere pelo meu sinal.
Yasukasa envolveu sua espada com seu iro. O impacto com a arma inimiga foi o bastante para estilhaçar o metal lascado. Forçando um de seus pés para fora, o aprimorado a empurrou, mas Mutaiyo veio perfurando suas costas apenas para ser atirada ao chão, pega pelos cabelos.
Yasukasa então alinhou sua lâmina com a de Kotaru, dando-lhe o sinal para refletir a luz da lua. Os raios permaneceram incorpóreos até finalmente ricochetearem no fulgur da Matriarca, criando uma miríade de lâminas que perfurou as costas do inimigo.
O experimento deixou o cabo da sua arma quebrada cair das mãos. Ele cambaleava, mas suas cicatrizes ainda brilhavam. Jogando seus braços no ar para atacar os Kiiro, tudo que ele acertava era o vento até finalmente cair no chão. Yasukasa andou até ele, ficando frente a frente.
— Você me deu muitos problemas — segurava seu ombro ferido — o pior de todos foi esse. Eu vou te deixar aqui como exemplo de que não podem levar tudo de mim!
— Espera — Nagajiyu rastejava até o calcanhar da matriarca — Eu faço isso.
— E por que eu deixaria?
— Você quer pôr um fim no que fizeram com a sua irmã, eu quero pôr um fim no que fizeram com meu irmão — se levantava com dificuldade — por favor, é a única coisa que restou dele.
A rainha abandonou a espada olhando para além do ombro do sujeito. O ignorando completamente, seguiu para além dele, vendo sua irmã correndo também em sua direção.
— Irmã! — as duas se abraçaram, se ajoelhando ao chão.
— Está tudo bem — beijava sua testa.
— Aquele mascarado, ele entrou… entrou na minha cabeça — agarrava os braços da irmã.
— Não pensa em mais nada — repousava seu queixo na cabeça de Hoshizora — sua irmã está aqui, você está segura agora — notava o corpo da irmã ainda frágil — descanse, por favor — seus olhos se encheram de lágrimas.
Nagajiyu notava o encontro das duas por um momento, suspirando fundo sustentava finalmente o peso do próprio corpo. Pegando a espada que estava no chão, recobrou as palavras que norteiam sua mente do jovem de capa vermelha que o derrotou:
“É mais valioso proteger uma vida com a espada do que tirar uma. Vocês escolheram usar a espada para matar essas pessoas, em vez de proteger o que seu pai deixou.”
— Q-Quem é você? — a voz do monstro em sua frente cortou sua lembrança.
— Acho que nos tornamos irreconhecíveis um para o outro, né? Não queria reencontrar você aqui nesse plano ainda, muito menos dessa forma. Olhe para nós — estendeu as mãos — sinto muito, Hiro.
— Naga… Jiyu — o brilho de suas cicatrizes se extinguiu.
— Não se preocupe, irmão — ergueu a espada — farei as coisas terminarem diferentes dessa vez.
“Como com elas”, refletiu consigo mesmo ainda escutando os choros das duas irmãs.
Perfurando o coração do homem, suas cicatrizes passaram a sangrar. Sem gritos nem muita resistência. O escravo voltava a si na medida em que o gêmeo o deitava no gramado florido para descansar.
— Obrigado irmão — inclinava a cabeça, sorrindo.
— Me espere por aqui, eu irei assim que tiver a resposta — lágrimas desceram sob seu rosto — você está livre, Ibu o aguarda.
Ilustradora: Joy (Instagram).
Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios