Nisoiro Brasileira

Autor(a): Pedro Caetano


Volume IV – Arco 12

Capítulo 103: Fazendo dar Certo

A tempestade era comprimida pelo seu maestro, cuja dor das feridas queimava seu corpo de dentro para fora. Caído no chão, seus olhos outrora esbranquiçados, retornaram à forma de sempre, assim como o céu, que clareou, revelando a luz daquele dia. Quando Suzaki não se apoiava nas árvores para caminhar, utilizou sua longa arma como bengala.

— Yanaho… Tsuki… Eu vou pegá-los — repetia para si até gritar pela floresta — Depois será você, Satoru!

Suzaki balançava sua espada no ar, porém até seus braços perderam a força. Ele caiu novamente, agora de joelhos. Seus grunhidos foram interrompidos pelo rufar de tambores e tilintar das armaduras vindos de trás dele. Uma pergunta de uma voz reconhecível pairou sobre a floresta:

— Um continente?

— Um reino! — os homens responderam em uníssono.

— Um povo? — a voz perguntou de novo.

— Um destino! — responderam.

Aparecendo da mata, estava Houkara junto a marcha da Guarda Pacificadora. Um mar de homens recheando a visão de Suzaki até não poder mais enxergar as profundezas da floresta. Emergindo entre as árvores, perto dali, era possível enxergar as catapultas arrastadas pela retaguarda. O general pisava cautelosamente, evitando os lamaçais e chutando a terra de suas botas:

— Só você? Onde está todo mundo?

— Avançaram. Os Aka perderam todos os núcleos, bateram em retirada.

— E o que você ainda faz aqui? — passou sobre o jovem ainda caído — É assim que trata esta jóia que chama de arma? Eu teria usos melhores que sujá-la com terra e sangue impuro.

Antes que o restante da guarda fizesse o mesmo com ele, Suzaki se levantou. Toda a tropa desceu a montanha até o campo de batalha arrasado pela disputa. A manhã banhava em luz os cadáveres, armas despedaçadas, queimadas e finalmente, vários metros à frente, um deslizamento de terra, onde ficava a gruta. A poeira era soprada pelo vento, quando Houkara chegou, revelando um pequeno número da linha de frente Kuro.

— General — o homem prestou continência — A área já está segura senhor! Épsilon avança para a base da montanha com as forças restantes. Ficamos para avisá-lo.

— O que aconteceu aqui? — Houkara passava pelos guardas, vendo o precipício no fundo — Um deslizamento… Como eles estão descendo com este caminho cortado? O exército inimigo liquidou nossas opções?

— Negativo — respondeu o guarda — Eles pareciam estar procurando por este lugar durante o recuada. Nossa suposição é que…

— Há vários caminhos para o pé da montanha. Este devia ser um atalho, os Aka não tinham como saber, mas algum azul sabia — afirmou Suzaki, chegando no meio deles — Chegar na base vai levar horas de descida, principalmente com todo este equipamento que você trouxe do outro lado.

— Eu espero que tenham algo para compensar todo este fiasco — Houkara se virou para os soldados.

— O que devemos fazer, senhor? — questionou o guarda.

— Deixar Épsilon se antecipar. O culto do mascarado é um bando de loucos — olhou de canto para Suzaki — Mas eles são eficazes no comando certo. Se partirmos agora, podemos encontrá-los ao cair da noite.

— Sua vontade será feita — se curvou.

— Formação! — gritou Houkara, congelando todos no lugar — Os que trazem a artilharia, encontrem um lugar fixo, com vista para a base. Não se aproximem mais do que este desfiladeiro e no máximo dez cabeças operando. O restante vai descer a montanha. Sem atrasos!

Horas depois, o Sol atingiu seu pico no céu. Entre os Senshis, eram distribuídos pães, trazidos junto com as tropas desde o primeiro dia. Os Heishis por outro lado tinham fogueiras e caldeiras improvisadas para esquentar o pouco que sobrou dos longos dias de batalha antes da chegada do reino Aka

Apesar de uma hora compartilhada entre as tropas, somente os cabeças das duas forças estavam comendo juntos. Os mirins que não estavam feridos se juntaram debaixo de algumas árvores, exceto por Tsuneo. Sua comida descansava em um espaço vago no tronco dividido com Umi. Quando a mirim sentiu sua falta, se levantou da conversa para procurá-lo.

Na entrada, uma das carruagens imperial se preparava para partir. Os Senshis deram pouca importância, mas Umi se aproximou até sentir uma presença Aka aos arredores da base. Mudando seu curso, ela encontrou Tsuneo enfiado nos arbustos ao lado do muro baixo de madeira da saída do acampamento, vidrado no veículo cujas as portas abriram para receber o escrivão que havia visto no dia anterior.

— O que pensa que está fazendo? — sussurrou Umi, o puxando por trás. 

— Sai de perto, garota — a empurrou levando a mão ao peito — pra que esse susto?

— Desde que ouviu aquela notícia do Arata você ficou assim — segurava Tsuneo para não partir — O que você viu?

— Eu só queria comer em paz. Tenho que ficar fazendo média com vocês? — se livrou das mãos da garota.

— Tá bom, eu entendi. Não vou falar nada — levava a mão queixo — Aliás, por que esses caras deram no pé?

O relincho dos cavalos seguido do disparo da carruagem cessou a conversa dos dois, que se uniram no vislumbre daquela partida precoce. Antes que pudessem continuar a discussão, a convocação de Iori se fez ouvir até mesmo por eles, que retornaram rapidamente.

O pai de Umi estava de volta com a sua armadura e fora das cabanas, embora ainda acompanhado de Uchida e Kurome. Elevando-se sobre os Senshis com um banco de madeira, ele começou: 

— Nesta tarde avançaremos pela floresta que antecede o pé da montanha. Nossas forças que passaram a noite aqui plantaram armadilhas e montaram balistas, das quais vamos tirar total proveito para realizar os objetivos que restam em nossa batalha: contenção e retirada. 

— A primeira carruagem partiu há pouco com um mensageiro, e alguns dos feridos — explicou Kurome ao lado — ele pretende mobilizar alguns Heishis para trazer mais transportes. Temos de ganhar tempo para que todos possam evacuar seguramente.

Umi atravessou Tsuneo com seu olhar, mas o mirim deu pouca atenção. 

— A floresta será ocupada por duas equipes. Uma encarregada das artilharias e barreiras. A outra com as armadilhas mais avançadas. Os encarregados de cada equipe já foram instruídos a dividi-los — apontou para dois Tsukis com papéis nas mãos e uma bolsa com vidros de seiva da noite — Sem os núcleos precisamos proteger nossos olhos de outra forma. Os Tsuki também ajudarão a detectar a chegada deles antes do problema se agravar.

Cada Senshi foi chamado pelo nome, conforme escrito na lista feita por Iori. Kurome e Uchida também foram dividir os Heishis entre os grupos. Para cada um era entregue um frasco do anestésico negro. Os times se dirigiam para extremos do acampamento para se prepararem. Umi ficou por último, quando o Tsuki não a levou para um dos dois times e sim ao encontro do seu pai.

— As coisas não vão bem, né? — comentou Umi — Você só ignora a gente assim quando tá difícil.

— Numa guerra as coisas nunca são fáceis — ajoelhou até sua altura — Como está Jin?

— Ele está melhor do que esperava — cruzou os braços, virando o rosto para procurá-lo entre a equipe separada para a artilharia.

— Eu sei — encostou no ombro da filha — Graças a você.

— E-Eu não fiz nada — respondeu Umi se afastando — Ele só encarou a realidade… Já tava na hora também.

— Se não fosse por você, ele teria desistido disso há muito tempo. Esta batalha será o primeiro passo dele para se tornar quem está destinado a ser. Pode ser o seu dia também.

— Ontem foi o último do professor Arata, pelo visto — desviou o olhar. 

— Neste trabalho, vai ter que se acostumar com as despedidas. Lembra do que eu dizia para vocês quando eram pequenos? Se as coisas não estão bem… 

— Faça ficar bem — completou Umi. 

— Boa garota — ficou de pé puxando-a para um abraço — Sua equipe vai ficar com as armadilhas. E outra, se perceber qualquer coisa suspeita na floresta, dê preferência de avisar os Senshis.

Umi acenou com a cabeça e partiu. Seu pai assistiu os times se organizarem, quando Kurome e Uchida retornaram para perto dele. Uchida sentava no banco de madeira onde Iori se ergueu, puxando ar para soprar a corneta em suas mãos.

As tropas cruzaram a saída para a floresta, deixando o acampamento apenas com os três mirins feridos e menos de uma dúzia de cada exército. 

— Vamos ver se este exército negro é tão assustador quanto fala, Iori.— Uchida guardava a corneta.

— Controle-se para não pegar a primeira carona para casa quando eles chegarem aqui — provocou o comandante. 

— O exército deles está maior que o nosso — dizia Kurome — E eles têm uma vantagem

— O traidor é um problema, mas é um só — questionou Uchida.

— Duvido que ele seja o nosso único problema — confessou Iori, pegando um galho para desenhar o formato da batalha da noite passada — Nas balistas da montanha, ninguém disparou durante toda a batalha. Não pode ter sido esse “traidor” de quem tanto falam, porque vi ele nas linhas de frente. 

— O que te faz pensar que não era um grupo fazendo isso? — sugeriu Uchida.

— Grupos chamam atenção — apontou Iori para os desenhos — Alguns dos meus homens testemunharam alucinações súbitas, confundindo os próprios companheiros com os inimigos. Alguém capaz disso, pode cobrir seus rastros. Quem quer que seja, é especial, assim como esse garoto das tempestades.

— Ninguém é como aquele moleque — respondeu Kurome — Quem se esconde assim tem motivo. Com a isca certa, podemos encontrá-lo.

— O mais importante — Iori desmanchou o desenho chutando a terra — É não sermos surpreendidos como na noite passada. Temos que antecipá-los.

As forças combinadas de azuis e vermelhos começaram a invadir a floresta. Durante as primeiras horas, a equipe da retaguarda tinha os veteranos fazendo ronda, enquanto os mirins ficaram cuidando das balistas, atrás das barreiras feitas com tronco de madeira.

— Já testaram o mecanismo? — perguntou o supervisor. 

— Umas dez vezes — retrucou Jin.

— O que disse?

— Nada. Tsuneo, cadê os disparos?

— Foi mal pela demora — Yachi se aproximava, com dois barris de óleo embaixo de cada braço — estava preparando novas armadilhas como combinado. 

Abrindo o barril, Tsuneo mergulhou alguns virotes. O próprio supervisor tomou um deles, começando a operar o mecanismo sozinho. Puxando a corda e posicionando o projétil ele apontou sua mira.

— Observe — apontou com os dedos — Alguns desses buracos têm lanças, mas quando eu disparar viram poços de fogo. É só acender a flecha, disparar e aquilo vira um inferno.

Jin olhou para os pontos marcados com sangue boquiaberto. Mesmo no escuro, eles podiam sentir aquela presença. Yachi por sua vez, via Tsuneo distante, escorado na mureta com os braços.

— Ainda pensando no professor?

— Eles estão vindo — Tsuneo comentou — Se Arata não conseguiu…

— Vamos lutar todos juntos agora, temos as armadilhas e a localização a nosso favor, graças aos Heishis

— Isso só piora as coisas — afundou a cabeça entre os braços.

— Como piora? — Jin interrompeu — Com esses caras de lua, podemos ver eles chegando de longe pelo que falaram. Duvido que algo aconteça de surpresa. 

— A balista está montada — comentou o supervisor — Os outros Senshis devem precisar de vocês. Mas voltem, quando terminarem!

Os outros dois mirins arrastaram Tsuneo junto, para checar as armadilhas. Mesmo entre os Senshis, o jovem que ouviu os avisos de Arata, olhava por cima dos ombros sempre que podia. Não havia Heishis próximos, muito menos Tsuki

— Senhor — Tsuneo questionava um Senshi — Onde estão os rastreadores?

— Eles saíram para algum lugar próximo, com alguns dos nossos. Pensando bem, já deveriam ter retornado… — o homem sinalizou aos outros Senshis para se espalharem.

Em poucos minutos, um chamado para os capitães daquele pelotão. Os Senshis correram para averiguar, encontrando Heishis cercando os buracos de armadilhas afastadas no leste. Os mirins seguiram seus superiores, porém logo foram barrados. Era possível vê-los que eles discutindo ao redor do buraco:

— Como isso aconteceu? 

— Seus homens deviam protegê-los! Vocês usaram as armadilhas para fazerem cair nelas! — apontou um Heishi pegando na empunhadura da espada. 

— Estão loucos? — respondeu um Senshi, erguendo um documento — mapeamos as armadilhas com esses mesmos Tsuki

O grupo simultaneamente encarou para o campo na frente deles, repleto de mortos em armadilhas. O capitão Senshi logo despachou os mirins de volta às barricadas. 

— Naquele buraco, tinha o que estou pensando que tinha? — perguntou Jin aos amigos.

— O que quer que estejam planejando — dizia Tsuneo — Já começou.

— Eu concordo — Yachi cruzou os braços — se fosse um Heishi caído em uma armadilha, poderia ser um acidente, mas vários?

— Droga — cerrou o punho — só espero que a gente saia dessa.

“E vocês também meninas”, concluiu Jin olhando na direção para formação do time um.

Mais a frente, a equipe encarregada das armadilhas avançadas passavam por cada uma para verificar seus estados. As mirins no qual Jin se preocupava, estavam juntas se ajudando nos preparativos quando Umi puxou Aiko para perto.

— Ei, pra que tanta força? — Aiko se afastou. 

— Tem que ficar atenta com o seu radar — apontou para um tapete de grama e galhos, marcado com um sangue já seco. 

— É tanta coisa ao mesmo tempo. Eu não achava que a luta chegaria até a gente.

— Mas chegou. Obedece aos Senshis e fica perto — pisou levemente na armadilha, sentindo o buraco logo abaixo — Essa ainda funciona. 

— Por que ela não estaria? Não foi a gente, digo os Senshis, que fizeram?

— É, mas nos pediram para olhar — espiou uma roda de conversa entre os Senshis — Acho que perceberam algo.

Trazendo Aiko consigo, Umi continuou a verificar os buracos e mecanismos pela floresta, sempre rodeando o trio de Senshis. A cada parada, ela ficava um tempo a mais para ouvir a conversa:

— Os Tsuki seguiram em frente e não voltaram ainda — ergueu os braços — Baita guias que eles foram.

— Não duvido que tenha sido de propósito — resmungou outro — aquele Heishi estragou as primeiras armadilhas para dar uma desculpa para ficarmos parados aqui, certeza. 

— Nada, eles só são incompetentes. Você não subiu na montanha, eu sim — indagou o Senshi — os caras nunca lutaram na vida. Tava na cara. 

— Um dos que tava com a gente agora a pouco nem capacete tinha.

A conversa dos Senshis era interrompida por um quarto membro que entrava no meio deles. Ele apontou uma direção e todos seguiram. Umi e Aiko vieram logo atrás.

— Tem algo errado — sussurrou Umi — Eu acho que a gente não vai se preocupar só com os Kuro agora.

— Por que a gente tá procurando encrenca, Umi? — questionava Aiko. 

— Porque se a gente ficar parada vamos ser vítimas. Eu vi nas montanhas que precisamos estar um passo à frente.

— Mas isso não faz sentido. O que os azuis ganham nos entregando pros inimigos?

— Alguém sabe…

As duas encontraram os Senshis murmurando com o Heishi sem capacete, às margens de uma cama de espinhos tecida de madeira, que agora se encontrava desmantelada. A corda havia se partido, ativando a armadilha precocemente.

— Que vontade é essa de ir na frente? Se é para ajudar nossos inimigos, veste preto que eu logo corto a sua cabeça aqui mesmo.

— Foram… apenas ordens. Os inimigos estavam vindo — respondeu o Heishi apontando para a floresta depois para a armadilha destruída — Agora eles estão mortos.

— O máximo que você matou foi a minha paciência — berrou o Senshi. 

O Heishi apenas virou de costas e correu na direção de outra armadilha. Os Senshis chamaram por ele duas vezes, antes de correrem para impedi-lo de sabotá-los outra vez. 

— Onde ele pensa que vai? — insistiu o Senshi — Ficou surdo, é?

Eles falaram e falaram, mas o homem não dava ouvidos. Umi via seus superiores moverem as mãos, bater os pés, mas a única reação do Heishi foi abaixar os braços para sua espada.

— Cuidado — gritou Umi, se revelando aos Senshis.

No último instante, o Senshi defendeu o ataque súbito do Heishi, que gritava:

— Estão nos atacando! Os Kuro já chegaram.

Os dois começaram uma luta até que alguém apareceu nas costas do Heishi, atravessando uma espada no seu peito. O salvador portava símbolos de lua. 

— Quem diria, logo um dos nossos.

— Onde você tava? — gritou o Senshi, antes de se virar para as garotas — E vocês, o que fazem aqui?!

— C-Como assim, você sabia do infiltrado? — Umi olhava para o Heishi morto no chão e depois para o Tsuki — Não é um azul?

— Recebemos relatos de alguns membros dos dois exércitos agindo estranho, se voltando contra nós desde a montanha. As ordens de Iori e Kurome foram para vigiar e agir no momento. Minha ausência era um plano para encontrar o culpado.

— É, vocês fingem que ajudam — disse o Senshi, colocando o cadáver nos ombros — E a gente finge que acredita. Só não dá outro susto desse na gente.

— Tem algo errado aqui — alertou o Tsuki — Encontrei algumas armadilhas ocupadas. Não eram com pessoas do exército inimigo.

Em meio a discussão dos adultos, Aiko viu algo se movendo pelo canto do seu olho. Era uma figura encapuzada caminhando na direção do grupo. Por um instante, seu corpo havia esquecido da sua voz, e até dos próprios movimentos. Apenas tentava puxar a manga de sua amiga, sussurrando:

— U-Umi… Eu acho que… 

Os galhos no chão quebravam com os passos pesados da figura que, prestes a puxar sua espada, teve seu rosto revelado pela luz daquela tarde. Olhos esbugalhados completamente enegrecidos, nariz protuberante e torto, pintas ao redor dos lábios, além da face contornada por costeletas e sobrancelhas grossas.

— Um monstro! — concluiu Aiko com um berro.

Não apenas Umi, como os Senshis e o Tsuki  tomaram ciência de quem se aproximava deles. Seus rostos congelaram naquela presença. A visão dos superiores escurecia, enquanto Umi apenas fechou os olhos, tomou Aiko pelo braço e começou a correr. 

O grito de Aiko despertou os Senshis, que foram até a origem, apenas para encontrarem o invasor, ficando para trás.

— Umi… o que era aquilo?! — olhava para trás.

— Primeiro corre. Depois explica! 

— Para onde você tá indo?

— A segunda equipe. Se encontrar qualquer um deles, isso pode ajudar a…

Um Senshi aparecia no caminho, colidindo com as duas mirins.

— Ei, olha por onde anda! — gritou Umi — Não ouviu? Tem um… uma coisa encapuzada atrás da…

Sem deixar que ela completasse a frase, o sujeito revelou seus olhos tomados por preto. Ele brandiu sua espada contra as meninas que logo se puseram de pé para correr. Umi dessa vez, virou para a direita. 

— O que você está fazendo? Temos que correr! — gritou Aiko.

— Assim não vai dar — disputava forças com o controlado — tenho que fazer as coisas ficarem bem!

O homem alucinado girou sua espada, acertando um tronco. Ele voltou a persegui-las até Aiko pisar em falso e desabar na grama. Umi que a arrastava pelo braço, caiu junto. Porém, o algoz que se aproximava perdeu a vista do buraco abaixo de seus pés, escondido por folhagens e galhos e desabou nele. 

— Eu sei o que tô fazendo — comentou Umi, segurando Aiko para não olhar dentro do buraco — É uma armadilha. Você não quer saber como esse cara tá agora.

— Outro possuído. Tá todo mundo contra a gente agora? 

— Eles estão alucinando — Umi reparava no céu escurecendo — A gente tem que chegar lá antes do amanhecer.

Os mesmos passos pesados foram ouvidos pelas meninas, que dispararam na direção oposta. No caminho, Umi ainda cortou uma corda amarrada entre os galhos de uma árvore menor, ativando uma armadilha que acertou apenas o vento.

Caminhando sobre os restos dela, Kimijime chutou os espinhos para o lado. 

— O que estavam olhando, hein?! Pensam que podem desdenhar de mim e fugir? — perguntou aos grunhidos — Eu vou encontrar vocês!

O grito era ouvido pelas duas que arregalaram os olhos, correndo em direção a formação mais próxima à base.

Um pouco distante da corrida das mirins, uma cova rasa foi revelada diante de Iori por um Senshi. Um corpo esquartejado, disposto sobre a armadilha destinada ao inimigo. A única forma de identificá-lo era pelas roupas, com gravuras de lua.

— Já vi o bastante, desde quando começaram a dar perda deles?

— Duas horas depois do começo da nossa incursão, comandante.

— Até agora todos foram Tsuki — Kurome agachava para ver a cova mais de perto — Suzaki sabe das nossas capacidades.

— Ele sabe da conexão sanguínea dos vermelhos, então sabe que iríamos perceber qualquer morte se fosse perto o bastante. Mesmo assim… — olhou ao redor.

— O moleque gosta de deixar um rastro por onde passa — levou a mão ao queixo — se fosse ele, já teria aparecido. Esse trabalho é discreto, talvez seja mesmo essa segunda opção que falou.

Gritos foram ouvidos na floresta. Os Senshis pressentiram a presença de dois deles. Duas garotas, correndo por suas vidas para longe de quem agora era somente um fantasma em suas lembranças.

— Um monstro! Um monstro horrível está atrás de nós — gritava Aiko, se lançando ao solo exausta.

Umi vinha logo atrás, os Senshis acolheram a mais frágil primeiro. A filha de Iori colocou as mãos nos joelhos trêmulos ofegante:

— Cadê o meu pai? Eu tenho que falar com ele.

— Por que saíram correndo do posto? — Iori as recebia.

— Todo mundo foi pego — sinalizou Umi, contendo os soluços — acho difícil que tenha sobrado alguém.

— Comandante Iori — Kurome encostou no ombro de seu companheiro — Eles estão vindo.

O barulho que antes era ouvido apenas por Kurome aumentou de volume. Vindo de onde Umi e Aiko haviam fugido, uma miríade de inimigos vestindo armaduras negras. O comandante deixou seus Senshis avançarem, enquanto levava as duas sobreviventes consigo.

O céu já estava laranja, quando Iori entregou as meninas para as barricadas. Aiko pulou por cima dos troncos às pressas, porém o comandante agarrou a sua filha.

— Como ele era? — perguntou Iori.

— Ele escondia o rosto com um capuz preto — Umi ficava em cima do muro — mas pelo pouco que vi, chamar de monstro não seria exagero. 

— A forma que me olhava, foi horrível — se encolheu Aiko.

— Mas ele estava mexendo nos homens. Eu vi os olhos deles. Estavam alucinando, vendo todo mundo como inimigos.

Antes que Iori pudesse responder, outros Senshis pulavam o muro na direção do conflito. Iori os acompanhava com os olhos por um breve momento antes de se voltar para sua filha:

— Volte para a base. Eu vou encontrar esse… “monstro” discreto para pôr um fim nisso.


Ilustradora: Joy (Instagram).

Revisado por: Matheus Zache e Pedro Caetano.



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